Roteiro de viagem ao país de Lacan

Laéria Fontenele

Resumo


Grande leitor e crítico da cultura de seu tempo e um dos nomes de maior destaque da psicanálise contemporânea, Slavoj Žižek desfaz a fábula segundo a qual ler Lacan é um trabalho árduo e difícil que seria apenas privilégio dos especialistas em psicanálise e, com isso, brinda o seu leitor com um envolvente passeio pelo país de Lacan. De origem eslovena, e quase eleito presidente de seu país, Slavoj Žižek é autor de diversos livros - dentre os quais os instigantes ensaios “Hegel, o mais sublime dos histéricos” e “Eles não sabem o que dizem” -, a maioria publicada em por volta de trinta idiomas. É ele reconhecido como sendo um profundo conhecedor de Hegel e Karl Marx; apaixonado leitor de Sigmund Freud e de Jacques Lacan; crítico contundente das ideologias totalitárias, espírito cultivado por sua filia às múltiplas artes – sendo, inclusive, especialista na cinematografia de Alfred Hitchcock. Os traços de sua erudição e sensibilidade para com as artes, se refletem e particularizam, também, o seu estilo de escrever, o qual se encontra muito bem representado no modo como urdiu esse seu novo livro. “Como ler Lacan” nos ensina a adotar um método especial para orientar em uma tal empreitada. Žižek advoga que, para lermos Lacan, devemos aplicar o mesmo método empregado pela psicanálise para ler e interpretar o texto que resulta do trabalho inconsciente. Mas há uma condição para esse emprego: abandonar o vício de querer entender, pois, assim como o inconsciente, Lacan não deve ser compreendido e sim lido, pois, conforme ele mesmo já nos advertira, o pior destino a que podemos ser conduzidos é o destino que nos leva à compreensão. Só assim será fácil ler Lacan, mais do que, amiúde, se imagina. Muitas introduções ao seu ensino foram publicadas, algumas delas marcadas por rigor conceitual, outras resultaram em versões grosseiras de sua letra. Sem desmerecer as boas introduções a Lacan existentes, a versão de Žižek, além de sua original edificação estilística e criativa, distingue-se das demais por propor que o leitor possa ler Lacan se fazendo valer do próprio método por ele utilizado quando de sua leitura da obra freudiana, ocasião em que propõe o retorno à verdade de sua letra: o inconsciente pensa e fala. Nele reside não uma verdade profunda, mas uma verdade insuportável e com que cada sujeito deveria aprender a viver. Um dos argumentos do livro é o de que em seu retorno à Freud, Lacan, buscou acompanhar-se de outros autores não integrantes do campo psicanalítico, dentre eles estavam: Saussure, Levi-Strauss, Jakobson, Edgar Allan Poe, Cantor, Platão, Kant, Hegel, Heidegger, Karl Marx. O mesmo é proposto pelo autor ao seu leitor, levando-o através da leitura com Lacan de autores e obras artísticas, bem como eventos de nossa cultura, a iluminar conceitos antes tidos como obscuros. Cada capítulo do livro foi construído no sentido de confrontar um conceito lacaniano com um fragmento proveniente da literatura, do cinema, de produções da mídia, da política, dentre outros, mostrando que os conceitos psicanalíticos, assim como sua dimensão clínica, estão disseminados nos diversos domínios de que é feita nossa vida. Assim, por exemplo, os conceitos de “ideal do eu” e “supereu” são transmitidos na medida em que Lacan torna-se espectador do filme “Casablanca”. O conceito de real, por sua vez, emerge da posição de Lacan como espectador de Alien. Zizek faz, também, com que Lacan  assista até mesmo novela mexicana para mencionar suas teses. É exemplar o trecho em que procura informar o leitor das teses Lacanianas acerca da dissimetria que existe, devida à incidência subjetiva da diferença sexual, no encontro amoroso entre homem e mulher. Refere-se, então, a uma peça publicitária de cerveja – veiculada pela TV britânica -, onde uma bela moça passeia ao longo da margem de um rio e depara um sapo, ao que o beija afetuosamente, transformando-o, por esse ato, num príncipe. Esse por sua vez, lança um olhar ávido de desejo para a moça, puxando-lhe para si e a beija com ardor, com isso transforma-a numa apetitosa lata de cerveja. Nada mais coerente com as formulas quânticas da sexuação de Lacan que mostra a impossível complementação entre homem e mulher, pois ela espera do homem sua substância fálica, enquanto ele espera que a mulher seja causa de seu desejo. Um último exemplo, dos muitos presentes no livro: A carta endereçada a Max Brod por Milena Jesenska, na qual fala de Kafka, serve ao propósito de elucidar a tese de Lacan, segundo a qual a verdadeira fórmula do materialismo não é a de que “Deus não existe”, e sim a de que “Deus está morto”. “Como ler Lacan” testemunha a vitalidade da psicanálise, apesar do imperativo das ilusões tão em voga em nossa cultura, marcada que se encontra pelos ideais de felicidade; da juventude eterna; da saúde perfeita, do bem estar;do sucesso; da adaptação e afirmação do poder de síntese e domínio de si do eu. Alice adorou e recordou a lição que teve quando atravessou o espelho: saber fazer do horrível uma maravilha. Unheimlich.

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