Revista Em Perspectiva, Fortaleza, v. 11, e93888, p. 1-17, 2025.
ISSN 2448-0789.
A simbiose entre a lembrança e o
esquecimento:
considerações acerca de uma política de
memória na revista Semana Illustrada
RESUMO
A compreensão em torno da noção de “memória” ganhou novas
percepções a partir de análises mais recentes, percebendo-a não
apenas limitada ao âmbito do armazenamento, ideia fortemente
defendida ao longo da história, mas inserindo-a numa relação
entre o ato de recordar e o próprio esquecimento, sendo ela,
portanto, uma construção seletiva. Pensando a construção de
memórias coletivas, compreende-se a imprensa enquanto
produtora de políticas de memória que buscam legitimar as
visões de mundo consideradas ideais por determinado grupo.
Este artigo busca traçar um debate acerca da “memória” e das
políticas de memória atreladas às políticas de esquecimento e, a
partir do exemplo da revista Semana Illustrada, evidenciar que a
imprensa objetivou construir memórias acerca dos eventos tal
logo eles ocorreram durante a Guerra do Paraguai, visando
garantir a legitimidade do conflito frente a sociedade brasileira
do século XIX.
Palavras-chave: Memória. Imprensa. Esquecimento.
The symbiosis between remembering and forgetting:
considerations about a memory policy in Semana
Illustrada magazine.
ABSTRACT
The comprehension of the notion of “memory has gained
new insights from more recent analyses, not only limited to
the realm of storage, an idea strongly defended throughout
history, but inserting it into a relationship between the act of
remembering and forgetting itself, which is therefore a
selective construction. Thinking about the construction of
collective memories, we understand the press as a producer of
memory policies that seek to legitimize worldviews
considered ideal by a certain group. This article aims to foster
a debate about 'memory' and memory policies linked to
forgetting policies and, using the example of the magazine
Semana Illustrada, to highlight that the press aimed to
construct memories of events as soon as they occurred during
the Paraguayan War, in order to ensure the legitimacy of the
conflict in the eyes of 19th century Brazilian society.
Keywords: Memory. Press. Forgetting.
Felipe Rodrigues de Souza
Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
souzza.fr@gmail.com
www.orcid.org/0000-0002-9791-8998
ARTIGO ORIGINAL
A simbiose entre a lembrança e o esquecimento
2
1 INTRODUÇÃO
Ao longo da história ocidental perdurou dentre os pensadores a ideia de que a memória
estaria pura e simplesmente limitada ao campo do armazenamento de informações. Com a
intensificação dos debates acerca da sua amplitude, por sua vez, tornou-se notório que ela,
pensando no ato de relembrar o vivido, não está desgarrada do esquecimento (Assman, 2011;
Candau, 2013; Ricouer, 2007). A memória, tanto no âmbito individual quanto no coletivo,
seria, portanto, seletiva. Nessa perspectiva, as políticas de memória, enquanto resgates do
passado realizados por meio dos chamados “ritos de recordação”, como conceituou Catroga
(2001), estariam sempre ligadas também às políticas de esquecimento (Hyussen, 2014).
Assim, torna-se necessária a compreensão de que essas políticas de memória (e de
esquecimento) não se esgotam na tentativa de se reconstruir um passado longínquo, mas
podem ser construídas imediatamente após um determinado evento ou até mesmo durante a
sua ocorrência. Podemos destacar um momento bastante emblemático na História do Brasil,
que diz respeito aos acontecimentos que se desenrolaram a partir do alvorecer da Guerra do
Paraguai (1865-1870). Imediatamente após a invasão das tropas paraguaias ao Mato Grosso,
as páginas dos jornais da época foram preenchidas pelas novidades em torno do conflito, que
se avolumaram durante os anos iniciais, construindo infindáveis representações acerca do
ocorrido. Notadamente, trata-se de um contexto particularmente importante, sobretudo
quando nos debruçamos a apreender a criação de narrativas que visavam construir memórias
acerca do vivido com a finalidade de garantir a adesão da população à causa da guerra.
Aleida Assman (2011, p. 54) nos mostra que a partir do momento em que a imprensa
passa a ser o principal meio de comunicação
1
, “a escrita criou novos espaços de recordação”,
tirando o monopólio que outrora estava nas mãos da Igreja e da Corte. Constrói-se o que a
autora veio a chamar de “novas lutas de poder em torno da recordação”, demonstrando aquilo
que Pollak (1992, p. 205) também evidenciou ao afirmar que “[...] a memória e a identidade
são valores disputados em conflitos sociais e intergrupais, e particularmente em conflitos que
opõem grupos políticos diversos”. Portanto, a imprensa é, sem dúvidas, um campo de disputas
em torno da construção de uma memória nacional que se objetivava construir ao longo do
1
No caso brasileiro, isso ocorre especialmente após a transferência da Corte para ao Trópicos em 1808 e se
intensificará, sobretudo, a partir dos debates que se aflorarão com a abdicação de D. Pedro I (1831) e o início do
período Regencial (1831-1840), quando a imprensa se tornará de opinião e acabará por ganhar um papel de
extrema relevância, atuando sobre a política e influindo sobre os aspectos culturais da sociedade do Oitocentos.
Cf: Morel, 2009.
Felipe Rodrigues de Souza
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século XIX, com vistas a possibilitar a coesão de uma sociedade que ainda não havia
despertado um sentimento verdadeiramente nacional.
Para evidenciarmos isso, nos debruçaremos sobre as notícias divulgadas pela revista
Semana Illustrada (1860-1876), que trabalhou de maneira a noticiar os acontecimentos no
campo de batalha durante a Guerra do Paraguai, contribuindo para a construção da imagem do
inimigo e em defesa da pátria. Fundada em 1860 pelo prussiano Henrique Fleiuss, utilizava-
se do lema ridendo castigat mores(rindo castigam-se os costumes) exatamente para criticar
os costumes e os valores da elite do Rio de Janeiro. Numa combinação de textos e charges,
buscava trazer um tom humorístico para os acontecimentos e, embora fosse possuidor de um
tom crítico, não objetivava a ofensa, evitando confrontações diretas com particulares. Ao
receber o título de “Imperial” em 1863, o Instituto Artístico dos irmãos Fleuss & Linde, que
deu origem à revista, evidenciou a notória ligação política dos seus editores, pois para
alcançar tal realização “era preciso que o proprietário estivesse ética e moralmente de acordo
com os preceitos do Império” (Santiago, 2017, p. 30).
Assim, buscaremos apreender os debates em torno da noção de memória e das
políticas de memória e de esquecimento, demonstrando, por meio de uma análise crítica, de
que maneira a revista atuou nos primeiros anos da guerra contra o Paraguai, percebendo a
imprensa num processo dialético com a realidade, pois, de acordo com Márcia Janete Espig
(1998, p. 277) ao mesmo tempo em que ela exterioriza um “determinado discurso criador de
significados”, se limitada pelo contexto social, ou seja, “seu discurso não pode fugir da
visão de mundo presente naquela sociedade, sob o risco de tornar-se sem sentido”.
2 A MEMÓRIA E AS POLÍTICAS DE MEMÓRIA
2.1 Armazenar e recordar
Jorge Luis Borges (1999), em seu conto “Funes, o memorioso”, aborda uma
problemática que pode se encontrar na mente dos mais diferentes indivíduos e está pautada
nos questionamentos em torno da memória e nas dificuldades que, sobretudo a partir da
infinidade de estímulos presentes nas sociedades modernas, os homens e as mulheres
possuem de guardar as recordações de maneira ilimitada. O uruguaio Irineu Funes,
personagem central da obra, não tergiversa ao assumir que “mais recordações tenho eu
sozinho do que as tiveram todos os homens desde que o mundo é mundo” (Borges, 1999, p.
121). É a partir desta lógica que o conto evidencia um sujeito possuidor de uma memória cuja
singularidade estava em carregar consigo os mais diversos pormenores de sua vida, sugerindo
A simbiose entre a lembrança e o esquecimento
4
uma mente capaz de afastar o esquecimento, garantindo uma insólita reconstrução do seu
passado.
Poderíamos cair no equívoco de considerarmos este um talento invejável, não fosse
por todos os problemas corolários desta enigmática característica. Funes é descrito pelo
narrador como um ”solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e
quase intoleravelmente exacto”, que carregava consigo “a pressão de uma realidade tão
infatigável como a que, dia e noite, convergia” sobre ele (Borges, 1999, p. 124). Tratava-se de
uma vida insuportável, imersa num oceano de informações inúteis que lhe dava a capacidade
de decorar, mas lhe roubava a possibilidade de pensar, pois pensar é esquecer diferenças, é
generalizar, abstrair” e no “abarrotado mundo de Funes não havia senão pormenores, quase
imediatos” (Borges, 1999, p. 125).
Cabe, nesse sentido, trazermos luz a alguns aspectos relacionados aos estudos do
campo da memória, que impreterivelmente nos conduz a abordar aquela elaboração
construída pela Aleida Assman (2011) no que diz respeito à memória enquanto arte e à
memória enquanto potência. A memória enquanto arte (mnemotécnica), leia-se técnica,
remonta à Antiguidade Clássica e carregava consigo um grau elevado de importância na
sociedade romana, sendo vista como uma forma de armazenar na memória informações
importantes, objetivando uma reprodução idêntica para ser útil a determinados fins. Podemos
então perceber a mnemotécnica intimamente ligada à gica do armazenamento, que, por
meio de uma mecânica muito dependente da visão, garante que haja uma ilibada reprodução e
recuperação das informações que outrora foram depositadas na memória. Nesse sentido, o
armazenamento pode ser encarado como [...] uma função especial da memória humana,
principalmente para decorar conhecimentos como textos litúrgicos, poesias, fórmulas
matemáticas ou dados históricos” (Assman, 2011, p. 33).
Ainda durante a Antiguidade clássica, essa noção de memória percebida como uma
forma de decorar as informações, recebeu críticas de Platão que, mirando os sofistas, propôs
um divórcio entre o conhecimento verdadeiro e aquele que advém do ato de decorar (Assman,
2011). Segundo Joel Candau (2013, p. 41), para o filósofo grego, a memória torna-se a
“própria faculdade do conhecer, confundindo-se o esforço de recordação com a procura do
verdadeiro” e embora não acredite que o conhecimento se construa a partir do ato de decorar,
assume que o esquecimento se apresentava enquanto um risco para o saber, demonstrando, ao
nosso ver, que também para ele a memória seria puramente o armazenamento de informações.
Durante o Renascimento, na obsessão dos modernos com a recuperação dos clássicos,
a mnemotécnica voltou a ser alçada a um nível de relevância, novamente não sendo poupada
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de críticas, percebida por Harald Weinrich como estando numa verdadeira guerra contra a
chamada “razão esclarecida” (Assman, 2011). O que notadamente demonstra que, embora a
técnica da memorização tenha tido muitos adeptos ao longo da história, nunca se firmou
enquanto uma corrente única e inquestionável.
Nesse sentido, é pertinente pontuar que a percepção moderna de memória, atravessada
por imprecisões, fora construída ainda na Antiguidade com Aristóteles, que a percebia não
como um armazenamento perfeito das informações, mas compreendia um conjunto de
aspectos que acabariam por atuar na lembrança, modificando-a. Assim, de acordo com
Candau (2013, p. 41), para essa corrente aristotélica “mesmo que as nossas sensações sejam
verdadeiras (Epicuro), a phantasia, a imaginação ou, muito simplesmente, as opiniões vão
desempenhar o papel mediador antes de passar ao arquivo da memória”.
Essa compreensão nos conduz a pensar a memória como potência, que, segundo
Aleida Assman (2011), parte do paradigma formulado por Nietzsche no que tange à
recordação enquanto formadora de identidade. Se a memória como arte eliminava a dimensão
do tempo, apresentando-se como puramente espacial, a recordação não prescinde dela.
Diferentemente do ato de decorar, o lembrar (ou recordar) não parte de uma compreensão
reprodutiva, numa ótica em que se planeja transmitir exatamente aquilo que fora armazenado
na memória. Não uma deliberação no ato de recordar. Trata-se antes de um ato
involuntário, no qual o indivíduo que recorda, no momento da recepção da informação, está
inteiramente desgarrado de um objetivo posterior de narrá-la em seus pormenores. Estando a
recordação, portanto, sujeita a um processo de transformação, compreende-se a memória
como uma potência carregada de certa autonomia em termos cognitivos, ou como “uma
energia com leis próprias”. Nesse sentido, evidentemente o esquecimento é um oponente do
armazenamento, mas um legítimo aliado da recordação (Assman, 2011).
Segundo Fernando Catroga (2001, p. 20-21), a memória “não é um armazém que, por
acumulação, recolhe todos os acontecimentos vividos por cada indivíduo, um mero registro,
mas é retenção afectiva e ‘quente’ do passado feita dentro da tensão tridimensional do
tempo”, sendo exatamente “os seus elos com o esquecimento” os que a obrigam “que somente
possa recordar parte do que se passou”. Assim, retornando ao conto do Borges Funes, o
memorioso , é possível percebermos que a memória aguçada de Irineu, sempre atenta aos
detalhes mais minuciosos de todas as suas histórias de vida, o conduziu para uma vida
tortuosa e insustentável. O que a história demonstra é a impossibilidade de se viver e pensar
sem o esquecimento. Viver numa realidade em que a memória é um receptor de informações
ilimitadas, armazenando-as de maneira indiscriminada, nos conduziria a uma falta de
A simbiose entre a lembrança e o esquecimento
6
raciocínio, a uma prisão ao passado e a uma impossibilidade de construir representações
acerca do presente e de imaginar o futuro. Logo, o esquecimento não é apenas um aliado da
memória, mas é parte constitutiva dela. é possível lembrar porque esquecemos. Este dado,
apesar de parecer lógico, nem sempre esteve tão evidente e não deixa dúvidas de que,
portanto, “a memória é sempre selectiva” (Catroga, 2001, p. 21).
Dito isto, antes de nos dedicarmos a abordar de que forma essa “seleção” ocorre,
torna-se pertinente evidenciarmos alguns aspectos da relação dialética entre o “eu” e o “nós”
na construção de memórias. De acordo com Catroga (2001, p. 16), “a memória individual é
formada pela coexistência tensional e nem sempre pacífica de várias memórias (pessoais,
familiares, grupais, regionais, nacionais, etc) em permanente construção”. Trata-se de uma
percepção que entende a memória numa relação direta com a alteridade, a relação com o
outro, que a desperta e modifica as formas de apreensão da realidade.
Maurice Halbwarchs (2004), responsável por trazer à tona o conceito de “memória
coletiva”, assumia uma dependência da memória individual em relação a ela, compreendendo
que o indivíduo não conseguiria construir memórias sem estar inserido numa sociedade e/ou
grupo. Tal perspectiva sofreu críticas por parte de Paul Ricouer (2007) que, buscando pôr à
prova essa consequência extremada, postula que a interação entre memória pessoal e a
memória coletiva ocorre de maneira mais complexa, percebendo que não uma passividade
do indivíduo frente à coletividade, mas um processo em que uma memória interfere na outra,
sendo possível, inclusive, que as memórias pessoais também modifiquem a memória coletiva
(Ricouer, 2007).
A construção dessas memórias coletivas está carregada de uma dimensão social.
Assim, Aleida Assman (2011), que trabalha com o conceito de “memória cultural”, está muito
preocupada com essa dimensão atrelada às letras/literatura, percebendo como a memória é
construída, sobretudo, por meio dos registros escritos, pela arte e pelos monumentos. Ao
pensar os espaços de memória, parte da compreensão de que a memória é um fator
indispensável para a construção de uma identidade coletiva, que, via de regra, estabelece um
sentimento de pertencimento a determinado grupo e/ou sociedade. Esses “espaços de
memória” são nada menos que os locais ou práticas culturais em que há uma cultivação e uma
preservação da memória, como museus, rituais, dentre outros (Assman, 2011).
Essa noção carrega muitos aspectos de semelhança com a “memória social”
desenvolvida por Joel Candau (2013), que percebe como as práticas culturais atuam na
construção e transmissão das memórias coletivas. Esses “ritos de recordação” (Catroga,
2001), desempenham um papel fundamental na maneira como essas memórias coletivas serão
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transmitidas ao longo das gerações, garantindo, nesse sentido, a manutenção de uma
identidade que se construiu no seio de uma sociedade.
2.2 O dilema entre o “lembrar” e o “esquecer
Evidentemente, ao falarmos em espaços de memória ou ritos de recordação não é
possível ignorarmos aquilo que fora postulado neste trabalho no que diz respeito a um
caráter seletivo da memória. Se em termos individuais e cognitivos, como fica explícito no
conto do Borges, é necessário que haja o esquecimento para que exista a possibilidade de
raciocinar e pensar, é possível fazermos esse deslocamento para uma questão que nos é muito
cara e que trata da construção de memórias coletivas e identidades sociais que se formulam
numa sociedade e que contam, sobretudo, com a necessidade de políticas de memória.
A memória enquanto tal pode ser percebida como um “resgate do passado”, que
seleciona determinados acontecimentos, filtrando-os e modificando-os a partir dos anseios do
presente, o que configuraria o ato de recordar (Assman, 2011). as políticas de memória
estão intimamente ligadas às formas de agir no mundo que estruturam o que pode ser
lembrado e o que deve ser esquecido. Assim, se a memória por si é seletiva, as políticas de
memória, construídas por uma sociedade e normalmente conduzidas pelo poder estatal,
selecionam, objetivando construir identidades coletivas percebidas como as ideais.
De acordo com Michael Pollak (1992, p. 204), tanto a memória individual quanto a
memória coletiva são herdadas e passam por uma mudança a depender do momento em que
são articuladas, ou seja, [...] as preocupações do momento constituem um elemento de
estruturação da memória”. No caso da memória coletiva isso ainda é mais visível. Exemplo
disso é quando observamos a estruturação do calendário, que, ao selecionar datas
comemorativas, está instituindo uma política de memória que carrega o objetivo de criar um
sentimento de identificação comum numa determinada sociedade. Se [...] a memória é um
fenômeno construído”, seja em nível individual seja em nível social, ela claramente passa por
um filtro que está ligado aquilo que se deseja que seja lembrado e aquilo que se permite
esquecer (Pollak, 1992).
A organização de uma memória cultural depende, sobretudo, das mídias e das
políticas, que garantam, por exemplo, a manutenção dos museus, memoriais e arquivos. Se no
âmbito individual o processo de recordação advém de regras gerais dos mecanismos
psíquicos, quando nos referíamos ao coletivo, ou pensando mais diretamente naquilo que nos
é de interesse e que diz respeito à uma memória nacional, ele é dependente de políticas de
memória que estruturarão a dinâmica entre a lembrança e o esquecimento (Assman, 2011).
A simbiose entre a lembrança e o esquecimento
8
É nesse sentido que [...] o salto entre a memória individual e viva para a memória
cultural e artificial é certamente problemático, pois traz consigo o risco de deformação, da
redução e da instrumentalização da recordação” (ASSMAN, 2011, p. 19). Ou seja, a
estruturação por parte de uma sociedade, mormente quando dirigida por um Estado Nacional,
das memórias que se deseja que sejam recordadas, não podem ser dissociadas das relações de
poder que permeiam a arena política. Trata-se de percebermos como a estruturação dessas
políticas estão sempre ligadas aos interesses de grupos e que, por isso, muitas vezes as
recordações podem ser afetadas e deformadas para atender a determinados fins.
Pondera-se, no entanto, que essa “deformação” não necessariamente significa que haja
uma falsificação dos acontecimentos passados, embora possa haver, mas que um processo
de escolha que inegavelmente dará ênfase a determinados aspectos da recordação em
detrimento de outros. Pode-se mobilizar o conceito de mémoire manipulée, ou memória
manipulada, formulado por Paul Ricouer, que, está relacionada à narratividade, “no sentido
em que qualquer narrativa é selectiva e implicará, passiva ou activamente, um determinado
nível de esquecimento acerca de como se poderia ter contado a história de maneira diferente”
(Hyussen, 2014, p. 31).
Assim, Hyussen (2014, 2014, p. 31), demonstra como a memória, numa relação entre
passado e os anseios do presente, pode ser utilizada pelo Estado com a finalidade de alcançar
um objetivo dentro de determinada conjuntura, evidenciando como uma política de memória
está intimamente ligada a políticas de esquecimento público necessárias para a “[...] existência
de reivindicações culturais, legais e simbólicas que vão no sentido de uma memória política
nacional”.
3 A IMPRENSA ENQUANTO PRODUTORA DE POLÍTICAS DE MEMÓRIA
Com base nessas considerações, lançaremos luz acerca dos eventos que balançaram o
Império do Brasil em meados do século XIX. Quando, em dezembro de 1864, o Mato Grosso
é invadido por tropas paraguaias, urge a necessidade de se mobilizar todos os recursos
indispensáveis para garantir que haja uma vitória por parte do Brasil. Após o decreto dos
Voluntários da Pátria assinado em 7 de janeiro de 1865, que tinha o objetivo de incentivar o
alistamento militar, a imprensa, sobretudo a revista Semana Illustrada, muito afinada ao
império, inicia o projeto de estimular a população a aderir à causa da guerra. Para isso, há um
esforço em exaltar a imagem dos soldados brasileiros, na linha de frente da resistência ao
ataque sofrido.
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Tal dado poderia ser de pouca importância não fosse a visão negativa do Exército que
predominava na época. Tratava-se de uma instituição vista com profundo desprezo pelos
grupos que compunham a elite, fundamentalmente pelo baixo grau de prestígio social, aliado
aos inúmeros castigos corporais que esses indivíduos enfrentavam, sendo essencialmente
associada aos homens menosprezados pela população, como os criminosos e aqueles
considerados vagabundos (Salles, 1990).
Assim, num momento de necessidade, a imprensa se atribui o dever de prestar todos os
tipos de honrarias aos que iam em defesa da pátria. Mais do que defender o território, os
soldados brasileiros cumpririam um papel civilizador contra a barbárie que tentava imputar
sua opressão à região e, para isso, o Império “buscou legitimar o apoio e a cooperação
coletiva, intensificando o apelo patriótico para despertar e nutrir o sentimento nacional
contrapondo-se ao inimigo comum, o Paraguai” (Souza, 2007, p. 24).
Dito isto, faz-se necessário lembrarmos que na cada de 1860 a população ainda não
se identificava enquanto uma nação, com interesses em comum que compreendiam a
totalidade do território brasileiro, estando essa identidade muito circunscrita aos anseios locais
das províncias. Carvalho (1999, p. 246) nos mostra que naquele momento a ideia de uma
nação não passava de uma invenção que a elite desejava que se expandisse para além das
fronteiras do imaginário. Apesar de o próprio autor considerar que a Guerra do Paraguai foi
um evento que causou no início da luta um “genuíno entusiasmo cívico e formação de
batalhões de voluntários”, quando, talvez, “pela primeira vez um sentido positivo de pátria
brasileira tenha começado a desenvolver-se entre a população”, podemos afirmar que em
1865, sem dúvidas, este sentimento estava longe de ser universal.
Pois bem, a utilização de uma retórica beligerante se faz presente nas páginas da
Semana Illustrada. Os discursos no primeiro ano do conflito apelam constantemente para um
sentimento patriótico da população e a Batalha do Riachuelo, em 11 de junho de 1865, tal
como outras vitórias colecionadas pela esquadra brasileira, serviu para consolidar a
proliferação de tais exposições. Devido a distância e os problemas de comunicação típicos do
período, as notícias sobre a batalha apareceram na revista a partir do dia 2 de julho de
1865, quase um mês após a luta. Criticando indivíduos que propagavam notícias ditas
mentirosas, o periódico constatou que eles “inventam naufrágios, derrotas, invasões e dão tal
entoação a voz, revestem-se de ares tão sinistros, gesticulam tão significativamente que os
crédulos e desprevenidos, que os ouvem, não podem esquivar-se do pânico” (Semana
Illustrada, edição 239, 1865, p. 1905) e pedia providencias para que os caluniadores fossem
punidos.