ISSN 2179-9938
beira do médio [rio] Amazonas. Com seu jeito de todo especial de
traduzir a sua vivência. ‘O Amazonas vais subindo, é triste... mas é
lindo’ aliado a um estilo marcante e pessoal, evidente em composições
como “Cabanear”, consegue cantar o canto das águas, o universo do
homem amazônida de uma forma talentosa e promissora, como nesse
Portanto, o conjunto das quatro letras de canção que aqui foram tratadas
denota um regionalismo como elemento fulcral, ainda que cada uma esteja associada a
uma forma desse regionalismo. Nelas, aparecem o regionalismo geográfico, quando a
região é reconhecida por lugares urbanos, cidades, bairros e rios distritos como Guamá,
Guajará, Acará, Moju, Tocantins, Cametá, Marabá, Outeiro e Macapá. Esse conjunto nos
mostra uma espécie de mapa afetivo construído pelas canções por seus cancionistas.
Segue-se a esse um segundo conjunto que denota uma perspectiva de
identidade regional por meio de um quadro ecológico – “Amazônia” é uma evidencia
disso -, quando cita rios, florestas, várzeas, igapós, mangueiras e animais. O terceiro eixo
é o regionalismo cultural, o que se manifesta por meio de elementos da vida cotidiana,
como nas referências à gastronomia - tacacá, açaí -, lugares de memória - Ver-o-Peso,
Bar do Parque, - ambientes - feira, festas - e personagens populares – Mario Sobral,
Nega, Edwaldo etc – “Nega” e “Flor do Grão Pará” são especialmente importantes aqui.
E, por fim, um regionalismo político que aciona história e motivação política com
características próprias da região, cujo mote é a oposição às explorações e a recorrência
à condição existencial da população local como pautada em ideias de luta e resistência
– “Nega” e “Cabanear”, possuem isso de maneira mais ostensiva, o que está também,
embora de maneira menos direta, em “Amazônia”.
Portanto, se é no decorrer das décadas de 1960 e 1970 que é inventada uma
música popular paraense (Costa, 2008; Silva, 2010), todavia é na década de 1980 que se
afirma um cancioneiro de cor local original, ainda que em alguns pontos tributário de
uma produção pretérita, que se afirmou sobre a temática regionalista como mote
incontornável e capital simbólico. O fato é que a cultura musical da canção popular
belemense não pôde fazer frente à indústria fonográfica nacional e o seu ideal de música
como mercadoria cultural massiva, até porque para o projeto proposto não era gravar
29 Idem.
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Licença CC BY 4.0 · Acesso Aberto · ISSN 2179-9938 · e102669