de críticas, percebida por Harald Weinrich como estando numa verdadeira guerra contra a
chamada “razão esclarecida” (Assman, 2011). O que notadamente demonstra que, embora a
técnica da memorização tenha tido muitos adeptos ao longo da história, nunca se firmou
enquanto uma corrente única e inquestionável.
Nesse sentido, é pertinente pontuar que a percepção moderna de memória, atravessada
por imprecisões, fora construída ainda na Antiguidade com Aristóteles, que a percebia não
como um armazenamento perfeito das informações, mas compreendia um conjunto de
aspectos que acabariam por atuar na lembrança, modificando-a. Assim, de acordo com
Candau (2013, p. 41), para essa corrente aristotélica “mesmo que as nossas sensações sejam
verdadeiras (Epicuro), a phantasia, a imaginação ou, muito simplesmente, as opiniões vão
desempenhar o papel mediador antes de passar ao arquivo da memória”.
Essa compreensão nos conduz a pensar a memória como potência, que, segundo
Aleida Assman (2011), parte do paradigma formulado por Nietzsche no que tange à
recordação enquanto formadora de identidade. Se a memória como arte eliminava a dimensão
do tempo, apresentando-se como puramente espacial, a recordação não prescinde dela.
Diferentemente do ato de decorar, o lembrar (ou recordar) não parte de uma compreensão
reprodutiva, numa ótica em que se planeja transmitir exatamente aquilo que fora armazenado
na memória. Não há uma deliberação no ato de recordar. Trata-se antes de um ato
involuntário, no qual o indivíduo que recorda, no momento da recepção da informação, está
inteiramente desgarrado de um objetivo posterior de narrá-la em seus pormenores. Estando a
recordação, portanto, sujeita a um processo de transformação, compreende-se a memória
como uma potência carregada de certa autonomia em termos cognitivos, ou como “uma
energia com leis próprias”. Nesse sentido, evidentemente o esquecimento é um oponente do
armazenamento, mas um legítimo aliado da recordação (Assman, 2011).
Segundo Fernando Catroga (2001, p. 20-21), a memória “não é um armazém que, por
acumulação, recolhe todos os acontecimentos vividos por cada indivíduo, um mero registro,
mas é retenção afectiva e ‘quente’ do passado feita dentro da tensão tridimensional do
tempo”, sendo exatamente “os seus elos com o esquecimento” os que a obrigam “que somente
possa recordar parte do que já se passou”. Assim, retornando ao conto do Borges – Funes, o
memorioso –, é possível percebermos que a memória aguçada de Irineu, sempre atenta aos
detalhes mais minuciosos de todas as suas histórias de vida, o conduziu para uma vida
tortuosa e insustentável. O que a história demonstra é a impossibilidade de se viver e pensar
sem o esquecimento. Viver numa realidade em que a memória é um receptor de informações
ilimitadas, armazenando-as de maneira indiscriminada, nos conduziria a uma falta de