O delírio segundo Freud e Jung: aportes recíprocos e distinções

Carlos Augusto Pereira Viana

Resumo


Seria leviano desconsiderar que o debate travado entre Freud e Jung agregou valor à trajetória científica de ambos, mesmo em considerando a ruptura que definiria destinos diferentes para suas respectivas teorias. Os encontros e desencontros entre eles é analisado, com rigor e engenho crítico, por Felipe Jesuíno. Sigmund Freud, ao descobrir a realidade do inconsciente de seus pacientes, foi levado, também, a interessar-se por seu próprio inconsciente; dessa empreitada, surgiu a obra fundadora da psicanálise: A interpretação dos Sonhos. Esta, por sua vez, fundaria tanto uma nova teoria acerca da alma humana, como também um novo método de tratamento das neuroses, a Psicanálise - baseada na associação livre e na atenção flutuante, rompendo, assim, em definitivo, com as técnicas da psicoterapia alicerçada nos métodos sugestivos, sobretudo o hipnótico. Mesmo diante das grandes resistências ou da indiferença do meio científico a essa nova contribuição, não tardou que alguns eminentes estudiosos se acercassem de Freud, tal o interesse em torno dos ainda enigmáticos processos inconscientes. Tal foi o caso de Jung, que veio se juntar a Freud nos primórdios da criação do movimento psicanalítico, sendo acolhido por este com grande entusiasmo e com a esperança de que aquele seria de fundamental importância para que se fizesse a distinção entre a Psicanálise e o Judaísmo, pois Jung não era Judeu, ao contrário de muitos outros dos seus primeiros colaboradores. A partir de então, muitos foram os encontros, os estudos, a profícua correspondência ocorrido entre ambos, culminando inclusive com a viagem histórica que Jung acompanharia Freud aos Estados Unidos da América, onde este anunciou que viera trazer à peste à comunidade acadêmica americana, termo pelo que designou à sua descoberta. Um dos grandes temas de maior colaboração entre ambos foi o das psicoses, na época chamadas por Freud de neuroses narcísicas, dado ver nelas a ocorrência do retraimento da libido ao eu e o consequente abandono do mundo exterior. Ao contrário de Freud que tinha grande experiência para com o tratamento das neuroses, tanto Jung como Sandor Ferenczi tinham uma clínica com pacientes afetados por esquizofrenia e por paranoia e realizavam uma discussão constante desses caso com Freud, pelos quais mostrava um grande interesse. Freud, por sua vez, ao escrever o caso Schreber, baseado na biografia do mesmo, avança no entendimento da paranoia, a partir de meticulosa análise do desencadeamento e organização do delírio de Schreber, chegando a traçar sua gramática. Contribuição até hoje considerada fundamental para a clínica para com a psicose paranoica. Fruto de sua pesquisa de mestrado em psicologia na UFC, sob a orientação do Professor Ricardo Barrocas, esse livro testemunha o empenho em realizar uma análise com fundamentos epistemológicos e dados de relevância clínica acerca das contribuições recíprocas desses dois pensadores, situando-as tanto no contexto da história do pensamento psicopatológico, quanto no que diz respeito ao desenvolvimento de dois sistemas de pensamento, pensando-os em relação ao desenvolvimento de um mesmo conceito. Disso resulta uma análise cuja marca é o senso ético e o respeito que o autor dedica em seu trabalho de investigação aos dois pensadores, o que não costuma ser comum, uma vez que essa discussão é, amiúde, marcada por uma supervalorização da posição de um dos lados sobre o outro. E tal não ocorre, no contexto desse trabalho, uma vez que ele se fundamenta por sobre dados analíticos cuidadosamente tratados e que nos fazem avançar em relação a um entendimento mais efetivo e sistemático dos principais eixos conceituais e metodológicos que geraram a ruptura entre os dois colaboradores, mas também do que desses eixos cada um deles anexou do outro ao seu sistema de pensamento. O que justifica, inclusive, o fato de ambos, mesmo depois da ruptura, manifestarem o respeito pelo trabalho um do outro. O tratamento dessa problemática, além de contribuir na direção já apontada de tomá-la com o devido rigor e justiça científica, fornece com certeza importantes aportes para futuros estudos sobre a problemática em questão. Conforme atesta Ricardo Barrocas, que realizou a apresentação do livro, trata-se de “um texto muito profícuo para a disciplina de psicopatologia”, uma vez que fornece o tratamento do assunto em conformidade com “o fieri teórico de Freud e Jung respectivamente”. Com certeza, o livro vem preencher uma lacuna acerca dessas diferenças de perspectivas acerca da concepção do delírio paranoico, de sua constituição e do lugar que ocupa no processo de reconstrução do mundo do sujeito paranoico. Tal leva também à reflexão sobre de que modo tais posições leva à adoção de posições clínicas também diversas diante do tratamento desse tipo de paciente.

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