O ato classificatório e modelos de nomeação de "transtornos mentais": uma abordagem socioantropológica

Antonio Cristian Saraiva Paiva, Selma Gomes da Silva

Resumo


Este artigo objetiva discutir o ato classificatório dos ditos transtornos mentais, a partir da abordagem de teóricos situados na perspectiva social-estruturalista, na Antropologia e na Sociologia da Saúde, no sentido de compreender como são utilizados os manuais nosológicos atuais como formas de configurações clínicas das doenças psíquicas. A problemática compõe as seguintes questões norteadoras: Como explicar o ato de classificar? De onde vem essa prática humana? É comum a todas as culturas?  Faz parte de uma lógica apriorística da mente humana ou é uma habilidade baseada na realidade empírica e social? O que revela dos mecanismos de distinção e de distribuição de poder num grupo? Para responder a essas questões foi realizada uma pesquisa de abordagem qualitativa-descritiva, com uso de pesquisa bibliográfica, consulta documental, observação sistemática e uso de entrevistas com escuta de narrativas de docentes de ensino básico no Estado do Amapá, com experiências de sofrimento e adoecimento psíquico. Foram consultados 822 prontuários clínicos e entrevistados, além de docentes, técnicos da equipe multidisciplinar e gestores escolares. Com base em discussões teóricas e em dados construídos, entendemos que a tendência classificatória, em saúde mental, pode ser útil como instrumental técnico-cientifico para facilitar o processo de tratamento, porém se realizado com muito cuidado e parcimônia, caso contrário, poderá fornecer bases para a estigmatização social de pessoas.


Palavras-chave


Transtornos mentais. Modelos classificatórios. Nomeação diagnóstica.

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