Revista Em Perspectiva, Fortaleza, v. 11, e96092, p. 1-13, 2025.
ISSN 2448-0789.
Uma releitura de cerimônias culturais do
povo Mandjacu da Guiné-Bissau:
o caso de Itchap
RESUMO
A relação entre os vivos e os mortos nas diversas comunidades
mandjacus na Guiné-Bissau dá-se por meio de cerimônias
variadas. Uma delas é o itchap, uma representação material,
espiritual e, em alguns casos, políticos, de uma pessoa falecida.
Esta representação pós-morte realiza-se por etapas, uma delas é
a definição de quem pode ser contemplado/a. O presente artigo
objetiva realizar uma releitura dessa cerimônia no grupo
mandjacu, particularmente nas comunidades de Tchur, Babok e
Plundu, com ênfase no princípio de quem pode ser contemplado
com essa representação. Para isso, realizou-se uma pesquisa
bibliográfica e uma pesquisa de campo na comunidade plundense
na Guiné-Bissau. Os dados mostram elementos de encontros e
desencontros na realização da cerimônia nas comunidades
estudadas. Conclui-se que, embora as três comunidades
pertençam ao mesmo grupo social, o mandjacu, e pratiquem o
mesmo ritual, sua forma de funcionar possui diferenças que
exemplificam a heterogeneidade do grupo, rompendo com a
visão homogênea e generalizadora que se tem sobre a realização
da cerimônia do itchap nas diversas comunidades mandjacus.
Palavras-chave: itchap; mandjacu; diversidade cultural.
A reinterpretation of cultural ceremonies among the
Mandjacu people of Guinea-Bissau: the case of Itchap
ABSTRACT
The relationship between the living and the dead in various
Mandjacu communities of Guinea-Bissau is mediated through
a range of ceremonial practices, among which itchap stands out
as a material, spiritual, and, in some instances, political
representation of a deceased individual. This posthumous
representation unfolds in several stages, one of which involves
determining who may be eligible for such commemoration.
This article aims to offer a reinterpretation of the itchap
ceremony within the Mandjacu ethnic group, focusing
specifically on the communities of Tchur, Babok, and Plundu,
with particular attention to the criteria that govern eligibility for
representation. The study draws upon bibliographic research
and fieldwork conducted in the Plundu community. Findings
reveal both convergences and divergences in the execution of
the ceremony across the studied communities. It is concluded
that, although these three communities belong to the same
social group and share the same ritual framework, variations in
practice reflect the internal diversity of the Mandjacu people,
thereby challenging homogenizing and generalized
Salifo Danfa
Universidade Federal do Ceará, PPG
História, Fortaleza, CE, Brasil
salifo1990danfa@hotmail.com
orcid.org/0009-0001-7092-0705
periodicos.ufc.br/emperspectiva
revistaemperspectiva@gmail.com
@emperspectiva
ARTIGO ORIGINAL
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ISSN 2448-0789.
interpretations of the itchap ceremony across Mandjacu
communities.
Keywords: Itchap; Mandjacu; cultural diversity.
periodicos.ufc.br/emperspectiva
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ARTIGO ORIGINAL
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1 INTRODUÇÃO
O povo mandjacu é um grupo social que habita a África Ocidental. Embora haja um
número significativo de indivíduos pertencentes a este grupo nos territórios como Gâmbia e
Senegal, a atual Guiné-Bissau
1
é o território com maior concentração dessa população e é
considerado sua base central, no qual diversas comunidades pertencentes a este grupo,
fazendo deles um dos diversos grupos sociais que compõem a sociedade guineense. No
território guineense, a base central dos mandjacus é a região de Cacheu
2
, na qual diversos
sectores e secções exclusivamente pertencentes, em termos históricos, a este grupo, razão pela
qual são chamados de tchons
3
mandjacus.
Os diversos tchons mandjacus no território guineense se agrupam, em sentido macro,
num bloco só, mandjacu. Por pertencer a este grupo, partilham diversos elementos em termos
culturais, porém vale lembrar que mesmo partilhando uma gama de elementos culturais em
comum, que lhes unem como mandjacu, isso não significa que este é um grupo homogêneo,
como se pensa. Por exemplo, uma prática cultural que se apresenta como um dos elementos
culturais que une as diversas comunidades mandjacus no território guineense é a cerimônia de
itchap, elaboração de imagem para representar, de forma material e espiritual, um indivíduo
após a morte.
Este ritual é considerado como uma prática cultural do povo mandjacu. Embora seja
difícil afirmar sua presença/realização em todas as comunidades mandjacus, é algo comum na
maioria dos tchons. Por isso é classificado como prática cultural deste povo e, em muitos casos,
visto de forma homogênea dentro desse grupo, sem levar em consideração as particularidades
de cada comunidade que o pratica. O presente artigo tem como objetivo trazer uma releitura
desse ritual no grupo mandjacu, particularmente nas comunidades de Tchur, Babok e Plundu
4
,
1
Guiné-Bissau é um país do Sul Global, localizado na Costa Ocidental do continente africano, formado por
diversos grupos sociais.
2
A região de Cacheu é uma das oitos (8) regiões, para além do sector autônomo de Bissau, que formam a atual
Guiné-Bissau. É uma região localizada na zona Norte do país, composta por seis sectores e diversas secções, e
grande parte dos sectores e secções desta região pertencem ao povo mandjacu e são designados de territórios
mandjacus. Sobre esse pertencimento, é importante destacar que a Guiné-Bissau administrativamente está dividida
em 8 regiões (Bolama/Bijagós, Gabú, Bafata, Biombo, Cacheu, Tombali, Oio e Quinara) e um sector autônomo,
o de Bissau. Essas regiões são formadas por diversos sectores e estes por secções, mas é importante salientar que,
embora essa divisão seja a considerada “oficial” do país, dentro dessas regiões, sectores e secções prevalecem as
divisões internas do território anterior à invasão europeia na qual cada grupo social que forma a sociedade
guineense é identificado como dono de um ou mais territórios no espaço que corresponde à atual Guiné-Bissau.
3
Tchon é uma expressão na língua guineense para se referir a território.
4
Neste trabalho, por se tratar de um artigo e por sua extensão, delimitamos nossa análise, dentre as comunidades
mandjacus, em Tchur, Babok e Plundu.
4
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com o foco em um elemento imprescindível para a sua realização: o critério para o benefício de
quem pode ser representado após a morte com o itchap nessas três comunidades mandjacus.
Essa releitura visa analisar os elementos que caracterizam o critério de quem pode ser
contemplado com a realização desse ritual nas três comunidades, problematizando a visão
homogênea e generalizadora que se tem desse ritual no grupo mandjacu na Guiné-Bissau.
Metodologicamente esta pesquisa parte de uma revisão bibliográfica baseada em
estudos que abordam o ritual de itchap em algumas comunidades mandjacus, e autores que
discutem questões relacionadas à homogeneização e à generalização nos estudos sobre uma
determinada sociedade ou grupo. Para além da revisão bibliográfica, esta pesquisa parte
também de uma pesquisa de campo com o uso da técnica de djumbai, expressão na língua
guineense para se referir a uma conversa/diálogo de forma livre, como modelo de realização da
entrevista. Salienta-se que os dados das entrevistas utilizadas nesse artigo são da pesquisa de
campo realizada em Guiné-Bissau, na comunidade plundense, em 2023.
Vale enfatizar que as análises das comunidades Tchur e Babok serão feitas com base na
pesquisa de Paulina Mendes (2014), que fez um estudo comparativo do ritual de itchap nas duas
comunidades, enquanto na comunidade do Plundu a análise se basea nas entrevistas de
Djocas, Ali e Alex, interlocutores moradores do Plundu.
O artigo está estruturado da seguinte forma: introdução, uma breve análise crítica da
homogeneização e generalização, análise da cerimônia de itchap nas comunidades mandjacus
e sua complexidade e considerações finais.
2 UMA BREVE ANÁLISE CRÍTICA DA HOMOGENEIZAÇÃO E GENERALIZAÇÃO
Realizar um estudo voltado a uma sociedade ou grupo social exige alguns cuidados
fundamentais que podem ser relevantes para evitar homogeneização e generalização, que
muitas das vezes acabam apagando as especificidades e particularidades existentes no
grupo/sociedade analisado e limitando a visão da análise e do entendimento do assunto em sua
complexidade. Este cuidado é fundamental, principalmente para os estudos voltados aos povos
africanos. Neste sentido, Achille Mbembe (2001), na sua obra As formas africanas de auto-
inscrição, no qual faz uma crítica à ideia de identidades como categorias fixas e à ideia de
essencialismo, chama atenção para o perigo que pode vir da busca sem reflexão de uma
singularidade africana sem o devido reconhecimento das especificidades culturais, políticas e
geográficas em África. Por isso, segundo ele, as “tentativas de definir a identidade africana de
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forma simples e clara têm ao longo do tempo geralmente falhado. Outras tentativas parecem
estar tendo o mesmo fim” (Mbembe, 2001, p. 198), pois não levam em consideração as
especificidades e complexidades existentes no continente africano e seus povos. Fator que
muita das vezes leva a generalizações e homogeneizações do continente africano, de seus povos
e das diversas práticas culturais existentes no continente.
Nesta ótica, Amadou Hampâté Bâ, na sua obra Amkoulle, o menino fula, ao falar da sua
autobiografia, aborda a visão generalizadora que se tem sobre o continente africano e seus
povos e como isso invisibiliza as particularidades. Para ele, nunca se deve generalizar quando
se fala da tradição africana, pois
[...] não uma África, não um homem africano, não uma tradição africana
válida para todas as regiões e todas as etnias. Claro, existem grandes constantes (a
presença do sagrado em todas as coisas, a relação entre os mundos visível e invisível
e entre vivos e os mortos, o sentido comunitário, o respeito religioso pela mãe, etc.),
mas também numerosas diferenças: deuses, símbolos sagrados, proibições
religiosas e costumes sociais delas resultantes variam de uma região a outra, de uma
etnia a outra; às vezes, de aldeia para aldeia (Hampâté Bâ, 2021, p. 12).
Essas variações, que podem ser verificadas de acordo com a citação acima, não se
limitam de uma região a outra, de um grupo social a outro, pois elas podem acontecer de uma
comunidade para outra que, às vezes, pertencem ao mesmo grupo social.
Ainda sobre a necessidade de atentar para as especificidades no sentido de evitar
homogeneização nos estudos e nas análises, o filosofo francês Jacques Rancière, na sua obra O
conceito de anacronismo e a verdade do historiador, reflete sobre como a homogeneização
pode apagar as especificidades e bloquear as outras possibilidades de ver/analisar as coisas. O
autor faz essa reflexão a partir de uma crítica feita ao conceito do anacronismo, que na
concepção dele é anti-histórico. Ele considera o conceito de anacronismo como anti-histórico
porque, segundo ele
[...] oculta as condições mesmas de toda historicidade. história à medida que os
homens não se “assemelham” ao seu tempo, à medida que eles agem em ruptura com
o “seu” tempo, com a linha de temporalidade que os coloca em seus lugares impondo-
lhes fazer do seu tempo este ou aquele “emprego”. Mas essa ruptura mesma é
possível pela possibilidade de conectar essa linha de temporalidade com outras, pela
multiplicidade de linhas de temporalidade presentes em “um” tempo” (Ranciere,
2011, p. 47).
Por ocultar as condições de toda historicidade e basear-se sempre na homogeneização,
sem levar em consideração a existência de linhas temporais dentro de um tempo, é que, segundo
Jacques Rancière (2011), o anacronismo é anti-histórico. Este é um conceito que, segundo o
6
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autor, mata a possibilidade de pensar ao contrário e prende numa linha de temporalidade.
que para Jacques Rancière (2011) não existe uma única linha de temporalidade dentro de “um”
tempo, mas sim linhas de temporalidades. Reconhecer e levar em consideração essa existência
nas pesquisas e análises de um determinado grupo, região, país ou qualquer objeto em estudo é
fundamental, pois nos possibilita desprender da visão homogeneizante e singular das coisas, e
enxergar as complexidades existentes. Neste sentido, cientes do perigo da homogeneização e
da generalização, analisaremos a seguir a cerimônia de itchap em três comunidades mandjacus
da Guiné-Bissau, considerando suas particularidades.
3 ITCHAP NAS COMUNIDADES MANDJACUS E SUA COMPLEXIDADE
Nos diversos grupos sociais que compõem a sociedade guineense, particularmente os
mandjacus, existem diversas práticas culturais após a morte de um membro desse grupo e que
possuem papel fundamental na orientação da vida cotidiana entre os mortos e os vivos, uma
delas é a cerimônia do itchap, ritual que consiste na representação material, espiritual e política
de uma pessoa falecida pertencente a este grupo. Essa representação, segundo Virgínio Vicente
Mendes (2017), dá-se pela elaboração de uma escultura de madeira, que pode ser madeira
copaíba ou pau-de-óleo, ou seja, não é qualquer madeira que se pode utilizar para a elaboração
dessa representação dentro das comunidades mandjacus que possuem esse ritual, tampouco
pode ser esta considerada uma “simples estaca de madeira”, como se refere António Carreira
(1947, p. 90-91), pois além de ser uma representação material, ela possui um papel fundamental
no que diz respeito à espiritualidade, visto que atua na orientação da vida cotidiana entre os
vivos e os mortos.
Segundo Djocas (2023), entrevistado no Plundu, esta atuação na orientação da vida
cotidiana se verifica nos diálogos permanentes que os vivos mantêm com os mortos através do
itchap por meio de rituais, pois acredita-se que os ancestrais representados no itchap possuem
poderes de resolver diversas demandas. Nesta ótica, Tânia Correia Jaló (2016) afirma que “os
espíritos dos ancestrais que são cultuados protegem suas famílias de doenças, proporcionam
boas colheitas, facilitam os partos, facilitam boas caças, enfim, tudo que facilita a vivência das
suas linhagens” (p. 49). Ou seja, o itchap, para além de representar um ente querido falecido/a,
é um elemento de mediação da relação entre os vivos e os mortos ao qual os indivíduos recorrem
para dialogarem com seus entes queridos representados para diversos fins. O espaço onde se
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encontram os itchaps é um lugar sagrado para o processo ritualístico e elemento de mediação
do próprio processo dentro da lógica da espiritualidade local.
A cerimônia do itchap, como salientaram Paulina Mendes (2014) e Virgínio Vicente
Mendes (2017), é um processo ritualístico que envolve diferentes etapas, como: quando e quem
deve fazer o processo para a pessoa falecida; onde deve ser elaborada a imagem; o que é
necessário fazer no momento da elaboração, no lugar escolhido para tal imagem; processo para
sua fixação no local escolhido dentro da comunidade etc. Logo, não é algo que se faz quando e
como quer, pois, demanda um conjunto de etapas imprescindíveis.
Embora o ritual de itchap seja algo comum dentro das diversas comunidades mandjacus
na Guiné-Bissau, os mecanismos que consistem na sua realização, principalmente no que diz
respeito a quem deve ou não ser representado, não é algo uniforme em todas as comunidades.
A respeito disso, Paulina Gomes (2014), ao realizar um estudo comparativo entre duas
comunidades mandjacus, os mandjacus de Tchur e Babok, destacou elementos de desencontro
na realização do ritual nas duas comunidades. Segundo ela, na comunidade de Tchur, o direito
de ser representado com itchap é reservado exclusivamente aos homens, enquanto na
comunidade de Babok, para além dos homens, algumas mulheres também possuem esse direito,
porém este é limitado às primeiras esposas
5
.
A autora sublinha, ainda, que no caso da comunidade de Tchur, nem todos os homens
podem se beneficiar do itchap, pois, segundo ela,
[...] entre os manjaco de Tchur duas categorias de pessoas são excluídas do direito a
petchap
6
depois de mortas: os homens que morrem com tenra idade e as mulheres.
Com efeito, têm direito a serem homenageadas com petchap as pessoas do sexo
masculino que morreram depois de terem atingido a “maioridade” (...) A
maioridade para as comunidades manjaco é diferente da maioridade no sentido
ocidental do termo. Nas comunidades manjaco a maioridade é alcançada depois de
cumprir determinados rituais e não quando o indivíduo atinge 18 anos (Mendes, 2014,
p. 115-116).
Nas duas comunidades, compreende-se que em uma as mulheres, de forma geral, não
possuem direito de serem representadas pelo itchap, ao passo que na outra comunidade há
exceção em relação à restrição das mulheres, uma vez que as primeiras esposas possuem tal
direito. E, também, mesmo no caso da comunidade em que o direito é reservado exclusivamente
aos homens, interdições de um determinado grupo de homens que não podem ser
representados, aqueles que não atingiram a maioridade de acordo com o costume local.
5
Em diversas comunidades mandjacus na Guiné-Bissau, é permitido que os homens se casem com mais de uma
esposa. Nestes casos, aquela que casou primeiro recebe o título da primeira esposa.
6
Variação linguística da língua mandjacu para se referir ao itchap.
8
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Podemos perceber que uma hierarquia nas comunidades mencionadas no que diz respeito
aos indivíduos que devem ser representados/as com itchap. Essa organização hierárquica nos
faz levantar as seguintes questões: em que consiste o privilégio dado aos homens acerca dessa
representação em detrimento das mulheres? Por que o direito é dado apenas às primeiras
esposas e não a todas as mulheres, no caso da comunidade Babok? Questões que podem ser
respondidas em pesquisas futuras.
Sob a ótica da complexidade da prática do itchap nas comunidades mandjacus, um dos
interlocutores das entrevistas realizadas no Plundu, Alex (2023), afirma que
[...] no Plundu o direito de possuir uma representação do itchap após a morte é
exclusivo aos homens. Quem tem direito de ser beneficiado com itchap no Plundu são
os homens. É somente dos homens, ou seja, se realiza somente para os homens. As
mulheres não m nada a ver com isso. Se um homem morrer ainda jovem ele não
possui direito de imediato, mas depois de um tempo ele pode ter seu itchap (ALEX,
morador de Plundu, entrevistado em 2023).
Esse argumento de Alex acerca de quem pode ser representado ou não com o itchap no
Plundu dialoga com afirmação de outro entrevistado, Djocas (2023), que, argumentando sobre
itchap no Plundu, demonstrou que
[...] nem todos no Plundu têm o direito de possuir uma representação do itchap após
a morte. Esse direito não agrega as mulheres, pois pela regra da comunidade, somente
os homens podem ser beneficiados com a representação do itchap após a morte. E
entre os homens há uma restrição simbólica inicial. Se um homem morrer ainda cedo
(criança ou jovem), ele não pode beneficiar de imediato com a representação do
itchap, porém isso não significa que não será beneficiado, visto que depois de um
tempo ele pode ser beneficiado. Inclusive existe um que acabamos de colocar seu
itchap recentemente, ele morreu ainda jovem e agora pediu e colocamos dele. Se a
pessoa morre ainda pequeno não vão ficar itchap dele, vão deixar até quando ele pedir
depois (DJOCAS, moradores de Plundu, entrevistados em 2023).
Nesta mesma linha de argumento, Ali (2023), terceiro interlocutor, afirma que itchap
no Plundu é somente para os homens, não é algo que as mulheres têm direito e, entre os homens,
quem morre novo não pode ter itchap.
Nos argumentos apresentados pelos interlocutores acima, subentende-se que na
comunidade plundense não são todas as pessoas pertencentes à comunidade, ou seja, nem todos
os mandjacus de Plundu possuem o direito de ser beneficiado com a representação do itchap
após a morte, pois esse é reservado exclusivamente para os homens. Também se compreende
que, apesar dos homens possuírem esse direito exclusivo, restrições. Por exemplo, quando
um homem morre ainda criança, ele não pode ser beneficiado de imediato com itchap, mas
passado algum tempo, ele pode se beneficiar. Contudo, os entrevistados não deram maiores
esclarecimentos/explicações sobre como seria essa mudança ou passar do tempo para que o
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indivíduo do sexo masculino que tenha morrido ainda criança pudesse, posteriormente, ser
beneficiado.
Como podemos perceber, o Plundu possui, assim como as duas comunidades
mencionadas anteriormente, uma hierarquia na representação do itchap, que privilegia os
homens e exclui as mulheres. Contudo, um dos interlocutores, Djocas (2023), destacou que
embora o direito seja exclusivo aos homens, houve uma vez na comunidade plundense em
que uma mulher (mãe de um dos chefes máximos da comunidade que governou no Plundu na
primeira metade do século XX) foi beneficiada com a representação de itchap após a morte.
Mas, afinal, quem determina os indivíduos que devem ser ou não contemplados/as com itchap?
Por que a mãe do régulo no Plundu foi contemplada e outras mulheres não? Será que ela é, de
fato, a única mulher contemplada com itchap no Plundu? Se existem outras, por que não são
citadas? São questionamentos que não conseguiremos responder nesse artigo, mas que podem
ser aprofundados em pesquisas futuras sobre itchap no Plundu.
Os dados comparativos das duas comunidades apresentadas por Paulina Mendes e os
dados apresentados sobre o Plundu são significativos para refletir sobre a importância de levar
em consideração a existência das especificidades/particularidades e como estas podem ser
fundamentais para evitar homogeneização no processo de pesquisa e análise sobre um
determinado grupo. Observar as especificidades das duas comunidades mandjacus apresentadas
por Paulina Mendes e o caso do Plundu nos possibilita ver a prática de itchap nas comunidades
mandjacus de uma forma heterogênea e não como algo homogêneo, como costuma ser visto.
elementos de encontros, porém há também elementos de desencontros no que diz respeito a
quem pode ou não ser representado com itchap nas três comunidades. Isso demonstra a
complexidade desse ritual nos tchons mandjacus.
Nas três comunidades, com base nas informações apresentadas nos três exemplos,
podemos destacar alguns elementos de encontros no que diz respeito ao direito de ser
contemplado com o itchap após a morte. Em todas as comunidades restrição quanto às
pessoas pertencentes à comunidade que possuem a regalia de serem representados/as; os
direitos dos homens para serem beneficiados são garantidos, apesar de algumas interdições (de
alguns homens como vimos).
Por outro lado, podemos também destacar alguns elementos de desencontros. Apesar
dos homens terem a regalia nas três comunidades, diferença na forma da interdição dos
grupos dos homens “proibidos”. Na comunidade plundense, a interdição é somente na fase
inicial, mas com o tempo a pessoa pode ser beneficiada, ao passo que na comunidade de Tchur,
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a interdição é definitiva, ou seja, a pessoa não volta a ser posteriormente beneficiada. No que
se refere às mulheres, inicialmente a interdição, no entanto também diferenças. Na
comunidade de Babok, há exceção às primeiras esposas enquanto as demais continuam fora do
grupo que possui tal regalia; na comunidade de Tchur, todas as mulheres são excluídas, sem
nenhuma exceção, enquanto na comunidade plundense somente uma exceção, de acordo
com um entrevistado.
Compreender essa complexidade, levando em consideração as especificidades locais, é
fundamental para evitar uma homogeneidade desse ritual nas comunidades mandjacus. Atentar
às especificidades, evitando assim a homogeneização e generalização é pensar outras
possibilidades e não ficar amarrado por uma perspectiva que uma coisa só. Isso nos
possibilita enxergar os laços de que, por mais que o itchap seja uma cultura mandjacu, praticado
por muitas comunidades pertencentes a este grupo, sua forma de ser e funcionar não é
homogênea em todas elas.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste artigo buscamos fazer uma releitura do ritual de itchap em três comunidades
mandjacus, Tchur, Babok e Plundu, e discutir sobre como a homogeneização pode apagar suas
especificidades. Discutimos a importância da compreensão das particularidades para o estudo,
no sentido de evitar generalizações e homogeneizações das coisas. Neste sentido, ao
analisarmos o ritual de itchap nas três comunidades mandjacus, podemos perceber que o
referido ritual é prática comum nas três, ele faz parte do costume local dessas comunidades
mandjacus, porém a sua forma de existir e funcionar nesses três tchons possui algumas
diferenças, principalmente na questão do direito à representação, ou seja, quem pode ou não ser
representado/a.
Com base nos dados analisados, percebe-se uma complexidade desse ritual nos três
casos, pensando a questão do direito de ser contemplado/a com itchap após a morte. Para os
mandjacus de Tchur, somente os homens podem usufruir da representação, porém nem todos
os homens, uma vez que aqueles que não atingiram a maioridade do ponto de vista local não
podem ser contemplados. Na comunidade de Babok, o direito não é exclusivo aos homens,
visto que algumas mulheres, as primeiras esposas, possuem o direito de ser contempladas.
no caso do Plundu, percebe-se que o direito é exclusivo aos homens, porém houve uma
mulher que foi representada.
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Portanto, em síntese, as três comunidades pertencem ao mesmo grupo no território
guineense, o mandjacu. Elas se localizam na mesma região e praticam o mesmo ritual, contudo
quando se analisa tal ritual nas diferentes comunidades, considerando as particularidades,
percebe-se que, por mais que o ritual seja uma prática cultural das três comunidades que
pertencem num bloco macro ao mesmo grupo social, sua forma de funcionar é diferente. Essas
especificidades rompem com a visão homogênea e generalizadora que se tem sobre esse ritual
no grupo mandjacu.
Por fim, os pontos de encontros e desencontros que apareceram na análise de itchap nas
três comunidades exemplificam a não homogeneidade do ritual no grupo estudado e as várias
formas de existir e de funcionar no mesmo grupo. E essas formas de existir e funcionar é o que
caracteriza a heterogeneidade do grupo mandjacu.
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Informações Adicionais
Biografia
profissional
Doutorando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade
Federal do Ceará UFC. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior CAPES. Membro do grupo Caldeirão:
confluências anticoloniais (CNPq/História/UFC). Mestre em História pela
Universidade Federal da Grande Dourados UFGD. Licenciado em História
pela Universidade Federal da Integração Internacional da Lusofonia Afro-
Brasileira UNILAB. Bacharel em Humanidades pela Universidade Federal
da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira UNILAB.
Endereço para
correspondência
Avenida da Universidade, 2853, Benfica, Fortaleza - CE, CEP 60020-181
Financiamento
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CAPES
Conflito de
interesse
Nenhum conflito de interesse foi declarado.
Aprovação no
comitê de ética
Não se aplica.
Preprint
O artigo não é um preprint.
Método de
avaliação
Revisão por pares anônima dupla (Double anonymous peer review).
Direitos
autorais
Copyright © 2025 Salifo Danfa
Licença
Este é um artigo distribuído em Acesso Aberto sob os termos da
Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.
Histórico
editorial
Data de Submissão: 13 de outubro de 2025
Data de aprovação: 10 de dezembro de 2025