ISSN 2179-9938  
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QUANDO A COMUNICAÇÃO PRESCINDE DA PALAVRA:  
COMUNICAÇÃO INTERSENSORIAL E SOCIABILIDADES NO  
TRANSPORTE COLETIVO URBANO  
WHEN COMMUNICATION DISPENSES WITH WORDS:  
INTERSENSORY COMMUNICATION AND SOCIABILITIES IN  
URBAN PUBLIC TRANSPORT  
CUANDO LA COMUNICACIÓN NO REQUIERE PALABRAS:  
COMUNICACIÓN INTERSENSORIAL Y SOCIABILIDAD EN EL  
TRANSPORTE PÚBLICO URBANO  
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Marcelo Amador de Oliveira Dias  
Universidade Federal do Pará  
Marina Ramos Neves de Castro  
Universidade Federal do Pará  
Resumo: Este artigo busca compreender como a comunicação no cotidiano urbano opera menos  
pela linguagem verbal e mais por processos sensoriais incorporados, especialmente em contextos de  
copresença intensa, como no transporte coletivo. O problema consiste em compreender de que  
modo gestos, posturas corporais, usos de objetos e percepções ambientais organizam sociabilidades  
e formas de convivência. Metodologicamente, apoia-se em uma etnografia sensorial realizada na  
linha de ônibus 901, que liga os municípios contíguos de Ananindeua e Belém, Pará. Os achados  
indicam que práticas banais, como ajustar o corpo ou acomodar objetos, constituem formas  
comunicacionais centrais para a regulação da copresença. Conclui-se que a comunicação sensorial é  
fundamental na organização das sociabilidades urbanas, contribuindo para a reflexão a respeito do  
campo da Comunicação ao deslocar o foco compreensivo da sua dimensão discursiva para a  
dimensão relacionada à experiência vivida.  
Palavras-chave: Comunicação intersensorial; Sociabilidades urbanas; Transporte coletivo; Etnografia  
sensorial; Cotidiano urbano.  
Abstract: This article seeks to understand how communication in everyday urban life operates less  
through verbal language and more through embodied sensory processes, especially in contexts of  
intense copresence such as public transportation. The problem addressed is how gestures, bodily  
postures, object use, and environmental perceptions organize sociabilities and forms of coexistence.  
Methodologically, the study is based on a sensory ethnography conducted on bus line 901, which  
connects the contiguous municipalities of Ananindeua and Belém, in the state of Pará, Brazil. The  
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findings indicate that ordinary practices, such as adjusting one’s body or accommodating objects,  
constitute central communicative forms for regulating copresence. The article concludes that  
sensory communication plays a fundamental role in organizing urban sociabilities, contributing to  
reflections in the field of Communication by shifting the analytical focus from its discursive dimension  
to the dimension related to lived experience.  
Keywords: Intersensory communication; Urban sociabilities; Public transportation; Sensory  
ethnography; Everyday urban life.  
Resumen: Este artículo busca comprender cómo la comunicación en la vida urbana cotidiana opera  
menos a través del lenguaje verbal y más a través de procesos sensoriales corporales, especialmente  
en contextos de intensa copresencia, como en el transporte público. El problema radica en  
comprender cómo los gestos, las posturas corporales, el uso de objetos y las percepciones del  
entorno organizan las sociabilidades y las formas de convivencia. Metodológicamente, se basa en  
una etnografía sensorial realizada en la línea de autobús 901, que conecta los municipios contiguos  
de Ananindeua y Belém, en Pará. Los hallazgos indican que prácticas banales, como ajustar el cuerpo  
o acomodar objetos, constituyen formas comunicacionales centrales para la regulación de la  
copresencia. Se concluye que la comunicación sensorial es fundamental en la organización de las  
sociabilidades urbanas, contribuyendo a la reflexión en el campo de la Comunicación al desplazar el  
enfoque integral de su dimensión discursiva a la dimensión relacionada con la experiencia vivida.  
Palavras-clave: Comunicación intersensorial; Interacciones sociales urbanas; Transporte público;  
Etnografía sensorial; Vida cotidiana urbana.  
1 INTRODUÇÃO: COMUNICAÇÃO, SENTIDOS E COTIDIANO URBANO  
Este artigo parte da hipótese de que, no cotidiano urbano, a comunicação se  
realiza menos pela linguagem verbal e mais por processos sensoriais incorporados,  
especialmente, em contextos de copresença1 intensa, como no transporte coletivo. A  
partir de uma etnografia sensorial realizada na linha de ônibus 901, no trânsito  
Ananindeua-Belém, municípios contíguos, localizado na Região Metropolitana de  
Belém, Pará, busca-se compreender como gestos, objetos, posturas corporais e  
percepções ambientais estruturam sociabilidades e formas de convivência em espaços  
públicos de mobilidade. Para tanto, o trabalho se apoia em uma etnografia sensorial  
realizada na referida linha de ônibus, analisando práticas cotidianas que regulam a  
experiência coletiva do deslocamento. Ao fazê-lo, o artigo também procura contribuir  
1
Entende-se por copresença a situação em que indivíduos compartilham um mesmo espaço-tempo e  
tornam-se mutuamente perceptíveis, orientando suas ações a partir da percepção sensível do outro  
(Goffman, 1983). Em chave fenomenológica, a copresença pode ser compreendida como uma experiência  
intersubjetiva fundada no estar-junto corporalmente situado no mundo vivido, no qual a percepção do  
outro se dá de maneira pré-reflexiva e incorporada (Schütz, 1979, apud Wagner, 1979; Merleau-Ponty,  
2011). O conceito é aqui mobilizado de forma operacional, sem desenvolvimento teórico específico.  
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para com a reflexão a respeito do campo da pesquisa em Comunicação, ao deslocar o  
foco do discurso para o da experiência vivida, a percepção incorporada e os regimes  
sensoriais que estruturam as interações urbanas.  
Assim sendo, acompanhamos dona Silmara num ponto de ônibus em torno das  
6:45 da manhã de um dia de semana. Ela conta-nos que já estava atrasada, e que  
normalmente deveria estar no ônibus naquele horário, para conseguir chegar ao  
trabalho até às 8 horas. Notando que nós já nos encontrávamos ali quando da sua  
chegada, ela pergunta-nos há quanto tempo estamos esperando [o ônibus].  
Respondemos que “coisa de dez minutos”, que não estávamos ali há tanto, assim. “Deve  
tá pra vim”, dona Silmara diz. Aproveitamos esse diálogo curto e bastante comum em  
paradas de ônibus para estabelecer uma troca com Silmara, ou melhor, uma  
comunicação intersensorial2 (Castro, 2026).  
Na rua em que estamos, passa o ônibus 901 (Cidade Nova 5 - Ver-O-Peso), uma  
linha circular com 98 paradas, saindo da travessa We 31 com a travessa Sn 20, bairro da  
Cidade Nova 5, município de Ananindeua. É dentro desta linha de ônibus que este e  
outros relatos e diálogos narrados neste artigo se desenrolaram, em meio a variáveis  
como diferentes horários, trechos do itinerário da linha e rostos. Tudo muito efêmero  
e, mesmo assim, constante, uma vez que, segundo Simmel (1973), a vida urbana é  
caracterizada por uma rede de encontros breves e fragmentados que, apesar de sua  
superficialidade, são fundamentais na formação de intersubjetividades modernas.  
É a partir desse uso reiterado da linha 901 que se constituiu o percurso  
etnográfico desta pesquisa. Realizada entre 2024 e 2026, a pesquisa foi construída a  
partir do uso contínuo da linha de ônibus 901, que integra os municípios de Ananindeua  
e Belém. O pesquisador é usuário da referida linha e, ao longo de dois anos, realizou  
mais de cem viagens e incursões, em diferentes horários, principalmente nos períodos  
da manhã e da tarde. A escolha da linha não decorreu, portanto, de uma seleção prévia  
2
Entende-se por intersensorialidade a articulação integrada dos sentidos do corpo, culturalmente  
situados, na produção de significados e na mediação das relações sociais. A comunicação intersensorial  
refere-se, assim, a processos comunicacionais que operam para além da linguagem verbal, ancorados na  
percepção incorporada e na relação entre corpos, objetos e ambiente (Castro, 2026).  
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orientada exclusivamente por critérios externos ao campo, mas emergiu da própria  
experiência cotidiana de deslocamento e do interesse suscitado pelas situações  
sensoriais e interacionais observadas durante seu uso. As situações analisadas foram  
selecionadas a partir da experiência vivida e da observação do pesquisador,  
considerando acontecimentos, gestos, movimentos, usos de objetos, interações e  
demais situações que se mostraram relevantes para a compreensão das formas de  
comunicação e sociabilidade produzidas no interior do transporte coletivo. Os registros  
foram realizados sistematicamente em caderno de campo e em diário de campo, ao  
longo dos três anos de acompanhamento. Além das observações, foram realizadas  
aproximadamente 30 entrevistas com usuários da linha, cujos relatos foram  
incorporados à análise em articulação com as situações observadas, permitindo  
confrontar a percepção do pesquisador com as experiências narradas pelos próprios  
passageiros. Essa posição de pesquisador-usuário constitui uma dimensão fundamental  
do percurso metodológico, uma vez que a investigação não se desenvolveu a partir de  
uma observação externa do transporte coletivo, mas da participação reiterada e  
corporalmente situada no próprio ambiente pesquisado.  
Neste momento, a talvez três centenas de metros de nós, o coletivo se  
aproximava. Observo que não estávamos sozinhos ali naquela parada de ônibus, outras  
pessoas nos cercavam. Pessoas vestidas com uniformes escolares, trajando uniformes  
de empresas onde certamente trabalhavam e para quais estavam se dirigindo, uma  
mulher com uma criança em seu colo e uma bolsa com desenhos infantis e outras  
pessoas.  
Conforme o ônibus se aproximava, era nítida, quase palpável, uma certa  
apreensão entre as pessoas que me cercavam, pelos mais possíveis motivos que, até  
aquele momento, eu apenas podia supor, sendo eu mesmo também usuário desta  
modalidade de transporte. Talvez alguém ali estivesse internamente comemorando –  
eventualmente aliviado – a vinda do coletivo e, assim, não se atrasaria para um  
compromisso; talvez a moça com a criança no colo conseguiria chegar no horário uma  
eventual consulta agendada para a filha; os homens bateriam seus pontos no horário  
certo; a vida correria bem.  
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Dona Silmara, da mesma forma, também aparentava certa apreensão. A essa  
altura, percebi que ela já estava com um vale digital3 na mão direita, enquanto a mão  
esquerda segurava a alça da bolsa próximo ao ombro. No movimento que se fazia de  
aproximação do ônibus, todos nós que estávamos na parada começamos ligeiramente  
a nos movimentar, ajustando-nos uns aos outros, na tentativa de melhor nos  
posicionarmos para quando o veículo parasse e estivéssemos em boa posição para  
adentrarmos com presteza, subirmos seus degraus e pudéssemos nos acomodar  
sentados. Sim, a disputa é termos acesso a lugares sentados com o mínimo de conforto.  
Essa excitação e apreensão era normal quando o ônibus se aproximava; e quanto maior  
o número de passageiros à espera, maior era essa agitação na preeminente “pegada do  
ônibus”.  
Voltando a dona Silmara, observamos que, antes da parada do ônibus para que  
pudéssemos pegá-lo, ela, como os demais, estava se “ajeitando” para quando o ônibus,  
que estava cada vez mais próximo, parasse no ponto. A grande questão talvez fosse: não  
havia fila, ou seja, a aparente apreensão do pequeno grupo de pessoas ali reunidas  
parecia girar em torno de questão de precedência em relação ao ato de adentrar no  
ônibus. E isso, certamente, junto com a espera e a superação da espera, aguçara a  
percepção de todos, fazendo-os comunicarem-se entre si a partir dos sentidos não  
verbalizáveis e dos movimentos corporais que respondiam a esses sentidos. Como a  
comunicação não passava por um canal direto e era tangencialmente perceptível  
através dos sentidos que atuavam concomitantemente através da relação entre o corpo  
e corpo, corpo e ambiente, ocorria ali uma comunicação intersensorial (Castro, 2026);  
forma de comunicação que será tratada ao longo deste artigo.  
A partir dessas e de outras interações aparentemente banais, este artigo propõe  
uma reflexão mais ampla sobre a comunicação no cotidiano urbano. Defende-se que,  
em espaços de mobilidade coletiva, como o ônibus, a comunicação se realiza por meio  
dos sentidos — que perpassam através de gestos, olhares, posturas corporais,  
3
Cartão plástico mensalmente recarregado com determinado valor, benefício fornecido por empresas  
para auxiliar os funcionários no custeio das despesas de deslocamento.  
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movimentos e objetos — e não prioritariamente pela linguagem verbal. Trata-se de uma  
comunicação intersensorial, na qual o corpo e o ambiente desempenham papel central  
na organização das sociabilidades.  
2 PERCURSOS URBANOS E ORGANIZAÇÃO SENSORIAL DA COPRESENÇA -  
CAMINHANDO ENCONTRAMOS NOSSO PERCURSO  
Éramos sete ou oito pessoas aguardando para entrar no veículo: uma mulher  
com uma criança no colo, outra senhora aparentando cerca de cinquenta anos, alguns  
homens e um rapaz com uniforme escolar. Diante dessa configuração, tornava-se  
perceptível a possibilidade — socialmente aprendida — de ceder passagem à mulher  
com a criança ou à senhora, por meio de um gesto corporal ou de um leve movimento  
de cabeça. Tais expectativas normativas, associadas a marcadores como gênero, idade  
e condição física, são amplamente difundidas no cotidiano urbano, mas não operam  
como regras mandatórias.  
Essas convenções configuram formas sociais flexíveis, que se atualizam, se  
aprofundam e/ou se suspendem conforme a leitura situacional dos sujeitos. Como  
aponta Goffman (2018), a vida social – assim como nossas condutas e comportamentos  
nela - é organizada por regras não escritas, às quais se adere muitas vezes de modo  
tácito, mas que permanecem abertas à negociação, adaptação ou suspensão,  
dependendo do contexto interacional.  
Naquela situação específica, a espera pelo embarque no ônibus parecia menos  
orientado por hierarquias explícitas de precedência e mais por uma lógica contingente.  
Subia primeiro quem encontrasse espaço; sentava-se quem localizasse um assento  
disponível. Sem maiores deliberações, embarquei. O trajeto seria longo, e o ônibus, já  
longe de estar vazio, anunciava a complexidade das interações que se desenrolariam ao  
longo do caminho.  
Todas as pessoas aproximavam-se da exata parada do ônibus, e já aguardavam  
à beira da pista, pisando no asfalto, buscando se posicionar da melhor forma para o  
embarque. Antes mesmo do ônibus parar completamente, os corpos já se  
reorganizavam em função da abertura iminente das portas. Naquele momento, era  
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incerto se conseguiríamos um assento próximo a Dona Silmara, mas mantemo-nos  
atento à sua presença, evitando perdê-la em meio ao fluxo de pessoas. O aglomerado  
de pessoas intensificou-se na direção da porta, assim que o ônibus parou. Ali, havia um  
diálogo entre os corpos, agenciado pelo tato e pelo movimento dos corpos que  
promovia a linguagem sensorial enquanto dispositivo comunicativo.  
Dona Silmara posicionou-se junto à porta assim que o veículo parou. Apenas  
mais tarde, ela comentaria que sua preocupação era evitar chegar suada ao trabalho,  
por isso um bom lugar, sentada, evitaria uma viagem desconfortável que a fizesse suar.  
Apesar de ter-se permanecido próximo a ela, não conseguíramos embarcar  
imediatamente juntos, pois um dos homens uniformizados adiantou-se impedindo a  
contiguidade no ato da subida dos degraus do ônibus. A cena revelou como o embarque  
se constitui por microajustes corporais em diálogo contínuos e diretos, que  
compreendemos por uma forma de comunicação não verbal e não ordenada,  
estabelecida formalmente através da propriocepção4, das vibrações e do tato; e, ainda  
dos odores dos corpos, da visão e da audição, sentidos produzidos pelos elementos  
contidos naquela circunstância banal e ordinária do mundo da vida, possibilitando uma  
forma de comunicação inerente àquela maneira conjuntural – tida como automática -  
no comportamento urbano.  
Figura 1 – A espera – Passageiros aguardam para embarcar no ônibus da linha 901  
4 Propriocepção é o sentido pelo qual percebemos a posição, o movimento e a tensão do nosso próprio  
corpo no espaço, sem precisar olhar para ele. Merleau-Ponty (2011), a propriocepção é central para a  
ideia de que o corpo não é um objeto entre outros, mas o meio pelo qual o mundo se torna perceptível.  
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Fonte: Elaborada pelos autores.  
Na imagem, observam-se os usuários do coletivo 901 organizados na parada de  
ônibus. Essa disposição dos corpos não resulta de instruções formais ou de comunicação  
verbal explícita, mas de uma comunicação sensorial que se estabelece por meio dos  
sentidos corporais. A visão e a audição orientam a atenção ao ambiente e à aproximação  
do veículo, enquanto sentidos somáticos, como a propriocepção e a percepção das  
vibrações, regulam distâncias, posições e movimentos. É a partir dessa articulação  
intersensorial, produzida no encontro entre corpos, espaço e ambiente urbano, que os  
usuários se posicionam e se deslocam, revelando uma forma de comunicação cotidiana  
que opera menos pela linguagem e mais pelos sentidos (Castro, 2020; 2024; 2024b).  
Ressaltamos, ainda, que a propriocepção pode ser compreendida como uma  
dimensão fundamental da sensorialidade, pois diz respeito à percepção encarnada do  
corpo em movimento e em relação – ou seja, em interação com algo -, não se limitando  
a um sentido isolado, mas operando de modo integrado aos demais sistemas  
perceptivos. Nessa perspectiva, autores como Soesman (1998), Pallasmaa (2010) e  
Castro (2024) defendem que a experiência sensorial é sempre intersensorial, isto é,  
constituída pela articulação dinâmica entre visão, tato, audição, olfato, equilíbrio e  
propriocepção, rompendo com modelos hierárquicos ou compartimentados dos  
sentidos.  
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Em diálogo com essa abordagem, Castro (2024a; 2024b) enfatiza o caráter  
relacional e situado da percepção, destacando que o sensível emerge da afetação mútua  
entre corpo, ambiente e outros corpos, o que coloca a propriocepção como eixo central  
da experiência perceptiva, na medida em que ancora a sensorialidade no corpo vivido e  
sustenta as práticas sociais como experiências corporais, relacionais e historicamente  
situadas.  
3
INTERAÇÕES INTERSENSORIAIS NO INTERIOR DO TRANSPORTE PÚBLICO  
Ao adentrar o ônibus, tornou-se imediatamente perceptível o modo como o  
espaço interno se apresentava: uma sucessão de rostos de diferentes idades, tons de  
pele e expressões, corpos vestidos com uniformes escolares, fardas de trabalho e roupas  
cotidianas, além de alguns assentos ainda disponíveis na parte traseira do veículo. Na  
área anterior à catraca, destinada às gratuidades, todos os lugares estavam ocupados, e  
alguns idosos permaneciam em pé, o que produzia uma sensação evidente de  
abafamento e compressão corporal. Para avançar, foi necessário erguer a mochila acima  
das cabeças, evitando contatos eventualmente indelicados naquele espaço já saturado.  
Observa-se que, após o embarque, os passageiros atravessam rapidamente a  
catraca, buscando garantir um assento disponível ou, na ausência dele, posicionar-se de  
modo estratégico, à espera de alguma vaga. Essa dinâmica produz uma tensão latente,  
marcada por expectativas, disputas silenciosas e leituras constantes do ambiente,  
sobretudo porque a área anterior à catraca é socialmente reconhecida como espaço  
prioritário para idosos e pessoas com direito à gratuidade.  
Dona Silmara aproximou o vale digital da leitora eletrônica, que respondeu com  
um apito sonoro característico, liberando sua passagem. O senhor que estava à minha  
frente deslocou-se ligeiramente, abrindo espaço para que eu passasse. Paguei a tarifa  
e, mais uma vez, mantive-me próximo a dona Silmara, acompanhando seus movimentos  
até o fundo do ônibus, onde ainda havia alguns assentos livres.  
Ao sentar-se, ela comentou: “É o lado do sol”. Estávamos posicionados à  
esquerda do veículo, o que significava que, ao longo de boa parte do trajeto, a incidência  
solar recairia diretamente sobre aquele lado, aquecendo rostos, ombros, braços e colos.  
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O comentário, breve e aparentemente trivial, acionava uma leitura sensorial do  
percurso e antecipava desconfortos futuros, revelando como o ambiente é  
continuamente percebido e interpretado pelos passageiros.  
Algumas das pessoas que aguardavam conosco na parada permaneceram em pé  
no corredor central. Entre elas, estava a mulher com a criança no colo, posicionada  
próxima à catraca, segurando o balaústre horizontal para manter o equilíbrio. Os olhares  
cruzavam-se entre os passageiros sentados, como se todos compartilhassem a  
expectativa de que alguém cedesse o lugar, sem que houvesse, naquele momento, uma  
iniciativa clara.  
Antes da próxima parada, um rapaz com fones de ouvido, vestindo uma roupa  
que poderia ser tanto de trabalho quanto de estudo, levantou-se. Sem emitir palavras,  
fez um breve gesto com a mão, apontando para o assento. A mulher, equilibrando-se  
com cuidado para não deixar cair a criança e nem a bolsa, dirigiu-se ao lugar. Ao sentar-  
se, sorriu e agradeceu: “Obrigada”.  
O gesto de ceder o assento, ainda que rápido, evidencia uma forma de  
comunicação não verbal mediada pelos sentidos, na qual o reconhecimento da presença  
e da necessidade do outro se realiza sem o recurso à palavra. Trata-se de uma interação  
intersensorial que articula percepção visual, leitura corporal e avaliação situacional,  
condicionada pelas características do ambiente e pelas normas tácitas que regulam o  
uso daquele espaço.  
Esses gestos efêmeros não se reduzem a ações funcionais. Eles comunicam e  
reafirmam significados culturais e normas sociais, operando como microacordos que  
organizam a convivência em contextos de copresença intensa. O ato de ceder lugar  
pode, ainda, inscrever momentaneamente os sujeitos em hierarquias sensíveis  
baseadas na idade, na condição física ou em expectativas de cuidado, revelando como  
os sentidos orientam a navegação pelas regras não escritas do transporte coletivo (Pink,  
2015).  
É nesse sentido que a etnografia sensorial se apresenta como abordagem  
analítica pertinente. Conforme propõe Pink (2011), trata-se de repensar a etnografia a  
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partir da centralidade da experiência sensorial, integrando percepção, corporeidade e  
categorias sensíveis à produção do conhecimento. Mais do que estudar os sentidos em  
si, a etnografia sensorial permite compreender como eles estruturam práticas,  
interações e formas de sociabilidade no cotidiano.  
Do ponto de vista metodológico, considerar o espaço interno do ônibus como  
um ambiente culturalmente produzido — ainda que de forma efêmera — implica  
reconhecer que a comunicação cotidiana no espaço urbano se realiza por práticas  
sensoriais não verbais. Observar gestos, posturas, usos de objetos e percepções  
ambientais torna-se, assim, fundamental para acessar as formas de sociabilidade que se  
produzem no interior do transporte coletivo.  
À medida em que as paradas se sucediam, o ônibus tornava-se progressivamente  
mais cheio, sem que houvesse desembarques. O espaço configurava-se como  
simultaneamente reduzido e densamente ocupado, intensificando a proximidade entre  
os corpos e a complexidade das interações. Nesse contexto, os sentidos assumem papel  
central na regulação da convivência: por meio de percepções visuais, táteis, auditivas e  
corporais, os passageiros ajustam posições, negociam distâncias e organizam  
movimentos. A comunicação intersensorial, portanto, não é acessória, mas constitutiva  
da experiência coletiva naquele espaço, estruturando as interações em um ambiente  
marcado pela saturação e pelo compartilhamento forçado.  
Se esses microgestos já revelam a centralidade dos sentidos na regulação da  
copresença, à medida que o ônibus se enche de passageiros, as interações deixam de  
ser pontuais e passam a se encadear, tornando o ambiente sensorialmente mais denso  
e exigindo formas mais complexas de ajuste, cooperação e atenção mútua.  
4
A COMUNICAÇÃO INTERSENSORIAL EM AMBIENTES SATURADOS  
À medida em que o ônibus avançava e a quantidade de passageiros aumentava,  
as interações tornavam-se mais densas e contínuas. Dona Silmara, aparentemente  
tranquila com minha presença ao seu lado, desviou o olhar do celular e passou a  
observar o corredor do veículo, agora intensamente ocupado. Acompanhando seu  
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movimento, percebi olhares dispersos, expressões faciais cansadas ainda tão cedo,  
respirações profundas e pequenos sons que se espalhavam por todo o interior do  
coletivo, além de conversas paralelas e interações esporádicas. Esses elementos  
compunham um ambiente sensorial saturado, no qual a copresença dos corpos exigia  
ajustes constantes e uma atenção sensível ao outro.  
Nesse ambiente progressivamente saturado, chamou minha atenção um rapaz  
em pé, próximo a mim, cuja presença também era acompanhada pelo olhar de Dona  
Silmara. Ele mantinha a mochila posicionada à frente do corpo, junto ao peito.  
Observado a partir da etnografia sensorial, esse gesto revela-se como uma forma de  
comunicação não verbal que articula simultaneamente preocupações físicas e sociais.  
Ao reposicionar a mochila, o passageiro ajusta sua presença no espaço coletivo,  
minimizando o contato involuntário e sinalizando atenção à copresença dos outros  
corpos. A ausência de fala, nesse caso, não implica ausência de comunicação; ao  
contrário, são os sentidos — sobretudo a percepção corporal e espacial — que  
organizam e regulam a interação naquele ambiente saturado.  
Como aponta Pallasmaa (2010), os sentidos são centrais na forma como  
experienciamos o espaço e nos comunicamos dentro dele. Nesse sentido, o gesto do  
rapaz não se reduz a uma solução prática, mas expressa uma leitura sensível do  
ambiente, orientada pela percepção visual, tátil e corporal da proximidade física.  
Segurar a mochila junto ao corpo implica reconhecer os limites do espaço compartilhado  
e agir de modo a reduzir o desconforto próprio e alheio, ao mesmo tempo em que  
sinaliza cuidado, respeito e atenção ao outro em um contexto de mobilidade coletiva.  
Essa leitura sensível do espaço ganhou densidade relacional quando Dona  
Silmara, percebendo a situação, ergueu a mão em direção à mochila e perguntou ao  
rapaz se gostaria que ela a segurasse. Quase imediatamente, ele retirou as alças dos  
ombros e lhe entregou o objeto, equilibrando-se com a outra mão. Após agradecer com  
um breve “obrigado”, ajustou a camisa ao corpo, demonstrando certo alívio, e passou a  
concentrar-se no celular enquanto permanecia em pé próximo a mim.  
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Nesse breve episódio, estabelece-se uma troca intersubjetiva que integra  
corpos, objetos e ambiente, evidenciando o caráter fundamentalmente intersensorial  
da experiência humana (Howes, 2005). A interação não se organiza prioritariamente  
pela linguagem verbal, mas por práticas sensoriais incorporadas, nas quais gestos,  
posturas e objetos mediam a convivência cotidiana (Ingold, 2000; Castro, 2020; 2024).  
O ato descrito evidencia, assim, como significados sensoriais estruturam uma  
forma social específica no interior do transporte coletivo urbano. No espaço do ônibus,  
gestos e objetos não apenas coexistem, mas participam ativamente da organização das  
interações, constituindo um ambiente intersubjetivo e colaborativo. Corpos e objetos  
compartilham o mesmo campo sensorial e, ao fazê-lo, produzem uma experiência  
coletiva mediada menos pela linguagem verbal e mais pela percepção incorporada, pela  
atenção ao outro e pela regulação sensível da copresença.  
Figura 2 – No ônibus 901 – Mulher sentada (camisa vermelha) segura mochila de um homem em pé.  
Fonte: Elaborada pelos autores.  
Encerrada essa breve troca, Dona Silmara e eu permanecemos em silêncio por  
alguns instantes. Ela guardou o celular dentro da bolsa, apoiada sobre a mochila que  
havia segurado, ambas acomodadas em seu colo, e passou a olhar pela janela do ônibus.  
Percebi que suava. Já passava pouco das 7h10 da manhã, e o calor se fazia presente não  
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apenas pelo horário, mas pelas próprias condições do ambiente interno do veículo, que  
intensificavam as sensações corporais ali vividas.  
O ruído proveniente do exterior do ônibus era intenso, por vezes caótico:  
automóveis em fluxo contínuo, motores, buzinas, escapamentos de motocicletas,  
caminhões e, ocasionalmente, sirenes de ambulância compunham um verdadeiro  
festival sonoro do cotidiano urbano. No interior do coletivo, o cenário não era distinto.  
Produziam-se sensações táteis, olfativas — entre perfumes e odores desagradáveis —,  
visuais e sonoras, frequentemente ambivalentes e difusas (Castro, 2021; 2020). Tratava-  
se de uma experiência sinestésica que tornava os minutos da viagem potencialmente  
incômodos, exigindo constantes ajustes corporais e perceptivos.  
É importante destacar que tais sensações não se configuravam como  
experiências individuais isoladas, mas como percepções compartilhadas entre os  
passageiros, em maior ou menor grau. Essas condições sensoriais compunham uma  
intersensorialidade própria de espaços de mobilidade coletiva, produzida e reproduzida  
por meio de uma comunicação intersensorial (Castro, 2026) que se estabelece entre o  
eu, o outro e o ambiente. Nesse contexto, práticas como segurar mochilas, ajustar  
posturas ou ceder espaços não aparecem como gestos excepcionais, mas como  
respostas sensíveis às exigências da convivência em um espaço saturado.  
Retomando o diálogo, perguntamos a dona Silmara se tinha o costume de  
segurar mochilas ou bolsas de outros passageiros durante as viagens de ônibus. Ela  
respondeu: “Sempre que dá, a gente faz, né?. Eu também ando muito (de ônibus) em  
pé às vezes… às vezes quando eu tô de sacola grande é difícil, muito peso, né?”5  
Assentindo, questionei se havia algum critério para a realização desse gesto de  
gentileza. Dona Silmara explicou:  
“Olha, eu acho que depende muito. Tem gente que anda com mochilão. Mas  
quando é uma bolsinha menor ou se tiver muito cheio eu faço porque fica  
batendo na gente que tá sentado. Quando eu tô em pé, muita gente também  
segura, às vezes também se levantam pra mim sentar. É todo dia isso, a gente  
nunca sabe como vai ser a viagem.”6  
5 Dona Silmara durante entrevista em 29 setembro 2024.  
6 Idem  
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Percebendo-a mais falante — talvez como forma de se distrair do calor e da  
demora —, perguntei há quanto tempo utilizava diariamente a linha 901 e se sempre  
havia morado naquele conjunto. Ela contou que usava a linha há cerca de dez ou onze  
anos e relembrou seus deslocamentos anteriores, entre o bairro do Icuí-Guajará e a  
Terra Firme, destacando como o uso cotidiano do ônibus atravessava diferentes  
momentos de sua trajetória de vida.  
Ao narrar essas experiências, Dona Silmara evidenciava como o transporte  
coletivo não constitui apenas um meio de deslocamento, mas um espaço de memória,  
sensações e sociabilidades acumuladas ao longo do tempo. O cotidiano do ônibus, nesse  
sentido, articula experiências sensoriais presentes e lembranças passadas, reforçando o  
caráter incorporado e relacional da comunicação que se estabelece nesses percursos  
urbanos.  
De modo semelhante, o uso de um gancho para pendurar sacolas, observado em  
outro momento da pesquisa, reforça o papel mediador dos objetos nas interações  
sociais. Mais do que soluções utilitárias, esses artefatos integram a experiência sensorial  
do deslocamento, facilitando a navegação corporal, a permanência no espaço e a  
convivência com outros passageiros. Corpos e objetos, assim, articulam-se na produção  
de uma experiência coletiva marcada pela adaptação contínua às restrições e  
possibilidades do ambiente.  
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Figura 3 – No ônibus 901 – Sacolas penduradas por um gancho.  
Fonte: Elaborada pelos autores.  
Outra evidência que trazemos, trata-se da senhora que fazia crochê, com  
aparente tranquilidade e prazer durante uma viagem de ônibus urbano tumultuado e  
com calor intenso7. Em nossa compreensão, esse exemplo se faz expressivo pois enfatiza  
como atividades corporais e manuais podem criar zonas de conforto e estabilidade  
sensorial em um espaço marcado pela transitoriedade, impessoalidade e desconforto.  
O crochê, nesse contexto, não se restringe a um passatempo, mas atua como uma forma  
de produzir um espaço e equilíbrio pessoal e sensorialmente expressivo dentro de um  
ambiente público compartilhado, revelando estratégias cotidianas de estar no ônibus.  
Observa-se, ainda, que muitos desses processos comunicacionais não são  
plenamente conscientes para os sujeitos em interação. Ainda assim, como argumenta  
Castro (2021), produzem efeitos concretos na organização da convivência, sendo  
atravessados pela comunicação intersensorial,  
“Observamos que as relações recíprocas que estabelecemos, e através das  
quais nos comunicamos, estão permeadas pela intersensorialidade, ou seja,  
pela comunicação através da qual os sentidos do corpo, providos de cultura,  
são agentes fundamentais para a realização da intersensorialidade.” (Castro,  
2021: 125).  
7 Ressaltamos que em Belém há pouca variação de temperatura, temos um clima quente e úmido e os  
ônibus só foram ter climatização durante e após a COP30.  
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Os exemplos analisados acima indicam que a experiência sensorial no ônibus não  
se limita às condições físicas do espaço, mas envolve dinâmicas comunicacionais  
complexas entre corpos, objetos, ambientes e sentidos. Como argumenta Pink (2009), a  
etnografia sensorial permite acessar essa complexidade ao deslocar o olhar para as  
formas pelas quais os indivíduos vivenciam e moldam os espaços cotidianos por meio  
da percepção incorporada.  
5
CONSIDERAÇÕES FINAIS: ETNOGRAFIA SENSORIAL E OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE  
EM MOVIMENTO  
Este artigo resulta de encontros breves e fragmentados, característica própria de  
uma etnografia realizada em trânsito, on foot, como anunciamos acima. Contudo, essa  
transitoriedade não se deu de maneira apressada e imprevista, mas bem ao contrário.  
Se deu por meio de uma observação lenta e reiterada, voltada à apreensão das  
percepções sensoriais que atravessam as interações cotidianas. Sons, gestos,  
movimentos e microinterações revelam camadas sensoriais e afetivas da experiência  
urbana, fundamentais para compreender como os sujeitos se relacionam com seus  
contextos sociais e materiais.  
A observação direta e participante mostrou-se, assim, condição central da  
pesquisa, uma vez que a interação constitui o próprio fundamento do trabalho  
etnográfico (Eckert; Rocha, 2008). Habitar o mundo da vida e ocupar reiteradamente  
esse ambiente, marcado pela diversidade e pela efemeridade, implicou reconhecer que  
a presença do pesquisador também compõe a cena observada, integrando os fluxos  
comunicacionais e sensoriais do espaço.  
Nesse sentido, os aportes da etnografia sensorial e da etnografia on foot (Lee;  
Ingold, 2006; Pink, 2012; Castro, 2020, 2021, 2024, 2026) foram fundamentais para  
compreender como o ato de caminhar, esperar e deslocar-se de ônibus engendra  
processos de reciprocidade e sociação, produzindo formas sociais situadas (Simmel,  
2006; Castro, 2024).  
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Como observa Lee e Ingold (2006), o caminhar permite compreender os lugares  
a partir das rotas que os constituem, uma vez que o movimento envolve o corpo inteiro  
em interação contínua com o ambiente. É nesse fazer sensorial — andar, sentir, observar  
e conviver — que esta pesquisa se ancora.  
Por fim, o uso da primeira pessoa do singular não se configura como recurso  
estilístico, mas como posicionamento epistemológico. Ao assumir a parcialidade do  
olhar e a localização do pesquisador, este trabalho alinha-se às epistemologias situadas  
propostas por Haraway (1988), reconhecendo que o conhecimento é produzido de  
forma multimodal, relacional e contextual (Laplantine, 2016), a partir das condições  
concretas do sentir, do perceber e do estar-no-mundo.  
Se, na parada de ônibus, a comunicação sensorial organiza o posicionamento e  
o acesso ao veículo, no interior do coletivo essas dinâmicas se intensificam, atravessadas  
pela proximidade corporal, pela disputa por assentos e pela negociação contínua do  
espaço.  
Nesse sentido, a pesquisa sobre sensorialidade no horizonte do campo da  
Comunicação não se limita à incorporação dos sentidos como novos objetos empíricos,  
mas implica um deslocamento epistemológico mais profundo. Trata-se de questionar  
modelos comunicacionais centrados prioritariamente na linguagem verbal, no discurso  
ou nos meios técnicos, para reconhecer que a comunicação também se realiza — e  
muitas vezes se organiza fundamentalmente — no plano da experiência vivida, da  
percepção incorporada e da copresença sensível. Ao assumir a sensorialidade como  
dimensão constitutiva dos processos comunicacionais, este trabalho alinha-se a uma  
perspectiva que compreende a comunicação como prática relacional, situada e  
corporalmente mediada, na qual corpo, ambiente e objetos operam como agentes de  
significação. Tal deslocamento implica repensar tanto o estatuto do sensível na  
produção do social quanto os próprios modos de conhecer em Comunicação, exigindo  
abordagens metodológicas capazes de apreender aquilo que escapa ao verbalizável,  
mas que, ainda assim, estrutura as sociabilidades e regula a vida cotidiana urbana.  
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As interações descritas — marcadas por gestos mínimos, ajustes corporais e usos  
situados de objetos — permitem deslocar o olhar analítico do evento isolado para os  
modos pelos quais a experiência sensorial organiza a convivência cotidiana no  
transporte coletivo. A partir dessas cenas etnográficas, torna-se possível refletir de  
forma mais sistemática sobre o corpo, os sentidos e os objetos como operadores  
centrais dos processos comunicacionais observados.  
Ao longo deste artigo, o corpo foi compreendido como “pessoa inteira, corpo e  
mente indissolúveis, num ambiente ricamente estruturado” (Ingold, 2018), não apenas  
como suporte da experiência, mas como operador central na produção de sentidos  
durante as viagens de ônibus. Gestos, olhares, silêncios, ajustes corporais e usos de  
objetos revelaram-se fundamentais para a organização da convivência cotidiana no  
interior do transporte coletivo, evidenciando que a comunicação nesse contexto opera  
menos pela linguagem verbal e mais por regimes sensoriais incorporados.  
Os relatos etnográficos apresentados demonstram como ações simples e  
aparentemente banais — segurar uma mochila, ceder espaço, acomodar sacolas ou  
concentrar-se em uma atividade manual — constituem formas de interação que  
ressignificam continuamente o espaço coletivo do ônibus. Essas práticas não apenas  
respondem às condições físicas do ambiente, como também expressam modos sensíveis  
de atenção ao outro, configurando sociabilidades momentâneas sustentadas por  
acordos tácitos e perceptivos.  
Por fim, este trabalho contribui para a compreensão de que a comunicação  
sensorial em espaços públicos de mobilidade coletiva, como o ônibus, constitui uma via  
privilegiada para entender as dinâmicas sociais do cotidiano urbano. As interações  
mediadas por gestos, objetos e corpos revelam regras de convivência fundamentadas  
na atenção ao outro, na regulação sensível da copresença e na negociação contínua do  
espaço compartilhado. Ao deslocar o foco da linguagem verbal para os processos  
sensoriais incorporados, o artigo oferece uma contribuição ao campo da Comunicação  
ao evidenciar formas comunicacionais que operam no nível do sensível, da percepção e  
da experiência vivida, frequentemente marginalizadas nas análises centradas no  
discurso ou nos meios. A etnografia intersensorial, portanto, apresenta-se como um  
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caminho analítico potente para compreender como os sentidos moldam as  
sociabilidades e os processos comunicacionais nos espaços coletivos da cidade.  
Ao evidenciar a centralidade dos sentidos, do corpo e dos objetos na organização  
da convivência cotidiana no transporte coletivo, este artigo reafirma a potência analítica  
da etnografia intersensorial para o campo da Comunicação, ao revelar formas  
comunicacionais que operam no plano do sensível, da percepção e da experiência vivida  
— dimensões fundamentais da vida urbana contemporânea, frequentemente  
marginalizadas nas abordagens centradas exclusivamente no discurso ou nos meios.  
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SOBRE O(A) AUTOR(A)  
Marcelo Amador de Oliveira Dias  
Bolsista CNPq e Mestrando do PPGCOM/UFPA, é graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela  
Universidade Federal do Pará (UFPA) em 2025. Fez parte do grupo de pesquisa "Socialidades,  
Intersubjetividades e Sensibilidades Amazônicas".  
Marina Ramos Neves de Castro  
Professora da Faculdade de Comunicação da UFPA. Doutora em Antropologia pelo Programa de Pós-  
Graduação em Antropologia - PPGA (Nota 5 Capes) da Universidade Federal do Pará. Mestre em Artes  
pelo PPGArtes (Nota 4 Capes) do Instituto de Ciências das Artes e mestre em Estudos das Sociedades  
Latino-Americanas - Opção Comunicação, pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris 3). Realizou  
estágio doutoral no Departamento de Antropologia do University College London, com o Prof. Daniel  
Miller a partir do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior - com apoio da CAPES. Coordena, desde  
2018, o grupo de pesquisa certificado pelo CNPQ Socialidades, Intersubjetividades e Sensibilidades  
Amazônicas – SISA  
COMO CITAR ESTE ARTIGO  
DIAS, Marcelo Amador de Oliveira; CASTRO, Marina Ramos Neves de. Quando a comunicação prescinde  
da palavra: comunicação intersensorial e sociabilidades no transporte coletivo urbano. Passagens:  
Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza,  
v. 17, n. especial, p. e97533 ,2026  
RECEBIDO EM: 13/08/2026  
ACEITO EM: 13/08/2026  
PUBLICADO EM: 23/09/2026  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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