nosso PPG em de História Social, guineense, revelou toda a sua sensibilidade de historiador da
cultura do seu país, ao debater a obra prime de Flora Gomes.
No quarto dia, estava programado o último filme do diretor veterano de Guiné Bissau,
Sana Na N´hada, Nome (França/Guiné Bissau/Portugal/Angola, 2024, 117 min) que, inclusive
chegou a ser apresentado na Mostra ACID do festival de Cannes. Infelizmente, por razões
técnicas - a mesa anterior tinha realmente extrapolado o horário e na hora dá projeção, o som
não saiu direto – o filme, que eu tinha ficado de debater e que tinha sido conseguido através de
parceria com o Institut Français, não teve condições de ser apresentado. Uma pena. Sobretudo
pela qualidade do filme cuja ação acontece, como em quase toda a obra do diretor, durante a
guerra de libertação, momento fulcral na história da sociedade guineense contemporânea. Nome
-que quer dizer homônimo, aquele que tem o nome de todos e então, dentro do filme, um
personagem que poderia ser qualquer um - o herói do filme, deixe a sua família e a sua aldeia
para se investir na guerra violenta contra o opressor português. Voltará em herói, mas o tempo
de paz, depois da guerra, é outro e os sonhos se transformam em amargura e cinismo. Vale
notar o realismo mágico e o poético na obra, permeada de aparições de um espírito que,
certamente alter ego do diretor, observe e vê os homens errar os caminhos. “O mundo está cego,
não te deixa cegar", sussurra o espírito à Nome. A África tradicional está bem presente, como
o tambor “Bombolo” que inicia o filme e segue ao longo do roteiro, chamando e mobilizando
para a guerra. Imagens de arquivos, das atualidades guineense da época filmadas por Na
N´hada, Gomes e outros, são inseridas dando um contraponto documentário na narrativa. Frente
às utopias e ao espírito da revolução a responsabilidade é coletiva. Qualquer um tem que
assumir a sua parte no risco de ver o sonho de um país libre e justo, cair no buraco.
No último dia da Mostra, fomos brindados por dois filmes diferentes, mas que, de
alguma forma, tem o ponto em comum de valorizar o protagonismo feminino. Mortu Nega
(Aqueles que a Morte não quis, Guiné Bisssau, França, 1988, 85 min), uma obra clássica do
veterano Flora Gomes, retoma o contexto traumático da linha de frente na guerra de libertação.
Dimingas (interpretada pela atriz Bia Gomes), se recusa a deixar o seu marido Sako sozinho na
frente. Por isso, acompanha um comboio de reabastecimento que, atravessando o país, revela a
miséria e as ruinas deixadas pela guerra. Quando encontra ele, num campo, é ferido, quase
moribundo. Sobrevive, mas diminuído e mesmo quando chega a paz tão desejada, apesar dos
risos e dos choros, numa temporada de seca, tem que reaprender a viver, continuar a lutar nessa
nova vida de depois da guerra. Homenagem profundo, em crioulo guineense, ao protagonismo