ISSN 2179-9938  
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VOZES DO QUILOMBO: COMUNICAÇÃO, TERRITÓRIO E  
DESIGUALDADES DIGITAIS EM TRACUATEUA (PA)  
VOICES FROM THE QUILOMBO: COMMUNICATION, TERRITORY,  
AND DIGITAL INEQUALITIES IN TRACUATEUA (PA)  
VOCES DEL QUILOMBO: COMUNICACIÓN, TERRITORIO Y  
DESIGUALDADES DIGITALES EN TRACUATEUA (PA)  
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Marina Ramos Neves de Castro  
Universidade Federal do Pará  
Fábio Fonseca de Castro  
Universidade Federal do Pará  
Bruno Santos da Cunha  
Universidade Federal do Pará  
Resumo: O artigo analisa as condições de acesso e os usos sociais dos smartphones em quatro  
comunidades remanescentes quilombolas contíguas do município de Tracuateua, no nordeste do Pará -  
Torre, Jurussaca, Campo Novo e Cigano. Busca-se compreender de que modo as práticas comunicacionais  
digitais se articulam às desigualdades de infraestruturas e às formas territorializadas de sociabilidades. A  
pesquisa, de abordagem qualitativa e descritivo-interpretativo, combinou formulários mistos, observação  
direta e escuta de moradores. Os resultados mostram ampla presença dos smartphone, variando entre  
as comunidades com forte precariedade do sinal de internet. O aparelho é associado a comunicação  
familiar, ao acesso à informação e às atividades de estudo, sem substituir a oralidade e as redes  
presenciais. Conclui-se que a conectividade, nesses territórios, deve ser compreendida como direito  
vinculado à justiça territorial e comunicacional, e não como simples difusão de dispositivos.  
Palavras-chave: comunicação quilombola; território; inclusão digital, oralidade; Amazônia.  
Abstract: The article looks at the conditions of access and the social uses of smartphones in four  
neighboring quilombola communities in the municipality of Tracuateua, in northeastern Pará—Torre,  
Jurussaca, Campo Novo, and Cigano. It aims to understand how digital communication practices are  
connected to infrastructure inequalities and local forms of social life. The research, which has a qualitative  
and descriptive-interpretative approach, combined mixed surveys, direct observation, and listening to  
residents. The results show a wide presence of smartphones, varying across communities with very poor  
internet signals. The device is linked to family communication, access to information, and study activities,  
without replacing oral communication and face-to-face networks. The study concludes that connectivity  
in these areas should be seen as a right related to territorial and communication justice, not just as a  
simple spread of devices.  
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Keywords: quilombola communication; territory; digital inclusion, orality; Amazon.  
Resumen: El artículo analiza las condiciones de acceso y los usos sociales de los smartphones en cuatro  
comunidades quilombolas remanentes contiguas del municipio de Tracuateua, en el noreste de Pará:  
Torre, Jurussaca, Campo Novo y Cigano. Se busca comprender de qué manera las prácticas  
comunicacionales digitales se articulan con las desigualdades de infraestructuras y las formas  
territorializadas de sociabilidad. La investigación, de enfoque cualitativo y descriptivo-interpretativo,  
combinó cuestionarios mixtos, observación directa y escucha de los habitantes. Los resultados muestran  
una amplia presencia de los smartphones, variando entre las comunidades, con una fuerte precariedad  
de la señal de internet. El dispositivo se asocia a la comunicación familiar, al acceso a la información y a  
las actividades de estudio, sin reemplazar la oralidad ni las redes presenciales. Se concluye que la  
conectividad, en estos territorios, debe entenderse como un derecho vinculado a la justicia territorial y  
comunicacional, y no como una simple difusión de dispositivos.  
Palabras clave: comunicación quilombola; territorio; inclusión digital, oralidad; Amazonía.  
1 INTRODUÇÃO  
As comunidades de remanescentes quilombolas de Torre, Jurussaca, Campo  
Novo e Cigano localizam-se no município de Tracuateua, no nordeste do Pará, e fazem  
fronteira entre si. A proximidade geográfica não elimina as diferenças relacionadas à  
infraestrutura, ao acesso aos serviços e às condições de conectividade que atravessam  
seus cotidianos. Ao contrário, permite observar como desigualdades distintas se  
materializam em territórios vizinhos e historicamente constituídos por relações de  
parentesco, memória, trabalho e resistência.  
Nesses territórios, a comunicação não se resume ao acesso à internet ou à posse  
de aparelhos. Ela compreende a circulação da palavra, os encontros comunitários, as  
relações familiares, a transmissão de saberes e, mais recentemente, o uso de  
smartphones e aplicativos. A presença das tecnologias digitais acrescenta novas  
possibilidades de comunicação, mas também torna visíveis desigualdades relacionadas  
à cobertura do sinal, aos custos e às condições materiais de uso.  
O debate sobre inclusão digital costuma ser orientado por indicadores gerais de  
acesso. Essa perspectiva é insuficiente quando não considera as condições territoriais e  
as formas locais de apropriação do uso do smartphone, das redes sociais e da internet.  
Possuir um celular não significa dispor de conexão estável, letramento digital ou  
midiático, tampouco garante participação informacional plena. Da mesma forma,  
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utilizar WhatsApp ou Youtube não autoriza concluir que existe mobilização política ou  
cidadã, ou ainda, existência cultural mediada por essas plataformas.  
Diante disso, o problema que orienta o artigo é, como o acesso ao smartphone,  
as condições de conectividade e os usos comunicacionais desses aparelhos se  
apresentam nas quatro comunidades de remanescentes quilombolas contíguas de  
Tracuateua? O objetivo geral do artigo é analisar comparativamente essas condições e  
usos, relacionando-os às desigualdades territoriais e às práticas comunitárias de  
comunicação. Especificamente, busca-se caracterizar a posse do aparelho, identificar as  
principais barreiras de conectividades e examinar os sentidos atribuídos ao celular na  
comunicação, no acesso à informação e no estudo.  
A investigação é relevante porque desloca o olhar de uma oposição  
simplificadora entre tradição e tecnologia. A oralidade, as relações presenciais e as  
plataformas digitais não constituem, necessariamente, mundos excludentes. Os áudios,  
mensagens, vídeos e chamadas podem atualizar práticas anteriores de comunicação ao  
mesmo tempo que dependem de infraestruturas externas e de plataformas comerciais.  
A pesquisa de campo começou em 2024, no contexto de intensificação dos  
debates amazônicos que antecederam a COP30, realizada em Belém em 2025. Mais do  
que associar as comunidades automaticamente aos eventos, interessa reconhecer que  
as discussões sobre justiça climática, direito à informação e participação social exigem  
condições efetivas para que os povos tradicionais produzam e façam circular suas  
próprias narrativas.  
O artigo está organizado em quatro movimentos. Inicialmente discute  
comunicação. Território e oralidade. Em seguida, apresenta os procedimentos  
metodológicos e a limpeza das bases. A terceira parte examina os resultados  
comparativos. Por fim, a discussão articula os achados às desigualdades territoriais e à  
justiça comunicacional.  
Compreendemos que, na Amazônia não urbana, a justiça comunicacional não se  
restringe ao acesso técnico à internet e aos dispositivos digitais. Ela compreende a  
existência de infraestrutura adequada, conexão estável e economicamente acessível,  
desenvolvimento de competências digitais e reconhecimento das formas próprias de  
comunicação das comunidades. Envolve ainda o direito de produzir narrativas, fazer  
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circular saberes e participar das decisões que afetam seus territórios e seus modos de  
vida, sem que as populações amazônicas sejam reduzidas à condição de receptoras de  
informações produzidas externamente.  
2 COMUNICAÇÃO TERRITÓRIO E ORALIDADE  
O território quilombola não pode ser reduzido a uma superfície geográfica.  
Envolve apropriações materiais e simbólicas, memórias, vínculos, conflitos e estratégias  
de permanência. Haesbaert (2014) permite compreender o território enquanto  
realidade multidimensional, constituída por relações de poder e de pertencimento. Essa  
perspectiva ajuda a interpretar a conectividade não enquanto um serviço abstrato, mas  
como infraestrutura, que chega de maneira desigual a espaços rurais e, socialmente,  
periféricos.  
A comunicação, por sua vez, é entendida como processo cultural. Martin-  
Barbero (2003) desloca a análise dos meios para as mediações, chamando a atenção  
para os usos, as temporalidades e as matrizes culturais que configuram a experiência  
comunicacional. Assim, o significado do celular não está contido no aparelho, é  
produzido nas relações sociais em que ele se insere.  
A abordagem também dialoga com a comunicação popular discutida por Peruzzo  
(2007), especialmente pela centralidade da participação e da cidadania. Nas  
comunidades escutadas, entretanto, não se deve pressupor que toda comunicação  
quotidiana constitui comunicação popular organizada. A pesquisa diferencia usos  
interpessoais, acesso à informação e eventuais formas coletivas de articulação, evitando  
conferir aos dados sentidos políticos que eles não sustentam diretamente.  
Na sociedade em rede, a conexão pode ampliar o acesso aos fluxos de  
informação, mas também produzir novas assimetrias (Castells, 2009). A instabilidade do  
sinal, o custo dos pacotes de dados e a dependência de pequenas empresas locais de  
internet e plataformas condicionam a experiência de quem vive em áreas rurais. Couldry  
e Mejias (2019) acrescentam que a conexão contemporânea envolve processos de  
extração e apropriação de dados, o que impede uma visão celebratória da digitalização.  
As tecnologias sociais territorializadas ajudam a pensar soluções vinculadas às  
necessidades e aos conhecimentos locais (Dagnino, 2014). Essa noção não significa  
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classificar automaticamente o celular ou uma plataforma comercial como tecnologia  
social. Ela orienta a pergunta sobre quem decide, para que finalidade e em quais  
condições uma tecnologia é incorporada ao cotidiano.  
A oralidade permanece fundamental. A palavra falada transmite memórias,  
conhecimento sobre o território, experiências de trabalho e vínculos familiares. Nas  
práticas digitais, ela pode assumir novas materialidades por meio de áudios e vídeos.  
Não se trata de afirmar uma continuidade sem rupturas, mas de observar que a  
incorporação do celular não elimina as formas presenciais e intergeracionais de  
comunicação.  
Milton Santos (2006) mostra que técnica e espaço se constituem mutuamente.  
A rede móvel, as antenas, os aparelhos e as plataformas participam do território usado,  
mas sua distribuição desigual expressa decisões econômicas e políticas. Nessa  
perspectiva, a precariedade da conexão, assim como seu alto custo, é parte de uma  
desigualdade territorial mais ampla que atinge indivíduos e comunidades.  
Em nossa compreensão, a comunicação comunitária não se esgota na palavra  
falada ou escrita. Na etnografia da comunicação realizada sobre a celebração do Dia da  
Consciência Negra, na comunidade remanescente de quilombos de Jambuaçu, Castro et  
al. (2025) mostram que a produção coletiva da identidade quilombola envolve falas,  
cantos, tambores, danças, imagens, gestos, memórias e afetos. Trata-se, em sua  
compreensão, de uma comunicação intersensorial, na qual os sentidos são produzidos  
no encontro entre os corpos e o ambiente. Essa perspectiva ajuda a compreender o  
smartphone como parte de um universo comunicacional mais amplo: fotografias, vídeos  
e mensagens de voz podem prolongar determinadas narrativas e experiências, mas não  
substituem os encontros presenciais nos quais elas adquirem densidade cultural e  
política.  
O mesmo trabalho permite compreender melhor o fenômeno da transmissão  
intergeracional de saberes e sensibilidades. A pesquisa realizada evidenciou que a  
relação entre oralidade e digitalização deve ser examinada, também, em sua dimensão  
intergeracional. Os mais velhos ocupam posição central na transmissão de memórias,  
conhecimentos e narrativas territoriais, enquanto os jovens tendem a desempenhar  
papel mais ativo na circulação digital desses conteúdos. Essa relação não precisa ser  
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pensada como oposição entre tradição e modernidade, mas como possível processo de  
tradução entre linguagens, temporalidades e competências diferentes.  
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS  
A pesquisa possui caráter qualitativo e descritivo-interpretativo (Minayo, 2012).  
O campo abrange as comunidades de remanescentes quilombolas das comunidades do  
Torre, do Jurussaca, do Campo Novo e do Cigano, territórios contíguos situados em  
Tracuateua, estado do Pará. A coleta combinou formulários mistos, observação direta e  
escuta de moradores, permitindo articular dados fechados e registros contextuais.  
Os formulários abordaram idade, posse de smartphone, dificuldades de acesso,  
frequência de uso, conteúdos consultados, uso para estudo e leituras e percepção sobre  
a comunicação. As perguntas não tiveram preenchimento obrigatório; por isso, cada  
indicador é apresentado com o seu próprio número de respostas válidas. Os percentuais  
não foram calculados automaticamente sobre o total geral da comunidade quando  
havia respostas ausentes.  
As bases foram submetidas à conferência e à exclusão técnica para evidenciar  
corretamente o escopo analisado. Assim, na planilha vinculada à comunidade do Torre,  
foram excluídas cinco submissões duplicadas – sendo quatro repetições posteriores de  
participantes já registrados – e uma resposta idêntica enviada com intervalo de  
aproximadamente um minuto. Três registros preenchidos referindo-se à comunidade de  
Goiaval foram mantidos em Torre, conforme a delimitação territorial fornecida pelos  
interlocutores para a pesquisa. Em Jurussaca, excluiu-se apenas um registro não  
preenchido.  
Após esses procedimentos, o corpus totalizou 88 participantes, sendo 20 do  
Torre; 23 do Jurussaca; 27 do Campo Novo e 18 do Cigano. A distribuição é apresentada  
na Tabela 1.Essa mostra se coloca como não probabilística e não autoriza generalizações  
estatísticas para a totalidade da população remanescente de quilombos de Tracuateua.  
Tabela 1 - Distribuição dos participantes após a limpeza das bases, com base nos formulários da  
pesquisa  
Comunidade  
Torre  
Participantes  
20  
% da amostra  
22,7%  
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26,1%  
Jurussaca  
Campo Novo  
Cigano  
23  
27  
18  
88  
30,7%  
20,5%  
Total  
100,0%  
Fonte: SISA, elaborado por M. Castro.  
Os dados fechados foram organizados por comunidade e convertidos em  
frequências absolutas e relativas. Para a comparação, foram selecionados indicadores  
com categorias equivalentes nas quatro bases. As respostas abertas e os registros de  
campo foram interpretados por aproximação à análise de conteúdo (Bardin, 2016), com  
atenção às categorias acesso, infraestrutura, comunicação familiar, informação, estudo  
e oralidade.  
A triangulação entre fontes foi utilizada para evitar que os números fossem lidos  
isoladamente (Yin, 2015). O estudo preserva o anonimato – nomes e contatos existentes  
nas planilhas não foram reproduzidos. Também se evitou atribuir à ausência de acesso  
significados culturais não declarados pelos participantes.  
Como limites, destacam-se o número desigual de respondentes por comunidade,  
as respostas ausentes em algumas perguntas, a coleta realizada em movimentos  
diferentes e a ausência de um desenho amostral probabilístico. Esses aspectos são  
explicitados para assegurar transparência e delimitar o alcance das conclusões.  
.
4 RESULTADOS DA PESQUISA  
4.1 ACESSO AO CELULAR  
A posse do celular é majoritária nas quatro comunidades, mas apresenta  
diferenças relevantes. Campo Novo e Cigano registram as maiores proporções, ambas  
com 88,9%. Em Jurussaca, 18 dos 23 participantes possuem aparelhos (78,3%); no Torre,  
são 15 de 20 (75,0%). No conjunto da amostra, 73 dos 88 participantes declararam  
possuir smartphones, correspondendo a 88,0%.  
A presença ampla do dispositivo não equivale à universalização do acesso.  
Quinze participantes não possuem aparelho próprio, e algumas respostas indicam uso  
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de equipamentos de familiares e/ou amigos. Portanto, a posse individual deve ser  
diferenciada do acesso eventual ou compartilhado.  
Gráfico 1 - Participantes que possuem celular - Percentuais calculados sobre o total válido de cada  
comunidade.  
Fonte: SISA, elaborado por M. Castro.  
4.2 CONECTIVIDADE E DESIGUALDADE TERRITORIAL  
O sinal fraco aparece como obstáculo central, mas sua intensidade varia. Em  
Campo Novo, 24 dos 27 participantes indicaram essa dificuldade (88,9%). Em Cigano  
foram 10 entre 17 respostas válidas (58,8%); em Jurussaca 13 de 23 (56,5%); e no Torre,  
10 de 20 (50,0%).  
Os percentuais revelam que a elevada posse de aparelhos pode coexistir com  
conexão precária. Campo Novo oferece o exemplo mais evidente – embora 88,9%  
possuam celular, a mesma proporção relata sinal fraco. O acesso material ao dispositivo,  
portanto, não assegura a qualidade, continuidade ou autonomia de conexão.  
O preço elevado do serviço de internet também aparece nas respostas do Torre,  
Jurussaca e Cigano, embora com frequência inferior à do sinal fraco. Essas duas barreiras  
têm naturezas relacionadas: uma diz respeito à infraestrutura disponível; a outra, à  
capacidade de pagar por serviços e dados. Ambas limitam o direito a informação.  
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Gráfico 2 - Sinal fraco como principal dificuldade  
Fonte: SISA, por M. Castro.  
4.3 INFORMAÇÃO, ESTUDO E COMUNICAÇÃO  
O uso do smartphone para pesquisar e/ou estudar foi informado por 15  
participantes do Torre (75,0%), 18 do Jurussaca (78,3%), 21 do Campo Novo (77,8%) e 9  
entre 14 respondentes da questão, no Cigano (64,3%). O resultado indica presença  
significativa de práticas informacionais e educativas, ainda que condicionadas pela  
instabilidade da conexão.  
As respostas sobre conteúdos mostram variações. A predominância de  
conteúdos noticiosos no Torre e no Cigano, enquanto redes sociais aparecem com maior  
presença no Campo Novo e no Jurussaca. A diversidade não deve ser lida como oposição  
rígida entre informação e entretenimento, pois as plataformas e conteúdos podem  
sobrepor-se.  
A comunicação interpessoal ocupa posição central. Ver mensagens foi a primeira  
ação mais recorrente nas quatro comunidades, e o WhatsApp aparece repetidamente  
entre os aplicativos considerados úteis. Esses dados sustentam a interpretação do  
celular como mediador de vínculos familiares e cotidianos; não bastam, contudo, para  
afirmar que o aplicativo seja utilizado de forma sistemática para mobilização social entre  
os próprios quilombolas das comunidades.  
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Gráfico 3 - Uso do celular para pesquisa ou estudo  
Fonte: SISA, por M. Castro.  
A avaliação geral do uso do aparelho é positiva. A afirmação de que o celular  
facilita a comunicação foi registrada por 15 participantes do Torre, 20 do Jurussaca, 26  
do Campo Novo e todos os 15 respondentes válidos desta questão no Cigano. Ao mesmo  
tempo, a existência de respostas “não faz diferença” ou “dificulta” mostra que a  
experiência não é homogênea.  
A maioria também declarou que o celular não atrapalha suas atividades. Essa  
percepção, combinada à importância atribuída à comunicação e à informação, ajuda a  
compreender o aparelho como recurso integrado ao cotidiano. Seus benefícios, porém,  
são limitados por infraestrutura e custo.  
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Gráfico 4 - Percepção de que o celular facilita a comunicação  
Fonte: SISA, por M. Castro.  
5 DISCUSSÃO  
Os resultados desautorizam uma leitura binária entre comunidades  
“conectadas” e “desconectadas” à internet. A maioria possui smartphones, mas a  
conexão é instável e desigual. O que se observa é uma inclusão digital parcial, marcada  
pela presença do dispositivo e pela fragilidade das condições necessárias ao seu uso  
contínuo.  
Essa contradição ganha nitidez quando comunidades vizinhas apresentam  
proporções distintas de sinal fraco. A contiguidade territorial não produz igualdade  
infraestrutural. Redes de telecomunicações obedecem a critérios técnicos, econômicos  
e políticos que podem reproduzir marginalizações existentes. O território, nesse sentido,  
não é pano de fundo; ele participa ativamente das possibilidades comunicacionais.  
Com efeito, ao perceber que o smartphone não atua isoladamente nem se  
constitui como um instrumento individualizado da própria experiência social, pode-se  
perceber um fenômeno de integração multifatorializada e multisituada com base na  
experiência territorial das comunidades. Nesse sentido, seria pertinente dizer que o  
smartphone, seja como meio, seja como mídia, seja como instrumento, seja como  
dispositivo, não atua isoladamente, mas integra-se à oralidade, aos encontros, às  
relações familiares, às festas, às assembleias e às redes comunitárias.  
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Propomos compreender as práticas observadas como parte do que identificamos  
como sendo uma “ecologia comunicacional territorializada”. Essa expressão designa o  
conjunto de meios, relações, linguagens, infraestruturas, economias sociais e formas de  
sociabilidade por meio dos quais a comunicação é produzida em determinado território.  
Com esse conceito, identificamos as práticas observadas como parte de uma ecologia  
comunicacional centrada na experiência social vivenciada coletivamente e enquanto  
prática territorializada.  
O smartphone integra essa ecologia, mas não a organiza sozinho: seu significado  
depende das redes familiares, da oralidade, dos encontros presenciais, dos  
conhecimentos locais e das condições materiais de conexão. A desigualdade digital,  
portanto, não decorre apenas da ausência ou presença de dispositivos, mas das  
condições desiguais em que essa ecologia pode funcionar, renovar-se e relacionar-se  
com agentes externos.  
Ela possui, portanto, diferentes camadas. A primeira corresponde ao acesso ao  
aparelho; a segunda, à disponibilidade e à qualidade da conexão; a terceira, às  
competências necessárias para buscar, avaliar e produzir informações; e a quarta, à  
possibilidade de utilizar os meios digitais com autonomia, inclusive para participar de  
decisões e fazer circular narrativas próprias. Os dados mostram que avanços na primeira  
camada podem coexistir com fortes limitações nas demais.  
A comparação também mostra que a posse do celular não deve ser utilizada  
como indicador isolado de inclusão. Em Campo Novo, a elevada presença do aparelho  
convive com a maior frequência de sinal fraco. A experiência concreta é formada pela  
combinação entre equipamento, cobertura, custo, energia, competências de uso e  
finalidades sociais.  
O uso para estudo e pesquisa é expressivo nas quatro comunidades. Esse achado  
tem relevância pública porque revela demanda por informação e aprendizagem. Em  
condições de sinal instável, atividades escolares, pesquisas e leitura podem ser  
interrompidas ou depender do deslocamento para pontos de melhor conexão. A  
precariedade digital, portanto, também pode aprofundar desigualdades educacionais.  
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A centralidade das mensagens e da comunicação familiar dialoga com a  
perspectiva das mediações (Martin-Barbero, 2003). O aparelho é incorporado a vínculos  
anteriores e a rotinas locais. Ele não cria sozinho a socialidade, mas oferece novas  
formas de sustentar relações, pedir ajuda, obter notícias e organizar tarefas.  
A oralidade permanece presente tanto fora quanto dentro do ambiente digital.  
Conversas presenciais, relatos e ensinamentos continuam fundamentais, enquanto  
mensagens de voz e vídeo ampliam a materialidade da palavra falada. Essa coexistência  
é mais produtiva para a análise do que a ideia de substituição da tradição pela  
tecnologia.  
Também é necessário cuidado com a categoria “resistência”. As comunidades  
remanescentes de quilombo possuem histórias de resistência territorial e cultural, mas  
não se pode converter toda ação digital cotidiana em ato de resistência. Os dados deste  
estudo permitem afirmar que o smartphone apoia ações de comunicação, informação e  
estudo; a caracterização de práticas políticas digitais exigiria perguntas específicas,  
observação de grupos, conteúdos circulados e processos organizativos.  
Essa cautela pode ser esclarecida, por exemplo, por meio do estudo no campo  
da etnografia da comunicação de Castro e Castro (2023), onde observam a construção  
do Protocolo de Consulta do Território Quilombola Terra da Liberdade. Naquele caso, a  
comunicação política se produziu por meio de assembleias, oficinas, circulação de  
informações, grupos de WhatsApp e esforços deliberados para ampliar a participação  
das comunidades. Castro e Castro (2023) compreendem esse processo como uma luta  
coletiva pelo direito de “se dizer”, isto é, pelo reconhecimento da identidade, dos  
direitos e do território. O caso demonstra que a passagem do uso cotidiano para a  
comunicação política não decorre da simples presença de aparelhos ou aplicativos, mas  
da inserção desses meios em processos organizativos, deliberativos e reivindicatórios.  
Nas comunidades estudadas em Tracuateua, os dados permitem reconhecer usos  
relacionais, informacionais e educativos, mas não autorizam, por si sós, a caracterização  
de uma mobilização política digital sistemática.  
A justiça comunicacional envolve tanto o acesso às redes quanto o  
reconhecimento das formas próprias de narrar e produzir conhecimento; ou seja, a  
justiça existe diante do direito de acessar, produzir e fazer circular informações em  
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condições equitativas, com autonomia e respeito às formas de comunicação próprias de  
cada território. Dessa maneira, políticas de conectividade voltadas aos territórios  
quilombolas devem considerar cobertura estável, estabilidade energética, preços  
acessíveis, participação comunitária nas decisões e proteção de dados. A simples  
expansão comercial do serviço pode ampliar o consumo sem assegurar autonomia.  
A participação comunitária nas políticas de conectividade não deve ser  
entendida somente como consulta sobre a qualidade do serviço. À luz das experiências  
de construção de protocolos de consulta, ela envolve o direito de as comunidades  
definirem como desejam ser informadas, consultadas e envolvidas nas decisões sobre  
infraestruturas que atravessam seus territórios (Castro e Castro, 2023).  
A leitura territorializada também impede de responsabilizar os indivíduos pelas  
dificuldades. O sinal fraco não é resultado de falta de interesse ou competência das  
comunidades. Ele expressa uma distribuição desigual de infraestrutura. Da mesma  
forma, o uso compartilhado de aparelhos pode ser estratégia cotidiana, mas não elimina  
a desigualdade associada à ausência de equipamentos próprios.  
A pesquisa oferece, assim, uma base empírica para compreender a conectividade  
em territórios quilombolas contíguos. Seu principal achado não é a presença ou ausência  
absoluta da tecnologia, mas a coexistência entre apropriação cotidiana e precariedade  
estrutural.  
Um outro aspecto a destacar, nos resultados da pesquisa, diz respeito à  
necessidade de compreender a variação percebida entre as experiências de uso do  
smartphone entre as diferentes comunidades. A diferença entre comunidades  
territorialmente contíguas sugere que a conectividade possui uma geografia própria.  
Sua distribuição não acompanha necessariamente os limites comunitários nem as redes  
de parentesco e circulação local. Ela é produzida por decisões econômicas, localização  
de antenas, capacidade de pagamento, disponibilidade energética e condições de  
acesso aos provedores. Assim, a proximidade física entre as comunidades não elimina  
as descontinuidades da infraestrutura: pode-se atravessar uma fronteira quase  
imperceptível na paisagem e, ainda assim, ingressar em outra condição de  
conectividade.  
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Todas essas conclusões, em síntese, remetem à ideia de uma ecologia  
comunicacional territorializada, como referido acima. A compreensão dos processos  
comunicacionais a partir de uma perspectiva centrada nas ciências sociais permite uma  
abordagem complexa e que leva em conta mais a prática social do uso dos veículos e  
meios – e, portanto, a experiência coletiva – do que o impacto dos meios na sociedade.  
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
O artigo analisou comparativamente o acesso aos smartphones, as condições de  
conectividade e as práticas comunicacionais nas comunidades remanescentes de  
quilombo do Torre, Jurussaca, Campo Novo e Cigano. O corpus reuniu 88 participantes.  
A transparência sobre duplicidade, teste e respostas ausentes foi essencial para evitar  
percentuais inflados e interpretações imprecisas.  
Os dados mostram que o smartphone está presente na maioria dos cotidianos  
pesquisados, mas seu uso é atravessado por questões referentes aos custos e a  
deficiência do acesso. Campo Novo e Cigano apresentam as maiores proporções de  
posse; Campo Novo simultaneamente registra a maior incidência de precariedade do  
sinal. A comparação confirma que acesso ao aparelho e qualidade da conexão são  
dimensões diferentes.  
O celular é utilizado para comunicação familiar, consulta a notícias, redes sociais,  
pesquisa e estudo.  
A percepção predominante é de que o aparelho facilita a  
comunicação. Esses achados demonstram sua relevância cotidiana, sem permitir  
concluir automaticamente que todo uso digital constitui mobilização ou resistência  
social.  
A oralidade e as relações presenciais não desaparecem com a digitalização. Elas  
coexistem com mensagens, áudios e vídeos, compondo práticas híbridas e situadas. A  
inclusão digital precisa, portanto, reconhecer tanto o direito à infraestrutura quanto à  
pluralidade das formas comunitárias de comunicar.  
Conclui-se que enfrentar a desigualdade digital nesses territórios exige mais do  
que distribuir dispositivos. É necessário garantir conexão estável, acessível, e construída  
com participação comunitária, articulando inclusão digital, justiça territorial e direito a  
comunicação  
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REFERÊNCIAS  
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ISSN 2179-7536. Disponível em:  
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2015.  
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SOBRE O(A) AUTOR(A)  
Marina Ramos Neves de Castro  
Professora da Faculdade de Comunicação da UFPA. Doutora em Antropologia pelo Programa de Pós-  
Graduação em Antropologia - PPGA (Nota 5 Capes) da Univerisdade Federal do Pará. Mestre em Artes  
pelo PPGArtes (Nota 4 Capes) do Instituto de Ciências das Artes e mestre em Estudos das Sociedades  
Latino Americanas - Opção Comunicação, pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris 3). Realizou  
estágio doutoral no Departamento de Antropologia do University College London, com o Prof. Daniel  
Miller a partir do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior - com apoio da CAPES. Pesquisadora  
durante três anos do Centre dÉtudes sur lActuel et le Quotidien, sob orientação do Prof. Michel Maffesoli.  
Durante três anos seguiu os cursos de história da arte do Museu do Louvre, em Paris e, durante um ano,  
os cursos de história da arte e das civilizações na Université de Montréal. Iniciou curso de doutorado em  
sociologia da cultura na Université de Sorbonne-Descartes (Paris 5), concluindo os créditos e a pesquisa  
de campo, mas não chegou a defender a tese. Coordena, desde 2018, o grupo de pesquisa certificado  
pelo CNPQ Socialidades, Intersubjetividades e Sensibilidades Amazônicas - SISA. Coordena o projeto de  
pesquisa Comunicação Quilombola e o projeto de pesquisa Imagem e Cultura na Amazônia. Coordena o  
Projeto de Extensão Documentário Biográficos da Amazônia - DocBio. Coordenou o curso de Publicidade  
e Propaganda da Faculdade de Tecnologia da Amazônia (FAZ) durante 5 anos e, também nessa instituição,  
coordenou os cursos de Especialização em Gestão em Comunicação e Marketing. Na FAZ ainda  
desenvolveu o projeto acadêmico-pedagógico ''Expor-FAZ'', por meio do qual professores e alunos de  
diferentes disciplinas desenvolveram ações de criação, produção e exposição de projetos associando  
história da arte e publicidade. Também atuou como professora no curso de Especialização Imagem e  
Sociedade, na UFPA. Como professora, a nível de graduação e pós-graduação (especialização), ministrou  
as disciplinas História da Arte, Estética da Comunicação, Teorias da Comunicação, Cultura Visual,  
Sociologia da Imagem e Sociologia da Comunicação. Trabalhou ainda, durante 9 anos, na Fundação  
Cultural do Pará Tancredo Neves, desenvolvendo atividades junto ao Centro de Convenções, à  
Coordenação de Ação Cultural e Museu da Imagem e do Som. Em 2012 foi responsável pela curadoria e  
montagem da exposição Pai dégua Brasil em defesa do ECA, da artista plástica Lúcia Gomes.  
Fábio Fonseca de Castro  
Professor titular da Universidade Federal do Pará, vinculado ao Núcleo de Altos Estudos Amazônicos.  
Bolsista de Produtividade em Pesquisa (PQ) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e  
Tecnológico (CNPq). Professor e atual coordenador do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento  
Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU). Professor colaborador no Programa de Pós-graduação  
Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM). Foi professor visitante (visiting scholar) no Departamento  
de Sociologia da Universidade de Cambridge e conferencista da London School of Economics em 2017-18.  
Pós-doutor em Etnometodologia pela Universidade de Montreal (2014). Doutor em Sociologia pela  
Universidade da Sorbonne (Paris V Descartes) (2004). Mestre em Antropologia e Estudo das Sociedades  
Latino-Americanas pela Universidade de Sorbonne-Nouvelle) (2000). Mestre em Comunicação pela  
Universidade de Brasília (1995). Graduado em Comunicação-Jornalismo pela UFPA (1990). Vice-líder do  
Grupo de Pesquisa Socialidades, Intersubjetividades e Sensibilidades Amazônicas (SISA) e líder do Grupo  
de Pesquisa sobre Ontologias do Desenvolvimento (ONDE), no CNPq.  
Bruno Santos da Cunha  
Graduado em Comunicação, com habilitação em Jornalismo. Bolsista Pibic de 2023 a 2025. Pesquisador  
do Grupo de Pesquisa Socialidades, Intersubjetividades e Sensibilidades Amazônicas - SISA (CNPQ)  
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COMO CITAR ESTE ARTIGO  
CASTRO, Marina Ramos Neves de; FONSECA DE CASTRO, Fábio; CUNHA, Bruno Santos da. Vozes do  
Quilombo: Comunicação, território e desigualdades digitais em Tracuateua (PA). Passagens: Revista do  
Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, v. 17, n.  
especial, p. e97676, 2026  
RECEBIDO EM: 01/09/2026  
ACEITO EM:01/09/2026  
PUBLICADO EM: 23/09/2026  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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