depois. Eu não sei dizer se é enfermeira ou se é técnica. Eu só lembro da forma horrível
que eu fui tratada. Além de passar pela situação que eu tinha acabado de passar. O
meu psicológico não estava bem. Porque eu só estava pensando se pior pudesse
acontecer. E se tivesse acontecido pior. Aí eu fui recebida dessa forma que ela me
tratou. Simplesmente como quem não queria me tocar, né. Tipo, quem tem nojo de
tocar numa coisa assim. Eu fiquei observando, olhando. Me tratou com uma
indiferença.
Amari (2025), estudante caboverdiano, compartilhou relato semelhante:
Eu estava precisando de uma informação para chegar na parada de ônibus, [...] um
senhor que estava lá, e eu lá perguntando sobre o lugar e tal, e aquele senhor
simplesmente me ignorou, [...] Ele não olhou nem na minha cara, sabe. E a gente vê
muito, tipo, os olhares da pessoa sobre nós, [...]. Tipo, quando chega um preto, [...]
senta no ônibus, tem espaço ao seu lado, tem gente que, por exemplo, levanta, e você
está sentado no ônibus, tem espaço ao seu lado, tem gente que chega e vê você sentar,
ele prefere viajar em pé, do que sentar do seu lado, entendeu.
Além disso, muitos estudantes relataram falas carregadas de estereótipos que revelam a
visão negativa sobre a África e seus povos, que induzem frustrações e respostas sarcásticas:
“Eu nadei e atravessei o Atlântico para chegar no Brasil”; “Eu vivia numa selva sim, e morava
em uma árvore, inclusive o agente da embaixada do Brasil em meu país também habitava nesses
locais, e eu subia a árvore para solicitar visto de estudante com o embaixador”; “Eu já vi um
leão sim, sentava até na calçada com eles”; “Sim, todos nós passamos fome, olha como estou
desnutrido”. Esses estereótipos, baseados em imagens distorcidas propagadas pelas mídias
sociais, servem para inferiorizar, constranger e criar barreiras aos corpos africanos em espaços
ocupados majoritariamente pela branquitude. O epistemicídio, dentro e fora da universidade,
aparece como outra face dessa exclusão, negando e ridicularizando os saberes africanos em
nome de uma suposta supremacia branca. Em síntese, ser preto não é uma condição nova para
os estudantes africanos. A percepção da tonalidade da pele existe desde os contextos coloniais.
Contudo, muitos entram em choque cultural ao perceber a negatividade associada à cor da pele,
ao fenótipo, ao corpo, à sexualidade, à cultura e ao continente no Brasil, aspectos que resultam
em desvantagem nas relações sociais, seja na universidade, no emprego, no lazer ou no
atendimento à saúde. Nesse sentido, tornar-se negro no Brasil é inevitável. Como afirma Neusa
Santos Souza (2021, p. 115):
É que, no Brasil, nascer com a pele preta e/ou outros caracteres do tipo negroide e
compartilhar de uma mesma história de desenraizamento, escravidão e discriminação
racial não organizam, por si só, uma identidade negra. Ser negro é, além disso, tomar
consciência do processo ideológico que, através de um discurso mítico acerca de si,
engendra uma estrutura de desconhecimento que o aprisiona numa imagem alienada,
na qual se reconhece. Ser negro é tomar posse dessa consciência e criar uma nova
consciência que reassegure o respeito às diferenças e que reafirme uma dignidade
alheia a qualquer nível de exploração (Souza, 2021, p. 115).