ISSN 2179-9938  
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QUAL AMAZÔNIA CABE EM UM CARTÃO-POSTAL?  
REPRESENTAÇÕES, IMAGINÁRIOS E  
REGIMES DE VISIBILIDADE DA AMAZÔNIA  
WHICH AMAZON FITS ON A POSTCARD? REPRESENTATIONS,  
IMAGINARIES, AND REGIMES OF VISIBILITY OF THE AMAZON  
¿QUÉ AMAZONÍA CABE EN UNA POSTAL? REPRESENTACIONES,  
IMAGINARIOS Y REGÍMENES DE VISIBILIDAD DE LA AMAZONÍA  
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Rodolfo Silva Marques  
Universidade da Amazônia  
Luiz LZ Cezar Silva dos Santos  
Universidade Federal do Pará  
Resumo: O presente artigo analisa os cartões-postais como artefatos comunicacionais capazes de  
produzir, condensar e fazer circular determinadas imagens da Amazônia. Parte-se da compreensão  
de que essas imagens, embora relacionadas a paisagens, sujeitos e lugares efetivamente existentes,  
não constituem registros neutros ou totalizantes da realidade amazônica, pois resultam de processos  
de seleção, enquadramento e atribuição de sentidos. O estudo investiga quais Amazônias são  
privilegiadas nos cartões-postais, observando recorrências relacionadas à natureza, ao exotismo, ao  
patrimônio, à cultura e ao turismo, bem como as ausências produzidas por esses regimes de  
visibilidade. Metodologicamente, adotam-se uma revisão de literatura e a análise imagética de seis  
cartões-postais de cidades da Amazônia. Busca-se compreender em que medida essas  
representações reproduzem imaginários historicamente construídos sobre a região ou contribuem  
para sua pluralização. Sustenta-se que o postal apresenta uma Amazônia real, porém parcial e  
recortada, convertendo experiências particulares em signos de uma totalidade regional. Ao  
problematizar o que é mostrado e o que permanece fora do enquadramento, o artigo discute as  
disputas de representação e os desafios para pensar a Amazônia a partir de suas próprias narrativas,  
experiências e formas de autorrepresentação.  
Palavras-chave: cartões-postais; representação; Amazônia; imaginários; regimes de visibilidade.  
Abstract: This article analyzes postcards as communicational artifacts capable of producing,  
condensing, and circulating specific images of the Amazon. It starts from the understanding that  
these images, although related to landscapes, subjects, and places that actually exist, do not  
constitute neutral or totalizing records of Amazonian reality, as they result from processes of  
selection, framing, and attribution of meaning. The study investigates which Amazonian perspectives  
are privileged in postcards, observing recurrences related to nature, exoticism, heritage, culture, and  
tourism, as well as the absences produced by these regimes of visibility. Methodologically, a  
literature review and image analysis of six postcards from Amazonian cities are adopted. The aim is  
to understand to what extent these representations reproduce historically constructed imaginaries  
about the region or contribute to its pluralization. It argues that the postcard presents a real, but  
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partial and fragmented, Amazon, converting particular experiences into signs of a regional totality.  
By problematizing what is shown and what remains outside the frame, this article discusses the  
disputes over representation and the challenges of thinking about the Amazon from its own  
narratives, experiences, and forms of self-representation.  
Keywords: postcards; representation; Amazon; imaginaries; regimes of visibility.  
Resumen: El presente artículo analiza las postales como artefactos comunicacionales capaces de  
producir, condensar y hacer circular determinadas imágenes de la Amazonía. Se parte de la  
comprensión de que estas imágenes, aunque relacionadas con paisajes, sujetos y lugares  
efectivamente existentes, no constituyen registros neutrales ni totalizantes de la realidad amazónica,  
pues son resultado de procesos de selección, encuadre y atribución de sentidos. El estudio investiga  
qué Amazonías son privilegiadas en las postales, observando recurrencias relacionadas con la  
naturaleza, el exotismo, el patrimonio, la cultura y el turismo, así como las ausencias producidas por  
estos regímenes de visibilidad. Metodológicamente, se adoptan una revisión bibliográfica y el análisis  
de imágenes de seis postales de ciudades de la Amazonía. Se busca comprender en qué medida estas  
representaciones reproducen imaginarios históricamente construidos sobre la región o contribuyen  
a su pluralización. Se sostiene que la postal presenta una Amazonía real, pero parcial y recortada,  
convirtiendo experiencias particulares en signos de una totalidad regional. Al problematizar lo que  
se muestra y lo que permanece fuera del encuadre, el artículo analiza las disputas por la  
representación y los desafíos de pensar la Amazonía a partir de sus propias narrativas, experiencias  
y formas de autorrepresentación.  
Palabras clave: postales; representación; Amazonía; imaginarios; regímenes de visibilidad.  
1 INTRODUÇÃO  
A Amazônia se constitui, historicamente, como um território simultaneamente  
vivido, disputado e imaginado. Para além de uma extensa porção territorial marcada por  
diversidade ambiental, social e cultural, a região tem sido objeto de múltiplos olhares,  
discursos e narrativas que procuram defini-la e atribuir-lhe sentidos. Ao longo do tempo,  
diferentes representações construíram imagens associadas à exuberância da natureza,  
à imensidão dos rios e da floresta, ao exotismo de seus povos e culturas, à ideia de  
território desconhecido e, mais recentemente, à condição de espaço estratégico para os  
debates ambiental e climático. Essas imagens, entretanto, não abarcam a complexidade  
das experiências que constituem as diferentes Amazônias.  
A construção dessas representações se relaciona a processos históricos nos quais  
a região foi frequentemente narrada a partir de perspectivas externas. Relatos de  
viajantes, registros científicos, produções literárias, fotografias e outros produtos  
culturais contribuíram para consolidar determinados imaginários sobre a Amazônia.  
Nesse processo, a região foi muitas vezes transformada em objeto de observação e  
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interpretação, enquanto seus habitantes permaneceram em posições secundárias na  
produção de suas próprias imagens e narrativas. A Amazônia passou, assim, a ser  
reconhecida, também pelas imagens que sobre ela foram produzidas, selecionadas,  
reproduzidas e colocadas em circulação (Loureiro, 2009).  
É nesse campo de disputas simbólicas que se insere o cartão-postal. Como  
artefato comunicacional, cultural e de memória (Le Goff, 1990), o postal registra  
fotograficamente determinado lugar, ao mesmo tempo que seleciona uma paisagem,  
um monumento, um sujeito, uma prática cultural ou um acontecimento para circulação.  
Ao fazê-lo, estabelece uma operação de recorte e enquadramento: entre inúmeras  
possibilidades de representação, determinadas cenas são escolhidas para sintetizar  
visualmente uma cidade, um território ou uma região. O cartão-postal pode, portanto,  
ser compreendido como uma forma de narrativa imagética, na qual elementos  
particulares assumem significados que ultrapassam o próprio espaço representado  
(Corazza, 2015).  
No caso amazônico, essa operação assume particular relevância. Quando uma  
paisagem, manifestação cultural, mercado, rio, floresta ou grupo social é apresentado  
em um cartão-postal como representação da Amazônia, estabelece-se uma relação  
entre o fragmento visual e a ideia de totalidade regional. Uma imagem particular passa  
a funcionar como signo de uma Amazônia mais ampla, complexa e heterogênea. O  
postal apresenta algo que existe, além de construir uma determinada maneira de olhar  
para aquilo que existe. A questão consiste, pois, em compreender qual realidade  
amazônica foi selecionada para se tornar imagem da Amazônia (Gondim, 1994).  
É a partir dessa problemática que este artigo formula sua questão central: que  
imagem de Amazônia é construída pelos cartões-postais e em que medida essa  
representação corresponde à pluralidade das Amazônias vividas ou contribui para  
estabilizar uma Amazônia imaginada, turística, exótica ou estereotipada?  
Parte-se do pressuposto de que toda representação envolve escolhas,  
enquadramentos e atribuição de sentidos. Assim, mesmo quando o cartão-postal  
apresenta uma paisagem ou acontecimento existente, a imagem não corresponde à  
totalidade da experiência amazônica, mas a uma realidade recortada, organizada e  
transformada em narrativa visual.  
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A hipótese é que os cartões-postais documentam paisagens e práticas sociais e,  
simultaneamente, participam da construção de regimes de visibilidade sobre a região.  
Ao privilegiar imagens associadas à natureza exuberante, ao exotismo, ao patrimônio, à  
cultura, à monumentalidade e ao turismo, esses artefatos podem consolidar uma  
imagem-síntese da Amazônia.  
O objetivo geral é analisar quais imagens de Amazônia são produzidas e  
colocadas em circulação pelos cartões-postais, investigando em que medida contribuem  
para construir uma Amazônia imaginada, turística e estereotipada ou expressam  
dimensões plurais da experiência regional.  
Para alcançar tal objetivo, desenvolve-se pesquisa qualitativa e interpretativa,  
com revisão de literatura e análise de imagens. O corpus reúne seis cartões-postais da  
Amazônia, selecionados por sua pertinência ao problema e capacidade de representar  
paisagens, sujeitos, práticas culturais e patrimônios. A análise considera elementos  
visíveis e ausentes, observando processos de seleção, hierarquização e significação que  
transformam fragmentos da experiência amazônica em representações da totalidade  
regional.  
Além desta introdução, o artigo está organizado em seis seções. A segunda  
apresenta o desenho da pesquisa, o corpus e as categorias analíticas. A terceira aborda  
o cartão-postal como artefato comunicacional, articulando imagem, memória, consumo  
e representação. A quarta discute a Amazônia entre território vivido e imaginado. A  
quinta e a sexta desenvolvem a análise das representações e ausências. Por fim, as  
considerações finais retomam os resultados e refletem sobre disputas simbólicas,  
regimes de visibilidade e autorrepresentação.  
2
DESENHO DE PESQUISA  
A pesquisa possui natureza qualitativa e interpretativa, fundamentando-se em  
revisão de literatura (Lycarião; Roque; Costa, 2023) e análise de imagens (Joly, 2023).  
Embora dialogue com as contribuições metodológicas de Joly (2023), a análise  
desenvolvida se concentra, sobretudo, na interpretação temática e de conteúdo dos  
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cartões-postais, considerando os sentidos produzidos pelos elementos visuais  
recorrentes e pelas escolhas de representação.  
Parte-se da premissa de que toda imagem resulta de operações de seleção,  
enquadramento e atribuição de sentidos. Assim, sua interpretação considera tanto os  
elementos efetivamente representados quanto as ausências e os silenciamentos que  
delimitam o campo visual. A análise temática permite, desse modo, identificar  
recorrências, categorias de representação e formas de construção simbólica da  
Amazônia, articulando o conteúdo manifesto das imagens aos contextos sociais,  
históricos e comunicacionais nos quais foram produzidas e circularam.  
O corpus é constituído por seis cartões-postais de paisagens da Amazônia,  
selecionados pelos autores em razão de sua pertinência ao problema de pesquisa e da  
recorrência de determinados motivos visuais. Trata-se de um corpus de caráter  
diacrônico, composto por exemplares que abrangem diferentes temporalidades e  
contextos  
de  
produção  
e
circulação,  
permitindo  
observar  
permanências,  
transformações e deslocamentos nas formas de representação do território amazônico.  
Essa perspectiva possibilita compreender o cartão-postal tanto como dispositivo de  
resgate  
e
atualização de imaginários historicamente construídos, incluindo  
representações associadas aos anos 1990, quanto em sua inserção em contextos  
institucionais e comunicacionais contemporâneos, como o da COP30 em Belém.  
Para orientar a interpretação, são definidas quatro categorias: Amazônia-  
naturalizada, Amazônia-exótica, Amazônia-monumental/turística e Amazônia-ausente.  
Elas não constituem compartimentos rígidos ou excludentes, pois um mesmo cartão-  
postal pode articular diferentes dimensões. Assim, as categorias funcionam como  
instrumentos analíticos destinados a identificar distintas camadas de significação,  
evidenciando como paisagens, sujeitos, patrimônios e ausências participam da  
construção visual da Amazônia.  
Quadro 1 – Categorias de análise dos cartões-postais  
Categoria  
O que reúne  
Foco da análise  
Sentidos possíveis  
Floresta, rios, fauna,  
flora e paisagens  
naturais.  
Observar como  
elementos naturais  
são transformados em  
Exuberância,  
grandiosidade,  
preservação,  
Amazônia-  
naturalizada  
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Categoria  
O que reúne  
Foco da análise  
Sentidos possíveis  
signos capazes de  
singularidade e  
natureza como  
sintetizar a Amazônia.  
identidade regional.  
Analisar quem  
aparece, como os  
sujeitos são  
Povos, costumes,  
corpos, trajes,  
Diferença, tradição,  
autenticidade,  
Amazônia-exótica  
manifestações  
construídos  
culturais e formas de  
alteridade.  
visualmente e quais  
características são  
enfatizadas.  
alteridade e exotismo.  
Cidades,  
patrimônios,  
Identificar espaços  
selecionados como  
símbolos e  
Monumentalidade,  
patrimônio, turismo,  
identidade urbana e  
representação  
monumentos,  
mercados,  
Amazônia-  
compreender sua  
função na construção  
da identidade  
monumental/turística  
edificações,  
paisagens urbanas e  
atrações turísticas.  
metonímica da região.  
regional.  
Analisar ausências,  
invisibilidades e  
aspectos  
Limites do regime de  
representação,  
silenciamento,  
marginalização e  
disputas de  
Aquilo que não  
aparece ou é  
Amazônia-ausente  
marginalizado nos  
enquadramentos dos  
cartões-postais.  
sistematicamente  
excluídos das  
representações.  
visibilidade.  
Fonte: autoria própria, a partir da base conceitual de análise imagética de Joly (2023)  
A partir dessas categorias, a análise considera simultaneamente presenças e  
ausências. Essa abordagem possibilita estabelecer uma aproximação entre os cartões-  
postais e as formas contemporâneas de produção e circulação de imagens digitais.  
3 CARTÃO-POSTAL: IMAGEM, REPRESENTAÇÃO, MEMÓRIA E CONSUMO  
O cartão-postal pode ser compreendido como artefato comunicacional situado  
entre imagem, memória, consumo  
e
representação. Mais que reproduzir  
fotograficamente determinado lugar, constitui uma mídia que participa da produção,  
circulação e estabilização de sentidos sobre espaços, sujeitos e experiências. Sua função  
ultrapassa a transmissão de mensagens entre remetente e destinatário. Ao representar  
cidades, paisagens, monumentos ou manifestações culturais, o postal contribui para  
definir quais elementos de um lugar são reconhecidos como significativos e  
considerados dignos de representação visual.  
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A produção de um cartão-postal envolve seleção e enquadramento: diante da  
multiplicidade de elementos de uma cidade ou região, algumas paisagens são  
privilegiadas, enquanto outras permanecem invisibilizadas. Assim, a imagem constitui  
um fragmento selecionado e investido de significados que, ao circular, ultrapassa sua  
dimensão documental e adquire valor simbólico (Daltozo, 2006).  
Essa perspectiva aproxima o cartão-postal das reflexões de Kossoy (2001) sobre  
a fotografia enquanto documento e representação. Para Kossoy (2001), a fotografia  
constitui um fragmento da realidade, resultante de um registro situado no tempo e no  
espaço. No caso do postal, essa dimensão evidencia que a imagem não reproduz o lugar  
em sua totalidade, mas apresenta uma realidade visualmente construída a partir de  
escolhas que orientam sua produção e circulação.  
Essa característica torna o cartão-postal relevante para compreender a  
construção de imaginários geográficos e como objeto de memória. Uma paisagem pode  
converter-se em síntese visual do território, enquanto sua materialidade preserva e  
transporta imagens, articulando espaço, tempo e lembrança. Enviado, recebido ou  
colecionado, o postal registra viagens, vínculos afetivos e experiências, mantendo como  
referência visual aquilo que foi fotografado, mesmo diante das transformações do lugar  
representado.  
Essa dimensão temporal da fotografia aproxima-se da reflexão de Barthes (2006)  
sobre a relação entre imagem, passado e realidade. Para Barthes (2006), a fotografia  
remete à existência concreta daquilo que esteve diante da câmera. No cartão-postal,  
essa característica permite não apenas representar um lugar, mas preservar  
visualmente determinada configuração espacial, posteriormente retomada, lembrada e  
reinterpretada.  
Essa dimensão relaciona-se diretamente ao consumo simbólico. O cartão-postal  
integra circuitos turísticos nos quais lugares são transformados em experiências visuais  
e objetos de lembrança. Comprar ou enviar um postal significa consumir uma imagem  
do destino e comunicar essa experiência a outras pessoas. O lugar turístico torna-se,  
assim, espaço de visitação, imagem, signo e mercadoria cultural. Na Amazônia,  
determinadas representações podem reforçar associações com natureza exuberante,  
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exotismo e aventura, convertendo características específicas em atributos capazes de  
sintetizar uma experiência turística regional (Marques; Santos, 2025).  
Entretanto, compreender o postal como objeto de consumo não significa reduzir  
sua importância à lógica mercadológica. Seu valor está, também, na capacidade de  
articular diferentes dimensões da experiência social. A imagem consumida pode tornar-  
se lembrança, elemento de identificação, registro histórico e instrumento de construção  
de pertencimentos. Por isso, o cartão-postal ocupa uma posição singular na cultura  
visual: é simultaneamente produto, mensagem, memória e representação.  
Essa perspectiva ganha novos contornos diante da transformação das práticas  
de produção e circulação de imagens provocada pelas tecnologias digitais. A fotografia  
turística, antes materializada em postais e posteriormente compartilhada por meios  
impressos, passou a circular instantaneamente por redes sociais, plataformas digitais e  
dispositivos móveis.  
Assim, enquanto o postal tradicional privilegia imagens previamente  
selecionadas e institucionalizadas, a fotografia digital amplia a autorrepresentação e a  
participação dos sujeitos na produção visual. Em ambos os casos, a representação  
resulta de escolhas e enquadramentos. No contexto amazônico, compreender os  
cartões-postais exige analisar o que eles mostram e os sentidos atribuídos aos lugares,  
os imaginários preservados e as experiências excluídas de seus limites visuais (Marques;  
Santos, 2025).  
4 A AMAZÔNIA ENTRE O TERRITÓRIO VIVIDO E O TERRITÓRIO IMAGINADO  
Pensar a Amazônia implica reconhecer a tensão entre a região como território  
vivido e como objeto de representação. Realidade histórica, social, política e cultural,  
constitui-se por diferentes sujeitos, experiências, temporalidades e territorialidades  
(Becker, 2005). Simultaneamente, é uma construção simbólica produzida por discursos,  
imagens e narrativas. Entre a Amazônia vivenciada por seus habitantes e aquela  
representada por diferentes olhares, estabelecem-se disputas pela definição dos  
sentidos atribuídos à região.  
A distinção é importante porque “Amazônia” frequentemente opera como se  
designasse uma realidade homogênea (Amaral Filho, 2016). O termo reúne territórios,  
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cidades, comunidades, povos, trabalhadores, instituições e diferentes formas de relação  
com a natureza. A unidade nominal, porém, não elimina essa diversidade. Ao contrário,  
pode ocultá-la quando uma imagem ou narrativa passa a representar uma totalidade  
muito mais complexa que o signo utilizado para a sintetizar.  
A constituição histórica da ideia de Amazônia relaciona-se a processos de  
nomeação, interpretação e representação. Conforme Gondim (1994), viajantes,  
cronistas e missionários contribuíram, por meio de relatos e descrições, para a  
construção de um imaginário sobre a região. Posteriormente, narrativas científicas,  
literárias e artísticas ampliaram e ressignificaram essas representações, consolidando  
diferentes formas de compreender o espaço amazônico. A Amazônia foi, assim,  
progressivamente convertida em objeto de observação, descrição e interpretação. Em  
muitos desses processos, a experiência daqueles que habitavam o território ocupou  
posição secundária diante do olhar externo que pretendia explicar, classificar ou traduzir  
a região.  
Essa dimensão histórica explica a força de determinadas imagens da Amazônia,  
como floresta, rios, fauna, povos indígenas e a ideia de território remoto. Mais  
recentemente, desmatamento, crise climática, biodiversidade e conflitos territoriais  
passaram a integrar esse repertório. Embora distintas, essas representações selecionam  
aspectos da realidade amazônica e lhes atribuem capacidade de sintetizar uma região  
ampla e diversa (Gondim, 1994).  
Da mesma forma, uma narrativa sobre a Amazônia não precisa inventar seus  
elementos para produzir um determinado imaginário. Ela pode partir de aspectos  
efetivamente existentes e, ainda assim, construir uma visão parcial da região. O  
problema analítico, portanto, não está necessariamente na correspondência entre  
representação e realidade, mas nas condições pelas quais determinados fragmentos da  
realidade adquirem visibilidade e passam a ser reconhecidos como representativos de  
uma totalidade.  
Nesse contexto, a noção de imaginário torna-se fundamental. Os imaginários  
sociais constituem conjuntos de significações compartilhadas que orientam formas de  
perceber, interpretar e atribuir sentido ao mundo (Sá, 2000). Assim, imagens  
reiteradamente associadas à Amazônia ultrapassam representações particulares e  
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integram um repertório coletivo sobre a região. Rio, floresta, indígena, mercado,  
manifestação cultural e monumento deixam de ser elementos isolados e passam a  
funcionar como signos de uma ideia mais ampla e compartilhada de Amazônia.  
A repetição constante de um repertório visual restrito naturaliza a associação  
entre certas imagens e a identidade amazônica. A reiteração desses signos constrói uma  
sensação de familiaridade que molda a percepção da realidade local. Como resultado,  
manifestações que fogem a esse padrão estereotipado deixam de ser prontamente  
reconhecidas como autênticas, embora integrem o cotidiano de quem habita a região  
4.1 AMAZÔNIA: TERRITÓRIO, REPRESENTAÇÃO E IMAGINÁRIO  
A compreensão da Amazônia como território exige superar uma perspectiva  
exclusivamente físico-geográfica. O território resulta de relações sociais, disputas  
políticas, práticas culturais e apropriações simbólicas. É vivido e significado por sujeitos  
que estabelecem diferentes relações com os lugares. Nesse sentido, não existe uma  
única experiência amazônica, mas múltiplas formas de viver e significar os territórios da  
região (Becker, 2005; Loureiro, 2009).  
A pluralidade é particularmente relevante quando se considera a dimensão  
urbana da Amazônia. Durante muito tempo, representações dominantes associaram a  
região principalmente à floresta, aos rios e às populações tradicionais, relegando a  
segundo plano centros urbanos, periferias, universidades, espaços culturais e atividades  
econômicas diversificadas.  
A representação da Amazônia encontra-se atravessada por uma tensão entre  
particularidade e totalidade (Amaral Filho, 2016). Um lugar é particular: uma praça, um  
mercado, um rio, uma floresta ou uma comunidade. Quando representado como  
“Amazônia”, entretanto, passa a assumir função metonímica. O fragmento passa a  
significar o conjunto. É nessa passagem que uma imagem local adquire dimensão  
regional.  
O cartão-postal constitui exemplo dessa operação. A fotografia de determinado  
espaço amazônico registra um referente concreto, situado histórica e geograficamente.  
Entretanto, quando selecionada para integrar um cartão-postal, deixa de funcionar  
apenas como registro daquele espaço. O postal passa a circular como mensagem sobre  
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o lugar e, em determinadas circunstâncias, sobre a própria Amazônia. A imagem  
condensa significados territoriais, culturais e turísticos (Marques; Santos, 2024).  
A questão torna-se mais complexa com a repetição de escolhas. Se diferentes  
cartões-postais apresentam reiteradamente rios, florestas, monumentos, mercados,  
manifestações culturais ou determinados sujeitos como imagens da Amazônia, essas  
recorrências contribuem para estabilizar um repertório visual regional. A repetição  
significa que determinados elementos recebem maior capacidade de representar a  
região do que outros (Marques; Santos, 2025).  
A representação funciona por meio de processos de seleção e hierarquização.  
Mostrar implica também não mostrar. Escolher uma paisagem significa deixar outras  
fora do quadro; privilegiar um monumento implica relegar outros lugares à  
invisibilidade; destacar uma manifestação cultural produz determinada percepção da  
cultura regional; representar uma população a partir de características específicas pode  
reforçar formas de alteridade. A análise precisa considerar o visível e o ausente.  
O imaginário amazônico não se esgota em uma única imagem, mas se consolida  
por meio de representações recorrentes que criam signos estáveis para a região.  
Conforme destacam Marques e Santos (2024), a análise crítica não busca descartar tais  
construções, mas compreender seu papel em um sistema complexo onde uma única  
imagem atua de forma documental, estética e comercial, oferecendo um registro real  
que, simultaneamente, integra uma visão parcial do território.  
É nesse sentido que a noção de “Amazônias” ganha relevância. Falar em plural  
não significa negar elementos compartilhados ou identidades regionais, mas reconhecer  
que a experiência amazônica é constituída por múltiplas territorialidades e perspectivas.  
Há Amazônias urbanas e rurais, indígenas e não indígenas, metropolitanas e ribeirinhas,  
patrimoniais e periféricas, turísticas e cotidianas, naturais e tecnológicas. Essas  
dimensões coexistem em um território que não pode ser reduzido a uma única narrativa  
visual.  
4.2 QUEM FALA PELA AMAZÔNIA?  
A disputa pela autoridade narrativa reflete a ideia do exercício do poder  
discursivo: a capacidade de determinados grupos hegemônicos de produzir e fazer  
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circular as representações que definem o “outro”, um processo historicamente  
marcado, no contexto amazônico, pelo protagonismo de olhares e discursos externos  
(Spivak, 2010; Hall, 20156.  
Durante diferentes períodos, viajantes, pesquisadores, agentes do Estado,  
empresas, meios de comunicação e produtores culturais construíram representações  
sobre a Amazônia. A região tornou-se objeto de conhecimento, contemplação,  
exploração, preservação ou consumo simbólico. Mais que opor sujeitos “de fora” e “de  
dentro”, importa compreender as relações de poder que definem quais perspectivas  
ganham circulação e legitimidade. A colonialidade opera pela naturalização de  
determinados olhares, fazendo com que representações recorrentes deixem de ser  
percebidas como perspectivas particulares.  
Nesse contexto, a representação pode ser compreendida como campo de  
disputa. Não basta perguntar o que uma imagem mostra; é necessário perguntar quem  
a produz, para quem, em que contexto circula e quais sentidos são privilegiados.  
A colonialidade da representação perpétua estruturas que associam a Amazônia  
ao exotismo, à natureza intocada e ao atraso, naturalizando um olhar específico como  
objetividade. Como sustentam Quijano (2005) e Mignolo (2007) ao discutirem a  
colonialidade do poder e do saber, a dominação persiste pela reprodução contínua de  
padrões de classificação que operam de forma sutil e acrítica, transformando  
construções discursivas históricas e parciais em descrições tomadas como neutras e  
universais da realidade.  
A questão da autoridade narrativa torna-se central: quem pode falar pela  
Amazônia? Mais precisamente, quem pode produzir as imagens reconhecidas como  
imagens da Amazônia? A pergunta não implica defender que apenas seus habitantes  
possam representar os territórios. O problema surge quando determinados olhares  
monopolizam a capacidade de definir quais experiências devem ser reconhecidas como  
representativas.  
A diferença entre falar sobre a Amazônia e falar a partir da Amazônia é  
significativa. A primeira posição pode transformar a região em objeto de observação; a  
segunda enfatiza a experiência situada dos sujeitos que vivem os territórios e participam  
de sua produção simbólica.  
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Essa discussão é particularmente produtiva quando aplicada aos cartões-postais.  
A escolha de determinada imagem para circular como representação turística ou  
cultural envolve uma cadeia de decisões: quem fotografa, encomenda, edita,  
comercializa, compra e recebe. Ele participa de um circuito no qual determinadas  
imagens são legitimadas como dignas de serem vistas, lembradas e compartilhadas.  
É nesse circuito que o cartão-postal pode contribuir para a estabilização de  
regimes de visibilidade. Alguns lugares são transformados em ícones; determinados  
sujeitos, em representações de uma cultura; determinadas paisagens, em essência  
regional (Daltozo, 2006). Outros lugares, sujeitos e experiências permanecem fora do  
enquadramento. O silêncio visual não significa inexistência, mas ausência de  
reconhecimento dentro daquele regime de representação.  
Por isso, analisar cartões-postais da Amazônia exige observar presença e  
ausência. O desafio consiste em reconhecer que nenhuma imagem representa sozinha  
a complexidade amazônica. Toda representação é situada, parcial e atravessada por  
escolhas. O problema está em compreender os efeitos produzidos quando  
determinados fragmentos são reiteradamente apresentados como sínteses de uma  
totalidade.  
Nesse sentido, o cartão-postal constitui objeto privilegiado para investigar a  
relação entre território vivido, território imaginado e regimes de visibilidade (Marques;  
Santos, 2024). Ele participa de sua transformação em símbolos e mostra uma Amazônia  
que existe, mas ajuda a definir quais aspectos dessa existência serão lembrados,  
consumidos e reconhecidos. A questão central deixa de ser se a imagem postal  
corresponde à realidade e passa a ser qual realidade amazônica foi escolhida para se  
tornar imagem da Amazônia.  
5 ANÁLISE IMAGÉTICA  
Selecionamos seis cartões-postais, sendo dois de Belém-PA, um de Santarém-PA,  
um de Manaus-AM, um de Macapá-AP e um de Porto Velho-RO, que dão suporte para  
a discussão aqui proposta, a partir da categorização definida na seção 2.  
Durante a COP30, em 2025, realizada em Belém, a Itaipu Binacional promoveu  
uma ação gratuita na Zona Verde, em parceria com os Correios. Os visitantes puderam  
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escolher e enviar cartões-postais com fotografias exclusivas de pontos turísticos e  
projetos da capital paraense para qualquer lugar do mundo, acompanhados de selos  
comemorativos especiais. A imagem 1 reproduz o Parque Linear da Doca. A imagem 2,  
uma comunidade ribeirinha no entorno da capital paraense.  
Imagem 1 – Parque Linear da Doca - Belém-Pará  
Fonte: Sierich, Kiko / Itaipu Parquetec (2025) - Reprodução  
A imagem 1 evidencia uma paisagem urbana marcada pela arquitetura, pela  
organização do espaço público e por equipamentos associados ao lazer e à revitalização  
urbana. Predomina a categoria Amazônia-monumental/turística, ao converter a Doca  
em atração e símbolo de Belém, articulando urbanidade, lazer e consumo turístico. A  
Amazônia-naturalizada também se manifesta pela presença de elementos vegetais e  
paisagísticos. A representação amplia o repertório tradicional sobre a região ao  
apresentar uma Amazônia urbana e contemporânea, associada à valorização do espaço  
público. Entretanto, a Amazônia-ausente emerge nas dimensões excluídas do  
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enquadramento: periferias, desigualdades, conflitos urbanos, precariedades e  
experiências cotidianas permanecem invisíveis. O postal apresenta, assim, uma  
Amazônia urbana concreta, mas seletivamente enquadrada a partir de uma paisagem  
valorizada e potencialmente consumível.  
Imagem 2 – Comunidade ribeirinha - Belém-Pará  
Fonte: Sierich, Kiko / Itaipu Parquetec (2025) - Reprodução  
A imagem 2 representa uma comunidade ribeirinha no entorno de Belém,  
deslocando o foco da monumentalidade urbana para formas de ocupação e relação  
cotidiana com o território. Vegetação, água, moradias e estruturas da vida ribeirinha  
articulam as categorias Amazônia-naturalizada e Amazônia-monumental/turística, esta  
última ao transformar o modo de vida em elemento representativo e potencialmente  
turístico. A paisagem natural aparece associada a sujeitos e práticas sociais,  
evidenciando uma Amazônia vivida, e não apenas contemplada. A categoria Amazônia-  
exótica também se manifesta quando a comunidade é apresentada como expressão de  
um modo de vida diferenciado dos padrões urbanos, com o risco de convertê-la em  
signo estático de autenticidade regional. Já a Amazônia-ausente emerge nas dimensões  
não representadas, como condições socioeconômicas, infraestrutura, trabalho,  
circulação, acesso a serviços e transformações contemporâneas dessas comunidades.  
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Imagem 3 – Floresta Nacional do Tapajós - Santarém-Pará  
Fonte: Câmara, Fernando Sette / Expedição Pará (2022) - Reprodução  
A imagem 3, da Floresta Nacional do Tapajós, em Santarém, destaca vegetação,  
água e uma pequena embarcação, reforçando a Amazônia-naturalizada como principal  
signo de identificação regional. A floresta, o rio e a canoa sugerem exuberância,  
preservação e integração entre natureza e experiência humana. A dimensão turística  
também se evidencia ao apresentar a paisagem como espaço de contemplação. Em  
contrapartida, conflitos territoriais, atividades econômicas, populações locais, pressões  
ambientais e contradições sociais permanecem ausentes.  
Imagem 4 – Encontro das Águas – Manaus-Amazonas  
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Fonte: Lopes, Eulalio Noguez / Ref.: AM – M – 100 (2015) - Reprodução  
A imagem 4, do Encontro das Águas, em Manaus, destaca a confluência dos rios,  
reforçando a Amazônia-naturalizada e sua singularidade regional. A atração também  
mobiliza a Amazônia-monumental/turística, ao transformar o fenômeno geográfico em  
espetáculo visual e símbolo de Manaus e da região. A Amazônia-ausente aparece na  
exclusão da complexidade urbana e social, como habitantes, desigualdades, atividades  
econômicas e transformações territoriais. O postal converte, assim, um fenômeno  
natural em representação sintética da Amazônia.  
Imagem 5 – Vista parcial do Trapiche “Eliezer Levy” – Macapá-Amapá  
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Fonte: Santiago, Manoel da Silva (Exclusividade) / Macapá-Amapá-Brasil (2004) - Reprodução  
A imagem 5 apresenta o Trapiche “Eliezer Levy”, em Macapá, articulando  
arquitetura, rio e paisagem urbana. Predominam as categorias Amazônia-  
monumental/turística e Amazônia-naturalizada, ao apresentar o patrimônio como  
marco urbano integrado à paisagem aquática. O trapiche ultrapassa sua função  
arquitetônica e atua como símbolo visual de Macapá, constituindo representação  
metonímica da cidade. A imagem amplia o repertório amazônico ao evidenciar uma  
dimensão urbana e patrimonial para além da representação florestal. A ausência de  
sujeitos e práticas sociais limita a presença da Amazônia-exótica, enquanto a Amazônia-  
ausente manifesta-se na exclusão do cotidiano da população, atividades econômicas,  
desigualdades e transformações urbanas. O patrimônio selecionado sintetiza, assim,  
Macapá por meio da monumentalidade, memória e potencial turístico.  
Imagem 6 – Postal Histórico – Porto Velho-Rondônia  
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Fonte: Brascard / Porto Velho-Rondônia-Brasil (1990) – Reprodução  
O cartão-postal apresenta elementos emblemáticos da cidade de Porto Velho,  
destacando as Três Caixas d’Água, conhecidas como “Três Marias”, principal símbolo  
urbano e visual do município. A composição também evidencia a Estrada de Ferro  
Madeira-Mamoré, marco histórico associado à formação e ao desenvolvimento da  
cidade, além de referências à arquitetura histórica, representada por prédios e espaços  
públicos relacionados ao período áureo do ciclo da borracha.  
A imagem 6 reúne referências históricas e urbanas de Porto Velho, como as Três  
Caixas d’Água (“Três Marias”) e a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, associadas ao  
período da borracha. A composição mobiliza principalmente a categoria Amazônia-  
monumental/turística, ao transformar patrimônios e marcos urbanos em símbolos da  
cidade. A paisagem evidencia uma Amazônia que ultrapassa os signos naturais,  
incorporando memória, patrimônio, urbanização e história regional. A Amazônia-  
naturalizada aparece de modo secundário, enquanto a Amazônia-exótica praticamente  
não se manifesta, dada a ausência de sujeitos e práticas culturais. Já a Amazônia-ausente  
emerge na seleção de uma cidade histórica e monumental em detrimento de  
experiências urbanas contemporâneas, desigualdades, periferias e conflitos sociais. O  
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cartão-postal constrói, assim, uma imagem de Porto Velho ancorada no patrimônio e na  
memória, convertendo vestígios históricos em signos da identidade urbana e de uma  
Amazônia marcada pela ocupação e exploração econômica.  
Quadro 2 – Síntese da análise das 4 categorias nos cartões-postais  
Local  
Cat. 1  
Cat. 2  
Cat. 3  
Cat. 4  
Síntese  
Presença de  
elementos  
paisagísticos e  
vegetação  
urbana  
Parque  
Linear da  
Doca  
Predominante:  
espaço urbano,  
lazer e turismo  
Periferias,  
Amazônia  
urbana e  
turística  
Baixa ou  
ausente  
desigualdades e  
cotidiano urbano  
(Belém)  
Forte: água,  
vegetação e  
ambiente  
Presente:  
modo de vida  
como  
Infraestrutura,  
trabalho, serviços  
e transformações  
sociais  
Amazônia  
vivida,  
Comunidade  
ribeirinha  
(Belém)  
Presente:  
comunidade como  
experiência visual  
ribeirinha e  
exotizada  
ribeirinho  
autenticidade  
Floresta  
Nacional do  
Tapajós  
Conflitos,  
pressões  
Amazônia  
naturalizada e  
preservacionis  
ta  
Predominante:  
floresta, água  
e natureza  
Presente: floresta  
como experiência  
turística  
Baixa  
ambientais e  
diversidade social  
(Santarém)  
Amazônia  
como  
Cidade,  
população,  
desigualdades e  
cotidiano  
Encontro  
das Águas  
(Manaus)  
Predominante:  
fenômeno  
Forte: atração  
turística e  
Ausente  
natureza  
natural e rios  
espetáculo visual  
monumental  
e turística  
Trapiche  
“Eliezer  
Levy”  
Cotidiano,  
conflitos e  
Amazônia  
patrimonial,  
urbana e  
Predominante:  
patrimônio e  
Presente: água  
e paisagem  
Ausente  
Ausente  
transformações  
urbanas  
símbolo urbano  
(Macapá)  
turística  
Predominante,  
com patrimônio,  
memória e  
Amazônia  
histórica,  
Dinâmicas sociais  
contemporâneas  
e desigualdades  
Vistas de  
Secundária  
Porto Velho  
patrimonial e  
monumental  
história  
Fonte: autoria própria, a partir das categorias elencadas para análise  
A leitura das seis imagens revela a sobreposição de diferentes regimes de  
visibilidade. A Amazônia-naturalizada predomina nas representações de Santarém e  
Manaus, articulando-se às imagens urbanas de Belém e Macapá. A Amazônia-  
monumental/turística atravessa o corpus, valorizando patrimônios e atrações. A  
Amazônia-exótica concentra-se na comunidade ribeirinha, associada à autenticidade  
regional. Já a Amazônia-ausente perpassa todas as imagens, silenciando periferias,  
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desigualdades, conflitos territoriais, problemas de infraestrutura e dimensões  
científicas, tecnológicas e contemporâneas.  
Os cartões-postais analisados representam uma Amazônia real, porém  
seletivamente enquadrada. Florestas, rios, comunidades, atrações naturais e  
patrimônios urbanos são convertidos em imagens-síntese que passam a simbolizar uma  
totalidade regional. Essa construção visual resulta tanto da seleção quanto da exclusão  
de elementos, configurando um regime de visibilidade que privilegia natureza,  
patrimônio, monumentalidade, turismo e alteridade, enquanto reduz a diversidade das  
experiências sociais, urbanas e contemporâneas que constituem as múltiplas  
Amazônias.  
6 QUE AMAZÔNIA OS CARTÕES-POSTAIS MOSTRAM – E O QUE NÃO MOSTRAM?  
Os  
cartões-postais  
da  
Amazônia  
selecionam  
elementos  
estéticos  
e
mercadológicos para atender a expectativas de consumo. Ao priorizarem a Amazônia-  
naturalizada e a Amazônia-monumental/turística, destacam rios, florestas e marcos  
arquitetônicos urbanos. Cenas de natureza exuberante e patrimônios consolidados  
constroem uma narrativa visual fundada na exaltação da paisagem, transformando  
recortes específicos em símbolos metonímicos da totalidade regional.  
A Amazônia-exótica apresenta menor expressividade no corpus, diante da  
predominância  
das  
categorias  
Amazônia-monumental/turística  
e
Amazônia-  
naturalizada. Quando presente, associa povos tradicionais, festividades e práticas  
culturais às noções de autenticidade, alteridade e pitoresco. Esses enquadramentos  
ressaltam a singularidade cultural, mas podem estabelecer uma relação contemplativa  
e distanciada, reduzindo a complexidade das dinâmicas sociais contemporâneas.  
Embora a Amazônia-exótica seja secundária ou ausente neste corpus, sua  
presença contribui para compreender os regimes de representação analítica. Quando  
acionada, pode converter manifestações culturais em signos estetizados para o  
consumo turístico, valorizando a singularidade regional, mas também fixando sujeitos e  
práticas em repertórios imagéticos que tendem a simplificar a complexidade social  
contemporânea.  
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A análise da Amazônia-ausente evidencia realidades sistematicamente excluídas  
do enquadramento dos postais. Conflitos agrários, desmatamento, mineração,  
mudanças climáticas, desigualdades sociais, periferias urbanas e infraestruturas  
precárias raramente integram esse repertório visual. Tal silêncio revela um regime de  
visibilidade que privilegia representações estéticas e turísticas, enquanto marginaliza  
tensões e problemas socioambientais que também constituem o território amazônico.  
A exclusão de aspectos cotidianos, como a produção tecnológica, o ambiente  
acadêmico e as novas sociabilidades da juventude, demonstra como as escolhas de  
enquadramento moldam os limites do imaginário geográfico. Ao marginalizar as  
manifestações da vida moderna e multifacetada, os postais perpetuam uma percepção  
congelada da região.  
Assim, entendemos que o contraste entre as presenças e as ausências nos  
cartões-postais explicita as disputas simbólicas acerca de qual Amazônia deve se tornar  
visível. Se por um lado o cartão-postal documenta paisagens e patrimônios  
efetivamente existentes, por outro estabelece barreiras rígidas em relação aos dilemas  
e às transformações contemporâneas da região. A compreensão desse mecanismo de  
visibilidade e silenciamento é essencial para tensionar as imagens-síntese dominantes.  
Problematizar o que fica fora da margem da fotografia permite reconhecer a existência  
das múltiplas Amazônias que excedem os limites estreitos do enquadramento postal.  
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
A investigação sobre os cartões-postais da Amazônia evidencia que esses objetos  
atuam como documentos visuais e dispositivos comunicacionais, produzindo e  
circulando sentidos sobre o território. Ao selecionar natureza, arquitetura, cultura e  
sujeitos locais, os postais constroem narrativas segundo convenções específicas. Essa  
seleção não é neutra: determina quais fragmentos adquirem legitimidade para  
representar a região, transformando experiências particulares em símbolos  
estabilizados e contribuindo para a construção e reprodução de imaginários sobre a  
Amazônia.  
Os cartões-postais amazônicos não inventam seus referentes, mas selecionam  
paisagens e elementos efetivamente existentes. O problema reside na pretensão de  
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totalidade desses fragmentos, que, ao converter rios, florestas, mercados e  
manifestações culturais em sínteses identitárias, podem ocultar a heterogeneidade, as  
dinâmicas urbanas e as contradições socioeconômicas da região. Assim, o postal não  
espelha passivamente o real: organiza-o esteticamente, estabelecendo um regime de  
visibilidade no qual o detalhe selecionado passa a representar o todo.  
A reiteração de repertórios visuais restritos contribui para fixar imaginários  
sociais sobre a Amazônia. A repetição de enquadramentos naturaliza a associação entre  
determinados signos e a identidade regional, condicionando expectativas de consumo  
visual e cultural. Como consequência, paisagens e experiências que escapam a esses  
padrões tendem a perder visibilidade nos circuitos formais de reconhecimento, apesar  
de integrarem o cotidiano amazônico.  
A análise do invisível, ou Amazônia-ausente, é tão necessária quanto a dos  
elementos visíveis. A omissão de desmatamento, mineração, conflitos agrários,  
precarização urbana e avanços científicos não decorre apenas das limitações do suporte,  
mas do regime de representação. Ao operar por inclusão e exclusão, o postal comercial  
silencia tensões e desigualdades para construir uma narrativa pacificada e atrativa do  
destino. Evidenciar esses silenciamentos permite problematizar os limites do visível e do  
marginalizado na memória social (Le Goff, 1990).  
A transição dos suportes analógicos para as mídias digitais e redes sociais  
reconfigura a produção e circulação das imagens da Amazônia, sem eliminar processos  
de seleção, enquadramento e disputa simbólica. Se o postal tradicional concentrava a  
produção em agentes institucionais e turísticos, as plataformas digitais ampliam a  
circulação e as possibilidades de autorrepresentação, diversificando os sujeitos  
envolvidos na construção das narrativas sobre o território amazônico.  
Nesse processo de transição, a experiência da COP30 em Belém evidencia a  
articulação entre diferentes regimes de produção e circulação da imagem. As  
representações materializadas nos cartões-postais físicos, especialmente aquelas  
associadas à cidade e aos espaços mobilizados pelo evento, passam a coexistir com sua  
ampla repercussão nas redes sociais, nos meios digitais e na comunicação institucional.  
A descentralização da produção imagética não implica, necessariamente, uma  
democratização plena dos sentidos atribuídos ao território.  
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Nesse cenário, a passagem do cartão-postal às plataformas digitais deve ser  
compreendida menos como uma ruptura e mais como uma reconfiguração das formas  
de produção, circulação e legitimação das imagens amazônicas. Permanecem em  
disputa os enquadramentos, os silenciamentos e as visibilidades que historicamente  
participaram da construção simbólica da região, ainda que operem, na  
contemporaneidade, por meio de dispositivos, atores e circuitos comunicacionais  
distintos.  
Por fim, a principal contribuição deste estudo reside em tensionar a ideia de uma  
Amazônia monolítica por meio da crítica aos seus regimes de representação.  
Compreender o cartão-postal como produção de sentido, e não como mero reflexo  
neutro, permite desnaturalizar as imagens-síntese que historicamente condicionaram a  
percepção sobre a região. Reconhecer a parcialidade de cada enquadramento não  
significa invalidar os registros existentes, mas exigir a ampliação do campo visual para  
dar passagem às múltiplas Amazônias que coexistem para além das margens do papel  
fotográfico.  
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_____________________________________________________  
SOBRE O AUTOR  
Rodolfo Silva Marques  
Professor-Adjunto/Professor-Doutor da UNIVERSIDADE DA AMAZÔNIA (UNAMA). Estou vinculado à  
instituição desde 2007. Ministro aulas na Graduação dos Cursos Criativos (Jornalismo, Publicidade e  
Propaganda e Design) e em outros cursos, como Relações Internacionais e Marketing. Ministro aulas  
na pós-graduação lato sensu, presencial e com aulas online. Mestre em Ciência Política pela Universidade  
Federal do Pará (UFPA). Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul  
(UFRGS). Pós-Doutorando em Comunicação e Cultura pelo PPGCOM/UFPA.  
SOBRE O AUTOR  
Luiz LZ Cezar Silva dos Santos  
Pós-Doutor em Comunicação e Consumo pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação  
da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (PPGCOM/ECA/USP). Doutor em História  
pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Mestre em Estudos Literários pela  
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Comunicação Social – Habilitação em  
Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Docente do curso de Publicidade e  
Propaganda da UFPA e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia da UFPA.  
Participante do Grupo de Pesquisa Narraamazônia. Líder do Grupo de Pesquisa em Propaganda e  
Publicidade - Gruppu.  
COMO CITAR ESTE ARTIGO  
MARQUES, Rodolfo Silva; SANTOS, Luiz LZ Cezar Silva dos. Qual Amazônia cabe em um cartão-postal?  
Representações, imaginários e regimes de visibilidade da Amazônia. Passagens: Revista do Programa de  
Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, v. 17, n. especial, p.  
e97610 , 2026.  
RECEBIDO EM: 25/05/2026  
ACEITO EM:25/08/2026  
PUBLICADO EM: 23/09/2026  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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