ISSN 2179-9938
ser compreendida como espaço produtor de pensamento, linguagem, cultura e
conhecimento.
Essa mudança de perspectiva implica também interrogar os regimes históricos
de representação que atravessaram a região. Quem fala sobre a Amazônia? Quem pode
falar em nome dela? Quais imagens, discursos e imaginários foram historicamente
mobilizados para defini-la? E, sobretudo, quais sujeitos e coletividades estão hoje
produzindo outras formas de narrar, representar e significar a Amazônia?
A questão ganha especial relevância diante das transformações ambientais,
sociais, econômicas, tecnológicas e políticas que atravessam a região. As mudanças
climáticas, os conflitos territoriais, as desigualdades de acesso às tecnologias, as
disputas em torno dos recursos naturais e as diferentes concepções de desenvolvimento
sustentável colocam em evidência a necessidade de compreender a Amazônia a partir
de suas próprias experiências e formas de elaboração. A chamada do dossiê situa
justamente essa problemática ao perguntar como as populações amazônicas pensam
seu compromisso histórico diante das mudanças climáticas e da construção de
estratégias de cuidado ambiental e desenvolvimento sustentável.
Nesse sentido, o dossiê não pretende oferecer uma imagem única ou totalizante
da Amazônia. Ao contrário, reúne perspectivas diversas, por vezes tensionadas entre si,
que revelam a pluralidade dos modos de existência, comunicação e produção de
sentidos na região. Os artigos aqui reunidos transitam por diferentes territórios,
sujeitos, linguagens e objetos, articulando comunicação, cultura, imaginário, tecnologia,
questões ambientais, economia, territorialidades, direitos e formas de organização
social.
Essa diversidade não constitui apenas uma característica formal da coletânea.
Ela é, em si mesma, uma resposta à questão que orienta o dossiê. Se a Amazônia pensa
a si mesma, ela o faz por múltiplas vozes, linguagens, territórios e regimes de
experiência. A autorreflexividade amazônica não se apresenta como uma narrativa
homogênea, mas como um campo de disputas, negociações, resistências, invenções e
traduções.
É nesse horizonte que se insere o artigo “Musicar a Amazônia: performance,
circulação e territorialidade nos festivais de Parintins e Juruti”, de Vale et al., que
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Licença CC BY 4.0 · Acesso Aberto · ISSN 2179-9938 · e95208