O lugar da voz na clínica psicanalítica

  • Elizabeth Chacur Juliboni

Resumo

Título: A voz e a clínica psicanalítica.
Autor: Jean-Michel Vivès. Rio de Janeiro: Editora Contracapa, 2012,

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz.

Erza Pound – Envoi (1919)

 

A mudança de posição do lugar da voz na clínica inaugurou a psicanálise. A promoção da escuta dos pacientes e o reconhecimento do valor de sua fala sobrepondo-se à voz do saber médico estabeleceram a prática psicanalítica como tal.  Essa inovação  pôde acontecer porque Freud ouviu e foi dócil à histérica. Ao resistir à hiponse, elas o obrigaram a escutá-las. Ele, ao se calar, fez emergir a voz tomando-a como objeto pulsional e oferecendo-lhe o campo enigmático do silêncio necessário para que o dito de suas pacientes pudesse modular um dizer.  Falar e escutar, circuito que evidencia os efeitos do dito sobre o dizer segundo um hiato em que situamos o sujeito e as bordas de seu gozo.

A voz como objeto pulsional foi conceituada por Jacques Lacan com base na lista dos objetos pulsionais estabelecida por Freud, que localizou, essencialmente, os objetos oral (o seio), anal (as fezes) e fálico (o falo).  No trabalho do psicanalista francês, a abordagem da voz tem sua origem no estudo das alucinações psicóticas que invadem e possuem o sujeito, como se vê, notadamente, no delírio paranóico.  Lacan, no entanto, rapidamente extrai o objeto voz dessa particularidade psicopatológica para incluí-lo na própria dinâmica do tornar-se sujeito. Esta démarche introduz a voz como um objeto da pulsão (invocante),  ao lado do seio (pulsão oral), das fezes (pulsão anal) e do olhar (pulsão escópica).

No campo pulsional, a pulsão invocante adquire, pouco a pouco, estatuto particular pelo fato de sua ligação estreita com o significante e a fala. Desde então, sabemos que a emergência do sujeito e a sua inscrição no grupo humano devem ser compreendidas como estando estritamente ligadas aos móbeis do concerto das vozes que o cercam. Os desenvolvimentos de Lacan sobre o objeto voz, todavia, são raros e esparsos, sobretudo se comparados às diversas lições de O Seminário, livro 11; os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964) consagradas ao olhar como objeto da pulsão escópica.

Hoje, aqueles filiados à linha de transmissão de Freud e Lacan sabem que, na experiência da clínica, dar voz ao analisando corresponde a fazê-la funcionar nas condições de um discurso, para que venha a produzir algo de novo em decorrência não do inédito do sentido, e sim da mutação do regime de gozo que o acompanha. A escuta do analista promove uma decifração do material veiculado pela voz, cuja presença é a manifestação do inconsciente em análise. O material revelado pelo inconsciente é submetido ao discurso, à interpretação, a toda a sorte de mal-entendidos, ao passo que a voz  é o que atrapalha o sentido, aturde o dito, quebra a lógica e produz uma ressonância corporal distinta daquela que se fixou para o sujeito. Em outras palavras, a interpretação como corte quebra o sentido e destaca a voz como objeto: o que resta esquecido por trás do que se ouve.

Tal pergunta sobre a voz por trás dos ditos se constitui no eixo deste livro. A pesquisa de Jean-Michel Vivès se concentra na dimensão pulsional da voz e na materialidade do som em sua modulação acústica, gestual e gráfica. Nos textos aqui reunidos, ele busca precisar os móbeis da voz na psicanálise, abordando-os tanto pela via da metapsicológica quanto à luz da psicopatologia.

Ao longo da leitura, o leitor depreende a radical ambigüidade que caracteriza a voz. Esta pacifica porque transmite a lei ao marcar as escansões na fala, mas  também subverte,  pois seduz pela ausência de sentido e é dotada do poder de  inflamar paixões. Vivès elabora suas hipóteses e conclusões transitando pela imbricação de dois lugares privilegiados. De um lado, valendo-se  de sua prática clínica, faz emergir de seu texto o comprometimento com uma ética muito particular, qual seja, acolher o que é da ordem do não-sabido e da impossibilidade de respostas prontas; de outro, estende sua pesquisa a algumas expressões da voz na cultura, como a ópera, considerando-a uma encenação de “vozes”, uma vez que o canto “tenta aproximar o que a fala não pode apreender”. Acrescente-se que sua formação de músico o favorece em suas argumentações acerca seja da  positividade, seja da negatividade do papel da voz na constituição do sujeito.

De ambos os lugares de onde o autor fala, revela-se a trilha de passagem de seus laços transferenciais: o retorno aos textos freudianos, a orientação lacaniana, o gosto pela pesquisa e pelas artes. Podendo-se tecer um texto sem destituí-lo da dimensão da satisfação libidinal em jogo em toda produção, isto é, podendo o espaço literário, expressão urdida  por Maurice Blanchot, ser abordado psicanalíticamente como um campo de gozo, vê-se quem escreve transmitir algo capaz de nos envolver.

Ao coeditar mais um livro da Coleção Janus, o Corpo Freudiano do Rio de Janeiro, Instituição Membro da Convergência, Movimento Lacaniano para a Psicanálise Freudiana, oferece novamente aos leitores a oportunidade de entrar em contato com textos que contribuem para a transmissão do discurso psicanalítico, em sua aposta de exercer o “que se diga” , a fim de que o inaudito

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Elizabeth Chacur Juliboni
Professora Adjunta da Universidade Federal Fluminense. Diretora da Seção Campos dos Goytacazes do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise.
Como Citar
Juliboni, E. C. (1). O lugar da voz na clínica psicanalítica. Revista De Psicologia, 3(2), 99-101. Recuperado de http://periodicos.ufc.br/psicologiaufc/article/view/128
Seção
Resenha