Revista Em Perspectiva, Fortaleza, v. 11, e95127, p. 1-15, 2025.
ISSN 2448-0789.
Africanidades e Histórias da África:
contribuições a partir do Ceará
RESUMO
O seminário do Departamento de História (UFC/2025), com o
tema “África, Africanidades e Cultura Negra” foi a ocasião de
um protagonismo discente muito louvável, de várias atividades e
de um intercambio muito positivo com um grupo de alunos e
professora da UNILAB. A qualidade do evento, voltado para a
integração entre a graduação e a pós-graduação, e que se
desdobrou em mesas redondas, GTs, oficinas, Mostra de
Cinema... é fruto dessa interlocução que rendeu também esse
dossiê da revista Em Perspectiva (História/UFC) chamado
“África e Africanidades no Ceará”. O presente artigo pretende,
num primeiro momento, trazer alguns elementos da trajetória do
evento, antes de apresentar os diversos artigos que compõem o
dossiê, sublinhando a riqueza e a originalidade de ambas
realizações.
Palavras-chave: Africanidades. Ceará. Seminário.
Africanities and African Histories: contributions from
Ceará.
ABSTRACT
The seminar of the History Department (UFC/2025), with the
theme of “Africa, Africanities and Black Culture” served as a
commendable example of student protagonism of several
activities as well as a very positive interchange with the
UNILAB group of students and teacher. The event quality,
focused on the integration between the graduation and post-
graduation, the same way that it expanded itself on roundtables,
GTs, workshops, film festival, is the result of the interaction
which also provided this dossier from the Em Perspectiva
(História/UFC) magazine, called “África, Africanidades no
Ceará”. This article intends, at the beginning, to bring some
elements from the event pathway, before presenting the number
of articles which compose the dossier, highlighting the wealth
and the originality of both accomplishments.
Keywords: Africanities. Ceará. Seminário.
Franck Ribard
Universidade Federal do Ceará,
Departamento de História, Fortaleza,
CE, Brasil
franckribard@hotmail.com
orcid.org/0000-0002-8039-2707
periodicos.ufc.br/emperspectiva
revistaemperspectiva@gmail.com
@emperspectiva
ARTIGO ORIGINAL
Franck Ribard
2
1 INTRODUÇÃO
A ideia da realização da retomada do Seminário de História do departamento de história
da UFC nasceu, no começo de 2025, no Centro Académico Frei Tito de Alencar que na
interlocução com a professora Lara de Castro decidiram escolher o tema do Dia da África como
leme do evento. Abrindo um pouco, foi definido, de forma inédita no departamento, pelo tema
“África, Africanidades e Cultura Negra” a ser realizado de 19 a 23 de maio do mesmo ano.
Entrando no time, decidi associar ao evento a programação da XII Mostra de Cinema Africano
(UFC) que me parecia se encaixar de forma adequada.
Esse pequeno artigo pretende historicizar um pouco o evento, em particular a Mostra de
Cinema Africano e, sobretudo, dialogar e introduzir as produções que compõem esse dossiê e
que encontrem as suas origens em participações nas mesas e GTs do evento.
Em preambulo, me parece importante salientar o protagonismo essencial dos discentes
graduando na organização do Seminário. De fato, se a experiência docente e de forma maior,
universitária, durante a pandemia (2020-2022) sofreu uma série de tensões, obrigando às
redefinições nas metodologias de ensino e à adequação em particular ao ensino remoto (já que
o EAD, por falta de formação, foi de difícil realização), a experiência e a prática discente
encontraram-se também impactadas. Um dos efeitos claros do lockdown foi o esvaziamento da
universidade e um claro distanciamento entre os próprios discentes, como entre os discentes e
os docentes, separados por telas de computadores muitas vezes sem o recurso à câmera. O
resultado, foi que promoções de alunos que entraram na universidade em 2020 e 2021 não
tiveram convivência entre eles, mal se conhecendo e não habituados com os espaços e os
equipamentos da universidade, bem como não beneficiando do apoio, do aconselhamento e do
ensinamento das turmas anteriores, em relação às práticas, comportamentos sociais e
profissionalizantes habituais numa universidade pública. Em 2022, de volta às aulas presenciais
encontramos alunos que não se conheciam, ou muito pouco, que já estavam na metade do curso
e que descobriam os espaços físicos da universidade.
Os elementos apresentados buscam explicar o sentimento de relativo esvaziamento da
universidade, desde a pandemia, por parte dos nossos alunos que tendem a “sumir” depois da
aula, não prestigiando os eventos académicos na parte da tarde. Mesmo se existem, claro,
contingências ligadas às obrigações laborais necessárias para se manter, não impedem de fazer
um constado alarmante: a perda, talvez momentânea, de uma cultura académica baseada no
Africanidades e Histórias da África
3
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viver/fazer juntos e que via o espaço universitário como um campo de possibilidades de
atividades importantes na formação académica e humana.
2 SEMINÁRIO DE PESQUISA DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA (UFC/2025)
Neste quadro, a ação do Centro Acadêmico do Curso de História da UFC, Gestão
Memórias do Futuro (2024-2025)
1
, dentre outras, aparece como muito importante, partindo de
um movimento autônoma de resgate de um evento tradicional do departamento (o Seminário
de Pesquisa), buscou-se, numa visão muito madura, mobilizar a comunidade estudantil da
graduação em história em torno da perspectiva de apresentar trabalhos académicos assim com
criar uma conexão, através da ideia da pesquisa com os pós-graduandos (mestrado e doutorado)
do PPPGHist/UFC.
Vale lembrar que o seminário de pesquisa do departamento, criado em 2002, foi um
evento central da programação institucional sobretudo até 2010 (IX edição em 2011) - outros
eventos (“história e Historiografia” ...) entrando na agenda na década seguinte mesmo se em
2022 aconteceu a sua XII edição. Nesse sentido, a edição de 2025, desta vez organizada pelos
alunos, continuou a privilegiar a articulação entre graduação e pós-graduação com princípio de
funcionamento. Como o tema era “Africanidades”, foram mobilizados os mestrandos e
doutorandos africanos do Programa de Pós-Graduação em História (com Área de Concentração
em História Social), assim como os cotistas que, constituem hoje uma “linha” de pesquisa
consolidada que se encontra reunida, em particular, no grupo de pesquisa “Caldeirão
Confluências Anti-coloniais” (PPPG História/UFC). Na mesma linha, a partir da contribuição
dos docentes envolvidos
2
, professores Lara e Franck, foram articuladas colaborações com
discentes e docentes (profes. Natalia Cabanillas, Ricardo Ossagô (UNILAB), Diltino Ferreira)
da que permitiram dar uma dimensão interuniversitária, e o fomento para um grande encontro
cultural. São eles que estão contribuindo com artigos nesse dossiê.
Nesse sentido os objetivos foram alcançados e o protagonismo, o leadership da galera
do CA nunca foram desmentidos em todas as fazes do processo, tendo registrado, por exemplo,
representação na composição de todas as mesas redondas. O incentivo e a mobilização dos
1
Membros da gestão do Centro Aadêmico: Ryann Nunes de Freitas, Augusta Beatriz Costa Viana, Jose Davi de
Lima Tavares, Ana Leticia de Araujo Nascimento, Gabriele Lopes Barbosa e Marjorie Goncalves.
2
A participação docente se restringiu a legitimar o evento (cadastro enquanto o projeto de extensão:
(2025.EV.0973) “Semana da História: África, africanidades e cultura negra” e aconselhar na montagem e definição
do formato de atividades tais como: mesas redondas, rodas de conversas, grupos de trabalhos e oficinas.
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4
discentes da graduação e da pós-graduação, revelando-se também muito frutífero já que foram
registrados mais de 100 inscritos dos quais apresentaram 61 trabalhos nas modalidades de GTs
e Rodas de Conversa. Em relação às 3 oficinas participaram 89 alunos.
Em paralelo à realização das atividades académicas propriamente ditas e fazendo eco à
mesa redonda da terça feira intitulada “Africanidades na Pós-Graduação” e que reuniu três
doutorandos bissauguineense e um cabo-verdense, foi desenvolvida a XII Mostra de Cinema
Africano, com o subtítulo “Senegâmbia”, sobre a qual versarei de forma mais específica.
2.1 Mostra de Cinema Africano (UFC): “Senegâmbia”
Realizada no auditório Raquel de Queiroz e além de alguns problemas técnicos, a
Mostra não foi favorecida pelos horários de projeção e de debates em torno dos filmes. Assim,
começando teoricamente as 11h, as sessões atrasaram várias vezes depois desse horário por
conta das mesas redondas que se alongaram, empatando amplamente no horário de almoço. Em
termo de adaptação, a programação, inicialmente bem mais amplia, teve que ser resumida à 7
filmes, quase todos de diretores guineenses ou voltando-se para a Guiné-Bissau. Assim, pode-
se dizer que o recorte senegambense, que pode variar segundo as definições dessa categoria
histórica da África Ocidental
3
, foi amplamente reduzido para se concentrar na parte inerente à
Guiné Bissau e ao Cabo Verde (um filme). Mesmo assim, pela qualidade dos filmes e dos
debatedores e o interesse manifestado pelo público, as sessões, no conjunto da obra foram
bastantes animadas e interessantes.
Assim, no primeiro dia da Mostra, tivemos a oportunidade de ver dois filmes diferentes
e de diretores jovens. Quero falar da diretora e militante brasileira, de origem coreana, Iara Lee
e do seu filme tão instigante intitulado Unite for Bissau (Nô Kumpu Guiné). Agroecologia e
feminismo na Guiné Bissau (Guinea-Bissau/ Portugal/ Brazil/ USA, Cultures of Resistance
films by Caipirinha Productions, 2023, Doc., 40 min) que apareceu como uma exceção em
3
Sobre discussões sobre a categoria de Senegâmbia, ver Malacco, Felipe Silveira de Oliveira. História social do
comércio na Senegâmbia [manuscrito]: espaço e agência local (1580-1700) / Felipe Silveira de Oliveira Malacco.
2023. 286; MOTA, Thiago H. Guests in Foreign Lands: Land Control and Ownership in Greater Senegambia in
the Face of the Portuguese Presence (16th and 17th Centuries), in Manuel Bastias Saavedra (editor). Ownership
Regimes in the Iberian World (15001850): The Normative Role of Kinship and Community. Leiden: Koninklijke
Brill, 2025, p. 78-111; COSTA DIAS, Eduardo e DA SILVA HORTA José : La Sénégambie: un concept historique
et sociocul turel et un objet d'étude réévalués. Mande Studies 9 (2007) pp. 9-19; BARRY, Boubacar. A Senegâmbia
do século XV ao século XX: em defesa de uma história sub-regional da Senegâmbia. Soronda: Revista de Estudos
guineenses, v.9, p. 3-21, 1990; BARRY, Boubacar. Senegâmbia: O desafio da História Regional. SEPHIS - Centro
de Estudos Afro-Asiático, Rio de Janeiro, 2000.
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relação à necessária origem africana dos diretores de filmes projetados na Mostra de Cinema
Africano. Iara Lee, uma figura incontornável da cena underground nacional e internacional
apresenta-se como “ativista, cineasta e fundadora/diretora da Cultures of Resistance Network.
A organização promove a solidariedade global, conecta e apoia revolucionários, educadores,
agricultores e artistas para construir um ambiente mais justo e um mundo mais pacífico através
da resistência criativa e ação não-violenta! (Culture of Resistance Films, s/d, s/p). Iara Lee
filmou/produziu diversos documentários ao redor do mundo e dezenas de curtas-metragens.
Assim, o catálogo da Culture of Resistance Network é bem fornecido e nosso evento teve o
privilégio de receber uma cópia do filme e uma autorização de projeção, de forma graciosa, por
parte da produtora (Culture of Resistance Films, s/d, s/p). Quanto ao documentário, totalmente
voltado para os sujeitos e repleto de entrevistas e de imagens das mulheres guineenses, servidas
por uma fotografia impecável (como sempre na obra da Lee!), ele aborda em particular a
jornada de mulheres que rompem as normas, organizando-se entre elas em torno da
agroecologia e que desafiam o patriarcado, autonomizando-se e chegando à autossuficiência
pelo trabalho e lutando contra a mutilação genital feminina. Nas lentes da Iara Lee, surgem
então essas mulheres, es, avôs, cheias de energia e cujo protagonismo feminista constitui um
modelo para uma juventude em construção, num legado original de Amilcar Cabral que
colocava a questão do direito das mulheres no centro da luta pela independência.
O outro filme projetado num primeiro dia foi Omi Nobu (O Homem novo. Cabo Verde,
Bélgica, França, Sudão, doc., 2023, 107 min), de Yuri Ceunick. É um documentário que foi
premiado com o Galardão” de ouro, seção documentário, na 28ª edição Festival Panafricano
de Cinema e Televisão de Ouagadougou (FESPACO) em 2023. Conseguimos o acesso a esse
filme, como outros da Mostra, através de outra parceria como Institut Français que disponibiliza
filmes através da plataforma IFcinema. O documentário, acompanha num ritmo lento, servido
por uma música langorosa, a vida e as interrogações de Quirino, de 76 anos que, abandonado
num vilarejo deserto, perdido entre mar e montanha, onde nasceu e do qual é o último habitante
desde 1984. Quirino interroga-se sobre o seu futuro, sobre a necessidade ou a recusa de deixar
esse pedaço de terra onde está e sempre foi agarrado. Passam então na sua mente e nas lentes
do diretor Ceunick, outras imagens, de outros tempos, da inocência da juventude, no tempo
bom quando Ribeira funda era uma comunidade. O tempo também do trauma quando, parece,
uma pedra grande se soltou da montanha para se abater na comunidade, selando o destino e
marcando o sino da migração coletiva. Mas Quirino ficou, sozinho, nessa paisagem
Franck Ribard
6
deslumbrante, servida no filme por uma fotografia primorosa e, nessa natureza montanhosa
seca, de casas de pedra abandonadas e de mar bravíssimo da Ribeira Funda (na ilha de São
Nicolau, em Cabo Verde) onde as pessoas, quando estavam presentes e segunda a fala de
Quirino “tinham que dar o melhor de si”. Um filme sobre o destino, em soma, e sobre a coragem
e abnegação humana do povo de São Nicolau que rendeu um debate rico, nesse primeiro dia da
Mostra, junto aos comentários e perguntas sobre o filme da Lara Lee Unite for Bissau. Nesse
sentido a profa. Natalia Cabanillas (Unilab), enquanto africanista e especialista dos movimentos
de mulheres, conduziu de forma muito qualificada e sensível o debate, levando a discussão
coletiva a temas importantes, entre os quais, do protagonismo feminino e da relação com a
natureza em Cabo Verde.
A partir do segundo dia, mergulhamos no cinema de dois gigantes do cinema guineense,
Flora Gomes e Sana Na N´hada, ambos diretores mandados, na época da luta pela libertação,
por Amilcar Cabral, se formar na escola de cinema de Cuba (Instituto Cubano del Arte e
Industria Cinematográficas (ICAIC). Assim, no segundo dia, foi projeto o filme clássico de
Sana Na N´hada, Xime (Guiné Bissau, Cabo Verde, Holanda, França, 1994, 95 min) que retrata
o percurso de Raul, militante do PAIGC, que volta na sua aldeia Xime no Bafatá, para começar
a mobilizar o povo na perspectiva da luta pela independência. Envolto com a rigidez das
tradições, da autoridade paternal e com a repressão crescente dos “tugas”, Raul e o seu irmão
mais jovem Bedel, em ruptura com a sociedade, procuram os seus caminhos nesse período de
incertezas e de dúvidas constituído pela transição para o conflito armado durante a luta pela
independência. Domingas da Silva, professora substituta do curso de graduação em
Antropologia (IH/Unilab) e doutoranda em Antropologia Social pelo Programa de Pós-
Graduação em Antropologia Social (PPGAS/UFG), Bissau-guineense, conduziu com maestria
o debate pós-projeção abordando a problemática central da memória da luta pela independência
no contexto do seu país.
No terceiro dia foi exibido o filme Po di Sangui (Guiné Bissau, France, 90 min) de Flora
Gomes, rodado em crioulo guineense, que tem o formato de um conto intemporal, uma história
forte, onde Dou, o gêmeo que, segundo a tradição, desapareceu ao nascer, faz erupção no
vilarejo as vezes evanescente, depois da morte brutal do seu irmão gêmeo Hamidou e é levado
a ocupar o lugar social dele na comunidade. Ancorado numa visão onde o destino do coletivo
é ligado organicamente com os ancestrais proporcionando até um tipo de êxodo coletivo do
tipo bíblico -, mas também com a natureza, as arvores cujas raízes mergulham no passado, o
filme é uma celebração das gerações e da continuidade da vida. Salifo Danfa, doutorando no
Africanidades e Histórias da África
7
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nosso PPG em de História Social, guineense, revelou toda a sua sensibilidade de historiador da
cultura do seu país, ao debater a obra prime de Flora Gomes.
No quarto dia, estava programado o último filme do diretor veterano de Guiné Bissau,
Sana Na N´hada, Nome (França/Guiné Bissau/Portugal/Angola, 2024, 117 min) que, inclusive
chegou a ser apresentado na Mostra ACID do festival de Cannes. Infelizmente, por razões
técnicas - a mesa anterior tinha realmente extrapolado o horário e na hora projeção, o som
não saiu direto o filme, que eu tinha ficado de debater e que tinha sido conseguido através de
parceria com o Institut Français, não teve condições de ser apresentado. Uma pena. Sobretudo
pela qualidade do filme cuja ação acontece, como em quase toda a obra do diretor, durante a
guerra de libertação, momento fulcral na história da sociedade guineense contemporânea. Nome
-que quer dizer homônimo, aquele que tem o nome de todos e então, dentro do filme, um
personagem que poderia ser qualquer um - o herói do filme, deixe a sua família e a sua aldeia
para se investir na guerra violenta contra o opressor português. Voltará em herói, mas o tempo
de paz, depois da guerra, é outro e os sonhos se transformam em amargura e cinismo. Vale
notar o realismo mágico e o poético na obra, permeada de aparições de um espírito que,
certamente alter ego do diretor, observe e os homens errar os caminhos. “O mundo está cego,
não te deixa cegar", sussurra o espírito à Nome. A África tradicional está bem presente, como
o tambor “Bombolo” que inicia o filme e segue ao longo do roteiro, chamando e mobilizando
para a guerra. Imagens de arquivos, das atualidades guineense da época filmadas por Na
N´hada, Gomes e outros, são inseridas dando um contraponto documentário na narrativa. Frente
às utopias e ao espírito da revolução a responsabilidade é coletiva. Qualquer um tem que
assumir a sua parte no risco de ver o sonho de um país libre e justo, cair no buraco.
No último dia da Mostra, fomos brindados por dois filmes diferentes, mas que, de
alguma forma, tem o ponto em comum de valorizar o protagonismo feminino. Mortu Nega
(Aqueles que a Morte não quis, Guiné Bisssau, França, 1988, 85 min), uma obra clássica do
veterano Flora Gomes, retoma o contexto traumático da linha de frente na guerra de libertação.
Dimingas (interpretada pela atriz Bia Gomes), se recusa a deixar o seu marido Sako sozinho na
frente. Por isso, acompanha um comboio de reabastecimento que, atravessando o país, revela a
miséria e as ruinas deixadas pela guerra. Quando encontra ele, num campo, é ferido, quase
moribundo. Sobrevive, mas diminuído e mesmo quando chega a paz tão desejada, apesar dos
risos e dos choros, numa temporada de seca, tem que reaprender a viver, continuar a lutar nessa
nova vida de depois da guerra. Homenagem profundo, em crioulo guineense, ao protagonismo
Franck Ribard
8
fundamental das mulheres durante a guerra, nem sempre reconhecido, Mortu Nega, servido pela
interpretação radiante de Bia Gomes, é também uma ode à vida. O outro filme, um curta
metragem, muito mais recente e de feitura mais artesanal é a obra da guineense Banuma Pinto.
Corpo público (Guiné Bissau, Brasil, 2021, 15 min) que, retomando o motivo presente no
filme de Flora Gomes, Po di Sangui, relativo à gemelidade nas sociedades tradicionais, e ao
fato de tirar um dos gêmeos do convivo familial no nascimento, insiste sobretudo sobre a
condição feminina. A protagonista principal, na sua gravidez continua tomando conta de todas
atividades físicas corriqueiras (buscar água, madeira, catar mariscos...), o seu primeiro parto
acontecendo exatamente no meio do caminho, na natureza. Para complicar, dos seus dois
gêmeos, é a sua filha que é raptada por ser abandonada na natureza e, finalmente descoberta e
adotada por outra família. 18 anos depois, o acaso faz as crianças se conhecerem e gerar um
imbróglio social. Mas a conversa pacífica embaixo na árvore sagrada (poilão?) permite
apaziguar os ânimos e resolver os problemas. Adilson Victor Oliveira, doutorando, na época, e
hoje doutor pelo programa de pós-graduação em História social da UFC, guineense, foi
convidado para debater os dois filmes e encerar a nossa 12ª Mostra de Cinema Africano (UFC)
“Senegâmbia”. Pesquisador da cultura e da história da Senegâmbia, Adilson contribui,
dialogando com a plateia, com reflexões valiosas e precisas relativas aos dois filmes. Em
particular e apesar da diferença de formato e de tipo de filmes, enfatizando a questão importante
do protagonismo feminino e do seu papel central na sociedade guineense.
De fato, a Mostra funcionou bem por conta da participação dos convidados que
contribuíram também apresentando as suas pesquisas individuais em diferentes mesas redondas
do evento. Dessas palestras, nasceram os artigos que compõem esse dossiê que vou, por ora,
introduzir.
3 DOSSIÊ “ÁFRICA E AFRICANIDADES NO CEARÁ” DA REVISTA EM
PERSPECTIVA (PPGH/UFC)
Os artigos que tenho a responsabilidade de apresentar e que compõem esse dossiê
trazem, na diversidade dos temas abordados, a marca de percursos migratórios e de experiências
singulares. Talvez, o ponto em comum encontrando-se no fato de terem sido escritos aqui no
Ceará, mesmo quando tratam do continente africano ou os autores sendo africanos.
O tema da migração, da migração atlântica que traz estudantes africanos de horizontes
diversos para a cidade de Redenção (Ceará) como alunos da UNILAB (Universidade da
Africanidades e Histórias da África
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Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira) constitui o pano de fundo do artigo de
Jarciela Pitiandra Lima Correia Sá que desenvolve com muita propriedade e sensibilidade a
autora sendo inclusive estudante guineense - a problemática central de “O “tornar-se negro”
para o estudante africano e a africana no Brasil: racialização, racismo e construção
identitária, que me parece integrar o rol de preocupações cientificas abordadas na sua
dissertação recém defendida no MIH (UNILAB)
4
. De fato, constitui-se como elemento
marcante da trajetória desses jovens africanos no Brasil, o fato de serem percebidos e de serem
obrigados a se pensar segundo o prisma racialista que domina nos processos de
nomeação/categorização social dos indivíduos. Identificados como pretos e estrangeiros - duas
categorias que, quando conjugadas, representam o reforço do estigma e do preconceito são
levados, na experiência amarga do racismo estrutural, a experienciar o fato de ser negro no
Brasil. O mais preocupante é que o fenômeno se mostra adoecedor: a racialização impõe a
esses sujeitos a necessidade de redefinir sua autoimagem em um cenário de exclusão, o que
pode resultar em ansiedade, baixa autoestima e sobrecarga emocional”.
Ana Raquel Silva Reginaldo parte também da sua própria experiência de estudante na
UNILAB para refletir sobre Ser mulher negra estudante na Unilab/CE: interseccionalidade e
desafios. Trazendo à tona na perspectiva da escrevivência (Conceição Evarista, 2011) - a sua
trajetória e a as múltiplas dificuldades enfrentadas para a permanência nos cursos de
Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades (BHU), de sociologia e depois no mestrado
(MIH), ela dialoga com colegas (entrevistas), relatórios da UNILAB, notas de campo (2024-
2025) e resultados do seu mestrado em andamento. Pautada na interseccionalidade (Kimberlé
Crenshaw, 2002), a sua análise revela uma consciência aguda dos processos envolvidos em
Redenção (CE), ressaltando, entre outros exemplos a importância dos mecanismos de
resistência ancorados na solidariedade, nas “redes de apoio e pertencimento” e no “afroafeto”,
vivenciados em espaços e grupos específicos de mulheres negras.
“Resultado parcial dentro do projeto de pesquisa Inovação curricular e pedagógica
através dos materiais didáticos: relações de gênero na história de África” (2023-25)
Unilab/CNPq PIBITI, o artigo de Natalia Cabanillas e Suzana Manuel Jorge, intitulado
Representações sobre África nos livros didáticos: uma análise interseccional aborda com muita
precisão e competência o universo do livro didático, aqui a partir do recorte dos livros de
4
“Racismo e sofrimento psíquico de estudantes africanos na Unilab-Ce”. Mestrado Interdisciplinar em
Humanidades (MIH/UNILAB), Redenção, 2025.
Franck Ribard
10
história do antigo e novo ensino médio utilizados nas escolas do Maciço de Baturité (Ceará).
Fruto de um diagnóstico amplamente descrito, a pesquisa, que analisa os conteúdos do sumário
e a estrutura do livro do estudante e do professor, identificando os registros e o tratamento
ligados à história da África, às relações de gênero considera também “as formas nas quais
problemáticas de desigualdade de gênero são tratadas, assim como questões raciais no Brasil”
para subsidiar a perspectiva interseccional defendida. Os resultados impressionantes precisam
ser conferidos e constituem um material valioso, pela abrangência e precisão da avaliação, na
perspectiva da gestão blica educacional e da política do livro, que devem, sempre, buscar
superar as lacunas (“inclusão de gênero ao discutir a história de África em materiais
didáticos”!), podendo, segundo as autoras, contar nesse quesito com a contribuição das
instituições de educação superior e em particular da UNILAB.
Por fim, o olhar do migrante pode se voltar sobre a sua terra de origem, terra amada que
é aquela que melhor conhece e em relação a qual ele é um testemunho privilegiado que pode se
transformar em pesquisador. É o caso de Domingas da Silva, antropóloga guineense, que nos
brinda com um artigo intitulado Tribalismo linguístico no pleito eleitoral de 2019-2020 em
Guiné-Bissau, fruto da sua dissertação em antropologia defendida na UNILAB em 2022.
Baseada, em particular, na observação das lives, vídeos, notícias nas redes sociais, debates
políticos, artigos de opinião e outros, voltadas para as eleições presidenciais 2019-20 em Guiné
Bissau, a pesquisa relaciona as tendências observadas com o contexto histórico e a problemática
linguística no país. A análise segue o enfrentamento verbal dos candidatos e os seus seguidores,
especificamente focando os termos do debate relativos ao chamado “tribalismo” (Archie Mafeje
(1971)) linguístico que, no período, ofuscou “o propósito da eleição no prestígio linguístico da
língua portuguesa e do crioulo, o que gerou divisões e polarização na sociedade entre os
apoiantes do discurso do candidato em crioulo e em português”. A argumentação geral aponta
em direção à necessidade de criação de mecanismos jurídicos visando à legalização formal das
línguas étnicas e do crioulo, “promovendo a valorização e igualdade linguística”.
O trabalho de Salifo Dantas, Uma releitura de cerimônias culturais do povo mandjacu
da Guiné-Bissau: o caso de itchap, por sua vez, aborda, na linha temática da pesquisa de
doutorado em história social (UFC) que ele está realizando, a questão dos rituais fúnebres a
cerimônia de itchap, elaboração de imagem para representar, de forma material e espiritual, um
indivíduo após a morte - na etnia mandjacu do seu país, mais precisamente nas comunidades de
Tchur, Babok e Plundu. Mesmo em andamento, a pesquisa que articula aspectos fornecidos
pelo levantamento bibliográfico sobre o tema e dados coletados num trabalho de campo
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efetuado na comunidade plundense - onde foi utilizada, entre outras, a técnica de djumbai
(conversa/diálogo de forma livre) - identifica diferenças entre as comunidades quanto ao
perfil (sexo biológico, idade, status social...) dos indivíduos que devem ser ou não
contemplados/as com itchap. Assim, esse ritual, apesar de se constituir, de forma geral,
enquanto prática característica da etnia mandjacu, é também um indicador da variabilidade e da
existência de especificidades comunitárias que rompem com uma visão homogeneizadora.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
De fato, a leva dos artigos que compõem esse dossiê que podemos considerar, em larga
medida, fruto de uma parceria antiga entre o grupo Caldeirão: confluências anticoloniais
(CNPq/História/UFC) e o grupo coordenado pela professora Natalia Cabanillas: Estudos
Feministas Africanos (CNPq/MIH/UNILAB), que se expressou no evento, revela a sua
originalidade, diversidade e sobretudo a qualidade das pesquisas em curso que prometem
resultados de destaque. Acompanharemos...
REFERÊNCIAS
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sua proposta de uma ontologia combativa. Soc. Estado. 2015.
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Informações Adicionais
Biografia
profissional
Professor associado, co-coordenador do grupo de pesquisa Caldeirão:
Confluências Anticoloniais (CNPq/HISTÓRIA/UFC). Especialista em
História da África.
Endereço para
correspondência
Av. da Universidade, 2700 (CH 2 Bloco do CAEN) CEP: 60015-290,
Benfica, Fortaleza-CE
Conflito de
interesse
Nenhum conflito de interesse foi declarado.
Aprovação no
comitê de ética
Não se aplica.
Preprint
O artigo não é um preprint.
Método de
avaliação
Revisão por pares anônima dupla (Double anonymous peer review).
Direitos
autorais
Copyright © 2025 Franck Ribard
Licença
Este é um artigo distribuído em Acesso Aberto sob os termos da
Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.
Histórico
editorial
Data de submissão: 13 de outubro de 2025
Data de aprovação: 10 de dezembro de 2025