Podemos perceber que há uma hierarquia nas comunidades mencionadas no que diz respeito
aos indivíduos que devem ser representados/as com itchap. Essa organização hierárquica nos
faz levantar as seguintes questões: em que consiste o privilégio dado aos homens acerca dessa
representação em detrimento das mulheres? Por que o direito é dado apenas às primeiras
esposas e não a todas as mulheres, no caso da comunidade Babok? Questões que podem ser
respondidas em pesquisas futuras.
Sob a ótica da complexidade da prática do itchap nas comunidades mandjacus, um dos
interlocutores das entrevistas realizadas no Plundu, Alex (2023), afirma que
[...] no Plundu o direito de possuir uma representação do itchap após a morte é
exclusivo aos homens. Quem tem direito de ser beneficiado com itchap no Plundu são
os homens. É somente dos homens, ou seja, se realiza somente para os homens. As
mulheres não têm nada a ver com isso. Se um homem morrer ainda jovem ele não
possui direito de imediato, mas depois de um tempo ele pode ter seu itchap (ALEX,
morador de Plundu, entrevistado em 2023).
Esse argumento de Alex acerca de quem pode ser representado ou não com o itchap no
Plundu dialoga com afirmação de outro entrevistado, Djocas (2023), que, argumentando sobre
itchap no Plundu, demonstrou que
[...] nem todos no Plundu têm o direito de possuir uma representação do itchap após
a morte. Esse direito não agrega as mulheres, pois pela regra da comunidade, somente
os homens podem ser beneficiados com a representação do itchap após a morte. E
entre os homens há uma restrição simbólica inicial. Se um homem morrer ainda cedo
(criança ou jovem), ele não pode beneficiar de imediato com a representação do
itchap, porém isso não significa que não será beneficiado, visto que depois de um
tempo ele pode ser beneficiado. Inclusive existe um que acabamos de colocar seu
itchap recentemente, ele morreu ainda jovem e agora pediu e colocamos dele. Se a
pessoa morre ainda pequeno não vão ficar itchap dele, vão deixar até quando ele pedir
depois (DJOCAS, moradores de Plundu, entrevistados em 2023).
Nesta mesma linha de argumento, Ali (2023), terceiro interlocutor, afirma que itchap
no Plundu é somente para os homens, não é algo que as mulheres têm direito e, entre os homens,
quem morre novo não pode ter itchap.
Nos argumentos apresentados pelos interlocutores acima, subentende-se que na
comunidade plundense não são todas as pessoas pertencentes à comunidade, ou seja, nem todos
os mandjacus de Plundu possuem o direito de ser beneficiado com a representação do itchap
após a morte, pois esse é reservado exclusivamente para os homens. Também se compreende
que, apesar dos homens possuírem esse direito exclusivo, há restrições. Por exemplo, quando
um homem morre ainda criança, ele não pode ser beneficiado de imediato com itchap, mas
passado algum tempo, ele pode se beneficiar. Contudo, os entrevistados não deram maiores
esclarecimentos/explicações sobre como seria essa mudança ou passar do tempo para que o