A escrita de mulheres como espaço de elaboração de traumas coletivos

uma análise das obras Baratas de Scholastique Mukasonga e Meio Sol Amarelo de Chimamanda Ngozi Adichie

Palavras-chave: Guerra, Genocídio, Repetição, Escrita, Elaboração

Resumo

O presente artigo se propõe a analisar a escrita literária das obras Meio Sol Amarelo (2008) de Chimamanda Ngozi Adichie e Baratas (2018) de Sholastique Mukasonga, considerando que as obras fornecem o espaço terapêutico necessário para que os traumas provenientes de guerras e genocídios em seus países possam ser elaborados. Dessa forma, a escrita das autoras, além de resgatar a história perdida de Ruanda e da Nigéria, permitem a elaboração necessária para que as sociedades que foram construídas em um sistema baseado na violência possam superar a repetição de atos violentos, conforme aponta Sigmund Freud em sua obra Recordar, repetir e elaborar (1914/1911-1913). Além disso, consideramos que a escrita das autoras, retratam as vozes dos que foram duplamente silenciados, no que diz respeito ao silêncio imposto para seu gênero e para sua etnia, o que confere as obras uma dupla potência e significação.

Biografia do Autor

Junia Saraiva, PUC MG

Doutoranda em Literatura pelo Programa de Pós-graduação em Letras da PUC-MG. Possui mestrado em Literatura e graduação em Psicologia pela mesma instituição. Pesquisa sobre os temas de Literatura e Psicanálise desde a graduação no qual possui trabalhos publicados na área. Atualmente dedica-se em articular a Psicanálise com as Literaturas africanas de Língua Portuguesa

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Publicado
2021-01-31
Seção
Dossiê Memórias de Guerra