Charge como ato criativo de linguagem: o individual e o social na produção de sentidos

Charge as a creative act of language: the individual and the social in the production of meanings

Nome SOBRENOME do autor[1]

Resumo: Este trabalho analisa a responsividade e a responsabilidade manifestas na criação da charge. Assim, objetiva compreender a relação entre o elemento individual e social nesse enunciado. A análise compreende duas charges, uma de autoria de Jean Galvão e outra de Alberto Bennet, extraídas das páginas pessoais de Instagram dos artistas e selecionadas conforme o critério de Amostragem Aleatória Simples (AAS). A fundamentação teórica é composta por trabalhos fundadores e tributários do Círculo de Bakhtin, estando, inserindo-se o estudo, portanto, no campo da Análise Dialógica do Discurso (ADD). Ao final, observou-se que a caricatura de Paulo Guedes e a reprodução de uma fala de Jair Bolsonaro manifestam o diálogo que as charges estabelecem com os enunciados recentes sobre a atuação do ministro no contexto de inflação e o pronunciamento do presidente a respeito da existência da fome no Brasil, mantendo com eles uma relação de confronto. Tal sentido é produzido por meio de um acento apreciativo irônico, que cria, na charge de Jean Galvão, a visão de que a gestão de Paulo Guedes no Ministério da Economia é criminosa e, na charge de Alberto Benett, a leitura de que a fome é um problema estrutural brasileiro.

Palavras-chave: charge; enunciado; criação; individual; social.

Abstract: Ste work analyzes the responsiveness and responsibility manifested in the creation of Charge. Thus, it aims to understand the relationship between the individual and social element in this statement. The analysis comprises two cartoons, one by Jean Galvão and another by Alberto Bennet, extracted from the artists' personal Instagram pages and selected according to the Simple Random Sampling (AAS) criterion. The theoretical foundation is composed of founding and tributary works of the Bakhtin Circle, being inserted the study, therefore, in the field of Dialogical Discourse Analysis (ADD). At the end, it was observed that the caricature of Paulo Guedes and the reproduction of a speech by Jair Bolsonaro express the dialogue that the cartoons establish with the recent statements about the minister’s performance in the context of inflation and the president’s pronouncement about the existence of hunger in Brazil, maintaining a confrontational relationship with them. This sense is produced through an ironic appreciative accent, which creates, in Jean Galvão’s Charge, the view that the management of Paulo Guedes in the Ministry of Economy is criminal and, in Alberto Benett’s Charge, the reading that hunger is a Brazilian structural problem.

Keywords: charge; enunciation; creation; individual; social.

Introdução

Como ser social, o homem está a todo momento em processo de relação e encontro com o outro. Prova disso é a aprendizagem da língua materna na infância, alcançada em situação concreta de interação, pelas palavras ouvidas de bocas alheias, as quais não apenas nomeiam, mas também categorizam e atribuem valor. Isso porque, conforme explica Cunha (2017), os nomes não dizem a essência das coisas, nem refletem uma realidade comum, antes revelam a percepção e o ponto de vista do enunciador sobre o objeto de discurso e os que o nomeiam de forma diferente.

Semelhantemente, a partir de Volóchinov (2017), é possível recuperar duas premissas da análise dialógica do discurso, pautada no materialismo dialético marxista: todo signo é social e ideológico. Ele não apenas reflete, tendo uma natureza sempre fixa e idêntica, mas também refrata uma realidade exterior, projetando um significado exterior a si mesmo. Do mesmo modo, os signos não nascem senão da relação entre duas consciências, e a própria consciência individual só vem a sê-lo de fato quando adentra esse diálogo.

Colocando de outro modo, as enunciações concretas do outro fornecem o material para que o eu construa suas próprias práticas de linguagem no interior de  uma dada comunidade semiótica, produzindo, por sua vez, novos signos e sentidos. Tal pensamento, por sua vez, contrapõe-se à visão das correntes idealistas  segundo a qual a compreensão é um fato da consciência isolada do sujeito , reafirmando o dialogismo como realidade fundamental da língua.

Nesse contexto, a charge é um exemplo especialmente representativo desse encontro de palavras, tendo em vista que reporta e recria um fato atual em destaque na mídia, geralmente ligado à esfera política. O seu enunciado, quando diretamente não reproduz, traz os ecos das enunciações co-ocorrentes a sua produção, “com o propósito de comentar e se posicionar de forma condensada sobre fatos contemporâneos, no momento específico em que se estabelece a relação discursiva entre os eventos.” (CUNHA, 2012, p. 251).

Sendo assim, à medida que responde a um dado acontecimento recente, alvo do interesse e avaliação públicos, a charge revela uma instância individual na sua intenção de provocar, pela densidade significativa de todos os seus elementos, uma reação específica do público-leitor. Em vista desse fim, o sujeito produtor, na produção e desde a escolha do gênero, organiza o seu discurso em função do outro imaginado, antecipando a atitude responsiva desse ao considerar questões como o grau de proximidade, as visões de mundo do destinatário e sua posição social. (RODRIGUES e RANGEL, 2015).

Logo, a charge se baseia nos pontos de vista do chargista sobre os enunciados-outros ativados em seu trabalho criativo acrescidos da visão presumida do leitor (AGUIAR e PUZZO, 2012). Especialmente no âmbito digital, em que as informações encontram-se disponíveis numa velocidade impensável para outros contextos, o sujeito-produtor da charge lida com uma profusão de discursos de diferentes lugares sociais. Isso demonstra, conforme mostra Santaella (2014, p. 210), a pertinência de se mobilizar conceitos como heteroglossia, dialogismo e polifonia na análise da interatividade nas redes sociais digitais, pois essas se constituem em ambientes “programados muito justamente para promover o diálogo no seu mais alto grau de intensificação”. Ainda de acordo com a autora, a hibridização discursiva atinge seu ápice nesses espaços.

À vista disso, este trabalho, fundamentado na Análise Dialógica do Discurso (ADD), tem por objetivo geral compreender a relação entre o elemento individual e social no enunciado da charge, isto é, o modo como ele reflete e refrata um dado evento do cotidiano social, recriando sentidos. Assim, tem como objetivos específicos: i) verificar as marcas de ressonâncias de outros enunciados na charge e os tipos de relação que ela estabelece com essas vozes; ii) entender como a charge manifesta uma apreciação individual sobre um acontecimento recente de conhecimento público; iii) verificar como tal apreciação se relaciona aos efeitos de sentido geralmente associados ao gênero.

Conforme se constatou em levantamento bibliográfico, a charge tem sido alvo de muitos estudos sob diferentes perspectivas teóricas, sobretudo relacionados a sua aplicação no ensino. Partindo de sua materialidade multissemiótica, é possível encontrar um volume significativo de trabalhos voltados para os seus modos de produzir sentidos, as relações intertextuais, a compreensão do leitor e as estratégias de leitura, para citar alguns temas. Estudos, porém, interessados no processo de constituição da individualidade a partir do jogo de relações sociais nos quais se colocam os sujeitos ao enunciar não são tão numerosos. Dessa forma, torna-se relevante investigar como o enunciado revela uma expressão individual, sem perder de vista o nascedouro dessa discursividade – as relações dialógicas – haja vista também que, sem a expressividade dos sujeitos singulares, o enunciado torna-se abstrato (KNOLL, 2019).

O trabalho ainda contribui ao campo de pesquisas da ADD por propor uma operacionalização adequada à natureza de seus construtos teóricos, pois, como mostra Sobral (2009, p. 47), por vezes se tem a ideia de que o Círculo de Bakhtin só vê o social, quando na verdade ele “teoriza precisamente sobre a individualidade, o sujeito, mas, realisticamente, em suas relações com outros sujeitos que o constituem e são constituídos por ele”.

Abordar essa dupla perspectiva é fundamental para uma análise dos gêneros discursivos, uma vez que considera não apenas a sua forma, mas principalmente o seu funcionamento. Como coloca Filho e Santos (2013), esses conjugam previsibilidade e mudança, e um exemplo disso é o seu tema, não coincidente com o tema da enunciação. Se por um lado a utilização de um gênero já indica como determinados conteúdos tendem a ser percebidos, por outro também admite flexibilidade “os enunciados são regulados tanto pelos gêneros (históricos) como pelas enunciações concretas, num jogo de força resolvido em cada situação concreta” (p. 82). Portanto, o sujeito, ao produzir seu enunciado, está tanto condicionado por normatizações ligadas às condições sócio-históricas da produção quanto pelas escolhas e apostas individuais no uso da linguagem (KOMESU, 2004).

Finalmente, Stella e Brait (2021, p. 162) pontuam, na esteira do que tem-se aqui colocado, que os gêneros possuem certo grau de impessoalidade, sendo dotados a priori de uma expressividade típica. Não obstante, segundo os autores, a escolha do gênero já constitui um “primeiro viés expressivo resultante da vontade discursiva individual na orientação do enunciado dentro de uma esfera de atuação humana”, e a concretização dessa expressividade irá variar a depender, dentre outros fatores, do grau de coerção do gênero.

O presente estudo é de abordagem qualitativa, posto que busca descrever não uma situação artificial, mas práticas e interações dos sujeitos na vida cotidiana (FLICK, 2008). Os procedimentos para a coleta e tratamento de dados envolveram, primeiramente, a pesquisa bibliográfica  como forma de entrar em contato com o aporte teórico de base da pesquisa e com trabalhos que, inscritos nesse, desenvolveram análises semelhantes do objeto de interesse – e, na sequência, a pesquisa documental, quando procedeu-se à reunião e à leitura das charges.

O corpus foi coletado diretamente das páginas pessoais de Instagram dos chargistas Jean Galvão e Alberto Benett e constituiu-se, assim, de duas produções, uma de cada autor, publicadas respectivamente em junho e outubro de 2022 e selecionadas segundo o critério de Amostragem Aleatória Simples (AAS). A escolha por esses suportes se deu por serem meios habituais de divulgação do gênero, sendo uma forma de os artistas compartilharem tanto seus trabalhos já publicados em outros canais de comunicação, como jornais, quanto trabalhos inéditos, inclusive incompletos.

Dessa maneira, as páginas funcionam como uma espécie de portfólio em que são colocadas não apenas as obras consideradas melhores referentes a momentos pontuais das carreiras dos artistas  mas os seus trabalhos de forma contínua, que se vinculam, pelo momento histórico de produção e pelo conteúdo, aos outros gêneros do espaço digital, como notícias, manchetes, entrevistas, reportagens, artigos de opinião, entre outros.

À vista disso, o trabalho está organizado do seguinte modo: primeiramente, na seção de fundamentação teórica, expõe-se alguns conceitos basilares para a compreensão do funcionamento do jogo de forças atuantes na criação de um enunciado, haja vista a sua natureza tanto social quanto individual, e o efeito dessas relações na charge, considerando a sua composição de palavra e imagem; na seção seguinte, apresenta-se a análise do corpus, que traz a aplicação desses conceitos na leitura do enunciado concreto das charges; por fim, nas considerações finais, realiza-se uma breve retomada dos principais resultados levantados pelo estudo, passando logo adiante às referências.

  1.  Fundamentação teórica

Segundo Ponzio (2010), o ato de palavra não deve ser considerado como abstração ou como objeto examinado de fora de um sujeito que desse não participa. Isso porque o enunciado, como produto de uma compreensão responsivamente ativa, é expressão de autor-agente, que desencadeia efeitos de sentido em seu trabalho com os gêneros de discurso na linguagem (KOMESU, 2004).

Desse modo, o sujeito assim concebido é, conforme Sobral (2009, p. 51), o meio de ligar o individual e o social em sua estabilidade relativa, uma vez que ele é “um mediador entre os atos socialmente possíveis e os atos que de fato realiza”. Em outras palavras, a teoria dialógica da linguagem resolve essa relação concebendo um indivíduo não assujeitado, “fantoche das relações sociais, mas um organizador de discursos, responsável por seus atos e responsivo ao outro.” (SOBRAL, 2005, p. 25).

Da mesma forma, Bakhtin (1997) chama a atenção para o papel igualmente não passivo do outro, já que o enunciado se elabora para ele, nasce para ir ao encontro de sua resposta. Isso significa que o autor do texto considera o horizonte social comum a ele e a seus interlocutores, composto pelas discussões e manifestações realizadas no momento histórico de produção (KNOLL, 2019). Nessa base, ainda conforme Bakhtin (1997), o autor pode operar com a visão de um destinatário imediato, parceiro do diálogo da vida cotidiana, um destinatário especializado ou pertencente a algum grupo específico da sociedade (contemporâneos, partidários, subalternos, chefes, próximos, estranhos, etc.), ou mesmo um outro não concretizado. Por tal razão, Komesu (2004) aponta que na internet a função autor é ligada necessariamente à função leitor.

Por outro lado, as expectativas do autor sobre seus interlocutores e, assim, o acabamento do enunciado só são possíveis pela posição externa desse mesmo autor em relação a eles. Conforme Lemos (1994), a extraposição ocupada pelo autor não lhe permite coincidir com nenhuma das vozes englobadas no discurso, nem com sua própria imagem, ambos da instância do representado, em contraposição à instância de representação do autor. Sendo assim, ele atua como um dramaturgo, uma vez que atribui um discurso/papel diferente às vozes participantes da cena da obra. À vista desse pensamento, pode-se entender que o autor é um orquestrador de vozes, já que

autorar, nesta perspectiva, é orientar-se na atmosfera heteroglóssica; é assumir uma posição estratégica no contexto da circulação e da guerra das vozes sociais; é explorar o potencial da tensão criativa da heteroglossia dialógica; é trabalhar nas fronteiras.” (FARACO, 2011, p. 87)

Sabe-se que a discussão sobre o conceito de autoria origina-se no contexto do estudo acerca da obra artística literária, para indicar a posição estética criadora que expressa o todo da obra ao dar acabamento ao seu objeto (herói/personagem) com a sua visão “de fora” e, portanto, integral dele. Não obstante, a autoria é um conceito-chave quando se estuda o funcionamento das relações dialógicas, as quais, conforme  Puzzo (2015, p. 181), “decorrem da relação eu-outro, são constitutivas da linguagem e de todo e qualquer discurso. Finalmente, é “por meio dessas relações que o autor conclui seu enunciado”. 

Seguindo esse raciocínio, Lima (2018) mostra que a autoria tem a ver com uma postura inerente ao sujeito ao realizar o ato, a sua atitude concreta enquanto um autor responsável que promove a construção do sentido, do que é verdade.  Essa ação é possível pelo tom emocional-volitivo (a entonação valorativa/apreciativa) que marca justamente o posicionamento do sujeito, como “um passo,  um  movimento responsivo e responsavelmente consciente da consciência, que transforma a potencialidade na atualidade de uma ação realizada (pensar, sentir, desejar etc.)” (LIMA, 2018, p. 67).

        Em adição, conforme Bakhtin (1997, p. 315), “as palavras dos outros introduzem sua própria expressividade, seu tom valorativo, que assimilamos, reestruturamos, modificamos”, isto é, o elemento expressivo individual do enunciado, configurador da autoria, é uma reelaboração de acentos outros que recobriram a palavra  ao longo de sua história. Esse processo se faz de maneira natural, pois não há como tomar a palavra sem implicar-se nela.  Nas palavras de Arán (2014, p. 22):

Não há sujeito transcendental, o indivíduo se transforma em pessoa e transforma a cultura na medida em que interage com o outro, porque a diferença intersubjetiva é um valor que funda a possibilidade do conhecimento da realidade. Se todo homem é criador potencial de texto, a noção de autor se amplia a todos os sujeitos como arquitetos da discursividade social. É a autoria, então, que dá ao enunciado seu caráter de acontecimento histórico decisivo.

O produtor da charge é, então, um autor e, por conseguinte, um “ser responsível”, o qual, conforme Saldão (2017), é aquele que cria uma posição perante o dizer, como alguém que assume responsabilidade naquilo que fala/faz. A autora explica a aproximação entre os conceitos de responsabilidade e responsividade afirmando “que a  concepção  dialógica  da  linguagem  está  no direcionamento para o outro; na condição de ser uma resposta e ser motivador de outras atitudes  responsivas” (p. 870). Cabe destacar que “responsibilidade” é um neologismo criado por Sobral (2005) como uma forma de contemplar conjuntamente esses dois sentidos do ato bakhtiniano, entendido como “uma ação de qualquer natureza, um pensamento, um enunciado verbalizado ou não, escrito ou não.” (PADILHA, 2011, p. 97)

Segundo Ferreira (2013), a charge aponta sempre para um exterior de forma mais taxativa do que a maioria dos gêneros, o que torna a compreensão dos elementos tempo e espaço, do cronotopo, determinante. Essa incorporação de elementos externos ao enunciado é facilmente reconhecida pela sua construção verbo-visual, que reproduz signos conhecidos, mediante o casamento imagem-palavra. Dessa maneira, o sentido surge como resultado desse encontro, pois o elemento verbal e visual originam a instância de expressão de maneira interdependente, fazendo o enunciado dar-se a ver/ler ao mesmo tempo (BRAIT, 2013). Logo, entende-se o visual na charge não como uma ilustração, complementar ao verdadeiro conteúdo, mas como um elemento que interfere particularmente em sua composição, tema e estilo, interagindo constitutivamente com o verbal e acrescentando-lhe valores (BRAIT, 2013).

2. Análise do corpus

De acordo com Komesu (2004, p. 7), os gêneros em circulação na internet são especialmente propícios à avaliação da ação dos sujeitos na linguagem, pois possibilitam contrapor à ideia de um autor-origem, possuidor das primeiras palavras, a concepção de um autor-agente, historicamente constituído mas não plenamente assujeitado por um discurso “todo poderoso”. São esses sujeitos que, por meio de suas apreciações, exercem um papel criativo na mudança de significação das palavras, quando as deslocam de um contexto avaliativo para outro (VOLÓCHINOV, 2017).

Sendo assim, como explica Aguiar e Puzzo (2012, p. 136), o sentido das palavras é propriedade do instante da enunciação, quando elas são recriadas pelas “singularidades dos sujeitos e dos processos constitutivos da linguagem, que desestabilizam as possíveis interpretações”. No caso da charge, essa mudança está ligada a seu caráter opinativo, diferenciado dos outros gêneros de mesma função por atrair o leitor de uma maneira mais leve e original, como um “veículo de persuasão indireta” (2012, p. 137).

Isso significa que, por trás dos quadrinhos com desenhos geralmente engraçados e dos textos curtos, a charge mobiliza informações e fatos verídicos, não deixando de revelar, em relação a esses, um alinhamento político-partidário sério de seu produtor ou da figura midiática a que está vinculada em seu espaço de circulação. A charge reproduzida abaixo, de Jean Galvão, constitui o primeiro exemplo dessa discussão:

Figura 1 – Charge de Jean Galvão

Fonte: @jeangalvao (2022).

        Os dois quadros da produção trazem como elemento comum a figura do ex-ministro da economia do Brasil Paulo Guedes, que atuou durante o período de 2019 a 2022, na gestão do presidente Jair Bolsonaro. A sua representação na charge trata-se de uma caricatura, o que se percebe pelo exagero proposital com que seus traços físicos são desenhados, a exemplo da cabeça, de tamanho desproporcional ao restante dos membros.

É certo que, em se tratando de uma charge, é esperado que os traçados assumam contornos mais rápidos e grosseiros. No entanto, é notável a diferença na criação da imagem do ministro em relação aos outros integrantes da cena do primeiro quadro. Nesse, a cabeça do ministro parece estar mesmo ligada diretamente ao tronco, escondendo pescoço e ombros; a calvície é acentuada pela larga fronte na qual se veem duas linhas de expressão bem marcadas; as sobrancelhas estão realçadas e arqueadas em direção oposta entre si, em detrimento dos olhos, indicados apenas por dois riscos tímidos que parecem expressar junto com a boca um leve sorriso.

Ainda no primeiro quadro, além desse conjunto de características, o cenário ao fundo e os personagens ao lado do ministro, referentes a um contexto de supermercado, completam a referência à figura política. Basta lembrar que, em junho de 2022,  o Brasil vinha enfrentando uma alta da inflação, chegando a marca de 11,73% nos últimos doze meses, de acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Portanto, a imagem do ministro estava bastante presente nas mídias, principalmente em pronunciamentos a respeito da crise do poder de compra no Brasil.

Nesse mesmo período, o presidente Jair Bolsonaro fez um pronunciamento no qual pediu que os supermercados obtivessem o menor lucro possível sobre os produtos da cesta básica[2]. Evidentemente, conhecer essa conjuntura sócio-histórica, bem como o seu vínculo com o crescimento da desaprovação ao então governo vigente em um ano eleições, é determinante para a compreensão da charge, que, ancorando-se em tal terreno de posições em conflito, assume nele um lugar determinado.

Por conseguinte, o diálogo que se faz com a rede de enunciados que tem por objeto as tensões econômicas envolvendo a gestão referida não é acidental, mas estratégico, pois o produtor, conhecendo o fundo aperceptivo sobre o qual a sua fala será recebida pelo destinatário, orienta as escolhas dos procedimentos composicionais da charge de modo a condicionar uma compreensão responsiva específica (BAKHTIN, 1997).

 Ademais, o fundo, em um tom monocromático, não atrai tanto a atenção do leitor quanto a conversa da qual participam Paulo Guedes, um funcionário e o gerente do estabelecimento, figuras por sua vez retratadas em nuances de cores e distinguidas por meio de suas roupas e das ações que executam. Paulo Guedes e o gerente, como autoridades, vestem trajes semelhantes, propícios a ocasiões formais que exigem uma distinção quanto ao seu exercício profissional. Já o funcionário veste um fardamento e segura uma máquina etiquetadora de preços. O ministro está parado e observa os outros dois, como a esperar que sua demanda seja atendida. O funcionário repassa essa solicitação ao gerente, o qual, finalmente, lhe dirige, em tom animado, um comando para resolver a situação.  

O ministro, a julgar pela sua feição, exibe um jeito amigável, de “doce velhinho”. De fato,  a caricatura de Paulo Guedes assume um valor real no que induz o leitor a pensar sobre a figura representada, pelo julgamento de valor que provoca em relação a ela (AGUIAR e PUZZO, 2012). Cria-se, então, nesse ponto inicial da charge, a ideia de que a vinda de Paulo Guedes é positiva, pois ele teria boas intenções, conforme se depreende da fala do funcionário: “O Guedes veio checar se não estamos aumentando os preços”. No trecho, o modo informal de se referir à autoridade reforça o aspecto inofensivo do ministro, na medida em que esse não inspira admiração, nem constrangimento por sua chegada. Do contrário, o funcionário parece indiferente quanto a sua posição.  

Do mesmo modo, a reação do gerente contribui com esse efeito de sentido, uma vez que ele sorri e junta prontamente as mãos em tom de pedido ao responder ao ouvir o funcionário. A frase “Traga um carrinho para ele!” leva o interlocutor da charge a entender  que gerente é favorável à proposta e consequentemente dá ao ministro a liberdade de realizar a verificação dos preços. Tal compreensão é razoável, pois, com o oferecimento do carrinho de compras, naturalmente se pensa, dentro da circunstância apresentada, que o que está sendo proposto é um auxílio para a vistoria, um meio de proporcionar ao ministro o alcance dos seus objetivos.

No entanto, o segundo quadro da charge contradiz essa interpretação, quando Paulo Guedes aparece sozinho e dentro do carrinho de compras, que, virado para baixo, se assemelha a uma prisão. Na cena, o cenário anterior desaparece, de modo que apenas se vê o ministro descontente atrás das grades do carrinho. Essa quebra de expectativa, desencadeada unicamente no plano visual pela mudança da disposição do objeto, demonstra a ironia como um recurso de construção da charge, porquanto o sentido da produção se faz em seu contorno impreciso, dúbio, na relação entre o que o enunciado diz e o que a enunciação faz dizer (SANTOS; MARQUES; RODRIGUES, 2019).

Nesses termos, a charge de Jean Galvão não apenas surpreende o seu interlocutor pela introdução de uma nova imagem da pessoa de Paulo Guedes, não mais pacífica ou bem intencionada, mas também pela desautomatização do uso do carrinho de compras, o qual, passa a assumir uma função completamente distinta. Essa última mudança não produz, contudo, um total estranhamento, pois facilmente o interlocutor aciona o seu conhecimento de mundo e recupera, por exemplo, a expressão metonímica “atrás das grades”, incorporando, assim, o seu sentido ao do objeto do supermercado.

Portanto, a dualidade da charge consiste no modo como o seu autor refrata a situação imediata a que a produção está ligada, a saber, a gestão da crise econômica pelo então presidente e ministro da economia em exercício e o consequente acirramento da polarização política em razão das diferenças visões sobre as causas do problema enfrentado pelo Brasil. De um lado, havia pessoas que culpabilizavam o governo pela supervaloração dos produtos; de outro, os que acreditavam ser a inflação uma consequência inevitável da crise mundial humanitária que se instalara tanto na saúde, pela pandemia de COVID-19, quanto na segurança, pela guerra Ucrânia-Rússia. O próprio ministro Paulo Guedes foi um porta-voz desse segundo grupo[3].

Diante de todas essas informações, é possível entender mais claramente com quais dizeres o produtor da charge dialoga na criação dos dois planos contrários de representação do ministro. No quadro inicial, a fala do funcionário sugere que Paulo Guedes não é responsável pela inflação e, sobretudo, está trabalhando para revertê-la ao acompanhar a precificação nos supermercados. Paralelamente, aqui também é ouvida a voz do presidente no direcionamento dado aos agentes desse setor comercial. Já na sequência, a relação que a charge estabelece com essas vozes é exposta, e, como num ato de “tirar a máscara”, a figura política interessada na proteção da economia e bem-estar social é agora apresentada como uma pessoa criminosa.

Além disso, o fundo totalmente branco em que ela aparece dá força ao desfecho, como um destaque para o espetáculo que se deseja apresentar no ato final da charge.  Nesse ponto, revela-se a intenção do produtor de denunciar a conduta do ministro diante da crise econômica e, em outro sentido, de subverter os discursos que o inocentam ou apoiam a sua forma de governo. A charge, portanto, avalia negativamente a administração de Paulo Guedes, atribuindo a ela a culpa pelo retrocesso da economia brasileira.

Como é possível perceber, a ironia é uma estratégia sutil e por isso mesmo poderosa na formação de opinião, ainda mais num contexto de discursividade que se faz multimidiática, pela mistura de linguagens, processos sígnicos, códigos e mídias (SANTAELLA, 2014). Ademais, uma vez que a charge publicada nas redes sociais divide esse ambiente, e por vezes até o mesmo suporte textual, com gêneros diversos (do domínio cotidiano, jornalístico, religioso, acadêmico, por exemplo), o seu produtor pode estudar os seus possíveis interlocutores à medida que uma nova informação surge e calcular adequadamente os seus movimentos na composição de um novo enunciado. Logo, na charge abaixo, pode-se de partida pensar na escolha da frase que aparece centralizada no canto superior:

Figura 2 – Charge de Alberto Benett

Fonte: @albertobenett (2022).

A charge, publicada em outubro de 2022, reproduz uma fala do presidente Bolsonaro acerca da fome no Brasil. Em julho do mesmo ano, quando questionado por uma jornalista sobre o assunto[4], ele afirmou ser uma grande mentira a declaração de que pessoas passam fome, tendo reforçado tempos depois esse posicionamento em uma entrevista. A fala gerou grande repercussão nacional e intensificou a oposição a seu governo, a essa altura já valorado como inimigo do povo. Dentre outras razões, a indignação se deu por essa fala ir de encontro a pesquisas recentes, como a da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, que apontou haver mais de 30 milhões de pessoas passando fome no país.

Em contrapartida a esse plano verbal, a falta de cor do cenário e das figuras retratadas concorre para criar uma espécie de realidade paralela, desconcertante e realisticamente cruel. Em sua materialidade, a charge não traz tantas informações, significando que o que está posto é suficiente para provocar a resposta pretendida de seu interlocutor. Na realidade, esse desenho minimalista é um detalhe importante em seu projeto enunciativo, ao possibilitar que o leitor se concentre precisamente nos aspectos mais importantes da situação-problema apresentada.

Como se verá adiante, tal enfoque favorece a apreciação realizada pela charge sobre o enunciado  do presidente, particularmente sobre o signo “fome”, o qual deixa no novo contexto de indicar uma realidade circunstancial, como um estado de um grupo de indivíduos, para se referir a uma condição generalizada, sistêmica, e, portanto, mais ameaçadora. É de se destacar que, no plano não verbal, um dos únicos pontos de cor diferentes do branco está justamente no objeto sobre o qual ele está escrito, confirmando a sua importância na composição dos sentidos na charge.

Além disso, os contornos das letras e dos desenhos desvelam, por meio da multimodalidade, um novo plano de significação projetando sombras fracas, que, unidas ao aspecto pálido do conjunto, completam o efeito de carência, abandono e incompletude. Do mesmo modo, esses traçados refletidos sob as formas parecem sugerir uma repetição de movimentos, mais uma vez ligando, seja a declaração de Jair Bolsonaro, seja a cena retratada, a ideia de um evento recorrente, que se repercute em diferentes momentos.

No primeiro quadro, nota-se uma mulher a entregar o que parece ser um pedaço de alimento a um menino. Apesar de o elemento não ter uma aparência muito definida, é possível inferir isso pela frase de abertura, que desperta tal relação de sentido. Ambas as figuras estão em pé, voltadas uma para a outra e esboçam satisfação. Delas apenas se vê a metade lateral do corpo, com um dos braços estendidos da mulher a passar o alimento para a criança.

Já no segundo quadro, o campo de visão da cena, como num efeito fotográfico, é ampliado, e agora é possível ver os seus corpos por completo e entender o que a mulher reparte com o menino. Ela continua em pé, mas desta vez é possível ver, além de seus dois braços, em uma de suas mãos, um pedaço de papel rasgado com a palavra “fome”. Na outra mão, está o pedaço que foi tirado dele e que a mulher oferece ao menino. Esse está, por sua vez, sentado, com os joelhos curvados e um dos braços a segurá-los. Não mais parece feliz, do contrário, a sua posição e expressão facial parecem indicar uma condição de pobreza e aguda necessidade de alimento. A mulher é retratada sem boca, o que lhe faz não ter, nesse trecho, uma expressão definida.  

Considerando tal construção verbo-visual, nota-se que, semelhantemente à charge de Jean Galvão, o segundo quadro introduz um dado inesperado para o leitor, também valendo-se do recurso irônico, já que a imagem claramente nega a afirmação de que não há fome no Brasil. À vista disso, pode-se entender a ironia em um sentido amplo, não apenas como um artifício interno ao gênero, mas como “um espaço de relações dialógico-discursivas (que podem evidenciar relações de diálogo ou de tensão) entre dizeres de grupos sociais distintos” (SANTOS; MARQUES; RODRIGUES, 2019, p. 30). Assim, a charge projeta esse diálogo nos limites da sua forma, entrando em acordo com a segunda voz, pertencente ao grupo contrário ao governo e ao que ele nesse contexto representa  a ignorância e a negligência quanto a problemas estruturais brasileiros.

Nesse viés, a diferença entre as produções está no caminho escolhido para ativar o duplo sentido, o qual, na charge de Benett, é a polissemia do verbo “passar”. Se na fala do presidente reportada a palavra  “passar” está sendo usada unicamente para se referir a algo como “sentir” ou, de maneira mais grave, “vivenciar”, aqui o termo está sendo tensionado em mais de um sentido, já que tanto comporta essa ideia – a mais comum tendo em vista o contexto em que a frase é geralmente empregada –  quanto a noção de “transmitir”.

Esse último sentido não apenas coexiste na leitura, mas também modifica o primeiro, o que, como efeito, reforça o seu teor negativo. Por isso, a fala de Jair Bolsonaro é uma peça-chave para compreensão da charge, pois aparece diretamente refletida e refratada nela, tendo recebido um novo acento apreciativo, e, consequentemente, torna possível o enunciado.

Nessa condição, a charge de Benett, longe de um efeito humorístico, assume um tom duplamente triste, primeiramente pelo tema que aborda e depois pelo recorte operado sobre ele. Seu enunciado é uma resposta condensada e intrigante aos discursos que não reconhecem as dificuldades enfrentadas pelas camadas mais pobres da população. O trabalho com as linguagens testifica isso,  com a predominância do visual e os diferentes enquadramentos das cenas, que colocam o interlocutor do enunciado numa posição de repensar os sentidos já assimilados acerca do acesso ao direito básico da alimentação.

Além da frase polêmica, o primeiro quadrinho é posto como uma “isca”  para envolver o leitor na narrativa, com valor de fantasia, de que o Brasil não está tão mal quanto dizem. No segundo quadro, fica claro que esse pensamento é errôneo, mas não somente isso. Ele reflete um desconhecimento – ou mesmo a desconsideração consciente – sobre o próprio processo de constituição do Brasil, o qual desde sempre esteve marcado por desigualdades e injustiças e, principalmente, pela exclusão social dos menos favorecidos, sobretudo economicamente. Esse ciclo de miséria é apontado quando a mulher tira uma parte de algo que é seu a fome  e a distribui com o menino. Nesse sentido, a charge trava um diálogo além dos limites do enunciado do presidente, ao invalidar os discursos que tratam dos pobres segundo uma visão falsa e individualista do mundo, sendo pautada exclusivamente na realidade de alguém que não vive o mesmo.  

Ainda, a charge de Benett faz uma crítica ao apagamento e minimização dessa realidade, expondo o equívoco desse pensamento e ao mesmo tempo indicando como ele influi na perpetuação do problema. Não à toa a ironia é empregada, pois, uma vez que a charge confronta a princípio um discurso dominante, o seu uso mostra-se bastante eficaz tanto para ganhar tempo (ser permitido e até ouvido, mesmo que não entendido) quanto tornar relativas a autoridade e a estabilidade desses discursos (SANTOS; MARQUES; RODRIGUES, 2019).

 Junto a isso, de uma maneira lógica, o não reconhecimento da fome enquanto um padrão brasileiro impede que medidas sejam tomadas para interrompê-lo. Isso é sugerido pela aproximação de vozes contrárias em um mesmo espaço gráfico, o qual promove no leitor tanto a percepção da insustentabilidade do quadro quanto o entendimento de que a sua invisibilização, representada pela fala do presidente, é um dos motivos de haver ainda hoje pessoas com semelhante nível de necessidade. Isso posto, vê-se que, assim como a anterior, a charge em apreço é plena de matizes valorativas, urdidas na exploração de linguagens que se entrelaçam num todo significativo.

Considerações finais

Neste trabalho, foram analisadas duas charges publicadas na rede social Instagram no período de junho e outubro de 2022. A leitura dessas materialidades evidenciou a existência de dois enunciados-resposta, na medida em que, para acessar os seus sentidos, foi necessário seguir a trilha de seu endereçamento a outros dizeres, que nas charges estava representada sobretudo na caricatura do ministro Paulo Guedes e na reprodução da fala do presidente Jair Bolsonaro. Assim, as duas produções estabeleceram com essas vozes sociais externas uma relação de confronto, mostrando que a noção de diálogo, tal como o concebe a ADD, é mais complexa do que a simples ideia de consenso ou acordo.

Naturalmente, ao passo que as charges refletiram esses enunciados, também os refrataram, criando algo novo e irreproduzível, relacionado a um determinado valor de verdade (BAKHTIN, 1997). Em ambas, o sentido de oposição é gerado por meio de um acento apreciativo irônico, o qual tira o leitor de um lugar comum e confortável na atribuição de sentidos e o envolve num aparente jogo de mal-entendidos, já que sentidos contrários são juntamente afirmados. Não obstante, essa feição não unívoca do enunciado revelou-se um traço original e produtivo, criando, na primeira charge, a visão de que a gestão de Paulo Guedes no Ministério da Economia é criminosa e, na charge de Alberto Benett, a leitura de que a fome é um problema estrutural brasileiro.

Dessa maneira, tendo examinado a relação entre o social e o individual na charge, este trabalho deixa uma contribuição para os estudos interessados no processo de passagem do dado para o criado no enunciado, os quais se voltam para a ação dos sujeitos na remodelagem dos sentidos ativos no espaço social. Logo, pode suscitar pesquisas que aprofundem a discussão acerca de conceitos referentes à singularidade da enunciação  como, por exemplo, acento apreciativo, tema, posicionamento axiológico  especialmente nas composições híbridas, em que o sentido é forjado pela mescla de diferentes linguagens.

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[1] Na nota de rodapé, tamanho 9, justificado, deve ter a filiação (titulação máxima, instituição de origem por extenso e sigla, cidade e estado) e o endereço eletrônico do autor. Ex.: Graduando da Universidade Federal do Ceará (UFC). Fortaleza-CE. pedro@ufc.br 

[2]https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2022/06/09/bolsonaro-pede-que-supermercados-tenham-menor-lucro-possivel-na-cesta-basica.htm 

[3] https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2022/06/09/guedes-diz-que-inflacao-e-culpa-mundial.htm 

[4]https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/19/falar-que-se-passa-fome-no-brasil-e-uma-grande-mentira-diz-bolsonaro.ghtml