ISSN 2179-9938  
Amazônia, Sociedade e Sustentabilidade: narrativas, discursos,  
ideologias e debates (2026)  
Amazon, Society, and Sustainability: Narratives, Discourses,  
Ideologies, and Debates (2026)  
Amazonía, Sociedad y Sostenibilidad: narrativas, discursos,  
ideologías y debates (2026)  
EXPEDIENTE DESTA EDIÇÃO  
EDITOR-CHEFE  
Dr. Aluísio Ferreira de Lima — Universidade Federal do Ceará, Brasil  
EDITORES CONVIDADOS  
Fábio Parode — Universidade Federal do Ceará | Universidade Federal do Pará  
Marina de Castro — Universidade Federal do Pará  
Dr. Fábio de Castro — Universidade Federal do Pará  
ASSISTENTES EDITORIAIS  
Dra. Aline Rebouças Azevedo Soares — Universidade Federal do Ceará, Brasil  
José Lemos Monteiro Filho — Universidade Federal do Ceará, Brasil  
Meire Silva de Lima — Universidade Federal do Ceará, Brasil  
Moema Mesquita da Silva Braga — Universidade Federal do Ceará, Brasil  
Thiago Henrique de Jesus-Silva — Universidade Federal do Ceará, Brasil  
Thiago Henrique Gonçalves Alves — Universidade Federal do Ceará, Brasil  
SUPORTE DO PORTAL DE PERIÓDICOS DA UFC (PPUFC)  
Juliana Lima — Universidade Federal do Ceará, Sistema de Bibliotecas da UFC (SiBi-  
UFC), Coordenação do Portal de Periódicos da UFC (PPUFC), Brasil  
CONSELHO EDITORIAL  
Dr. Albino Rubim — Universidade Federal da Bahia, Brasil; Dra. Ângela Prysthon —  
Universidade Federal de Pernambuco, Brasil; Dr. Bruno Fuser — Universidade Federal  
de Juiz de Fora, Brasil; Dr. Fábio de Castro — Universidade Federal do Pará, Brasil; Dr.  
Gaetan Tremblay — Université du Québec, Canadá; Dr. Gilmar de Carvalho (In  
Memoriam) — Universidade Federal do Ceará, Brasil; Dr. João Massarollo —  
Licença CC BY 4.0 · Acesso Aberto · ISSN 2179-9938  
ISSN 2179-9938  
Universidade Federal de São Carlos, Brasil; Dra. Maria Luisa Mendonça — Universidade  
Federal de Goiás, Brasil; Dr. Milton Guran — Universidade Cândido Mendes, Brasil; Dr.  
Muniz Sodré — Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil; Dra. Nilda Jacks —  
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil; Dr. Norval Baitello Junior — Pontifícia  
Universidade Católica de São Paulo, Brasil; Dra. Olga Guedes Bailey — Nottingham Trent  
University, Reino Unido; Dra. Raquel Paiva — Universidade Federal do Rio de Janeiro,  
Brasil; Dra. Thaiane Moreira de Oliveira — Universidade Federal Fluminense, Brasil.  
Em memória de Gilmar de Carvalho (1951–2020)  
Capa: Município de Cametá, rio Itapocu. Foto por Marina Ramos Neves de Castro.  
Endereço: Instituto de Cultura e Arte, Av. Mister Hull, s/n, Campus do Pici — Fortaleza,  
CE | CEP 60440-554  
MASTHEAD OF THIS ISSUE  
EDITOR-IN-CHIEF  
Dr. Aluísio Ferreira de Lima — Federal University of Ceará, Brazil  
GUEST EDITORS  
Fábio Parode — Federal University of Ceará | Federal University of Pará  
Marina de Castro — Federal University of Pará  
Dr. Fábio de Castro — Federal University of Pará  
EDITORIAL ASSISTANTS  
Dr. Aline Rebouças Azevedo Soares — Federal University of Ceará, Brazil  
José Lemos Monteiro Filho — Federal University of Ceará, Brazil  
Meire Silva de Lima — Federal University of Ceará, Brazil  
Moema Mesquita da Silva Braga — Federal University of Ceará, Brazil  
Thiago Henrique de Jesus-Silva — Federal University of Ceará, Brazil  
Thiago Henrique Gonçalves Alves — Federal University of Ceará, Brazil  
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Juliana Lima — Federal University of Ceará, UFC Library System (SiBi-UFC),  
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ISSN 2179-9938  
EDITORIAL BOARD  
Dr. Albino Rubim — Federal University of Bahia, Brazil; Dr. Ângela Prysthon — Federal  
University of Pernambuco, Brazil; Dr. Bruno Fuser — Federal University of Juiz de Fora,  
Brazil; Dr. Fábio de Castro — Federal University of Pará, Brazil; Dr. Gaetan Tremblay —  
Université du Québec, Canada; Dr. Gilmar de Carvalho (In Memoriam) — Federal  
University of Ceará, Brazil; Dr. João Massarollo — Federal University of São Carlos,  
Brazil; Dr. Maria Luisa Mendonça — Federal University of Goiás, Brazil; Dr. Milton Guran  
— Cândido Mendes University, Brazil; Dr. Muniz Sodré — Federal University of Rio de  
Janeiro, Brazil; Dr. Nilda Jacks — Federal University of Rio Grande do Sul, Brazil; Dr.  
Norval Baitello Junior — Pontifical Catholic University of São Paulo, Brazil; Dr. Olga  
Guedes Bailey — Nottingham Trent University, United Kingdom; Dr. Raquel Paiva —  
Federal University of Rio de Janeiro, Brazil; Dr. Thaiane Moreira de Oliveira —  
Fluminense Federal University, Brazil.  
In memory of Gilmar de Carvalho (1951–2020)  
Cover: Municipality of Cametá, Itapocu River. Photo by Marina Ramos Neves de  
Castro.  
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EXPEDIENTE DE ESTA EDICIÓN  
EDITOR JEFE  
Dr. Aluísio Ferreira de Lima — Universidad Federal de Ceará, Brasil  
EDITORES INVITADOS  
Fábio Parode — Universidad Federal de Ceará | Universidad Federal de Pará  
Marina de Castro — Universidad Federal de Pará  
Dr. Fábio de Castro — Universidad Federal de Pará  
ASISTENTES EDITORIALES  
Dra. Aline Rebouças Azevedo Soares — Universidad Federal de Ceará, Brasil  
José Lemos Monteiro Filho — Universidad Federal de Ceará, Brasil  
Meire Silva de Lima — Universidad Federal de Ceará, Brasil  
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Thiago Henrique Gonçalves Alves — Universidad Federal de Ceará, Brasil  
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CONSEJO EDITORIAL  
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Juiz de Fora, Brasil; Dr. Fábio de Castro — Universidad Federal de Pará, Brasil; Dr.  
Gaetan Tremblay — Université du Québec, Canadá; Dr. Gilmar de Carvalho (In  
Memoriam) — Universidad Federal de Ceará, Brasil; Dr. João Massarollo — Universidad  
Federal de São Carlos, Brasil; Dra. Maria Luisa Mendonça — Universidad Federal de  
Goiás, Brasil; Dr. Milton Guran — Universidad Cândido Mendes, Brasil; Dr. Muniz Sodré  
— Universidad Federal de Río de Janeiro, Brasil; Dra. Nilda Jacks — Universidad Federal  
de Río Grande del Sur, Brasil; Dr. Norval Baitello Junior — Pontificia Universidad Católica  
de São Paulo, Brasil; Dra. Olga Guedes Bailey — Nottingham Trent University, Reino  
Unido; Dra. Raquel Paiva — Universidad Federal de Río de Janeiro, Brasil; Dra. Thaiane  
Moreira de Oliveira — Universidad Federal Fluminense, Brasil.  
En  
memoria  
de  
Gilmar  
de  
Carvalho  
(1951–2020)  
Cover: Municipality of Cametá, Itapocu River. Photo by Marina Ramos Neves de Castro.  
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E-mail: revistapassagens@ufc.br  
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Sumário  
Summary · Sumario  
PT APRESENTAÇÃO DO DOSSIÊ “AMAZÔNIA, SOCIEDADE E SUSTENTABILIDADE:  
p.  
1
NARRATIVAS, DISCURSOS, IDEOLOGIAS E DEBATES”  
EN PRESENTATION OF THE DOSSIER “AMAZON, SOCIETY, AND SUSTAINABILITY:  
NARRATIVES, DISCOURSES, IDEOLOGIES, AND DEBATES”  
ES PRESENTACIÓN DEL DOSIER «AMAZONÍA, SOCIEDAD Y SOSTENIBILIDAD: NARRATIVAS,  
DISCURSOS, IDEOLOGÍAS Y DEBATES»  
Fábio Parode, Marina de Castro, Fábio de Castro  
PT MUSICAR A AMAZÔNIA: PERFORMANCE, CIRCULAÇÃO E TERRITORIALIDADE  
NOS FESTIVAIS DE PARINTINS E JURUTI  
p.  
8
EN MUSICALIZING THE AMAZON: PERFORMANCE, CIRCULATION, AND TERRITORIALITY IN  
THE PARINTINS AND JURUTI FESTIVALS  
ES MUSICALIZANDO LA AMAZONÍA: PERFORMANCE, CIRCULACIÓN Y TERRITORIALIDAD  
EN LOS FESTIVALES DE PARINTINS Y JURUTI  
Giselle Moreira do Vale, Fábio Fonseca de Castro, Bruna do Carmo Reis Lira  
PT VOZES DO QUILOMBO: COMUNICAÇÃO, TERRITÓRIO E DESIGUALDADES  
DIGITAIS EM TRACUATEUA (PA)  
p. 28  
p. 46  
p. 68  
EN VOICES FROM THE QUILOMBO: COMMUNICATION, TERRITORY, AND DIGITAL  
INEQUALITIES IN TRACUATEUA (PA)  
ES VOCES DEL QUILOMBO: COMUNICACIÓN, TERRITORIO Y DESIGUALDADES DIGITALES  
EN TRACUATEUA (PA)  
Marina Ramos Neves de Castro, Fábio Fonseca de Castro, Bruno Santos da Cunha  
PT IMAGINÁRIO AMAZÔNICO AUTOMATIZADO: SIGNOS E REPRESENTAÇÕES EM  
IMAGENS GERADAS POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL  
EN AUTOMATED AMAZONIAN IMAGINARY: SIGNS AND REPRESENTATIONS IN AI-  
GENERATED IMAGES  
ES IMAGINARIO AMAZÓNICO AUTOMATIZADO: SIGNOS Y REPRESENTACIONES EN  
IMÁGENES GENERADAS POR INTELIGENCIA ARTIFICIAL  
Kleyse Costa Vaz Santana Prado, Luiz Cezar Silva dos Santos  
PT DRAGS DA AMAZÔNIA: ESTÉTICA POVERA E NATUREZA COMO LINGUAGEM  
VISUAL  
EN AMAZONIAN DRAG QUEENS: POVERA AESTHETICS AND NATURE AS A VISUAL  
LANGUAGE  
ES DRAGS DE LA AMAZONÍA: ESTÉTICA POVERA Y NATURALEZA COMO LENGUAJE VISUAL  
Maximiliano Zapata, Fábio Pezzi Parode  
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PT QUAL AMAZÔNIA CABE EM UM CARTÃO-POSTAL? REPRESENTAÇÕES,  
p. 89  
IMAGINÁRIOS E REGIMES DE VISIBILIDADE DA AMAZÔNIA  
EN WHICH AMAZON FITS ON A POSTCARD? REPRESENTATIONS, IMAGINARIES, AND  
REGIMES OF VISIBILITY OF THE AMAZON  
ES ¿QUÉ AMAZONÍA CABE EN UNA POSTAL? REPRESENTACIONES, IMAGINARIOS Y  
REGÍMENES DE VISIBILIDAD DE LA AMAZONÍA  
Rodolfo Silva Marques, Luiz Cezar Silva dos Santos  
PT JURISGRAFIA E ESCREVIVÊNCIA CONTRA A GRAMÁTICA DA MORTE:  
EXPERIÊNCIAS DE AUTONOMIA COMUNITÁRIA EM BARCARENA (AMAZÔNIA  
BRASILEIRA)  
p. 115  
EN JURISGRAPHY AND WRITING AGAINST THE GRAMMAR OF DEATH: EXPERIENCES OF  
COMMUNITY AUTONOMY IN BARCARENA (BRAZILIAN AMAZON)  
ES JURISGRAFÍA Y ESCRITURA CONTRA LA GRAMÁTICA DE LA MUERTE: EXPERIENCIAS DE  
AUTONOMÍA COMUNITARIA EN BARCARENA (AMAZONÍA BRASILEÑA)  
Marcel Hazeu, Jorge Henrique Cardoso dos Santos  
PT UMA ANÁLISE SOBRE O USO DOS RECURSOS SEMIÓTICOS NAS ESTRATÉGIAS  
DE GREENWASHING NO BRASIL  
p. 139  
p. 161  
p. 188  
EN AN ANALYSIS OF THE USE OF SEMIOTIC RESOURCES IN GREENWASHING STRATEGIES  
IN BRAZIL  
ES UN ANÁLISIS SOBRE EL USO DE LOS RECURSOS SEMIÓTICOS EN LAS ESTRATEGIAS DE  
GREENWASHING EN BRASIL  
Leda Maria Pereira Monteiro, Fábio Pezzi Parode, Danielly Oliveira Inomata  
PT A IMANÊNCIA DO POLÍTICO? COMUNICAÇÃO INDÍGENA E PRESENÇA  
MẼBÊNGÔKRE-KAYAPÓ NAS REDES SOCIAIS  
EN THE IMMANENCE OF THE POLITICAL? INDIGENOUS COMMUNICATION AND THE  
MẼBÊNGÔKRE-KAYAPÓ PRESENCE ON SOCIAL MEDIA  
ES ¿LA INMANENCIA DE LO POLÍTICO? LA COMUNICACIÓN INDÍGENA Y LA PRESENCIA DE  
LOS MẼBÊNGÔKRE-KAYAPÓ EN LAS REDES SOCIALES  
Wesley Silva, Breno Alencar  
PT FLORESTAS PRODUTIVAS NA AMAZÔNIA LEGAL: AVANÇANDO PELO DEBATE  
E POSSIBILIDADES NO ESTADO DO PARÁ A PARTIR DE UMA EXPERIÊNCIA DO  
TED UFMA/INCRA  
EN PRODUCTIVE FORESTS IN THE LEGAL AMAZON: ADVANCING THE DEBATE AND  
POSSIBILITIES IN THE STATE OF PARÁ BASED ON AN EXPERIENCE FROM TED UFMA/INCRA  
ES BOSQUES PRODUCTIVOS EN LA AMAZONÍA LEGAL: AVANZANDO EN EL DEBATE Y LAS  
POSIBILIDADES EN EL ESTADO DE PARÁ A PARTIR DE UNA EXPERIENCIA DEL TED  
UFMA/INCRA  
Antonio José de Araújo Ferreira, Jadson Pessoa da Silva, César Augustus Labre Lemos de  
Freitas, Ricardo Zimbrão Affonso de Paula  
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PT QUANDO A COMUNICAÇÃO PRESCINDE DA PALAVRA: COMUNICAÇÃO  
p. 210  
p. 233  
p. 259  
INTERSENSORIAL E SOCIABILIDADES NO TRANSPORTE COLETIVO URBANO  
EN WHEN COMMUNICATION DISPENSES WITH WORDS: INTERSENSORY  
COMMUNICATION AND SOCIABILITIES IN URBAN PUBLIC TRANSPORT  
ES CUANDO LA COMUNICACIÓN NO REQUIERE PALABRAS: COMUNICACIÓN  
INTERSENSORIAL Y SOCIABILIDAD EN EL TRANSPORTE PÚBLICO URBANO  
Marcelo Amador de Oliveira Dias, Marina Ramos Neves de Castro  
PT O SEGREDO E O SAGRADO NA AMAZÔNIA DIGITAL: A NEGOCIAÇÃO DA  
VISIBILIDADE DO TAMBOR DE MINA NO CIBERESPAÇO  
EN THE SECRET AND THE SACRED IN THE DIGITAL AMAZON: NEGOTIATING THE VISIBILITY  
OF TAMBOR DE MINA IN CYBERSPACE  
ES LO SECRETO Y LO SAGRADO EN LA AMAZONÍA DIGITAL: LA NEGOCIACIÓN DE LA  
VISIBILIDAD DEL TAMBOR DE MINA EN EL CIBERESPACIO  
Arlindo Figueiredo do Rosário Júnior  
PT “AMAZÔNIA, VAIS MORRER!”: NARRATIVA REGIONALISTA E DISCURSO  
IDENTITÁRIO NA CANÇÃO POPULAR DA BELÉM “OITENTISTA”  
EN “AMAZON, YOU ARE GOING TO DIE!”: REGIONALIST NARRATIVE AND IDENTITY  
DISCOURSE IN POPULAR SONG FROM 1980s BELÉM  
ES «¡AMAZONÍA, VAS A MORIR!»: NARRATIVA REGIONALISTA Y DISCURSO IDENTITARIO  
EN LA CANCIÓN POPULAR DE LA BELÉM «OITENTISTA»  
Nélio Ribeiro Moreira  
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COMO A AMAZÔNIA PENSA A SI MESMA: COMUNICAÇÃO,  
TERRITÓRIOS, IMAGINÁRIOS E DISPUTAS DE VISIBILIDADE  
HOW THE AMAZON THINKS ITSELF: COMMUNICATION,  
TERRITORIES, IMAGINARIES, AND DISPUTES OVER VISIBILITY  
CÓMO LA AMAZONÍA SE PIENSA A SÍ MISMA: COMUNICACIÓN,  
TERRITORIOS, IMAGINARIOS Y DISPUTAS DE VISIBILIDAD  
_____________________________________________________  
Fábio Parode  
Universidade Federal do Ceará | Universidade Federal do Pará  
Marina de Castro  
Universidade Federal do Pará  
Fábio de Castro  
Universidade Federal do Pará  
O presente dossiê nasce de uma questão que, embora aparentemente simples,  
desloca de maneira significativa os modos tradicionais de pensar a Amazônia: como a  
Amazônia pensa a si mesma? Mais do que perguntar como o Brasil, a ciência, os meios  
de comunicação ou os discursos internacionais representam a região, trata-se de voltar  
o olhar para os processos pelos quais sujeitos, comunidades, artistas, pesquisadores e  
grupos sociais amazônicos produzem suas próprias narrativas, disputam sentidos,  
elaboram formas de pertencimento e constroem modos de estar no mundo.  
Essa perspectiva constitui o eixo articulador da presente coletânea. Conforme  
proposto na chamada do dossiê, interessa-nos compreender a Amazônia não apenas  
como objeto de discursos produzidos a partir de fora, mas como território de  
enunciação, produção de conhecimento, criação estética, resistência política e  
elaboração de futuros possíveis. Nesse deslocamento, a Amazônia deixa de ocupar  
exclusivamente o lugar de paisagem, recurso, fronteira ou problema nacional e passa a  
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ser compreendida como espaço produtor de pensamento, linguagem, cultura e  
conhecimento.  
Essa mudança de perspectiva implica também interrogar os regimes históricos  
de representação que atravessaram a região. Quem fala sobre a Amazônia? Quem pode  
falar em nome dela? Quais imagens, discursos e imaginários foram historicamente  
mobilizados para defini-la? E, sobretudo, quais sujeitos e coletividades estão hoje  
produzindo outras formas de narrar, representar e significar a Amazônia?  
A questão ganha especial relevância diante das transformações ambientais,  
sociais, econômicas, tecnológicas e políticas que atravessam a região. As mudanças  
climáticas, os conflitos territoriais, as desigualdades de acesso às tecnologias, as  
disputas em torno dos recursos naturais e as diferentes concepções de desenvolvimento  
sustentável colocam em evidência a necessidade de compreender a Amazônia a partir  
de suas próprias experiências e formas de elaboração. A chamada do dossiê situa  
justamente essa problemática ao perguntar como as populações amazônicas pensam  
seu compromisso histórico diante das mudanças climáticas e da construção de  
estratégias de cuidado ambiental e desenvolvimento sustentável.  
Nesse sentido, o dossiê não pretende oferecer uma imagem única ou totalizante  
da Amazônia. Ao contrário, reúne perspectivas diversas, por vezes tensionadas entre si,  
que revelam a pluralidade dos modos de existência, comunicação e produção de  
sentidos na região. Os artigos aqui reunidos transitam por diferentes territórios,  
sujeitos, linguagens e objetos, articulando comunicação, cultura, imaginário, tecnologia,  
questões ambientais, economia, territorialidades, direitos e formas de organização  
social.  
Essa diversidade não constitui apenas uma característica formal da coletânea.  
Ela é, em si mesma, uma resposta à questão que orienta o dossiê. Se a Amazônia pensa  
a si mesma, ela o faz por múltiplas vozes, linguagens, territórios e regimes de  
experiência. A autorreflexividade amazônica não se apresenta como uma narrativa  
homogênea, mas como um campo de disputas, negociações, resistências, invenções e  
traduções.  
É nesse horizonte que se insere o artigo “Musicar a Amazônia: performance,  
circulação e territorialidade nos festivais de Parintins e Juruti”, de Vale et al., que  
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examina as formas de enunciação da Amazônia nas performances musicais do Festival  
Folclórico de Parintins e do Festribal de Juruti. Ao perguntar quem pode falar em nome  
da região e por meio de quais dispositivos e mediações culturais, turísticas e midiáticas,  
o estudo evidencia como as performances populares também constituem espaços de  
disputa pela representação da Amazônia.  
A dimensão territorial e as desigualdades de acesso aos meios de comunicação  
são abordadas em “Vozes do Quilombo: comunicação, território e desigualdades  
digitais em Tracuateua (PA)”, de Castro et al. Ao investigar os usos sociais dos  
smartphones em comunidades quilombolas do nordeste paraense, o artigo desloca a  
discussão sobre inclusão digital para as condições concretas de infraestrutura,  
sociabilidade e territorialidade, mostrando que o acesso às tecnologias não pode ser  
dissociado das desigualdades históricas que estruturam os territórios amazônicos.  
A relação entre Amazônia, tecnologia e produção automatizada de imagens  
aparece em “Imaginário amazônico automatizado: signos e representações em  
imagens geradas por Inteligência Artificial”, de Prado et al. O experimento realizado  
com diferentes sistemas de Inteligência Artificial Generativa de Imagens permite  
problematizar não apenas as possibilidades técnicas dessas ferramentas, mas também  
os repertórios imagéticos a partir dos quais a Amazônia é novamente representada. O  
artigo recoloca, em chave contemporânea, uma questão central do dossiê: quais  
imaginários sobre a Amazônia estão sendo produzidos, reproduzidos e automatizados?  
Em “Drags da Amazônia: estética povera e natureza como linguagem visual”,  
Zapata et al. deslocam a discussão para os processos de subjetivação e para a cultura  
drag amazônica. Ao tomar a estética e a imagem midiatizada como objetos de  
investigação, o artigo amplia a compreensão da autorreflexividade amazônica para  
experiências de gênero, performance e criação estética, evidenciando que pensar a  
Amazônia também significa interrogar os corpos, as identidades e as formas dissidentes  
que nela produzem visibilidade.  
A problemática da representação retorna, sob outra perspectiva, em “Qual  
Amazônia cabe em um cartão-postal? Representações, imaginários e regimes de  
visibilidade da Amazônia”, de Marques et al. O cartão-postal é analisado como artefato  
comunicacional capaz de condensar e fazer circular determinadas imagens da região. O  
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artigo permite compreender como determinados regimes de visibilidade selecionam  
aquilo que pode ser mostrado e, simultaneamente, aquilo que permanece fora do  
enquadramento.  
Essa disputa pela produção de narrativas próprias ganha uma dimensão jurídica,  
comunitária e memorial em “Jurisgrafia e escrevivência contra a gramática da morte:  
experiências de autonomia comunitária em Barcarena (Amazônia brasileira)”, de  
Hazeu et al. Ao articular jurisgrafia e escrevivência, o estudo mostra como comunidades  
tradicionais transformam memória, oralidade e sofrimento em formas próprias de  
produção normativa. Trata-se, portanto, de uma reflexão que desloca o direito de seu  
lugar exclusivamente institucional e o aproxima das práticas concretas de existência,  
memória e autonomia comunitária.  
O debate sobre sustentabilidade é problematizado em “Uma análise sobre o uso  
dos recursos semióticos nas estratégias de greenwashing no Brasil”, de Monteiro et al.  
O artigo examina como empresas mobilizam recursos semióticos para construir uma  
imagem de sustentabilidade que pode não corresponder às suas práticas  
socioambientais. A discussão introduz uma dimensão fundamental para o debate  
amazônico: a necessidade de distinguir entre discursos de sustentabilidade e efetivas  
práticas de transformação socioambiental.  
A comunicação indígena ocupa lugar central em “A imanência do político:  
comunicação indígena e presença Mẽbêngôkre-Kayapó nas redes sociais”, de Silva e  
al. Ao analisar a apropriação da internet e das redes sociais pelo povo Mẽbêngôkre-  
Kayapó da Aldeia A’Ukre, o artigo evidencia que as tecnologias digitais não representam  
apenas instrumentos externos de comunicação, mas podem ser apropriadas e  
ressignificadas como espaços de presença, expressão e ação política.  
A relação entre território, produção e sustentabilidade é explorada em  
“Florestas produtivas na Amazônia Legal: avançando pelo debate e possibilidades no  
estado do Pará a partir de uma experiência do TED UFMA/INCRA”, de Araújo Ferreira  
et al. Ao analisar projetos de assentamento no Pará, o estudo contribui para a discussão  
sobre alternativas de desenvolvimento e para a construção de possibilidades que  
articulem produção, território e conservação.  
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O artigo “Quando a comunicação prescinde da palavra: comunicação  
intersensorial e sociabilidades no transporte coletivo urbano”, de Amador de Oliveira  
Dias et al., amplia o próprio conceito de comunicação ao investigar processos sensoriais  
e corporais presentes em situações de copresença. Embora não se restrinja ao território  
amazônico, o artigo contribui para o dossiê ao deslocar a compreensão da comunicação  
para além da linguagem verbal, evidenciando sua dimensão incorporada, espacial e  
sensorial.  
O artigo “O segredo e o sagrado na Amazônia digital: a negociação da  
visibilidade do Tambor de Mina no ciberespaço”, de Rosário Jr., retoma uma tensão  
particularmente significativa para a contemporaneidade: a relação entre aquilo que  
pode ser tornado visível e aquilo que deve permanecer protegido pelo segredo. Ao  
investigar os processos de midiatização do Tambor de Mina, o artigo evidencia que a  
inserção das práticas religiosas no ciberespaço não ocorre sem negociações, tensões e  
transformações.  
Por fim, “Amazônia, vais morrer!”: narrativa regionalista e discurso identitário  
na canção popular da Belém “oitocentista”, de Ribeiro Moreira, apresenta uma leitura  
sobre a canção popular como processo comunicacional e construtor de narrativas e  
discursoss regionalistas na cidade de Belém do Pará nos anos 1980.  
Tomados em conjunto, os trabalhos aqui reunidos permitem perceber que  
pensar a Amazônia a partir da própria Amazônia significa necessariamente enfrentar a  
questão da representação. Trata-se de compreender quem produz imagens, quem  
controla os dispositivos de circulação dos discursos, quais vozes alcançam visibilidade e  
quais permanecem marginalizadas, quais conhecimentos são legitimados e quais são  
historicamente silenciados.  
A comunicação, nesse contexto, não aparece apenas como campo de  
transmissão de informações. Ela constitui um espaço de disputa simbólica, produção de  
territorialidades, construção de identidades, elaboração de memórias e exercício de  
poder. É por meio dela que diferentes sujeitos tornam visíveis suas experiências,  
reivindicam reconhecimento, disputam narrativas e produzem outras possibilidades de  
futuro.  
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Por isso, a pergunta “como a Amazônia pensa a si mesma?” não deve ser  
entendida como uma busca por uma essência amazônica ou por uma identidade  
regional única. Trata-se, antes, de reconhecer a existência de múltiplas Amazônias,  
atravessadas por diferenças culturais, territoriais, sociais, políticas, ambientais e  
estéticas. A autorreflexividade aqui proposta é, portanto, plural, situada e conflitiva.  
O conjunto de artigos evidencia, ainda, que a crise climática não pode ser  
dissociada das disputas narrativas e das relações de poder que definem o que se  
entende por desenvolvimento, sustentabilidade, território e futuro. A Amazônia não é  
apenas cenário das mudanças climáticas: é também lugar de produção de  
conhecimentos, estratégias e experiências capazes de tensionar os modelos  
hegemônicos de desenvolvimento. Essa perspectiva está diretamente relacionada à  
preocupação expressa na chamada com a formulação de estratégias, políticas e  
pesquisas voltadas ao cuidado ambiental e à construção de possibilidades de  
desenvolvimento sustentável.  
Assim, este dossiê procura contribuir para uma mudança de perspectiva: da  
Amazônia representada para a Amazônia que representa; da Amazônia objeto para a  
Amazônia sujeito; da Amazônia narrada para a Amazônia que narra, interpreta, disputa  
e produz conhecimento sobre si mesma.  
Mais do que oferecer respostas definitivas, os textos reunidos aqui abrem  
questões. E talvez seja justamente nessa abertura que resida sua principal contribuição:  
compreender a Amazônia como um campo vivo de produção de sentidos, no qual  
comunicação, cultura, arte, tecnologia, território, sustentabilidade, memória e política  
se encontram e se tensionam.  
É nesse movimento — entre representação e autorrepresentação, território e  
desterritorialização, memória e futuro, visibilidade e segredo, tecnologia e tradição,  
desenvolvimento e sustentabilidade — que este dossiê convida o leitor a pensar com a  
Amazônia, e não apenas sobre a Amazônia.  
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SOBRE O(A) AUTOR(A)  
Fábio Pezzi Parode  
Doutor em Estética pela Université de Paris 1 - Panthéon Sorbonne (2005), mestrado em Ciências da  
Comunicação pela UNISINOS (2000), Especialista em Design Estratégico pela UNISINOS (2008), graduação  
em Comunicação Social Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1992). Tem  
experiência na área de Comunicação, com ênfase em Estética e Comunicação, atuando principalmente  
nos seguintes temas: arte, estética e comunicação, comunicação visual e design. É professor pesquisador  
em Design, Artes Visuais e Estética, com publicações na área; realiza pesquisa sobre audiovisual, estética  
e processos minoritários. Foi editor do periódico científico Strategic Design Research Journal,  
(www.unisinos.br/sdrj), de 2008 até 2015. É editor-chefe do periódico científico PASSAGENS  
(http://www.periodicos.ufc.br/index.php/passagens) de 2018 até o presente. É membro do Grupo de  
Pesquisa CNPq Semiótica e Estudos da Comunicação - GPESC, liderado pelo profa. Dra. Nísia Martins do  
Rosário - UFRGS; realizou pós-doutorado sobre o tema Arte e Design com supervisão da prof. Dra. Icleia  
Borsa Cattani, do programa de pós-graduação em Artes da UFRGS, realizou pós-doutorado na  
Universidade Federal do Ceará, Centro de Humanidades (Comunicação) sobre Estética, Comunicação e  
Poder com supervisão do prof. Dr. Osmar Gonçalves. Realizou pós-doutorado no Instituto Nacional de  
Ciência e Tecnologia - INCT com coordenação do prof. Dr. Afonso Albuquerque e supervisão do prof. Dr.  
Diógenes Lycarião Barreto de Sousa. Possui Licenciatura em Artes Visuais pela Uninter.  
Marina Ramos Neves de Castro  
Professora da Faculdade de Comunicação da UFPA. Doutora em Antropologia pelo Programa de Pós-  
Graduação em Antropologia - PPGA (Nota 5 Capes) da Universidade Federal do Pará. Mestre em Artes  
pelo PPGArtes (Nota 4 Capes) do Instituto de Ciências das Artes e mestre em Estudos das Sociedades  
Latino-Americanas - Opção Comunicação, pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris 3). Realizou  
estágio doutoral no Departamento de Antropologia do University College London, com o Prof. Daniel  
Miller a partir do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior - com apoio da CAPES. Coordena, desde  
2018, o grupo de pesquisa certificado pelo CNPQ Socialidades, Intersubjetividades e Sensibilidades  
Amazônicas – SISA  
Fábio Fonseca de Castro  
Professor titular da Universidade Federal do Pará, vinculado ao Núcleo de Altos Estudos Amazônicos.  
Bolsista de Produtividade em Pesquisa (PQ) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e  
Tecnológico (CNPq). Professor e atual coordenador do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento  
Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU). Professor colaborador no Programa de Pós-graduação  
Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM). Foi professor visitante (visiting scholar) no Departamento  
de Sociologia da Universidade de Cambridge e conferencista da London School of Economics em 2017-18.  
Pós-doutor em Etnometodologia pela Universidade de Montreal (2014). Doutor em Sociologia pela  
Universidade da Sorbonne (Paris V Descartes) (2004). Mestre em Antropologia e Estudo das Sociedades  
Latino-Americanas pela Universidade de Sorbonne-Nouvelle) (2000). Mestre em Comunicação pela  
Universidade de Brasília (1995). Graduado em Comunicação-Jornalismo pela UFPA (1990). Vice-líder do  
Grupo de Pesquisa Socialidades, Intersubjetividades e Sensibilidades Amazônicas (SISA) e líder do Grupo  
de Pesquisa sobre Ontologias do Desenvolvimento (ONDE), no CNPq.  
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ISSN 2179-9938  
COMO CITAR ESTE ARTIGO  
PARODE, Fábio; CASTRO, Marina Ramos Neves de Castro; CASTRO , Fábio Fonseca de. Editorial - Como a  
Amazônia pensa a si mesma: comunicação, territórios, imaginários e disputas de visibilidade. Passagens:  
Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza,  
v. 17, n. especial, p. e102792 , 2026. Disponível em:  
RECEBIDO EM: 16/10/2026  
ACEITO EM: 16/10/2026  
PUBLICADO EM: 16/10/2026  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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MUSICAR A AMAZÔNIA: PERFORMANCE, CIRCULAÇÃO E  
TERRITORIALIDADE NOS FESTIVAIS DE PARINTINS E JURUTI  
MUSICALIZING THE AMAZON: PERFORMANCE, CIRCULATION,  
AND TERRITORIALITY IN THE PARINTINS AND JURUTI FESTIVALS  
MUSICALIZANDO LA AMAZONÍA: PERFORMANCE, CIRCULACIÓN  
Y TERRITORIALIDAD EN LOS FESTIVALES DE PARINTINS Y JURUTI  
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Giselle Moreira do Vale  
Universidade Federal do Pará | Universidade Federal do Oeste do Pará  
Fábio Fonseca de Castro  
Universidade Federal do Pará  
Bruna do Carmo Reis Lira  
Universidade Federal do Pará  
Resumo: Este artigo analisa como performances musicais do Festival Folclórico de Parintins (AM) e do  
Festribal de Juruti (PA) produzem formas situadas de enunciação sobre a Amazônia. Em vez de  
pressupor uma oposição simples entre narrativas “de fora” e “de dentro”, pergunta-se quem pode falar  
em nome da região, por quais dispositivos e sob quais mediações culturais, turísticas e midiáticas.  
Adota-se uma abordagem qualitativa e comparativa, centrada em três composições de circulação  
recorrente: “A Grande Maloca” (Boi-Bumbá Garantido, 2006), “De Norte a Sul, Munduruku” (2008) e  
“Galera Nota 10” (2009). O corpus é examinado segundo cinco eixos: posição de enunciação, escala  
territorial, relação entre humanos e não humanos, endereçamento performático e circulação coletiva. A  
noção de musicalidade é delimitada como prática relacional de musicar: o conjunto de ações de  
compor, executar, cantar, escutar, torcer e fazer circular repertórios. A análise mostra que as três  
composições não narram a Amazônia do mesmo modo. A toada de Parintins universaliza uma ética  
socioambiental do cuidado, enquanto os cantos de Juruti instituem um “nós” competitivo e territorial,  
organizado pela rivalidade e pela participação da galera. Conclui-se que a potência comunicacional  
dessas músicas não reside apenas em suas letras, mas em sua capacidade de coordenar corpos,  
estabilizar memórias, ensinar posições de pertencimento e circular entre arena, ensaios, registros e usos  
cotidianos. Os festivais são compreendidos, assim, como infraestruturas comunicacionais ambivalentes:  
produzem autorrepresentação  
e
vínculo, mas também negociam tipificações identitárias,  
espetacularização, turismo e mercado.  
Palavras-chave: Amazônia; performance musical; circulação; territorialidade; festivais.  
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Abstract: This article examines how musical performances at the Parintins Folklore Festival (Amazonas)  
and the Juruti Festribal (Pará) produce situated forms of enunciation about the Amazon. Rather than  
assuming a simple opposition between narratives produced “from outside” and “from within,” it asks  
who can speak on behalf of the region, through which devices, and under which cultural, touristic, and  
media mediations. The study adopts a qualitative and comparative approach focused on three  
compositions with recurrent circulation: “A Grande Maloca” (Boi-Bumbá Garantido, 2006), “De Norte a  
Sul, Munduruku” (2008), and “Galera Nota 10” (2009). The corpus is examined through five analytical  
axes: position of enunciation, territorial scale, relations between humans and nonhumans, performative  
address, and collective circulation. Musicality is defined as the relational practice of musicking: the set of  
actions involved in composing, performing, singing, listening, supporting, and circulating repertoires.  
The analysis shows that the three compositions do not narrate the Amazon in the same way. The  
Parintins song universalizes a socio-environmental ethics of care, whereas the Juruti songs institute a  
competitive and territorial “we,” organized through rivalry and audience participation. The article  
concludes that the communicational force of these songs lies not only in their lyrics but also in their  
capacity to coordinate bodies, stabilize memories, teach positions of belonging, and circulate across  
arenas, rehearsals, recordings, and everyday uses. The festivals are therefore understood as ambivalent  
communicational infrastructures: they produce self-representation and social bonds while also  
negotiating identity typifications, spectacularization, tourism, and markets.  
Keywords: Amazon; musical performance; circulation; territoriality; festivals.  
Resumen: Este artículo analiza cómo las presentaciones musicales del Festival Folclórico de  
Parintins (AM) y del Festival Folclórico de Juruti (PA) producen formas de enunciación situadas  
sobre la Amazonía. En lugar de asumir una simple oposición entre narrativas "desde afuera" y  
"desde adentro", cuestiona quién puede hablar en nombre de la región, a través de qué  
dispositivos y bajo qué mediaciones culturales, turísticas y mediáticas. Se adopta un enfoque  
cualitativo y comparativo, centrándose en tres composiciones de circulación recurrente: "A Grande  
Maloca" (Boi-Bumbá Garantido, 2006), "De Norte a Sul, Munduruku" (2008) y "Galera Nota 10"  
(2009). El corpus se examina según cinco ejes: posición de enunciación, escala territorial, relación  
entre humanos y no humanos, discurso performativo y circulación colectiva. La noción de  
musicalidad se define como una práctica relacional de hacer música: el conjunto de acciones de  
componer, interpretar, cantar, escuchar, animar y difundir repertorios. El análisis muestra que las  
tres composiciones no narran la Amazonía de la misma manera. La canción de los Parintins  
universaliza una ética socioambiental del cuidado, mientras que las canciones de los Juruti  
establecen un "nosotros" competitivo y territorial, organizado por la rivalidad y la participación de  
la multitud. Se concluye que el poder comunicativo de estas canciones no reside únicamente en sus  
letras, sino en su capacidad para coordinar cuerpos, estabilizar recuerdos, enseñar posiciones de  
pertenencia y circular entre el escenario, los ensayos, las grabaciones y los usos cotidianos. Los  
festivales se entienden, por lo tanto, como infraestructuras comunicacionales ambivalentes:  
producen autorrepresentación y conexión, pero también negocian tipificaciones de identidad,  
espectacularización, turismo y mercado.  
Palabras clave: Amazonia; interpretación musical; circulación; territorialidad; festivales.  
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1 INTRODUÇÃO: QUEM NARRA A AMAZÔNIA?  
Narrar a Amazônia constitui, historicamente, uma operação política. Relatos de  
viajantes, missionários, cientistas, administradores, jornalistas e agentes do Estado não  
apenas descreveram a região: selecionaram traços, ordenaram diferenças e  
produziram imagens duradouras sobre seu território e suas populações. Entre o  
paraíso natural, o vazio demográfico, a fronteira de recursos e o espaço do atraso,  
formou-se um repertório de figuras que continua a atravessar discursos científicos,  
literários, governamentais, turísticos e midiáticos. A formulação de Neide Gondim  
(2007) sobre a “invenção da Amazônia” e a análise de Renan Freitas Pinto (2005)  
acerca da viagem histórica das ideias permitem compreender que a região não  
antecede integralmente as narrativas que a designam: ela também é produzida por  
elas.  
Diante dessa longa história de heterodesignação, parece intuitivo opor às  
imagens “de fora” uma narrativa produzida “por dentro”. A oposição é politicamente  
fecunda, pois desloca o problema daquilo que se diz sobre a Amazônia para as  
condições em que sujeitos amazônicos podem dizer a si mesmos, seus territórios e  
seus futuros. Entretanto, tomada como dicotomia rígida, ela cria outra dificuldade.  
Não existe um interior amazônico homogêneo, dotado de voz única e transparente.  
Compositores, artistas, associações culturais, torcedores, povos indígenas, empresas,  
órgãos públicos, emissoras, turistas e pesquisadores ocupam posições distintas e, por  
vezes, conflitantes. O “dentro” também é atravessado por relações de poder,  
convenções estéticas, políticas culturais, patrocínios, mercados e expectativas  
externas.  
Por isso, este artigo substitui a ideia de uma voz autenticamente interior pela  
noção de enunciação situada. A questão deixa de ser apenas se a Amazônia fala de  
dentro ou é descrita de fora e passa a ser: como performances musicais de Parintins e  
Juruti instituem posições coletivas de fala, produzem territorialidades e fazem circular  
sentidos sobre a Amazônia? Essa pergunta contém outras: quem é o sujeito coletivo  
que se forma no canto? A quem ele se dirige? Que relações entre pessoas, território e  
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seres não humanos são propostas? De que modo a repetição da música na arena, nos  
ensaios e em outros circuitos transforma uma composição em memória pública?  
O recorte reúne dois espetáculos culturais de grande importância na Amazônia  
brasileira: o Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas, protagonizado pelos bois-  
bumbás Garantido e Caprichoso, e o Festival Folclórico das Tribos Indígenas de Juruti,  
no Pará, conhecido como Festribal e estruturado pela disputa entre as associações  
culturais Munduruku e Muirapinima. Em vez de comparar os eventos como  
exemplares equivalentes de uma mesma “cultura amazônica”, interessam suas  
diferenças de escala, história e organização. A aproximação é analítica: nos dois casos,  
a música participa da construção do espetáculo, orienta a ação coletiva e oferece  
vocabulários públicos para dizer pertencimentos.  
O corpus é formado por “A Grande Maloca”, do Boi-Bumbá Garantido, lançada  
em 2006, e por “De Norte a Sul, Munduruku” e “Galera Nota 10”, vinculadas,  
respectivamente, às associações Munduruku e Muirapinima e lançadas em 2008 e  
2009. A seleção não busca representar estatisticamente os repertórios dos festivais.  
Trata-se de amostragem intencional, orientada por três critérios: a recorrência das  
composições para além do ano de lançamento; a posição estratégica que ocupam na  
relação entre música, temática e torcida; e o contraste entre uma formulação  
socioambiental de alcance amplo e duas formulações competitivas de pertencimento  
local.  
A hipótese é que essas composições funcionam como infraestruturas  
comunicacionais dos festivais. A expressão designa, aqui, um conjunto recorrente de  
dispositivos simbólicos e relacionais que permite coordenar ações, reconhecer  
pertenças, transmitir memórias e fazer circular questões públicas. Essa infraestrutura  
não se limita aos meios técnicos. Ela inclui refrões, cores, pronomes, gestos,  
coreografias, expectativas de participação, classificações do concurso e formas de  
endereçamento. As canções tornam-se comunicacionalmente eficazes quando passam  
a compor situações sociais: ensinam como responder, quando vibrar, contra quem se  
posicionar e quais valores afirmar.  
O argumento possui três movimentos. Primeiro, delimita-se musicalidade como  
prática relacional e performática, evitando tratá-la como sinônimo impreciso de  
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música, letra ou emoção. Em seguida, apresentam-se os casos e o procedimento  
comparativo. Por fim, examina-se como “A Grande Maloca” produz uma ética  
territorial do cuidado e como os cantos de Juruti instituem um “nós” agonístico, antes  
de discutir as ambivalências que atravessam esses regimes de enunciação.  
2 DA MUSICALIDADE AO ATO DE MUSICAR  
No uso corrente, “musicalidade” pode nomear qualidades muito diferentes:  
aptidão musical, expressividade, organização sonora, sensibilidade auditiva ou  
presença da música numa prática cultural. Empregar o termo sem delimitação faz com  
que ele pareça explicar justamente aquilo que deveria ser investigado. Neste artigo,  
musicalidade não é uma propriedade abstrata das festas nem um atributo intrínseco  
das composições. É uma prática relacional de produção de sentido por meio da  
música, inseparável das ações de compor, ensaiar, executar, escutar, cantar, dançar,  
torcer, gravar e recircular.  
Essa definição aproxima-se do verbo musicking, proposto por Christopher Small  
(1998) para deslocar a música da condição de objeto acabado para a de atividade.  
Participar de uma performance musical — como intérprete, compositor, dançarino,  
ouvinte, técnico ou integrante do público — é estabelecer relações e explorar, ainda  
que provisoriamente, modos de organizá-las. A tradução “musicar” será usada neste  
texto para enfatizar que o sentido não está depositado apenas na obra. Ele acontece  
na relação entre repertório, situação, corpos, convenções e circuitos.  
Esse deslocamento é decisivo para o objeto estudado. Uma análise  
exclusivamente textual poderia identificar metáforas ambientais ou marcas linguísticas  
de pertencimento, mas não explicaria por que determinadas composições sobrevivem  
a seus lançamentos, são retomadas por novas gerações e se tornam capazes de  
sincronizar milhares de pessoas. Também não justificaria inferências sobre recepção a  
partir das letras. Ao tratar a música como prática, o artigo distingue três níveis: o texto  
verbal da composição; sua inserção institucional no espetáculo; e os usos coletivos por  
meio dos quais ela adquire duração e força pública. O primeiro nível pode ser  
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examinado diretamente no corpus; os outros dois são contextualizados pela  
bibliografia e pelos dados documentais disponíveis.  
Richard Schechner (1985) ajuda a compreender os festivais como performances  
baseadas em comportamentos restaurados: sequências ensaiadas, codificadas e  
reiteradas que podem ser recompostas a cada edição. A repetição não significa  
reprodução imóvel. Cada execução cita um repertório e, simultaneamente, o atualiza  
diante de novos temas, públicos, tecnologias e disputas. A composição musical integra  
esse sistema restaurado porque oferece uma forma transmissível à ação: organiza  
entradas, respostas, coreografias e expectativas afetivas.  
Victor Turner permite acrescentar a dimensão processual do ritual e da festa. A  
intensificação temporária dos vínculos, frequentemente descrita pela noção de  
communitas, não elimina as divisões sociais nem transforma automaticamente a festa  
em comunidade harmoniosa. Nos eventos competitivos, a agregação é produzida  
também pelo antagonismo. A rivalidade separa grupos e, ao mesmo tempo, sustenta a  
estrutura comum do jogo. Em trabalho anterior sobre os bailes da saudade de Belém,  
Castro (2022) articulou música, temporalidade, emoção e situações liminares,  
mostrando que a sensibilidade musical precisa ser compreendida na duração social  
que ela instaura. Essa perspectiva é particularmente produtiva aqui: as composições  
não somente acompanham um tempo extraordinário, mas ajudam a construí-lo e a  
conectá-lo ao cotidiano.  
A dimensão intersubjetiva dessa prática é igualmente relevante. Schutz (1970)  
mostra que o mundo social se apoia em conhecimentos partilhados, tipificações e  
perspectivas recíprocas. Em pesquisas sobre interações quotidianas, Castro e Castro  
(2022) demonstram como processos comunicacionais aparentemente banais  
conformam vínculos e tornam reconhecíveis posições sociais. No festival, saber que  
uma cor, um gesto, um refrão ou a palavra “contrário” demandam certa resposta  
integra um estoque de conhecimento comum. O torcedor não recebe uma mensagem  
isolada: reconhece uma situação, antecipa condutas e participa de uma forma social.  
Isso impede que identidade seja entendida como substância anterior à  
performance. Em “A identidade encenada”, Castro (2012) analisou a produção artística  
de Belém como laboratório de tipificações amazônicas, enfatizando que a formulação  
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estética tanto reage a enquadramentos externos quanto seleciona e estabiliza imagens  
próprias. Em As identificações amazônicas, Castro (2018) acentua o caráter processual  
e relacional das identificações. Aplicada aos festivais, essa abordagem permite  
observar que o canto não exterioriza simplesmente uma identidade pronta: oferece  
posições pelas quais participantes podem reconhecer-se, distinguir-se e ser  
reconhecidos.  
A noção de enunciação situada também dialoga com a compreensão da  
comunicação como direito coletivo de “se dizer”. Na etnografia sobre a construção do  
Protocolo de Consulta da Terra da Liberdade, Castro e Castro (2023) mostram que a  
produção dialogada da palavra é parte da luta pelo reconhecimento do território e dos  
direitos quilombolas. O paralelo não equivale festas populares a protocolos políticos  
nem apaga as diferenças entre comunidades. Ele destaca um problema  
comunicacional comum: dizer-se publicamente é produzir uma posição no mundo e  
disputar as condições de reconhecimento dessa posição. De modo semelhante, a  
etnografia do Dia da Consciência Negra em Jambuaçu evidencia que eventos  
comemorativos podem concentrar narrativas, memórias e negociações sobre o  
pertencimento (Castro et al., 2025).  
Nos festivais, porém, o “direito de se dizer” encontra mediações específicas. A  
palavra é composta, selecionada, ensaiada, julgada e transformada em espetáculo. Ela  
circula em associações com divisões internas de trabalho, em políticas de patrimônio e  
turismo e em produtos fonográficos e midiáticos. A enunciação, portanto, é situada,  
mas não é pura; é coletiva, mas não é consensual; é local, mas se orienta também a  
públicos externos.  
3 DOIS FESTIVAIS, DIFERENTES REGIMES DE ESPETÁCULO  
O Festival Folclórico de Parintins consolidou-se como disputa entre os bois-  
bumbás Garantido, identificado pelo vermelho e branco, e Caprichoso, identificado  
pelo azul e branco. Suas apresentações no Bumbódromo articulam o auto do boi,  
personagens,  
alegorias,  
coreografias,  
ritualizações  
de  
referências  
indígenas,  
repertórios musicais, galeras e projetos anuais de arena. A passagem do folguedo de  
terreiro ao grande espetáculo não produziu simples substituição da tradição pelo  
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mercado. Como mostram Cavalcanti (2000; 2006) e Silveira e Nakanome (2021), o  
festival combina permanências, recriações, profissionalização artística, turismo, mídia  
e formas contemporâneas de participação.  
Essa combinação desaconselha separar previamente ritual popular, espetáculo  
turístico e produto cultural comercial como se fossem naturezas incompatíveis. São  
dimensões que coexistem e se tensionam. A arena codifica uma competição; o auto e  
as personagens conectam o evento a repertórios históricos; a televisão e as  
plataformas ampliam a circulação; o turismo modifica ritmos econômicos e  
expectativas de visibilidade; as associações constroem projetos complexos e  
empregam trabalho artístico especializado. A pergunta pertinente não é qual dessas  
dimensões define a “verdade” do festival, mas como elas condicionam o que pode ser  
enunciado e reconhecido.  
O Festribal de Juruti possui outra trajetória. Originado no circuito local de  
apresentações culturais, assumiu desde 1995 a forma de disputa entre as associações  
Munduruku e Muirapinima. O evento organiza atos coreográficos, cênicos e musicais,  
mobiliza grupos mirins e adultos e articula organização comunitária, política cultural,  
turismo e financiamento público e privado. Vale (2024) analisa sua emergência como  
vetor de desenvolvimento local e identifica a hibridação de discursos sobre cultura,  
dados econômicos, turismo, imaginário amazônico e ação política. Lima (2020), por sua  
vez, enfatiza o caráter folkcomunicacional e as formas de resistência presentes no  
evento.  
Uma precisão é indispensável: Munduruku e Muirapinima são, no âmbito do  
Festribal, associações culturais competitivas. A documentação pública do evento  
frequentemente as denomina “tribos” ou “nações” e associa suas performances à  
valorização dos povos indígenas. Isso não autoriza o artigo a converter  
automaticamente seus cantos em autorrepresentação direta de povos indígenas. Há  
uma diferença entre protagonismo indígena, referência estética a cosmologias  
indígenas e encenação folclórica da indigeneidade. A produção desses limites, as  
formas de participação indígena e os critérios de legitimidade das representações  
constituem questões empíricas próprias, que não podem ser resolvidas apenas pela  
análise das letras. Estudos sobre a representação do indígena no boi-bumbá de  
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Parintins já demonstram a necessidade de examinar criticamente quem seleciona  
imagens, personagens e narrativas e como elas são ressignificadas no espetáculo  
(Nakanome, 2017).  
Essa ressalva não esvazia a capacidade enunciativa dos grupos de Juruti. Ao  
contrário, torna-a mais precisa. As músicas expressam posições construídas por  
associações culturais locais e apropriadas por suas galeras. Elas dizem algo sobre a  
cidade, sua história festiva e seus modos de classificar o pertencimento. O que deve  
permanecer em aberto é em que medida e sob quais relações tais posições também  
dizem experiências de povos indígenas específicos.  
3.1 CORPUS E PROCEDIMENTO ANALÍTICO  
O estudo adota uma comparação qualitativa de casos orientada por problema.  
O corpus principal reúne três composições:  
1.  
2.  
3.  
“A Grande Maloca”, de Demetrius Haidos e Geandro Pantoja, gravada pelo Boi-  
Bumbá Garantido no álbum Terra: a Grande Maloca, de 2006;  
“De Norte a Sul, Munduruku”, de Iézen Rocha, integrante do repertório da  
associação Munduruku desde 2008;  
“Galera Nota 10”, de Gilson Gomes, Euler Kanamé e Carlos Coimbra, integrante  
do repertório da associação Muirapinima desde 2009.  
A escolha é intencional e não pretende condensar a totalidade musical dos dois  
festivais. As composições apresentam circulação para além do lançamento e oferecem  
contraste analítico entre dois modos de construir coletividade. Em “A Grande Maloca”,  
a mensagem se organiza em torno do cuidado ambiental e amplia progressivamente  
sua escala até a Terra. Nas músicas de Juruti, a primeira pessoa coletiva é formada por  
cores, paixão, rivalidade e domínio simbólico do espaço festivo.  
O material empírico compreende as letras e os registros fonográficos das  
composições, contextualizados por etnografias, pesquisas históricas e estudos sobre os  
eventos. Para Juruti, a interpretação se apoia também na sistematização histórica e  
documental desenvolvida por Vale (2024). Não se realiza uma análise musicológica de  
harmonia, melodia ou estrutura rítmica, nem um estudo de recepção baseado em  
entrevistas específicas para este artigo. Por isso, afirmações sobre torcedores e  
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públicos são limitadas às funções institucionalmente previstas para a galera, às formas  
de endereçamento inscritas nas composições e aos usos recorrentes documentados  
nos estudos consultados. Essa delimitação evita deduzir automaticamente efeitos  
sociais a partir do texto verbal.  
As composições são examinadas segundo cinco eixos comuns:  
1.  
2.  
3.  
posição de enunciação: quem é construído como sujeito do canto;  
escala territorial: qual espaço é produzido, da arena à Terra;  
relação entre humanos e não humanos: como natureza, ancestralidade e  
coletividade são articuladas;  
4.  
5.  
endereçamento performático: a quem se fala e que resposta é solicitada;  
circulação: como repetição, duração do repertório e inserção no espetáculo  
ampliam a capacidade de produzir memória e vínculo.  
Esses eixos convertem a leitura das letras em análise comunicacional. O  
objetivo não é revelar uma mensagem oculta, mas descrever as operações pelas quais  
a composição oferece lugares de fala, organiza relações e se torna disponível à  
apropriação coletiva.  
4 “A GRANDE MALOCA”: DA FLORESTA À CASA COMUM  
A toada ocupa uma posição estruturante no Festival de Parintins. Ela orienta  
quadros da apresentação, conecta narrativa, canto, dança e trabalho da galera e  
circula para além das noites competitivas. Silveira e Nakanome (2021) mostram que o  
boi-bumbá transita entre arte, história pública e espetáculo, enquanto estudos do  
repertório do Garantido identificam a recorrência de temáticas de preservação,  
exploração da região e defesa das populações amazônicas (AZEVEDO, 2015). Nesse  
contexto, “A Grande Maloca” não deve ser lida como poema isolado, mas como  
componente de um projeto de arena e de um circuito musical.  
A composição realiza inicialmente uma operação de deslocamento enunciativo.  
A Amazônia deixa de ser cenário passivo e aparece como fonte de canto, ensinamento  
e sinais. Povos da floresta, pássaros, rios, ventos e Terra formam uma cena coral. A voz  
humana não é abolida, pois compositores, intérpretes e associação continuam a  
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organizar a fala; contudo, o texto distribui agência entre diferentes existentes. A  
natureza ensina, anuncia, sofre e interpela.  
Essa distribuição permite aproximar a toada da ideia de sociobiodiversidade. O  
conceito ressalta que diversidade biológica e diversidade cultural não constituem  
domínios independentes: modos de vida, conhecimentos, territórios e seres não  
humanos formam relações históricas (SANTILLI, 2005). A canção não formula essa  
discussão em linguagem técnica, mas produz uma tradução sensível de seu princípio. A  
floresta vale não como estoque separado da sociedade, mas como condição de  
convivência e casa compartilhada.  
A metáfora da “grande maloca” é o principal operador dessa tradução. Ela  
converte a Terra em morada e transforma um problema ambiental amplo em relação  
de proximidade. Ao mesmo tempo, desloca uma forma arquitetônica e social associada  
a povos indígenas para a escala planetária. A operação possui força comunicacional: a  
responsabilidade ambiental deixa de ser tema exterior e passa a ser cuidado com a  
casa. Mas também deve ser lida criticamente. Ao universalizar a maloca, a composição  
pode ampliar a solidariedade e, simultaneamente, atenuar diferenças entre modos de  
habitar, conflitos territoriais e responsabilidades desiguais pela destruição ambiental.  
A estrutura do canto combina advertência e horizonte de recomposição. Sinais  
de seca, tempestade e sofrimento projetam uma crise; referências a “futuras  
gerações” inscrevem a responsabilidade no tempo. A oposição fundamental não se  
estabelece entre amazônidas e estrangeiros, mas entre cuidado e recusa do cuidado. O  
destinatário é a humanidade. Desse modo, uma performance produzida em Parintins  
reivindica alcance universal sem abandonar signos amazônicos.  
Esse salto de escala é central. A Amazônia funciona como lugar de enunciação  
de uma questão planetária, e não apenas como objeto regional a ser protegido por  
outros. Há, portanto, um deslocamento relativo da histórica posição colonial do  
discurso: a região interpela o mundo. Contudo, a categoria “humanidade” distribui  
igualmente uma responsabilidade que, na realidade, é assimétrica. Estados,  
corporações, cadeias extrativas, populações urbanas e comunidades tradicionais não  
possuem a mesma capacidade de produzir danos nem de definir políticas. A potência  
moral do canto não substitui a análise política dessas diferenças.  
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O refrão cumpre função específica nesse processo. Sua repetição comprime o  
argumento numa fórmula apropriável pela coletividade. Repetir não é apenas recordar  
a letra: é reiterar uma relação entre morada e responsabilidade. Na arena, a fórmula  
pode coordenar vozes e corpos; fora dela, pode sobreviver como unidade de memória.  
A eficácia comunicacional da toada decorre dessa passagem entre condensação verbal,  
repetição performática e circulação.  
Assim, “A Grande Maloca” produz um regime de enunciação ecoético. Seu  
“nós” é menos explicitamente partidário do que o das músicas de Juruti. O canto se  
apresenta como voz que emerge da Amazônia, agrega humanos e não humanos e  
dirige uma advertência a um destinatário planetário. Seu pertencimento é territorial e  
moral: pertence-se à casa porque se assume o dever de cuidá-la.  
5 JURUTI: RIVALIDADE E PEDAGOGIAS DO PERTENCIMENTO  
As composições de Juruti operam de forma distinta. Em “De Norte a Sul,  
Munduruku” e “Galera Nota 10”, o centro não é uma advertência ambiental dirigida à  
humanidade, mas a constituição pública de uma coletividade competitiva. O sujeito do  
canto afirma amor, cor, orgulho, força e precedência. O destinatário imediato inclui a  
própria galera, que deve reconhecer-se na letra, e a associação adversária, designada  
no vocabulário festivo como “contrário”.  
Em “De Norte a Sul, Munduruku”, o pertencimento é formulado como  
declaração e defesa. A composição articula paixão pela associação, ancestralidade  
guerreira, cores e superioridade competitiva. A expressão “tribo invencível” não  
descreve objetivamente um resultado: produz uma posição. Ao ser cantada, oferece  
ao participante um modo de dizer “eu” como parte de um coletivo e de apresentar  
esse coletivo perante a cidade e o adversário.  
“Galera Nota 10” explicita ainda mais o caráter instrucional da música. A  
arquibancada é convocada a vibrar, brincar e demonstrar domínio do espaço. A  
fórmula “quem manda aqui sou eu” condensa o antagonismo e distribui um papel  
performático: o “eu” não é apenas o intérprete, mas pode ser assumido pela massa  
que responde. A composição realiza uma passagem entre singular e coletivo. Cada  
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participante vocaliza a primeira pessoa; a coincidência das vozes produz o sujeito  
“galera”.  
Por isso, essas músicas podem ser compreendidas como scripts de  
pertencimento. Elas não determinam mecanicamente o sentimento dos participantes,  
mas oferecem instruções reconhecíveis sobre como se posicionar, a quem se opor e  
quais sinais exibir. Cor, nome, orgulho, emoção e domínio simbólico formam um  
vocabulário de identificação. O canto ensina a habitar a arena como Munduruku ou  
Muirapinima.  
A rivalidade é constitutiva desse processo. Em Simmel (1983), o conflito não é o  
contrário absoluto da vida social; pode ser forma de sociação, pois organiza relações,  
fronteiras e alianças. No Festribal, o antagonismo é submetido a regras, tempos, itens  
de avaliação e espaços de apresentação. A oposição entre associações produz  
distinção interna e, ao mesmo tempo, sustenta o evento comum. Todos disputam  
porque reconhecem a arena, a temporalidade e os critérios do festival.  
Isso não significa que o conflito seja sempre funcional ou inofensivo. As  
fronteiras festivas atravessam famílias, amizades, bairros, vestuário e redes sociais. O  
vocabulário da dominação pode intensificar provocações e exclusões. A análise  
comunicacional deve reconhecer a produtividade agregadora da rivalidade sem  
romantizá-la. A mesma operação que produz coesão interna pode produzir hostilidade  
externa.  
As cores desempenham papel importante nessa infraestrutura. Elas permitem  
reconhecimento rápido, atravessam objetos e corpos e conectam arena e cotidiano.  
Não são simples ornamentos visuais: funcionam como índices de pertencimento e  
tornam a associação visível mesmo quando a música não está sendo executada.  
Quando aparecem nas letras, articulam som, imagem e posição social.  
A permanência das composições para além de 2008 e 2009 também é  
analiticamente significativa. Seu retorno em ensaios e repertórios indica que não estão  
limitadas ao tema de uma edição. Elas se tornam reservatórios de fórmulas de  
identificação disponíveis para novas performances. Participantes que não viveram o  
lançamento podem apropriar-se de um passado musical que lhes chega como tradição.  
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A circulação, portanto, produz uma temporalidade intergeracional: a canção antiga  
continua a ensinar uma posição presente.  
Ao contrário de “A Grande Maloca”, os cantos analisados não constroem  
diretamente uma narrativa abrangente sobre a Amazônia. Sua contribuição é outra.  
Eles mostram como uma localidade amazônica se produz como mundo social por meio  
da disputa festiva. A região é narrada não pela enumeração de paisagens ou  
problemas  
ambientais,  
mas  
pela  
dramatização  
de  
vínculos,  
diferenças  
e
territorialidades. “Narrar a Amazônia”, nesse caso, significa tornar pública uma forma  
local de estar junto e em oposição.  
Permanece, entretanto, a questão das referências indígenas. Os nomes  
Munduruku e Muirapinima, a linguagem de tribo, aldeia, ancestralidade e guerra e a  
organização cênica do Festribal articulam identificações locais a imagens de  
indigeneidade. O artigo não dispõe de dados para afirmar como povos indígenas  
avaliam cada composição ou participam de sua produção. Por isso, a conclusão  
possível é delimitada: os cantos constroem identidades culturais e associativas que  
reivindicam vínculos com histórias e referências indígenas. Investigar autoria indígena,  
consulta, colaboração e recepção entre povos específicos constitui etapa necessária  
para pesquisas futuras.  
6 COMPARAÇÃO: ESCALAS E AMBIVALÊNCIAS DA ENUNCIAÇÃO  
A comparação evidencia que a unidade do corpus não está num conteúdo  
comum chamado “Amazônia”. Ela está na capacidade de o musicar instituir  
coletividades e territorialidades. As composições mobilizam recursos semelhantes —  
primeira pessoa, repetição, signos territoriais, endereçamento e possibilidade de canto  
coletivo — para realizar operações diferentes.  
Tabela 1 – Comparações das enunciações nas músicas de Parintins e Juruti  
Dimensão  
“A Grande Maloca”  
Cantos de Juruti  
Implicação comunicacional  
Voz  
amazônica  
com  
“Eu” coletivo da  
Sujeito  
ampliada,  
humanos  
humanos  
O
canto oferece posições distintas de fala  
associação  
galera  
e
da  
enunciador  
e
não  
coletiva  
Da floresta à Terra Arena, associação e  
como casa comum cidade  
A territorialidade pode universalizar o cuidado ou  
localizar a disputa  
Escala territorial  
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Implicação comunicacional  
Dimensão  
“A Grande Maloca”  
Cantos de Juruti  
Humanidade  
convocada  
responsabilidade  
Própria  
galera,  
Destinatário  
à
contrário, jurados e  
público  
O endereçamento organiza respostas diferentes  
Operação  
Advertir, sensibilizar  
e comprometer  
Convocar, distinguir  
e demonstrar força  
A música coordena corpos e valores, não apenas  
transmite conteúdos  
performática  
Crise,  
futuro  
e
Retorno cíclico do  
Temporalidade  
responsabilidade  
intergeracional  
festival  
e
memória  
A repetição conecta diferentes tempos sociais  
Autorrepresentação e simplificação coexistem  
do repertório  
Universalização do  
cuidado pode ocultar  
responsabilidades  
desiguais  
Afirmação local pode  
tipificar identidades  
indígenas  
Ambivalência  
central  
Fonte: elaboração dos autores.  
O primeiro resultado é a necessidade de abandonar a expressão “comunicação  
não convencional”. Cantar, torcer e dançar obedecem a convenções densas,  
aprendidas e reiteradas. O que diferencia essas práticas da transmissão informacional  
não é a ausência de convenção, mas o fato de que a mensagem se realiza por  
copresença, incorporação, repetição e participação. Trata-se de comunicação  
performática.  
O segundo resultado é que “narrar por dentro” só pode ser mantido como problema,  
não como garantia de autenticidade. Os festivais são produzidos localmente, mas suas  
formas de enunciação negociam jurados externos, políticas governamentais,  
patrocínios, turismo, televisão, plataformas e imaginários historicamente constituídos.  
O exterior não está apenas fora; ele integra as condições de produção e circulação. Da  
mesma forma, o interior é múltiplo: artistas, dirigentes, torcedores e comunidades  
podem disputar os sentidos da festa.  
O terceiro resultado diz respeito à infraestrutura comunicacional. Nos dois  
eventos, o repertório permite realizar ao menos quatro funções: sincronizar a ação  
coletiva; condensar valores em fórmulas memorizáveis; conectar o tempo  
extraordinário da festa ao cotidiano; e tornar posições locais audíveis a públicos mais  
amplos. Essas funções aproximam cultura e desenvolvimento sem reduzir a festa a  
“vetor econômico”. Capacidade organizativa, memória compartilhada, visibilidade  
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pública e produção de vínculos também compõem os processos pelos quais  
coletividades imaginam e disputam futuros.  
Essa aproximação, porém, precisa conservar a ambivalência. A conversão de  
signos culturais em atrações turísticas pode gerar trabalho, renda e reconhecimento,  
mas também selecionar imagens facilmente consumíveis da Amazônia.  
A
patrimonialização pode proteger repertórios e, simultaneamente, fixá-los. A circulação  
midiática amplia a voz local e a submete a formatos, audiências e métricas externas. A  
competição mobiliza participação e concentra decisões em estruturas associativas.  
Não há razão para escolher, de antemão, entre resistência e mercadoria, ritual e  
espetáculo, comunidade e indústria cultural. A questão analítica é como essas  
dimensões se compõem em situações concretas.  
Nesse sentido, a noção de identidade encenada ganha novo alcance. Encenar  
não significa falsificar uma identidade verdadeira. Significa produzir, testar e estabilizar  
publicamente certas identificações entre outras possíveis. “A Grande Maloca” encena  
a Amazônia como casa socioambiental capaz de interpelar o mundo. Os cantos de  
Juruti encenam associações como nações afetivas e competitivas. Nos dois casos, a  
música oferece uma forma sensível à identificação; e, nos dois, essa forma permanece  
aberta a apropriações, disputas e críticas.  
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Este artigo partiu da crítica à oposição simples entre narrativas “de fora” e “de  
dentro” sobre a Amazônia. Essa oposição nomeia uma assimetria histórica real, mas  
não basta para compreender festivais contemporâneos atravessados por associações  
locais, políticas culturais, turismo, mercado e mídia. Em seu lugar, propôs-se analisar  
formas situadas de enunciação: posições coletivas que se constituem no ato de  
musicar e cuja legitimidade, alcance e ambivalências precisam ser empiricamente  
descritos.  
A definição operacional de musicalidade como prática relacional permitiu  
deslocar a análise das letras isoladas para as ações que elas tornam possíveis. Compor,  
ensaiar, cantar, responder, torcer e fazer circular são momentos de um mesmo  
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processo comunicacional. A música não apenas representa vínculos; participa de sua  
produção. Também não expressa simplesmente uma identidade anterior; oferece  
scripts, signos e temporalidades pelos quais participantes podem identificar-se.  
As três composições examinadas realizam operações distintas. “A Grande  
Maloca” constrói uma voz amazônica ampliada, distribui agência entre humanos e não  
humanos e converte a Terra em morada a ser cuidada. Sua força reside na tradução  
sensível de uma relação de sociobiodiversidade e na capacidade de dirigir uma  
advertência planetária a partir de Parintins. Sua ambivalência está na universalização  
de responsabilidades historicamente desiguais e de uma imagem indígena da morada.  
“De Norte a Sul, Munduruku” e “Galera Nota 10” produzem um “nós” local e  
agonístico. Cores, paixão, ancestralidade, domínio e rivalidade transformam a primeira  
pessoa em posição coletiva e oferecem à galera uma pedagogia do pertencimento. Sua  
força está em fazer da associação uma experiência pública e corporal. Sua  
ambivalência está na possibilidade de que identificações culturais simplifiquem ou se  
apropriem de referências indígenas cuja produção e recepção demandam investigação  
própria.  
A contribuição do artigo aos estudos de comunicação e cultura consiste em  
compreender os festivais como infraestruturas comunicacionais. Eles não são apenas  
cenários onde mensagens circulam, mas arranjos que tornam possível coordenar  
corpos, transmitir repertórios, produzir reconhecimento e disputar sentidos do  
território. Para a pesquisa sobre comunicação e desenvolvimento na Amazônia, essa  
formulação evita dois reducionismos: considerar cultura apenas como representação  
simbólica ou tratá-la apenas como ativo turístico e econômico. As práticas culturais  
também produzem capacidades relacionais, linguagens públicas e formas de  
imaginação territorial.  
O estudo possui limites claros. O corpus é pequeno e intencional; não permite  
generalizar os resultados para todo o repertório de Parintins ou Juruti. A ausência de  
entrevistas e observação de recepção especificamente desenhadas para este artigo  
impede afirmar como diferentes participantes interpretam as composições. Pesquisas  
futuras devem acompanhar etnograficamente ensaios, arenas e circulações digitais;  
comparar versões e performances; reconstruir redes de composição e financiamento;  
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e, sobretudo, investigar a participação e a avaliação de sujeitos indígenas nas  
representações mobilizadas pelos festivais. Esses caminhos permitirão compreender  
não apenas o que as músicas dizem, mas como diferentes coletividades disputam o  
direito de cantá-las em nome da Amazônia.  
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_____________________________________________________  
SOBRE O(A) AUTOR(A)  
Giselle Moreira do Vale  
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia da Universidade  
Federal do Pará (PPGCom/UFPA). Mestra em Ciências da Sociedade pelo Programa de Pós-Graduação  
em Ciências da Sociedade da Universidade Federal do Oeste do Pará (PPGCS/Ufopa). Graduada em  
Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Pará (UFPA).  
Fábio Fonseca de Castro  
Professor titular da Universidade Federal do Pará, vinculado ao Núcleo de Altos Estudos Amazônicos.  
Bolsista de Produtividade em Pesquisa (PQ) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e  
Tecnológico (CNPq). Professor  
e
atual coordenador do Programa de Pós-graduação em  
Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU). Professor colaborador no Programa de Pós-  
graduação Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM). Foi professor visitante (visiting scholar) no  
Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge e conferencista da London School of  
Economics em 2017-18. Pós-doutor em Etnometodologia pela Universidade de Montreal (2014). Doutor  
em Sociologia pela Universidade da Sorbonne (Paris V Descartes) (2004). Mestre em Antropologia e  
Estudo das Sociedades Latino-Americanas pela Universidade de Sorbonne-Nouvelle) (2000). Mestre em  
Comunicação pela Universidade de Brasília (1995). Graduado em Comunicação-Jornalismo pela UFPA  
(1990). Vice-líder do Grupo de Pesquisa Socialidades, Intersubjetividades e Sensibilidades Amazônicas  
(SISA) e líder do Grupo de Pesquisa sobre Ontologias do Desenvolvimento (ONDE), no CNPq.  
Bruna do Carmo Reis Lira  
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia pela Universidade  
Federal do Pará. Mestra em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas  
(2024). Possui graduação em Comunicação Social/ Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas  
(2021). Participou do Grupo de Pesquisa "BIOS: Grupo de Estudos Biopolíticos no Norte e Nordeste",  
vinculada à linha de pesquisa "Resistências e modos de vida outros". Tem experiência na área de  
Comunicação, com ênfase em jornalismo e em estudos sobre religiões afro-brasileiras. Possui  
experiência em edição de matérias jornalísticas para websites e assessoria de comunicação.  
COMO CITAR ESTE ARTIGO  
VALE, Giselle; CASTRO, Fábio; LIRA, Bruna. Musicar a Amazônia: performance, circulação e  
territorialidade nos festivais de Parintins e Juruti. Passagens: Revista do Programa de Pós-Graduação  
em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, v. 17, n. especial, p. e97693 , 2026  
RECEBIDO EM: 03/09/2026  
ACEITO EM: 04/09/2026  
PUBLICADO EM: 23/09/2026  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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VOZES DO QUILOMBO: COMUNICAÇÃO, TERRITÓRIO E  
DESIGUALDADES DIGITAIS EM TRACUATEUA (PA)  
VOICES FROM THE QUILOMBO: COMMUNICATION, TERRITORY,  
AND DIGITAL INEQUALITIES IN TRACUATEUA (PA)  
VOCES DEL QUILOMBO: COMUNICACIÓN, TERRITORIO Y  
DESIGUALDADES DIGITALES EN TRACUATEUA (PA)  
_____________________________________________________  
Marina Ramos Neves de Castro  
Universidade Federal do Pará  
Fábio Fonseca de Castro  
Universidade Federal do Pará  
Bruno Santos da Cunha  
Universidade Federal do Pará  
Resumo: O artigo analisa as condições de acesso e os usos sociais dos smartphones em quatro  
comunidades remanescentes quilombolas contíguas do município de Tracuateua, no nordeste do Pará -  
Torre, Jurussaca, Campo Novo e Cigano. Busca-se compreender de que modo as práticas comunicacionais  
digitais se articulam às desigualdades de infraestruturas e às formas territorializadas de sociabilidades. A  
pesquisa, de abordagem qualitativa e descritivo-interpretativo, combinou formulários mistos, observação  
direta e escuta de moradores. Os resultados mostram ampla presença dos smartphone, variando entre  
as comunidades com forte precariedade do sinal de internet. O aparelho é associado a comunicação  
familiar, ao acesso à informação e às atividades de estudo, sem substituir a oralidade e as redes  
presenciais. Conclui-se que a conectividade, nesses territórios, deve ser compreendida como direito  
vinculado à justiça territorial e comunicacional, e não como simples difusão de dispositivos.  
Palavras-chave: comunicação quilombola; território; inclusão digital, oralidade; Amazônia.  
Abstract: The article looks at the conditions of access and the social uses of smartphones in four  
neighboring quilombola communities in the municipality of Tracuateua, in northeastern Pará—Torre,  
Jurussaca, Campo Novo, and Cigano. It aims to understand how digital communication practices are  
connected to infrastructure inequalities and local forms of social life. The research, which has a qualitative  
and descriptive-interpretative approach, combined mixed surveys, direct observation, and listening to  
residents. The results show a wide presence of smartphones, varying across communities with very poor  
internet signals. The device is linked to family communication, access to information, and study activities,  
without replacing oral communication and face-to-face networks. The study concludes that connectivity  
in these areas should be seen as a right related to territorial and communication justice, not just as a  
simple spread of devices.  
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Keywords: quilombola communication; territory; digital inclusion, orality; Amazon.  
Resumen: El artículo analiza las condiciones de acceso y los usos sociales de los smartphones en cuatro  
comunidades quilombolas remanentes contiguas del municipio de Tracuateua, en el noreste de Pará:  
Torre, Jurussaca, Campo Novo y Cigano. Se busca comprender de qué manera las prácticas  
comunicacionales digitales se articulan con las desigualdades de infraestructuras y las formas  
territorializadas de sociabilidad. La investigación, de enfoque cualitativo y descriptivo-interpretativo,  
combinó cuestionarios mixtos, observación directa y escucha de los habitantes. Los resultados muestran  
una amplia presencia de los smartphones, variando entre las comunidades, con una fuerte precariedad  
de la señal de internet. El dispositivo se asocia a la comunicación familiar, al acceso a la información y a  
las actividades de estudio, sin reemplazar la oralidad ni las redes presenciales. Se concluye que la  
conectividad, en estos territorios, debe entenderse como un derecho vinculado a la justicia territorial y  
comunicacional, y no como una simple difusión de dispositivos.  
Palabras clave: comunicación quilombola; territorio; inclusión digital, oralidad; Amazonía.  
1 INTRODUÇÃO  
As comunidades de remanescentes quilombolas de Torre, Jurussaca, Campo  
Novo e Cigano localizam-se no município de Tracuateua, no nordeste do Pará, e fazem  
fronteira entre si. A proximidade geográfica não elimina as diferenças relacionadas à  
infraestrutura, ao acesso aos serviços e às condições de conectividade que atravessam  
seus cotidianos. Ao contrário, permite observar como desigualdades distintas se  
materializam em territórios vizinhos e historicamente constituídos por relações de  
parentesco, memória, trabalho e resistência.  
Nesses territórios, a comunicação não se resume ao acesso à internet ou à posse  
de aparelhos. Ela compreende a circulação da palavra, os encontros comunitários, as  
relações familiares, a transmissão de saberes e, mais recentemente, o uso de  
smartphones e aplicativos. A presença das tecnologias digitais acrescenta novas  
possibilidades de comunicação, mas também torna visíveis desigualdades relacionadas  
à cobertura do sinal, aos custos e às condições materiais de uso.  
O debate sobre inclusão digital costuma ser orientado por indicadores gerais de  
acesso. Essa perspectiva é insuficiente quando não considera as condições territoriais e  
as formas locais de apropriação do uso do smartphone, das redes sociais e da internet.  
Possuir um celular não significa dispor de conexão estável, letramento digital ou  
midiático, tampouco garante participação informacional plena. Da mesma forma,  
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utilizar WhatsApp ou Youtube não autoriza concluir que existe mobilização política ou  
cidadã, ou ainda, existência cultural mediada por essas plataformas.  
Diante disso, o problema que orienta o artigo é, como o acesso ao smartphone,  
as condições de conectividade e os usos comunicacionais desses aparelhos se  
apresentam nas quatro comunidades de remanescentes quilombolas contíguas de  
Tracuateua? O objetivo geral do artigo é analisar comparativamente essas condições e  
usos, relacionando-os às desigualdades territoriais e às práticas comunitárias de  
comunicação. Especificamente, busca-se caracterizar a posse do aparelho, identificar as  
principais barreiras de conectividades e examinar os sentidos atribuídos ao celular na  
comunicação, no acesso à informação e no estudo.  
A investigação é relevante porque desloca o olhar de uma oposição  
simplificadora entre tradição e tecnologia. A oralidade, as relações presenciais e as  
plataformas digitais não constituem, necessariamente, mundos excludentes. Os áudios,  
mensagens, vídeos e chamadas podem atualizar práticas anteriores de comunicação ao  
mesmo tempo que dependem de infraestruturas externas e de plataformas comerciais.  
A pesquisa de campo começou em 2024, no contexto de intensificação dos  
debates amazônicos que antecederam a COP30, realizada em Belém em 2025. Mais do  
que associar as comunidades automaticamente aos eventos, interessa reconhecer que  
as discussões sobre justiça climática, direito à informação e participação social exigem  
condições efetivas para que os povos tradicionais produzam e façam circular suas  
próprias narrativas.  
O artigo está organizado em quatro movimentos. Inicialmente discute  
comunicação. Território e oralidade. Em seguida, apresenta os procedimentos  
metodológicos e a limpeza das bases. A terceira parte examina os resultados  
comparativos. Por fim, a discussão articula os achados às desigualdades territoriais e à  
justiça comunicacional.  
Compreendemos que, na Amazônia não urbana, a justiça comunicacional não se  
restringe ao acesso técnico à internet e aos dispositivos digitais. Ela compreende a  
existência de infraestrutura adequada, conexão estável e economicamente acessível,  
desenvolvimento de competências digitais e reconhecimento das formas próprias de  
comunicação das comunidades. Envolve ainda o direito de produzir narrativas, fazer  
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circular saberes e participar das decisões que afetam seus territórios e seus modos de  
vida, sem que as populações amazônicas sejam reduzidas à condição de receptoras de  
informações produzidas externamente.  
2 COMUNICAÇÃO TERRITÓRIO E ORALIDADE  
O território quilombola não pode ser reduzido a uma superfície geográfica.  
Envolve apropriações materiais e simbólicas, memórias, vínculos, conflitos e estratégias  
de permanência. Haesbaert (2014) permite compreender o território enquanto  
realidade multidimensional, constituída por relações de poder e de pertencimento. Essa  
perspectiva ajuda a interpretar a conectividade não enquanto um serviço abstrato, mas  
como infraestrutura, que chega de maneira desigual a espaços rurais e, socialmente,  
periféricos.  
A comunicação, por sua vez, é entendida como processo cultural. Martin-  
Barbero (2003) desloca a análise dos meios para as mediações, chamando a atenção  
para os usos, as temporalidades e as matrizes culturais que configuram a experiência  
comunicacional. Assim, o significado do celular não está contido no aparelho, é  
produzido nas relações sociais em que ele se insere.  
A abordagem também dialoga com a comunicação popular discutida por Peruzzo  
(2007), especialmente pela centralidade da participação e da cidadania. Nas  
comunidades escutadas, entretanto, não se deve pressupor que toda comunicação  
quotidiana constitui comunicação popular organizada. A pesquisa diferencia usos  
interpessoais, acesso à informação e eventuais formas coletivas de articulação, evitando  
conferir aos dados sentidos políticos que eles não sustentam diretamente.  
Na sociedade em rede, a conexão pode ampliar o acesso aos fluxos de  
informação, mas também produzir novas assimetrias (Castells, 2009). A instabilidade do  
sinal, o custo dos pacotes de dados e a dependência de pequenas empresas locais de  
internet e plataformas condicionam a experiência de quem vive em áreas rurais. Couldry  
e Mejias (2019) acrescentam que a conexão contemporânea envolve processos de  
extração e apropriação de dados, o que impede uma visão celebratória da digitalização.  
As tecnologias sociais territorializadas ajudam a pensar soluções vinculadas às  
necessidades e aos conhecimentos locais (Dagnino, 2014). Essa noção não significa  
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classificar automaticamente o celular ou uma plataforma comercial como tecnologia  
social. Ela orienta a pergunta sobre quem decide, para que finalidade e em quais  
condições uma tecnologia é incorporada ao cotidiano.  
A oralidade permanece fundamental. A palavra falada transmite memórias,  
conhecimento sobre o território, experiências de trabalho e vínculos familiares. Nas  
práticas digitais, ela pode assumir novas materialidades por meio de áudios e vídeos.  
Não se trata de afirmar uma continuidade sem rupturas, mas de observar que a  
incorporação do celular não elimina as formas presenciais e intergeracionais de  
comunicação.  
Milton Santos (2006) mostra que técnica e espaço se constituem mutuamente.  
A rede móvel, as antenas, os aparelhos e as plataformas participam do território usado,  
mas sua distribuição desigual expressa decisões econômicas e políticas. Nessa  
perspectiva, a precariedade da conexão, assim como seu alto custo, é parte de uma  
desigualdade territorial mais ampla que atinge indivíduos e comunidades.  
Em nossa compreensão, a comunicação comunitária não se esgota na palavra  
falada ou escrita. Na etnografia da comunicação realizada sobre a celebração do Dia da  
Consciência Negra, na comunidade remanescente de quilombos de Jambuaçu, Castro et  
al. (2025) mostram que a produção coletiva da identidade quilombola envolve falas,  
cantos, tambores, danças, imagens, gestos, memórias e afetos. Trata-se, em sua  
compreensão, de uma comunicação intersensorial, na qual os sentidos são produzidos  
no encontro entre os corpos e o ambiente. Essa perspectiva ajuda a compreender o  
smartphone como parte de um universo comunicacional mais amplo: fotografias, vídeos  
e mensagens de voz podem prolongar determinadas narrativas e experiências, mas não  
substituem os encontros presenciais nos quais elas adquirem densidade cultural e  
política.  
O mesmo trabalho permite compreender melhor o fenômeno da transmissão  
intergeracional de saberes e sensibilidades. A pesquisa realizada evidenciou que a  
relação entre oralidade e digitalização deve ser examinada, também, em sua dimensão  
intergeracional. Os mais velhos ocupam posição central na transmissão de memórias,  
conhecimentos e narrativas territoriais, enquanto os jovens tendem a desempenhar  
papel mais ativo na circulação digital desses conteúdos. Essa relação não precisa ser  
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pensada como oposição entre tradição e modernidade, mas como possível processo de  
tradução entre linguagens, temporalidades e competências diferentes.  
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS  
A pesquisa possui caráter qualitativo e descritivo-interpretativo (Minayo, 2012).  
O campo abrange as comunidades de remanescentes quilombolas das comunidades do  
Torre, do Jurussaca, do Campo Novo e do Cigano, territórios contíguos situados em  
Tracuateua, estado do Pará. A coleta combinou formulários mistos, observação direta e  
escuta de moradores, permitindo articular dados fechados e registros contextuais.  
Os formulários abordaram idade, posse de smartphone, dificuldades de acesso,  
frequência de uso, conteúdos consultados, uso para estudo e leituras e percepção sobre  
a comunicação. As perguntas não tiveram preenchimento obrigatório; por isso, cada  
indicador é apresentado com o seu próprio número de respostas válidas. Os percentuais  
não foram calculados automaticamente sobre o total geral da comunidade quando  
havia respostas ausentes.  
As bases foram submetidas à conferência e à exclusão técnica para evidenciar  
corretamente o escopo analisado. Assim, na planilha vinculada à comunidade do Torre,  
foram excluídas cinco submissões duplicadas – sendo quatro repetições posteriores de  
participantes já registrados – e uma resposta idêntica enviada com intervalo de  
aproximadamente um minuto. Três registros preenchidos referindo-se à comunidade de  
Goiaval foram mantidos em Torre, conforme a delimitação territorial fornecida pelos  
interlocutores para a pesquisa. Em Jurussaca, excluiu-se apenas um registro não  
preenchido.  
Após esses procedimentos, o corpus totalizou 88 participantes, sendo 20 do  
Torre; 23 do Jurussaca; 27 do Campo Novo e 18 do Cigano. A distribuição é apresentada  
na Tabela 1.Essa mostra se coloca como não probabilística e não autoriza generalizações  
estatísticas para a totalidade da população remanescente de quilombos de Tracuateua.  
Tabela 1 - Distribuição dos participantes após a limpeza das bases, com base nos formulários da  
pesquisa  
Comunidade  
Torre  
Participantes  
20  
% da amostra  
22,7%  
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26,1%  
Jurussaca  
Campo Novo  
Cigano  
23  
27  
18  
88  
30,7%  
20,5%  
Total  
100,0%  
Fonte: SISA, elaborado por M. Castro.  
Os dados fechados foram organizados por comunidade e convertidos em  
frequências absolutas e relativas. Para a comparação, foram selecionados indicadores  
com categorias equivalentes nas quatro bases. As respostas abertas e os registros de  
campo foram interpretados por aproximação à análise de conteúdo (Bardin, 2016), com  
atenção às categorias acesso, infraestrutura, comunicação familiar, informação, estudo  
e oralidade.  
A triangulação entre fontes foi utilizada para evitar que os números fossem lidos  
isoladamente (Yin, 2015). O estudo preserva o anonimato – nomes e contatos existentes  
nas planilhas não foram reproduzidos. Também se evitou atribuir à ausência de acesso  
significados culturais não declarados pelos participantes.  
Como limites, destacam-se o número desigual de respondentes por comunidade,  
as respostas ausentes em algumas perguntas, a coleta realizada em movimentos  
diferentes e a ausência de um desenho amostral probabilístico. Esses aspectos são  
explicitados para assegurar transparência e delimitar o alcance das conclusões.  
.
4 RESULTADOS DA PESQUISA  
4.1 ACESSO AO CELULAR  
A posse do celular é majoritária nas quatro comunidades, mas apresenta  
diferenças relevantes. Campo Novo e Cigano registram as maiores proporções, ambas  
com 88,9%. Em Jurussaca, 18 dos 23 participantes possuem aparelhos (78,3%); no Torre,  
são 15 de 20 (75,0%). No conjunto da amostra, 73 dos 88 participantes declararam  
possuir smartphones, correspondendo a 88,0%.  
A presença ampla do dispositivo não equivale à universalização do acesso.  
Quinze participantes não possuem aparelho próprio, e algumas respostas indicam uso  
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de equipamentos de familiares e/ou amigos. Portanto, a posse individual deve ser  
diferenciada do acesso eventual ou compartilhado.  
Gráfico 1 - Participantes que possuem celular - Percentuais calculados sobre o total válido de cada  
comunidade.  
Fonte: SISA, elaborado por M. Castro.  
4.2 CONECTIVIDADE E DESIGUALDADE TERRITORIAL  
O sinal fraco aparece como obstáculo central, mas sua intensidade varia. Em  
Campo Novo, 24 dos 27 participantes indicaram essa dificuldade (88,9%). Em Cigano  
foram 10 entre 17 respostas válidas (58,8%); em Jurussaca 13 de 23 (56,5%); e no Torre,  
10 de 20 (50,0%).  
Os percentuais revelam que a elevada posse de aparelhos pode coexistir com  
conexão precária. Campo Novo oferece o exemplo mais evidente – embora 88,9%  
possuam celular, a mesma proporção relata sinal fraco. O acesso material ao dispositivo,  
portanto, não assegura a qualidade, continuidade ou autonomia de conexão.  
O preço elevado do serviço de internet também aparece nas respostas do Torre,  
Jurussaca e Cigano, embora com frequência inferior à do sinal fraco. Essas duas barreiras  
têm naturezas relacionadas: uma diz respeito à infraestrutura disponível; a outra, à  
capacidade de pagar por serviços e dados. Ambas limitam o direito a informação.  
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Gráfico 2 - Sinal fraco como principal dificuldade  
Fonte: SISA, por M. Castro.  
4.3 INFORMAÇÃO, ESTUDO E COMUNICAÇÃO  
O uso do smartphone para pesquisar e/ou estudar foi informado por 15  
participantes do Torre (75,0%), 18 do Jurussaca (78,3%), 21 do Campo Novo (77,8%) e 9  
entre 14 respondentes da questão, no Cigano (64,3%). O resultado indica presença  
significativa de práticas informacionais e educativas, ainda que condicionadas pela  
instabilidade da conexão.  
As respostas sobre conteúdos mostram variações. A predominância de  
conteúdos noticiosos no Torre e no Cigano, enquanto redes sociais aparecem com maior  
presença no Campo Novo e no Jurussaca. A diversidade não deve ser lida como oposição  
rígida entre informação e entretenimento, pois as plataformas e conteúdos podem  
sobrepor-se.  
A comunicação interpessoal ocupa posição central. Ver mensagens foi a primeira  
ação mais recorrente nas quatro comunidades, e o WhatsApp aparece repetidamente  
entre os aplicativos considerados úteis. Esses dados sustentam a interpretação do  
celular como mediador de vínculos familiares e cotidianos; não bastam, contudo, para  
afirmar que o aplicativo seja utilizado de forma sistemática para mobilização social entre  
os próprios quilombolas das comunidades.  
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Gráfico 3 - Uso do celular para pesquisa ou estudo  
Fonte: SISA, por M. Castro.  
A avaliação geral do uso do aparelho é positiva. A afirmação de que o celular  
facilita a comunicação foi registrada por 15 participantes do Torre, 20 do Jurussaca, 26  
do Campo Novo e todos os 15 respondentes válidos desta questão no Cigano. Ao mesmo  
tempo, a existência de respostas “não faz diferença” ou “dificulta” mostra que a  
experiência não é homogênea.  
A maioria também declarou que o celular não atrapalha suas atividades. Essa  
percepção, combinada à importância atribuída à comunicação e à informação, ajuda a  
compreender o aparelho como recurso integrado ao cotidiano. Seus benefícios, porém,  
são limitados por infraestrutura e custo.  
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Gráfico 4 - Percepção de que o celular facilita a comunicação  
Fonte: SISA, por M. Castro.  
5 DISCUSSÃO  
Os resultados desautorizam uma leitura binária entre comunidades  
“conectadas” e “desconectadas” à internet. A maioria possui smartphones, mas a  
conexão é instável e desigual. O que se observa é uma inclusão digital parcial, marcada  
pela presença do dispositivo e pela fragilidade das condições necessárias ao seu uso  
contínuo.  
Essa contradição ganha nitidez quando comunidades vizinhas apresentam  
proporções distintas de sinal fraco. A contiguidade territorial não produz igualdade  
infraestrutural. Redes de telecomunicações obedecem a critérios técnicos, econômicos  
e políticos que podem reproduzir marginalizações existentes. O território, nesse sentido,  
não é pano de fundo; ele participa ativamente das possibilidades comunicacionais.  
Com efeito, ao perceber que o smartphone não atua isoladamente nem se  
constitui como um instrumento individualizado da própria experiência social, pode-se  
perceber um fenômeno de integração multifatorializada e multisituada com base na  
experiência territorial das comunidades. Nesse sentido, seria pertinente dizer que o  
smartphone, seja como meio, seja como mídia, seja como instrumento, seja como  
dispositivo, não atua isoladamente, mas integra-se à oralidade, aos encontros, às  
relações familiares, às festas, às assembleias e às redes comunitárias.  
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Propomos compreender as práticas observadas como parte do que identificamos  
como sendo uma “ecologia comunicacional territorializada”. Essa expressão designa o  
conjunto de meios, relações, linguagens, infraestruturas, economias sociais e formas de  
sociabilidade por meio dos quais a comunicação é produzida em determinado território.  
Com esse conceito, identificamos as práticas observadas como parte de uma ecologia  
comunicacional centrada na experiência social vivenciada coletivamente e enquanto  
prática territorializada.  
O smartphone integra essa ecologia, mas não a organiza sozinho: seu significado  
depende das redes familiares, da oralidade, dos encontros presenciais, dos  
conhecimentos locais e das condições materiais de conexão. A desigualdade digital,  
portanto, não decorre apenas da ausência ou presença de dispositivos, mas das  
condições desiguais em que essa ecologia pode funcionar, renovar-se e relacionar-se  
com agentes externos.  
Ela possui, portanto, diferentes camadas. A primeira corresponde ao acesso ao  
aparelho; a segunda, à disponibilidade e à qualidade da conexão; a terceira, às  
competências necessárias para buscar, avaliar e produzir informações; e a quarta, à  
possibilidade de utilizar os meios digitais com autonomia, inclusive para participar de  
decisões e fazer circular narrativas próprias. Os dados mostram que avanços na primeira  
camada podem coexistir com fortes limitações nas demais.  
A comparação também mostra que a posse do celular não deve ser utilizada  
como indicador isolado de inclusão. Em Campo Novo, a elevada presença do aparelho  
convive com a maior frequência de sinal fraco. A experiência concreta é formada pela  
combinação entre equipamento, cobertura, custo, energia, competências de uso e  
finalidades sociais.  
O uso para estudo e pesquisa é expressivo nas quatro comunidades. Esse achado  
tem relevância pública porque revela demanda por informação e aprendizagem. Em  
condições de sinal instável, atividades escolares, pesquisas e leitura podem ser  
interrompidas ou depender do deslocamento para pontos de melhor conexão. A  
precariedade digital, portanto, também pode aprofundar desigualdades educacionais.  
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A centralidade das mensagens e da comunicação familiar dialoga com a  
perspectiva das mediações (Martin-Barbero, 2003). O aparelho é incorporado a vínculos  
anteriores e a rotinas locais. Ele não cria sozinho a socialidade, mas oferece novas  
formas de sustentar relações, pedir ajuda, obter notícias e organizar tarefas.  
A oralidade permanece presente tanto fora quanto dentro do ambiente digital.  
Conversas presenciais, relatos e ensinamentos continuam fundamentais, enquanto  
mensagens de voz e vídeo ampliam a materialidade da palavra falada. Essa coexistência  
é mais produtiva para a análise do que a ideia de substituição da tradição pela  
tecnologia.  
Também é necessário cuidado com a categoria “resistência”. As comunidades  
remanescentes de quilombo possuem histórias de resistência territorial e cultural, mas  
não se pode converter toda ação digital cotidiana em ato de resistência. Os dados deste  
estudo permitem afirmar que o smartphone apoia ações de comunicação, informação e  
estudo; a caracterização de práticas políticas digitais exigiria perguntas específicas,  
observação de grupos, conteúdos circulados e processos organizativos.  
Essa cautela pode ser esclarecida, por exemplo, por meio do estudo no campo  
da etnografia da comunicação de Castro e Castro (2023), onde observam a construção  
do Protocolo de Consulta do Território Quilombola Terra da Liberdade. Naquele caso, a  
comunicação política se produziu por meio de assembleias, oficinas, circulação de  
informações, grupos de WhatsApp e esforços deliberados para ampliar a participação  
das comunidades. Castro e Castro (2023) compreendem esse processo como uma luta  
coletiva pelo direito de “se dizer”, isto é, pelo reconhecimento da identidade, dos  
direitos e do território. O caso demonstra que a passagem do uso cotidiano para a  
comunicação política não decorre da simples presença de aparelhos ou aplicativos, mas  
da inserção desses meios em processos organizativos, deliberativos e reivindicatórios.  
Nas comunidades estudadas em Tracuateua, os dados permitem reconhecer usos  
relacionais, informacionais e educativos, mas não autorizam, por si sós, a caracterização  
de uma mobilização política digital sistemática.  
A justiça comunicacional envolve tanto o acesso às redes quanto o  
reconhecimento das formas próprias de narrar e produzir conhecimento; ou seja, a  
justiça existe diante do direito de acessar, produzir e fazer circular informações em  
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condições equitativas, com autonomia e respeito às formas de comunicação próprias de  
cada território. Dessa maneira, políticas de conectividade voltadas aos territórios  
quilombolas devem considerar cobertura estável, estabilidade energética, preços  
acessíveis, participação comunitária nas decisões e proteção de dados. A simples  
expansão comercial do serviço pode ampliar o consumo sem assegurar autonomia.  
A participação comunitária nas políticas de conectividade não deve ser  
entendida somente como consulta sobre a qualidade do serviço. À luz das experiências  
de construção de protocolos de consulta, ela envolve o direito de as comunidades  
definirem como desejam ser informadas, consultadas e envolvidas nas decisões sobre  
infraestruturas que atravessam seus territórios (Castro e Castro, 2023).  
A leitura territorializada também impede de responsabilizar os indivíduos pelas  
dificuldades. O sinal fraco não é resultado de falta de interesse ou competência das  
comunidades. Ele expressa uma distribuição desigual de infraestrutura. Da mesma  
forma, o uso compartilhado de aparelhos pode ser estratégia cotidiana, mas não elimina  
a desigualdade associada à ausência de equipamentos próprios.  
A pesquisa oferece, assim, uma base empírica para compreender a conectividade  
em territórios quilombolas contíguos. Seu principal achado não é a presença ou ausência  
absoluta da tecnologia, mas a coexistência entre apropriação cotidiana e precariedade  
estrutural.  
Um outro aspecto a destacar, nos resultados da pesquisa, diz respeito à  
necessidade de compreender a variação percebida entre as experiências de uso do  
smartphone entre as diferentes comunidades. A diferença entre comunidades  
territorialmente contíguas sugere que a conectividade possui uma geografia própria.  
Sua distribuição não acompanha necessariamente os limites comunitários nem as redes  
de parentesco e circulação local. Ela é produzida por decisões econômicas, localização  
de antenas, capacidade de pagamento, disponibilidade energética e condições de  
acesso aos provedores. Assim, a proximidade física entre as comunidades não elimina  
as descontinuidades da infraestrutura: pode-se atravessar uma fronteira quase  
imperceptível na paisagem e, ainda assim, ingressar em outra condição de  
conectividade.  
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Todas essas conclusões, em síntese, remetem à ideia de uma ecologia  
comunicacional territorializada, como referido acima. A compreensão dos processos  
comunicacionais a partir de uma perspectiva centrada nas ciências sociais permite uma  
abordagem complexa e que leva em conta mais a prática social do uso dos veículos e  
meios – e, portanto, a experiência coletiva – do que o impacto dos meios na sociedade.  
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
O artigo analisou comparativamente o acesso aos smartphones, as condições de  
conectividade e as práticas comunicacionais nas comunidades remanescentes de  
quilombo do Torre, Jurussaca, Campo Novo e Cigano. O corpus reuniu 88 participantes.  
A transparência sobre duplicidade, teste e respostas ausentes foi essencial para evitar  
percentuais inflados e interpretações imprecisas.  
Os dados mostram que o smartphone está presente na maioria dos cotidianos  
pesquisados, mas seu uso é atravessado por questões referentes aos custos e a  
deficiência do acesso. Campo Novo e Cigano apresentam as maiores proporções de  
posse; Campo Novo simultaneamente registra a maior incidência de precariedade do  
sinal. A comparação confirma que acesso ao aparelho e qualidade da conexão são  
dimensões diferentes.  
O celular é utilizado para comunicação familiar, consulta a notícias, redes sociais,  
pesquisa e estudo.  
A percepção predominante é de que o aparelho facilita a  
comunicação. Esses achados demonstram sua relevância cotidiana, sem permitir  
concluir automaticamente que todo uso digital constitui mobilização ou resistência  
social.  
A oralidade e as relações presenciais não desaparecem com a digitalização. Elas  
coexistem com mensagens, áudios e vídeos, compondo práticas híbridas e situadas. A  
inclusão digital precisa, portanto, reconhecer tanto o direito à infraestrutura quanto à  
pluralidade das formas comunitárias de comunicar.  
Conclui-se que enfrentar a desigualdade digital nesses territórios exige mais do  
que distribuir dispositivos. É necessário garantir conexão estável, acessível, e construída  
com participação comunitária, articulando inclusão digital, justiça territorial e direito a  
comunicação  
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_____________________________________________________  
SOBRE O(A) AUTOR(A)  
Marina Ramos Neves de Castro  
Professora da Faculdade de Comunicação da UFPA. Doutora em Antropologia pelo Programa de Pós-  
Graduação em Antropologia - PPGA (Nota 5 Capes) da Univerisdade Federal do Pará. Mestre em Artes  
pelo PPGArtes (Nota 4 Capes) do Instituto de Ciências das Artes e mestre em Estudos das Sociedades  
Latino Americanas - Opção Comunicação, pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris 3). Realizou  
estágio doutoral no Departamento de Antropologia do University College London, com o Prof. Daniel  
Miller a partir do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior - com apoio da CAPES. Pesquisadora  
durante três anos do Centre dÉtudes sur lActuel et le Quotidien, sob orientação do Prof. Michel Maffesoli.  
Durante três anos seguiu os cursos de história da arte do Museu do Louvre, em Paris e, durante um ano,  
os cursos de história da arte e das civilizações na Université de Montréal. Iniciou curso de doutorado em  
sociologia da cultura na Université de Sorbonne-Descartes (Paris 5), concluindo os créditos e a pesquisa  
de campo, mas não chegou a defender a tese. Coordena, desde 2018, o grupo de pesquisa certificado  
pelo CNPQ Socialidades, Intersubjetividades e Sensibilidades Amazônicas - SISA. Coordena o projeto de  
pesquisa Comunicação Quilombola e o projeto de pesquisa Imagem e Cultura na Amazônia. Coordena o  
Projeto de Extensão Documentário Biográficos da Amazônia - DocBio. Coordenou o curso de Publicidade  
e Propaganda da Faculdade de Tecnologia da Amazônia (FAZ) durante 5 anos e, também nessa instituição,  
coordenou os cursos de Especialização em Gestão em Comunicação e Marketing. Na FAZ ainda  
desenvolveu o projeto acadêmico-pedagógico ''Expor-FAZ'', por meio do qual professores e alunos de  
diferentes disciplinas desenvolveram ações de criação, produção e exposição de projetos associando  
história da arte e publicidade. Também atuou como professora no curso de Especialização Imagem e  
Sociedade, na UFPA. Como professora, a nível de graduação e pós-graduação (especialização), ministrou  
as disciplinas História da Arte, Estética da Comunicação, Teorias da Comunicação, Cultura Visual,  
Sociologia da Imagem e Sociologia da Comunicação. Trabalhou ainda, durante 9 anos, na Fundação  
Cultural do Pará Tancredo Neves, desenvolvendo atividades junto ao Centro de Convenções, à  
Coordenação de Ação Cultural e Museu da Imagem e do Som. Em 2012 foi responsável pela curadoria e  
montagem da exposição Pai dégua Brasil em defesa do ECA, da artista plástica Lúcia Gomes.  
Fábio Fonseca de Castro  
Professor titular da Universidade Federal do Pará, vinculado ao Núcleo de Altos Estudos Amazônicos.  
Bolsista de Produtividade em Pesquisa (PQ) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e  
Tecnológico (CNPq). Professor e atual coordenador do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento  
Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU). Professor colaborador no Programa de Pós-graduação  
Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM). Foi professor visitante (visiting scholar) no Departamento  
de Sociologia da Universidade de Cambridge e conferencista da London School of Economics em 2017-18.  
Pós-doutor em Etnometodologia pela Universidade de Montreal (2014). Doutor em Sociologia pela  
Universidade da Sorbonne (Paris V Descartes) (2004). Mestre em Antropologia e Estudo das Sociedades  
Latino-Americanas pela Universidade de Sorbonne-Nouvelle) (2000). Mestre em Comunicação pela  
Universidade de Brasília (1995). Graduado em Comunicação-Jornalismo pela UFPA (1990). Vice-líder do  
Grupo de Pesquisa Socialidades, Intersubjetividades e Sensibilidades Amazônicas (SISA) e líder do Grupo  
de Pesquisa sobre Ontologias do Desenvolvimento (ONDE), no CNPq.  
Bruno Santos da Cunha  
Graduado em Comunicação, com habilitação em Jornalismo. Bolsista Pibic de 2023 a 2025. Pesquisador  
do Grupo de Pesquisa Socialidades, Intersubjetividades e Sensibilidades Amazônicas - SISA (CNPQ)  
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ISSN 2179-9938  
COMO CITAR ESTE ARTIGO  
CASTRO, Marina Ramos Neves de; FONSECA DE CASTRO, Fábio; CUNHA, Bruno Santos da. Vozes do  
Quilombo: Comunicação, território e desigualdades digitais em Tracuateua (PA). Passagens: Revista do  
Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, v. 17, n.  
especial, p. e97676, 2026  
RECEBIDO EM: 01/09/2026  
ACEITO EM:01/09/2026  
PUBLICADO EM: 23/09/2026  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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IMAGINÁRIO AMAZÔNICO AUTOMATIZADO: SIGNOS E  
REPRESENTAÇÕES EM IMAGENS GERADAS POR INTELIGÊNCIA  
ARTIFICIAL  
AUTOMATED AMAZONIAN IMAGINARY: SIGNS AND  
REPRESENTATIONS IN AI-GENERATED IMAGES  
IMAGINARIO AMAZÓNICO AUTOMATIZADO: SIGNOS Y  
REPRESENTACIONES EN IMÁGENES GENERADAS POR  
INTELIGENCIA ARTIFICIAL  
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Kleyse Costa Vaz Santana Prado  
Universidade Federal do Pará  
Luiz Cezar Silva dos Santos  
Universidade Federal do Pará  
Resumo: O artigo busca compreender como sistemas de Inteligência Artificial Generativa de Imagens  
(IAGI) diferentes representam a Amazônia e quais signos são utilizados nesse processo. Realiza um  
experimento com o Midjourney, DALL-E 3 e Leonardo.Ai por meio da inserção do mesmo prompt nos  
três sistemas. Partindo dos conceitos da Semiótica de Peirce (2005), do imaginário, de Maffesoli  
(apud da Silva, 2001), e da Marca Amazônia, de Amaral Filho (2016), os signos presentes nas  
representações produzidas pelos modelos de IAGI são analisados, bem como suas relações com  
repertórios simbólicos já construídos sobre a região amazônica. Nas imagens analisadas, observamos  
a recorrência de elementos semelhantes e historicamente associados à Amazônia. A análise permite  
discutir como a Inteligência Artificial pode reorganizar repertórios culturais, levantando questões  
sobre a automatização do imaginário e sobre aquilo que, enquanto humanidade, ensinamos às  
máquinas, especificamente sobre a Amazônia.  
Palavras-chave: Amazônia; Inteligência Artificial Generativa; Imaginário; Marca Amazônia;  
Semiótica.  
Abstract: This article seeks to understand how different Generative AI image systems represent the  
Amazon and which signs are used in this process. We conducted an experiment with Midjourney,  
DALL-E 3, and Leonardo.Ai by entering the same prompt into all three systems. Drawing on Peirce’s  
(2005) concepts of semiotics, Maffesoli’s (apud da Silva, 2001) concept of the imaginary, and Amaral  
Filho’s (2016) concept of Marca Amazônia (a kind of Amazon Brand), we analyze the signs present in  
the representations produced by the Generative AI image models, as well as their relationships with  
symbolic repertoires already constructed around the Amazon region. In the images analyzed, we  
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observed the recurrence of similar elements historically associated with the Amazon. These findings  
allow us to discuss how Artificial Intelligence can reorganize cultural repertoires, raising questions  
about the automation of the imaginary and about what we, as a society, teach machines, specifically  
about the Amazon.  
Keywords: Amazon Region; Generative Artificial Intelligence; Imaginary; Marca Amazônia; Semiotics.  
Resumen: Este artículo busca comprender cómo diferentes sistemas de Inteligencia Artificial  
Generativa de Imágenes (IAGI) representan la región amazónica y qué signos son utilizados en este  
proceso. Realizamos un experimento con Midjourney, DALL-E 3 y Leonardo.Ai mediante la inserción  
del mismo prompt en los tres sistemas. A partir de los conceptos de semiótica de Peirce (2005), de  
imaginario de Maffesoli (apud da Silva, 2001) y de Marca Amazônia (una especie de marca de la  
región amazónica), propuesta por Amaral Filho (2016), analizamos los signos presentes en las  
representaciones producidas por los modelos de IAGI, así como sus relaciones con repertorios  
simbólicos ya construidos sobre la región amazónica. En las imágenes analizadas, observamos la  
recurrencia de elementos semejantes e históricamente asociados a la Amazonía. El análisis permite  
discutir cómo la Inteligencia Artificial puede reorganizar repertorios culturales, planteando  
cuestiones sobre la automatización del imaginario y sobre aquello que, como sociedad, enseñamos  
a las máquinas, específicamente sobre la Amazonía.  
Palabras clave: Región Amazónica; Inteligencia Artificial Generativa; Imaginario; Marca Amazônia;  
Semiótica.  
1 INTRODUÇÃO  
A Amazônia é historicamente representada por um conjunto de signos que  
circulam na mídia e na sociedade e ajudam a construir um imaginário sobre a região.  
Alguns elementos recorrentes nessas representações são a predominância da natureza,  
os rios, os animais, a biodiversidade e os povos indígenas. Amaral Filho (2016) discute  
como esses e outros elementos são apropriados e organizados em processos de  
comunicação, publicização e mercantilização, adquirindo valor simbólico e contribuindo  
para que a Amazônia seja não apenas reconhecida, como também consumida por  
diferentes públicos.  
Mas o que acontece quando esse repertório passa a ser apropriado e organizado  
pela Inteligência Artificial Generativa (IAG)? Que tipo de representação da Amazônia é  
produzida quando a máquina passa a mobilizar elementos historicamente associados à  
região? Diferentemente da experiência humana, a Inteligência Artificial (IA) não  
conhece a Amazônia pela vivência, não percorre seus rios, não experimenta suas cidades  
e tampouco estabelece relações sociais ou culturais com as populações que nela vivem.  
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Sua representação é construída a partir de relações aprendidas durante o treinamento  
dos modelos, realizado sobre grandes conjuntos de dados constituídos, entre outros  
materiais, por produções culturais humanas, transformadas em códigos e padrões.  
Assim, quando solicitada a representar visualmente um território como a Amazônia, a  
máquina precisa selecionar e reorganizar elementos capazes de conferir sentido e  
reconhecimento à imagem produzida. Essa seleção, portanto, é construída sobre  
diferentes discursos, imagens e narrativas que já participavam da construção de formas  
de imaginar a região.  
Tendo em vista essas questões, Prado e Santos (2024) realizaram um  
experimento com o modelo DALL-E 3.0 para verificar os processos de representação,  
significação e interpretação da IA. A proposta consistiu em fornecer ao sistema um  
comando de texto (prompt) simples, “Crie uma imagem que represente a Amazônia”, e  
observar quais elementos seriam mobilizados pela máquina para construir essa  
representação. Posteriormente, as imagens geradas foram submetidas a uma análise  
semiótica a fim de compreender os signos presentes e os sentidos relacionados à  
representação da região. Se esses sistemas operam a partir de produções culturais  
anteriormente existentes, os signos mobilizados para representar a Amazônia podem  
carregar consigo marcas de imaginários já sedimentados.  
Essa ideia de sedimentação encontra aproximações com Castro (2011), que  
compreende os conhecimentos socialmente compartilhados como construções que se  
acumulam e se preservam ao longo do tempo, mas que também estão em permanente  
transformação. Dessa forma, a permanência de determinados referenciais não significa  
que eles permaneçam inalterados, uma vez que podem ser reelaborados à medida que  
circulam socialmente. A aparente novidade tecnológica da imagem generativa pode,  
portanto, conviver com formas bastante conhecidas de representar a região. A máquina  
reorganiza elementos, produz novas composições e cria imagens que antes não  
existiam, mas os materiais simbólicos mobilizados nessa produção não necessariamente  
são novos.  
Diante desse cenário, nossa proposta neste estudo foi ampliar o experimento  
anterior, buscando compreender como diferentes sistemas de Inteligência Artificial  
Generativa organizam e mobilizam signos na construção de representações da  
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Amazônia. Foi mantida a mesma lógica do primeiro experimento: inserimos o mesmo  
prompt solicitando imagens que representassem a Amazônia para o DALL-E 3, o  
Midjourney e o Leonardo.Ai. As imagens foram analisadas semioticamente, dialogando  
com o conceito de Marca Amazônia (Amaral Filho, 2016) e com as discussões sobre  
imaginário (Maffesoli, 1996; da Silva, 2001). Utilizamos, ainda, as contribuições de  
Flusser (2008) para problematizar a condição de caixa-preta que também atravessa a  
produção de imagens por IA.  
A análise revelou convergências entre determinados elementos presentes nas  
três imagens produzidas pelos sistemas. Mais do que compreender essas aproximações  
simplesmente como limitações ou vieses das ferramentas, propomos observá-las como  
parte de um processo mais amplo de circulação e permanência de representações sobre  
a Amazônia. Não partimos, portanto, da ideia de que a Inteligência Artificial inaugura  
um novo imaginário amazônico, mas da possibilidade de que esses sistemas tornem  
visíveis, reorganizem e até automatizem repertórios simbólicos culturalmente presentes  
no imaginário coletivo sobre a região. A passagem da Marca Amazônia aos imaginários  
algorítmicos permite, assim, questionar não apenas o que a máquina produz quando  
solicitada a imaginar a região, mas também aquilo que nós, enquanto sociedade,  
produzimos e fazemos circular a ponto de ensinar para as máquinas o que pode ser  
reconhecido como Amazônia.  
2 DA MARCA AMAZÔNIA AO IMAGINÁRIO ALGORÍTMICO  
Pela semelhança entre as palavras, o termo “imaginário” pode ser facilmente  
associado a imagens ou à imaginação, sendo frequentemente relacionado apenas ao  
místico e ao fantasioso. Conforme Maffesoli (da Silva, 2001), ele é imagético, mas não  
são as imagens que constroem o imaginário; ao contrário, é a presença do imaginário  
que define a construção das imagens e sustenta sua contínua produção. No entanto, o  
conceito de imaginário vai além das produções imagéticas, referindo-se também às suas  
propriedades e aos seus efeitos (Wunenburger, 2007). Maffesoli (da Silva, 2001) afirma  
que o imaginário apresenta parâmetros oníricos, lúdicos, afetivos e não-racionais, além  
da fantasia, do imaginativo, dos sonhos e outras construções mentais, sociais e culturais.  
Para além disso, ainda conforme o autor, o imaginário é um campo onde signos e  
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representações simbólicas se entrelaçam, moldam o ser humano tanto como indivíduo  
quanto em sociedade. Ele sustenta imagens, crenças e conceitos compartilhados por  
uma cultura ou sociedade, constituindo um espaço simbólico onde desejos e tensões  
culturais, políticas e sociais se projetam.  
Assim, o imaginário atua como mediador entre o que vemos e o que sentimos,  
entre o eu e o mundo, o eu e o outro. Ele nos oferece uma espécie de mapa de signos,  
um repertório de imagens, crenças e narrativas que nos permite interpretar a vida,  
atribuir sentido ao mundo. Wunenburger (2007) destaca que as imagens participam de  
estruturas simbólicas e de processos de produção de sentidos. Dessa forma, o  
imaginário não permanece estático: seus elementos circulam, são repetidos,  
transformados e reorganizados em diferentes contextos sociais, históricos e culturais.  
Nesse processo, estereótipos e preconceitos também estão relacionados ao imaginário,  
refletindo valores e perspectivas coletivas.  
No caso da Amazônia, o imaginário é atravessado por representações  
historicamente construídas, por diferentes formas de significar a região. Castro (2011)  
discute a constituição não fixa de uma “identidade” amazônica, como uma construção  
social que se estabelece por processos de subjetivação e intersubjetividade. Nesse  
processo, experiências e saberes compartilhados formam estoques de conhecimentos a  
partir dos quais determinadas formas de compreender e representar a Amazônia são  
construídas, socializadas e reelaboradas ao longo do tempo. O autor também identifica  
uma tensão entre mito e fronteira, relacionando essas construções tanto às experiências  
históricas da região quanto às transformações mais recentes do espaço amazônico. Essa  
perspectiva permite compreender a Amazônia não apenas enquanto território  
geográfico, mas também como construção simbólica, continuamente produzida e  
transformada pelas narrativas e representações que circulam socialmente.  
Amaral Filho (2016) traz a ideia de Marca Amazônia como uma promessa  
publicitária cuja essência está na relação entre a Amazônia real e uma Amazônia  
simbólica. Ela reflete um imaginário que destaca o natural, a pureza e a originalidade do  
território, a plenitude da natureza e a sustentabilidade. O autor demonstra que as  
imagens conceituais dessa marca destacam a floresta, as águas, o clima e os povos  
originários. Essas imagens são construídas a partir da utilização de diversos elementos,  
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como os rios, a chuva, a fauna e a flora, os ritos e as manifestações culturais, trazendo a  
ideia de riqueza, cultura exótica, mata virgem e diversidade, entre outras.  
Outros elementos também participam dessa construção, como a madeira, os  
peixes, os lugares turísticos, o artesanato indígena, os barcos e as cidades. São signos  
diferentes entre si, mas que, quando selecionados e organizados em uma  
representação, produzem sentidos associados àquilo que já circula no imaginário sobre  
a Amazônia. Podemos entender, então, que a paisagem ocupa uma posição importante  
na construção dessa Amazônia simbólica discutida por Amaral Filho (2016). O conjunto  
desses signos, que pela circulação e repetição em diferentes representações passam a  
ser associados à região, constitui o que podemos compreender como um repertório  
sígnico da Marca Amazônia, oferecendo elementos para que uma determinada imagem  
possa ser reconhecida como amazônica.  
A existência desse repertório não significa, entretanto, que exista uma única  
forma de representar a Amazônia ou que esses signos apresentem sempre os mesmos  
sentidos. Florestas, rios, barcos, animais ou povos originários podem produzir diferentes  
significações dependendo das relações estabelecidas dentro de uma imagem e do  
contexto em que aparecem. O que nos interessa é perceber a recorrência de  
determinadas escolhas e a capacidade que esses elementos adquiriram de remeter à  
região. Quando alguns signos são constantemente utilizados para representar a  
Amazônia, passam a ocupar uma posição privilegiada nesse repertório, contribuindo  
para manter e atualizar formas já estabelecidas de imaginá-la.  
Representar implica selecionar, enquadrar e tornar visíveis determinados  
elementos em detrimento de outros. A Amazônia que circula por essas imagens é, na  
verdade, uma Amazônia mediada, construída a partir de escolhas que interferem na  
maneira como a região passa a ser percebida e reconhecida. As ausências produzidas  
nesse processo também evidenciam a exclusão de outros aspectos da realidade da  
região. A complexidade das cidades, as experiências cotidianas, as tecnologias, as  
transformações sociais e as múltiplas formas de existência presentes no território  
disputam espaço com uma representação fortemente vinculada à floresta e à natureza.  
Dessa forma, a construção simbólica da região não ocorre apenas por aquilo que é  
mostrado, mas também por aquilo que permanece fora dessas representações.  
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Essa discussão ganha uma nova dimensão quando pensamos nas representações  
criadas pela IAG. Como demonstrado em estudo anterior (Prado; Santos, 2024), diante  
de comandos pouco direcionados, esses sistemas podem mobilizar representações  
recorrentes e oferecer imagens limitadas da Amazônia, contribuindo para a  
continuidade de associações e estereótipos já existentes.  
Se esses repertórios são construídos e colocados em circulação por livros,  
fotografias, filmes, publicidade, jornalismo e diferentes produções culturais, a  
Inteligência Artificial Generativa passa a integrar esse processo como uma nova forma  
de produção de imagens. Isso não significa que a máquina simplesmente reproduza  
aquilo que já existe, uma vez que também reorganiza elementos e produz novas  
composições. Entretanto, permite questionar em que medida os signos selecionados  
para representar a Amazônia carregam marcas de um imaginário cultural anterior.  
Temos, assim, a passagem de um repertório culturalmente construído para sua  
reorganização por sistemas generativos.  
A relação entre técnica e produção de imagens pode ser pensada a partir de  
Flusser (2008) e de sua discussão sobre as imagens técnicas. Para o autor, essas imagens  
são produzidas por aparelhos, cujo funcionamento é orientado por programas. Embora  
Flusser não tenha tratado das atuais tecnologias de Inteligência Artificial Generativa, seu  
conceito de tecno-imagem oferece possibilidades para pensar essas novas formas de  
produção imagética.  
A imagem tradicional é produzida por gesto que abstrai a profundidade da  
circunstância, isto é, por gesto que vai do concreto rumo ao abstrato. A tecno-  
imagem é produzida por gesto que reagrupa pontos para formarem  
superfícies, isto é, por gesto que vai do abstrato rumo ao concreto. Como o  
gesto produtor confere significado à imagem, o modelo sugere que o  
significado das imagens tradicionais é o oposto do significado das tecno-  
imagens. (Flusser; Bernardo, 2008, p.22).  
Assim, as imagens geradas por IA também são produzidas por meio de aparelhos,  
programas e operações técnicas que não são totalmente visíveis ao usuário. Entre aquilo  
que é solicitado por meio do prompt e a imagem apresentada existe um sistema que  
processa relações aprendidas durante o treinamento e produz uma resposta visual a  
partir delas.  
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Dessa forma, a IAG não pode ser considerada uma ferramenta completamente  
neutra (Declos, 2026), uma vez que seu processo de criação de imagens é atravessado  
por relações semióticas aprendidas em seu treinamento que podem replicar o  
imaginário coletivo. Essa característica pode ser vista quando determinadas associações  
são privilegiadas em detrimento de outras, mesmo quando não foram explicitamente  
solicitadas pelo usuário. Nesse contexto, a semiótica oferece uma lente teórica útil para  
analisar os signos mobilizados nessas imagens e os sentidos produzidos a partir das  
relações estabelecidas entre eles.  
A partir da relação entre processos técnicos da máquina e os repertórios  
culturais já discutidos anteriormente, podemos pensar na possibilidade de uma  
automatização do imaginário. A automatização do imaginário não se refere à existência  
de um imaginário próprio da máquina nos mesmos termos em que utilizamos o conceito  
de imaginário para pensar as experiências humanas e sociais. Ao contrário, busca  
chamar a atenção para o processo pelo qual repertórios simbólicos culturalmente  
construídos passam a participar de uma produção automatizada de novas imagens. A  
máquina reorganiza signos e produz novas combinações, mas realiza essas operações a  
partir de relações aprendidas sobre um mundo que já foi anteriormente representado.  
Nesse sentido, o imaginário algorítmico se apresenta aqui não como um  
imaginário independente da cultura, mas como uma produção que surge da relação  
entre os repertórios culturais e os processos técnicos dos sistemas generativos. Aquilo  
que a máquina apresenta como imagem da Amazônia pode, assim, ser observado como  
uma materialização visual desse imaginário algorítmico.  
Essa perspectiva também desloca a discussão sobre os estereótipos presentes  
nas imagens geradas por IA. Se imagens produzidas por diferentes sistemas recorrem à  
floresta, aos rios, aos animais ou aos povos indígenas para representar a Amazônia, não  
basta considerar essas escolhas apenas como limitações próprias das tecnologias. É  
necessário observar que esses mesmos elementos possuem uma história anterior de  
circulação e já participavam das representações da região muito antes do surgimento  
dos modelos generativos. A Inteligência Artificial pode, portanto, não criar esses  
repertórios, mas contribuir para sua repetição, reorganização e nova circulação.  
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3 METODOLOGIA  
Essa pesquisa consiste em um estudo de caso, com caráter exploratório e  
método qualitativo de análise. Para investigar situações complexas, como a que  
propomos neste artigo, o estudo de caso é considerado uma abordagem adequada, pois  
se trata de um “estudo profundo e exaustivo de um ou poucos objetos, de maneira que  
permita seu amplo e detalhado conhecimento, tarefa praticamente impossível  
mediante outros delineamentos já considerados” (Gil, 2007, p. 54).  
As pesquisas exploratórias, conforme Gil (2007), desenvolvem ideias, esclarecem  
e modificam conceitos e podem gerar problemas para estudos futuros. Assim,  
considerando a proposta de investigar certos aspectos da IA, entendemos que essas  
reflexões podem se desdobrar em diversos estudos posteriores, visto que os avanços  
frequentes desta tecnologia e o surgimento de novas aplicações podem modificar os  
resultados obtidos e levantar novas questões, mesmo quando procedimentos  
semelhantes são utilizados.  
Já o método qualitativo nos permite compreender como e por que determinado  
fenômeno acontece, utilizando diferentes técnicas interpretativas, decodificando e  
descrevendo componentes complexos (Neves, 1996). Para este trabalho, utilizamos a  
Semiótica como lente teórica para analisar os signos presentes nas imagens resultantes  
do experimento. A partir de Peirce (2005) e Santaella (1983), concentramos a análise na  
relação do signo com o seu objeto, especialmente nas relações de semelhança e  
convenção, observadas nos ícones e símbolos. Quanto aos índices, essa relação se torna  
mais complexa nas imagens analisadas, uma vez que elas são produzidas sinteticamente  
e não resultam, necessariamente, de uma conexão física entre aquilo que é  
representado e um referente no mundo. Embora possam existir relações indiciais nessas  
imagens, optamos por não concentrar a análise nessa categoria.  
Consideramos, também, os sentidos que podem ser produzidos a partir dessas  
relações, compreendendo o interpretante como parte do processo de significação  
estabelecido pelo signo. Dessa forma, não buscamos utilizar todas as classificações  
propostas por Peirce, mas aquelas que contribuem para compreender como os  
elementos presentes nas imagens participam da construção de sentidos sobre a  
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Amazônia. A análise considera não apenas aquilo que aparece nas imagens, mas  
também as recorrências e ausências identificadas no conjunto analisado.  
Em um segundo momento, os signos identificados foram colocados em diálogo  
com o repertório sígnico da Marca Amazônia discutido anteriormente a partir de Amaral  
Filho (2016). Buscamos observar aproximações entre os elementos mobilizados pelos  
sistemas generativos e aqueles historicamente associados às representações da região.  
Essa aproximação permite analisar possíveis continuidades entre as representações  
produzidas pelas ferramentas e repertórios simbólicos que já circulam culturalmente  
sobre a Amazônia.  
Em relação ao experimento realizado em 2024 (Prado; Santos, 2024), a proposta  
deste estudo é ampliar a observação do fenômeno para além dos resultados de um  
único sistema generativo. O experimento foi realizado em 02 de maio de 2025 e utilizou  
três ferramentas de Inteligência Artificial Generativa de imagens: o DALL-E 3, o  
Midjourney e o Leonardo.Ai. As três ferramentas possuem ampla utilização e  
apresentam modelos e formas de funcionamento distintas. A utilização de diferentes  
plataformas permite, assim, observar aproximações e diferenças nas construções  
visuais, ainda que realizadas a partir de um mesmo comando, sobretudo no que diz  
respeito aos signos mobilizados para representar a Amazônia.  
Utilizamos o mesmo prompt, em língua portuguesa, nos três sistemas: Crie uma  
imagem que represente a Amazônia. O DALL-E 3 foi acessado por meio do ChatGPT,  
enquanto o Midjourney e o Leonardo.Ai foram acessados diretamente por suas  
interfaces web. Para evitar qualquer direcionamento quanto aos elementos presentes  
nas imagens, optamos por um comando simples, abrangente e não especializado, sem  
indicar características visuais, estilos, lugares ou outros elementos da composição.  
Também não realizamos qualquer tipo de personalização ou pré-treinamento específico  
dos sistemas. Além do prompt, não foram definidos pelos pesquisadores parâmetros  
específicos para a geração das imagens, como proporção (aspect ratio), seed ou estilo,  
sendo mantidas as configurações apresentadas pelas ferramentas no momento do  
experimento. Dessa forma, foram utilizadas as condições identificáveis como “padrão”  
de cada sistema, incluindo eventuais recursos automáticos, que estão descritos no  
corpo da análise. Buscamos, assim, observar quais signos seriam mobilizados pelas  
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ferramentas para construir uma visualidade que pudesse ser reconhecida como  
Amazônia, sem intervenções dos autores deste estudo.  
Foram geradas, com o mesmo prompt, nove imagens, sendo uma do DALL-E 3,  
quatro do Midjourney e quatro do Leonardo.Ai. Como os dois últimos sistemas geraram  
automaticamente quatro resultados para a mesma solicitação, enquanto o DALL-E 3  
apresentou apenas uma imagem, optamos por analisar uma imagem de cada sistema,  
sem realizar novas rodadas de geração para ampliar os resultados do DALL-E 3. Para o  
Midjourney e o Leonardo.Ai, adotamos como critério de seleção a ordem de  
apresentação dos resultados, escolhendo a primeira imagem apresentada por cada  
ferramenta. Dessa forma, o corpus final para análise foi constituído por três imagens.  
Considerando o caráter exploratório deste estudo, o corpus reduzido não  
permite estabelecer tendências gerais sobre as formas como esses sistemas  
representam a Amazônia. Os resultados se referem, portanto, às imagens produzidas  
neste experimento e permitem observar aproximações e diferenças entre elas, sem que  
sejam compreendidas como representativas de todas as produções possíveis das  
ferramentas. Além disso, o experimento foi realizado em uma única rodada de geração,  
o que também delimita os resultados às condições específicas em que as imagens  
analisadas foram produzidas.  
Delimitamos que o objetivo não é comparar o desempenho das ferramentas,  
tampouco descobrir qual IA “representa melhor” a Amazônia, mas verificar se sistemas  
distintos utilizam repertórios simbólicos semelhantes ao produzir imagens sobre a  
região. Buscamos compreender quais signos são mobilizados nessas representações,  
quais sentidos podem ser produzidos a partir das relações estabelecidas entre eles e em  
que medida podem refletir ou distorcer a realidade, além de contribuir para a  
permanência, reorganização ou atualização de representações já presentes no  
imaginário sobre a região.  
4 ANÁLISE DOS RESULTADOS  
Partindo para a análise das imagens, observamos os elementos que as compõem  
não apenas por aquilo que representam visualmente, mas também pelas relações e  
sentidos que podem produzir quando organizados em uma determinada composição.  
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Florestas, rios, embarcações, animais e povos originários, por exemplo, podem  
estabelecer relações icônicas com aquilo que representam e, ao mesmo tempo, adquirir  
sentidos simbólicos pela maneira como são historicamente associados à Amazônia. É a  
partir dessas relações que buscamos compreender como cada sistema construiu uma  
imagem visualmente tida como reconhecível da região.  
As tendências estéticas dos geradores de imagem já são objeto de estudos em  
diversas áreas. Declos (2026) publicou os resultados dos seus experimentos com  
diferentes tipos de IA generativas de imagem e compreende “o viés algorítmico como  
uma tendência persistente, cega e estruturalmente incorporada a um sistema”, que  
favorece  
determinados  
tipos  
de  
resultados  
em  
detrimento  
de  
outros,  
independentemente de instruções explícitas no prompt (Declos, 2026, p.2, tradução  
nossa).  
O Midjourney é um sistema de IA voltado para a produção de imagens a partir  
de prompts fornecidos pelo usuário (Midjourney, 2025). O sistema foi treinado para  
estabelecer relações entre características visuais e descrições textuais, mas o resultado  
não corresponde necessariamente a uma tradução literal do prompt. A versão utilizada  
na data desse experimento foi a V6.1, versão padrão da época. Entre os parâmetros  
disponibilizados pela ferramenta está o Stylize, que controla quanto da estética do  
Midjourney será aplicada à imagem produzida. Segundo a documentação oficial, a  
característica “artistic flair” consiste em maior literalidade ao prompt quando o Stylize  
opera em níveis mais baixos, e maior “liberdade criativa” para a máquina quando o  
parâmetro está configurado para níveis mais altos (Midjourney, 2026).  
Essas tendências são especialmente relevantes para este experimento, uma vez  
que o comando utilizado não estabeleceu qualquer orientação estética, deixando aos  
próprios sistemas a definição de aspectos relacionados à composição, estilo, iluminação  
e tratamento visual das imagens.  
Para Declos (2026), os resultados do Midjourney demonstraram uma estética  
próxima à de uma fotografia altamente tratada ou imagens produzidas para chamar a  
atenção visualmente. Em nosso experimento, o resultado não foi muito diferente. A  
imagem criada por esse modelo (Figura 1) se destaca pela sua plasticidade. Apresenta  
uma Amazônia silenciosa, pouco ocupada e praticamente intocada, uma paisagem de  
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contemplação. A canoa ocupa uma posição de destaque e sugere uma relação entre  
homem e natureza, além de estar associada a modos de vida historicamente  
relacionados à região. O pôr do sol refletido nas águas cercadas pela floresta traz a hora  
mágica para a cena, evocando sentidos já associados à Amazônia, como encanto,  
mistério e paraíso escondido. A ausência de construções ou de outros sinais de  
ocupação humana, somada à presença de uma única canoa cercada pela floresta,  
reforça uma ideia de isolamento. A Amazônia apresentada pelo Midjourney parece  
distante da experiência urbana e cotidiana, aproximando-se de uma representação da  
região como um lugar preservado, escondido e de difícil acesso.  
Figura 1 – Imagem produzida pelo Midjourney  
Fonte: Midjourney (2025).  
Alguns dos elementos presentes na imagem também se aproximam do  
repertório sígnico da Marca Amazônia discutido por Amaral Filho (2016). A floresta, as  
águas e o barco aparecem entre os elementos utilizados historicamente na construção  
de uma visualidade associada à região. Mais do que a presença isolada desses signos,  
interessa observar a maneira como são organizados na imagem: a floresta ocupa  
praticamente todo o espaço, enquanto a presença humana aparece de forma reduzida  
e integrada à paisagem natural.  
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Outras características discutidas por Declos (2026) estão relacionadas ao viés de  
beleza (beauty bias) e ao viés de espetáculo (spectacle bias), que correspondem às  
tendências dos sistemas de estetizar e espetacularizar o mundo. É possível perceber  
essas características na imagem gerada pelo DALL-E 3 (Figura 2). Desenvolvido pela  
OpenAI, o DALL-E 3 é um modelo de geração de imagens que buscou aprimorar a relação  
entre as descrições textuais e os elementos apresentados visualmente. Com um  
treinamento que também valorizava o texto e as descrições detalhadas das imagens, a  
ferramenta busca compreender e representar conceitos diferentes presentes no prompt  
(OpenAI, 2023).  
Além da relação entre texto e imagem, o DALL-E 3 disponibiliza dois estilos: o  
Natural, voltado à produção de resultados mais naturais; e o Vivid, que já vem como  
padrão da ferramenta e favorece imagens mais dramáticas e hiper-realistas (OpenAI,  
2023). Diferentemente da imagem silenciosa e contemplativa produzida pelo  
Midjourney, a imagem produzida pelo DALL-E 3 demonstra essa espetacularização e,  
talvez, a característica do seu treinamento de valorização do texto, pois parece uma  
tentativa de colocar em uma única imagem tudo o que se pensa ser a Amazônia, um  
excesso de elementos, como uma síntese visual da região.  
Figura 2 – Imagem produzida pelo modelo DALL-E 3 da OpenAI  
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Fonte: DALL-E 3 (2025).  
Nesse sentido, a imagem também mobiliza signos associados à Marca Amazônia  
(Amaral Filho, 2016). Diferentemente da representação anterior, porém, a composição  
acumula diferentes signos desse repertório e os apresenta simultaneamente. Há a  
presença da fauna e da flora, dos rios, das pessoas, das cidades e da aldeia, dos barcos,  
dos povos originários e do artesanato indígena em destaque. A presença da cidade  
amplia a representação em relação à imagem produzida pelo Midjourney, mas não  
rompe com a centralidade da natureza. A floresta ainda é um elemento dominante da  
composição e é encontrada em todos os ambientes e modos de vida representados, da  
cidade à aldeia. As embarcações navegam em direção ao sol dourado, que aparece  
novamente no experimento. A organização desses signos reforça sentidos relacionados  
à sustentabilidade, grandiosidade, riqueza e abundância da região.  
O viés de ordem e organização (symmetry/order bias) é mais uma característica  
que Declos (2026) atribui às imagens criadas por IA e consiste na tendência a produzir  
cenas organizadas, enquadramento equilibrado, sujeitos bem-posicionados e pouca  
presença das desordens comuns à vida cotidiana. Essas características podem aparecer  
ainda que não solicitadas no prompt e resultam em uma espécie de “perfeição visual”,  
conferindo certa artificialidade às imagens.  
É possível verificar, além dos outros vieses, essa característica na terceira  
imagem do experimento. Ela foi produzida pelo Leonardo.Ai, uma plataforma que reúne  
diversos modelos de Inteligência Artificial Generativa e permite a produção e a edição  
de imagens a partir de prompts, além de disponibilizar configurações diferentes que  
interferem no resultado da imagem. O Leonardo.Ai oferece estilos predefinidos, como  
Cinematic, Creative, Film e HDR, e recurso de aprimoramento de prompt (Leonardo.Ai,  
2026).  
O modelo padrão disponibilizado na interface inicial do Leonardo.Ai na época do  
experimento é chamado de Phoenix. Conforme Ethan Smith, integrante da equipe do  
Leonardo.Ai, o desenvolvimento da ferramenta não foi pensado apenas para  
desempenho técnico, mas houve grande preocupação em elevar a qualidade estética  
(Leonardo.Ai, 2026). O Phoenix possui padrões definidos, como o aprimoramento de  
prompt (Prompt Enhance), que modifica o prompt original inserido pelo usuário,  
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podendo ampliá-lo ou refiná-lo; o modo rápido de geração e o estilo dinâmico, que  
permite que a ferramenta escolha o estilo que direciona a estética da imagem a ser  
produzida, todos ligados automaticamente (Leonardo.Ai, 2026).  
No nosso experimento, a Amazônia representada pelo Leonardo.Ai (Figura 3)  
difere daquelas produzidas pelo Midjourney e pelo DALL-E 3. Apesar da presença da  
natureza, ela divide o centro da representação com pessoas, construções,  
estabelecimentos, mesas nas calçadas e uma embarcação maior, semelhante a um  
cruzeiro, trazendo uma dimensão turística, de paraíso tropical à imagem. Entretanto, é  
uma cena fortemente estetizada, com o céu limpo, fachadas impecáveis e pessoas que  
parecem circular de forma organizada. Apresenta, então, uma Amazônia idealizada,  
harmoniosa, pronta para o consumo, na qual signos associados à Marca Amazônia  
(Amaral Filho, 2016) são mobilizados para tornar a região identificável.  
Figura 3 – Imagem produzida pelo modelo Phoenix do Leonardo.Ai  
Fonte: Leonardo.Ai (2025).  
As três imagens apresentam resultados visualmente distintos, mas percebemos  
associações semelhantes para a construção de uma imagem reconhecível da Amazônia.  
Floresta, água, embarcações e vegetação aparecem novamente como elementos  
importantes nas três imagens. Em algumas, são acrescentados outros signos igualmente  
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recorrentes no imaginário sobre a região, como povos indígenas, animais e a ideia de  
exuberância natural. Apesar das diferenças estéticas e de composição, as três imagens  
são atravessadas por um repertório sígnico identificado por Amaral Filho (2016). O autor  
chama esses elementos de “conceituais”, afirmando que a sua predominância nas  
representações visuais da Amazônia, ainda que não apenas as produzidas por IA,  
simplifica a imagem da região, reduzindo-a à ideia de floresta.  
A partir da perspectiva peirceana, esses elementos podem ser compreendidos  
pelas relações que estabelecem com aquilo que representam. Neste caso, a floresta, os  
rios, os animais e as embarcações mantêm uma relação icônica com seus objetos pela  
semelhança visual, o que permite que sejam reconhecidos nas imagens. Entretanto,  
quando esses elementos são mobilizados como representação da Amazônia, também  
assumem uma dimensão simbólica, construída pelas associações estabelecidas e  
compartilhadas socialmente ao longo do tempo. Nesse processo, torna-se importante  
considerar o interpretante, compreendido não como aquele que observa a imagem, mas  
como o efeito de sentido produzido na relação entre signo e objeto (Peirce, 2005).  
Assim, pensar semioticamente sobre essas imagens não se limita a identificar  
visualmente os elementos, mas também a compreender como esses signos, quando  
associados à Amazônia, podem produzir sentidos relacionados à natureza, ao  
isolamento, à abundância ou ao paraíso tropical.  
A recorrência de signos, portanto, não significa que eles produzam o mesmo  
sentido nas três imagens. A floresta e a água aparecem como elementos importantes  
nas representações, mas participam de construções distintas quando articuladas aos  
demais signos de cada composição. No Midjourney, essa organização contribui para a  
compreensão de uma Amazônia silenciosa, contemplativa e pouco ocupada; no DALL-E  
3, para uma representação espetacularizada e exuberante; e, no Leonardo.Ai, para uma  
Amazônia organizada e turística. Observamos, assim, para além da repetição dos signos,  
como as relações estabelecidas entre eles modificam os sentidos produzidos em cada  
representação. Dessa forma, a representação algorítmica não parece surgir como um  
imaginário completamente novo, separado das formas anteriores de imaginar e  
representar a Amazônia.  
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Se determinados signos possuem maior capacidade de fazer com que uma  
imagem seja reconhecida como amazônica, outros parecem ter menos espaço nessa  
construção. As ausências nas imagens também produzem sentido e evidenciam  
discursos excludentes sobre a região amazônica. Aquilo que permanece fora da imagem  
participa da construção daquilo que é apresentado.  
Essa percepção pode dificultar a compreensão da complexidade ecológica e  
das questões socioambientais da Amazônia, ao passo que oculta as outras  
Amazônias que existem para além da floresta, obscurecendo a realidade das  
comunidades locais e invisibilizando suas lutas, por exemplo (Prado; Santos,  
2024, p. 16).  
Apesar de o DALL-E 3 e o Leonardo.Ai apresentarem construções,  
estabelecimentos e uma presença humana mais evidente, o urbano não aparece  
desvinculado dos elementos tradicionalmente associados à Amazônia. A vida cotidiana  
nas cidades, as periferias, as universidades, as indústrias, as tecnologias, o trânsito e  
diferentes formas de se locomover, os diversos trabalhos e sociabilidades próprias da  
região são outras dimensões da experiência amazônica que não aparecem nas imagens  
analisadas. Essas ausências mostram que, diante de um prompt aberto, esses elementos  
não foram mobilizados para tornar a Amazônia visualmente reconhecível.  
Relembramos, aqui, a proposta de Castro (2011) sobre a tensão entre mito e fronteira.  
No corpus analisado, embora diferentes transformações façam parte da experiência  
amazônica contemporânea, as representações da região permanecem mais fortemente  
associadas aos signos da natureza e a outros elementos historicamente sedimentados  
para torná-la reconhecível.  
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
O experimento realizado permitiu observar que, com um prompt simples e  
abrangente, nas três imagens foram mobilizados signos associados ao imaginário  
coletivo a respeito da Amazônia. Apesar das diferenças entre as imagens criadas por  
cada modelo, a representação desse imaginário revela a repetição de elementos que,  
muitas vezes, também são mobilizados na construção de estereótipos, mitos e  
preconceitos a respeito da Amazônia. A análise semiótica das imagens pode apontar  
para a possibilidade de certa limitação da máquina ao representar a região amazônica  
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nas condições desta pesquisa. No entanto, seriam necessários estudos mais  
aprofundados com maior diversidade de imagens geradas em várias rodadas de  
solicitações. Mesmo assim, refletir sobre essa possível limitação reforça a importância  
de se pensar criticamente sobre as tecnologias de IA e a maneira como elas são treinadas  
e utilizadas para gerar imagens, pois podem contribuir para a circulação de  
compreensões superficiais e até distorcidas das realidades da Amazônia.  
Os elementos mobilizados pelas ferramentas fazem parte de repertórios  
simbólicos anteriores e apresentam aproximações com a Marca Amazônia. A partir  
dessas aproximações, entendemos a automatização do imaginário como o processo  
pelo qual repertórios simbólicos culturais são automatizados para a produção de novas  
imagens. Assim, compreendemos, ainda, os imaginários algorítmicos como aqueles que  
surgem da relação desses repertórios culturais com processos técnicos dos sistemas de  
Inteligência Artificial Generativa.  
Assim, esse experimento não se limita à compreensão da tecnologia ou aos seus  
modos de funcionamento, mas provoca a reflexão sobre as formas pelas quais a  
Amazônia vem sendo imaginada e representada. Se a máquina aprende a partir das  
produções humanas, aquilo que representa a Amazônia revela a força que nós,  
enquanto sociedade, atribuímos a determinados signos à medida que os repetimos e os  
fazemos circular. Pensar criticamente essas representações propõe um questionamento  
não apenas sobre aquilo que as máquinas produzem, mas também sobre o que nós  
temos produzido.  
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CRV, 2016.  
DECLOS, Alexandre. AI and Aesthetic Bias. The Journal of Aesthetics & Art Criticism.  
CASTRO, Fábio Fonseca de. Entre o mito e a fronteira: estudo sobre a figuração da  
Amazônia na produção artística contemporânea de Belém. Belém: Biblioteca  
Horaciana, 2011.  
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DA SILVA, Juremir Machado. Entrevista O imaginário é uma realidade. Revista  
FAMECOS, n. 15, 20 mar. 2001. Disponível em:  
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FLUSSER, Vilém; BERNARDO, Gustavo. O universo das imagens técnicas. São Paulo,  
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LEONARDO.AI. Phoenix. [S.l.], 2026. Disponível em:  
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PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 2005.  
PRADO, Kleyse Costa Vaz Santana; SANTOS, Luiz Cezar da Silva. Decifrando (?) a  
Amazônia por meio das lentes da Inteligência Artificial. Asas da Palavra, Belém, n. 21,  
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Algorítmicos da Amazônia: uma análise semiótica de representações geradas por  
Inteligência Artificial. In: INTERCOM NORTE, n. 22, 2025, Roraima. Anais do 22º  
Congresso de Ciências da Comunicação na Região Norte. Disponível em:  
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SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1983.  
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WUNENBURGER, Jean Jacques. O imaginário. São Paulo: Edições Loyola, 2007.  
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ISSN 2179-9938  
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SOBRE O(A) AUTOR(A)  
Kleyse Costa Vaz Santana Prado  
Doutoranda em Comunicação, Cultura e Amazônia pelo PPGCOM/UFPA, desenvolve pesquisas sobre  
Inteligência Artificial Generativa, publicidade, semiótica e comunicação digital, com foco nas  
transformações sociotécnicas da publicidade contemporânea e na circulação de imagens produzidas por  
algoritmos. Especialista em Jornalismo de Dados, Inteligência Artificial e Pesquisa Netnográfica - UFPA.  
Integra o Grupo de Pesquisa em Propaganda e Publicidade (GRUPPU/UFPA), atuando em estudos sobre  
representações sociotécnicas, imaginários digitais, análise do discurso, semiótica e métodos digitais  
aplicados à comunicação. Desenvolve pesquisas com modelagem temática, análise de sentimentos e  
metodologias computacionais aplicadas à comunicação.  
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6484523026370273  
Luiz Cezar Silva dos Santos  
Pós-Doutor em Comunicação e Consumo pelo PPGCOM/ECA/USP. Professor do curso de Publicidade e  
Propaganda - Facom/ILC/UFPA e Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação,  
Cultura e Amazônia - PPGCOM/ILC/UFPA. Líder do Grupo de Pesquisa em Propaganda e Publicidade -  
Gruppu. Diretor Norte da Associação Brasileira de Pesquisadores em Publicidade - ABP2. Vice  
Coordenador da Rede de Pesquisadores em Comunicação e Semiótica da Amazônia - Ranauá, de  
2025/2027. Membro do Núcleo de Pesquisa Semiótica da Amazônia (nups). Coordenador Nacional do GP  
de Publicidade e Propaganda - 2025/2027 da INTERCOM. Vice Coordenador do PPGCOM/UFPA no biênio  
2025-2026.  
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2449524316115443  
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0614-3857  
COMO CITAR ESTE ARTIGO  
PRADO, Kleyse Costa Vaz Santana; SANTOS, Luiz Cezar Silva dos. Imaginário amazônico automatizado:  
signos e representações em imagens geradas por Inteligência Artificial. Passagens: Revista do Programa  
de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, v. 17, n. especial, p.  
e97668 , 2026.  
RECEBIDO EM: 31/08/2026  
ACEITO EM: 16/09/2026  
PUBLICADO EM: 25/09/2026  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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DRAGS DA AMAZÔNIA:  
ESTÉTICA POVERA E NATUREZA COMO LINGUAGEM VISUAL  
AMAZONIAN DRAG QUEENS:  
POVERA AESTHETICS AND NATURE AS A VISUAL LANGUAGE  
DRAGS DE LA AMAZONÍA:  
ESTÉTICA POVERA Y NATURALEZA COMO LENGUAJE  
VISUAL  
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Maximiliano Zapata  
Universidade Federal do Ceará  
Fábio Pezzi Parode  
Universidade Federal do Ceará | Universidade Federal do Pará  
Resumo: A partir de uma proposta interdisciplinar, partindo da comunicação, filosofia e estudos de  
gênero, este ensaio busca compreender o fenômeno drag no contexto amazônico, tendo como foco  
a imagem midiatizada da cultura drag e seus processos de subjetivação. Como problema de fundo,  
questiona-se a cultura queer local enquanto meio e agente simbólico integrativo de processos de  
resistência e construção de uma imagem da Amazônia para o mundo. O método de análise proposto  
estrutura-se no regime ontológico e sígnico da imagem, definindo-se no escopo da filosofia da  
diferença de Deleuze e Guattari e na semiótica da cultura de Iuri Lotman.  
Palavras-chave: Uýra Sodoma; imagem; comunicação; filosofia da diferença; semiótica da cultura  
Abstract: Drawing on an interdisciplinary approach that bridges communication, philosophy, and  
gender studies, this essay seeks to understand the drag phenomenon within the Amazonian context,  
focusing on the mediatized image of drag culture and its processes of subjectivation. As an underlying  
problem, it questions local queer culture as a medium and integrative symbolic agent in processes  
of resistance and the construction of an image of the Amazon for the world. The proposed analytical  
method is structured around the ontological and semiotic regime of the image, framing itself within  
the scope of Deleuze and Guattari's philosophy of difference and Yuri Lotman's semiotics of culture.  
Keywords: Uýra Sodoma; image; communication; philosophy of difference; semiotics of culture  
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Resumen: A partir de una propuesta interdisciplinaria, partiendo de la comunicación, la filosofía y  
los estudios de género, este ensayo busca comprender el fenómeno drag en el contexto amazónico,  
centrándose en la imagen mediatizada de la cultura drag y sus procesos de subjetivación. Como  
problema de fondo, se cuestiona la cultura queer local como medio y agente simbólico integrador  
de procesos de resistencia y de construcción de una imagen de la Amazonía para el mundo. El  
método de análisis propuesto se estructura en el régimen ontológico y sígnico de la imagen,  
definiéndose en el marco de la filosofía de la diferencia de Deleuze y Guattari y en la semiótica de la  
cultura de Iuri Lotman.  
Palabras clave: Uýra Sodoma; imagen; comunicación; filosofía de la diferencia; semiótica de la  
cultura.  
1 INTRODUÇÃO  
A proposta deste ensaio é refletir sobre a cultura queer da região amazônica,  
focando na expressão drag como meio articulador entre a arte, a política e o discurso  
sobre gênero. Refletir sobre a cultura queer, em particular, sobre as drags da Amazônia  
brasileira, nos remete a um contexto social, econômico e ambiental complexo,  
divergente e politizado. Este ensaio é resultado de pesquisa de natureza qualitativa  
realizada em nível de doutoramento no campo da comunicação, cuja problemática de  
fundo é a transgeneridade e suas formas expressivas, o que inclui, a expressão drag.  
Assim, de forma interdisciplinar, busca-se aproximar conceitos da arte, da filosofia, da  
comunicação e também dos estudos de gênero. Da filosofia, interessa-nos  
particularmente a dimensão ontológica do ser drag enquanto expressão artística e de  
gênero carregada de simbologias e semioses complexas, remetendo a camadas mais  
profundas e ancestrais da Amazônia brasileira; busca-se, sobretudo, compreender os  
mecanismos que articulam a expressão visível através da linguagem artística e a  
subjetividade em devir através de uma dialética que remete ao corpo e sua capacidade  
afirmativa socialmente.  
Da arte e da comunicação, interessa-nos o processo de  
simbolização e construção imagética do sujeito drag enquanto projeto visual e de  
resistência política, manifestação de singularidades que, no horizonte comunicacional e  
coletivo, configura-se como movimento, como fluxo comunicacional e cultural,  
agenciando processos de transformação das estruturas sociais; dos estudos de gênero,  
interessa-nos a expressão drag como subjetivação e produção de diferença a partir de  
um determinado contexto, no caso, o contexto da Amazônia brasileira. Conforme Lima  
e Santos  
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A Amazônia brasileira abrange cerca de 60% do território nacional, com  
4.200.000km², e é considerada a maior floresta tropical do mundo. Ela é o lar  
de povos indígenas que dependem da floresta para sua subsistência,  
sobrevivência cultural e manutenção do conhecimento natural das ligações  
com as relações ancestrais cosmológicas. (Lima e Santos, 2023, p. 2).  
Do individual ao coletivo, um conjunto de processos se desdobram e se cruzam  
enquanto acontecimento, afirmação e fenômeno cuja abordagem, nos limites da  
linguagem, nos levam a refletir sobre o processo de simbolização, projeção,  
mediatização e produção de imaginários. Que elementos simbólicos nos permitem uma  
leitura integrada entre sujeito e ambiente? Que enfrentamentos comuns se configuram  
como linguagem e discurso no contexto da resistência amazônica? Qual o papel da  
natureza enquanto imagem e substrato de resistência no contexto midiático da cultura  
drag local? Sem pretender esgotar o tema, o presente ensaio busca corroborar com um  
pensamento sobre cultura queer, meio ambiente e processos de resistência destr grupo  
minoritário no contexto da região amazônica.  
A análise pela semiótica da cultura é o caminho metodológico proposto neste  
processo reflexivo, tendo como problema de fundo a questão da construção simbólica  
e artística em torno da expressão drag e o discurso sobre crise ambiental como  
modalidade artística e comunicacional. Grosso modo, interessa-nos questionar o quê,  
no nível de uma estética da comunicação e cultura, o eixo imagético – expressão drag e  
natureza - produz como significado e se configura como experiência estética? O recorte  
cultural e artístico definido neste processo investigativo, parte da produção artística das  
Themônias da região de Belém do Para e, em especial, o caso da drag Uýra Sodoma, cujo  
destaque nas mídias internacionais nos instiga a teorizar sobre o fenômeno drag  
amazônico como um campo micropolítico para além de seu contexto local. É justamente  
neste processo de afirmação de singularidades, que estratégias de representação e  
comunicação são definidas. No caso das drags amazônidas a estratégia de visibilidade,  
diga-se, de construção de imagem, explora a temática do meio ambiente, promovendo  
críticas e reflexões sobre a crise ambiental e a cultura do consumo. Através de recursos  
próprios de linguagem visual, as Themônias constroem críticas e difundem mensagens  
que ao mesmo tempo que exaltam a beleza da floresta, expõe as contradições e os  
limites da sociedade do consumo. A partir do movimento estético e cultural das  
Themônias, uma linguagem simbólica se constrói e evidencia um padrão neste contexto  
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imagético das drags amazônicas. Ainda que as Themônias se configurem como coletivo  
e também como movimento amplo e diversificado no campo estético-politico, há  
regularidades e estruturas de linguagem visual que se repetem, tais como a crítica a  
sociedade do consumo, o uso de materiais descartados e orgânicos diretamente  
coletados da natureza, referências à cosmologias do universo indígena e também o uso  
recorrente de uma linguagem visual associada ao campo estético do grotesco e da  
monstruosidade.  
A base epistemológica que sustenta as reflexões neste ensaio acerca da cultura  
drag e seus modos expressivos de luta e resistência, articula-se no diálogo entre filosofia  
da imanência (Deleuze e Guattari), a comunicação e a estética (Didi-Huberman), os  
estudos sobre discurso e poder (Michel Foucault), e os estudos de gênero (Judith Butler).  
Trata-se, sobretudo, de uma abordagem que problematiza as relações entre linguagem  
visual, poder e produção de sentido no contexto contemporâneo de crise ambiental.  
Que singularidades são constituídas pela comunidade queer, em particular, pela  
comunidade drag local e em que medida essa diferença se configura como um ícone de  
resistência e tecnologia de representação no campo comunicacional, atuando de forma  
integrada com outros movimentos culturais da região? Essa abordagem nos permite  
pensar a cultura drag local como um dispositivo midiático para além da questão de  
gênero, onde o ser drag Themônias se articula no nível de uma ontopolítica, com lutas  
pela preservação ambiental e territorial nativa, assumindo lugar de sujeito político no  
contexto contemporâneo de construção de imaginários sobre o território amazônico.  
Deste modo, este ensaio se divide em três tópicos que buscam inicialmente  
apresentar o contexto histórico e social do coletivo Themônias; a seguir, refletir sobre a  
base epistêmica simbolizada na produção artística deste coletivo e por fim, refletir sobre  
a produção cultural e comunicacional das drags amazônicas em sua proposta de  
integração com o contexto discursivo internacional voltado às lutas pela preservação  
ambiental e enquanto projeto de futuro comum da humanidade, (Brundtland, 1991).  
2 THEMÔNIAS DA AMAZÔNIA BRASILEIRA  
Remeter ao contexto drag da região amazônica é um caminho que requer  
investigar sua relação com os movimentos culturais, sociais e religiosos que, ao longo da  
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história, permitiram o travestimento como estratégia de afirmação de gênero. As drags  
amazônicas construíram sua identidade focando na realidade local e como reação à  
hegemonia do estilo norte-americano, especialmente promovido pelo programa Ru Paul  
Drag Race. É nesta medida que este contexto drag amazônico distanciou-se da cultura  
drag internacional, nascido especialmente nas boates norte-americanas e europeias.  
Assim, uma das características da cultura drag da região amazônica é sua estrutura  
estilística claramente política, explorando uma linguagem fortemente calcada nos  
princípios anticoloniais, ambientais e ancestrais. Desse modo, considera-se que a cultura  
drag amazônica é tributária da ancestralidade do povo indígena, do contexto religioso  
que é particularmente forte nesta região do País e, atualmente, imerso nas questões  
que remetem à crise ambiental e proteção da floresta. No nível da construção discursiva  
e simbólica, elementos da natureza foram incorporados como adornos, adereços e  
maquiagens, produzindo composições que falam e articulam mensagens sobre as  
condições existenciais das drags amazônicas.  
A produtora Noite Suja em 2013, em Belém do Pará, está na base conceitual do  
coletivo conhecido como Themônias. Este coletivo vem atuando desde então nas  
festividades locais e é atualmente reconhecido pelo público como patrimônio cultural.  
Rafael Bqueer, uma das integrantes do coletivo Themônias, em uma entrevista  
concedida à Zoom - Revista de Fotografia do Instituto Moreira Sales, em 2022, diz o  
seguinte:  
“As Themônias são artistas que olham e bebem em tudo, seja nos  
quadrinhos, no cinema, na cultura paraense. [...] Ser themônia se tornou um  
movimento. São pessoas que começam a entender o aspecto político dessas  
montações [...] Ser themônia é muito mais do que ser uma figura drag. [...]  
Podemos não ter a visibilidade de uma drag que performa em grandes boates  
de São Paulo, por exemplo. Mas entendemos que o que fazemos é muito mais  
do que um show, é de fato a construção de um movimento político. (Bqueer,  
2022)1  
Por conta deste distanciamento da cultura drag internacional, conforme relata  
Rafael Bqueer (2022), constata-se que o universo drag amazônico consolidou-se com  
um caminho próprio, com uma identidade crítica, anticolonial que, do ponto de vista da  
29.08.2026>  
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forma, o distancia do glamour, da sofisticação e da espetacularização que  
frequentemente dominam os espaços da arte drag global. Esse padrão estilístico e  
conceitual, que do ponto de vista da estética e da arte aproxima-se da arte povera.  
2.1 ESTÉTICA DA PRECARIEDADE: ARTE POVERA2  
A Arte Povera faz parte dos movimentos artísticos de vanguarda dos anos  
sessenta que surgiram na Itália e uma de suas principais características foi a utilização  
de materiais simples, cotidianos muitas vezes encontrados na natureza e fora dos  
padrões tradicionais do campo artístico. Outro aspecto importante, do ponto de vista  
conceitual, e que aproxima as Themônias da Arte Povera é o princípio da reciclagem e  
utilização de materiais descartados pela sociedade de consumo, o que, no limite,  
promove uma crítica à sociedade capitalística e seu estímulo ao consumo efêmero. Esta  
aproximação conceitual entre a linguagem visual das Themônias e a Arte Povera, remete  
esta análise ao campo da crítica visual e de sua construção através da estética.  
A Arte Povera, em sua crítica, propunha literalmente “empobrecer a arte”,  
devido, especialmente, a uma percepção do sistema da arte enquanto dispositivo  
instaurador de dissimulações e desconstruções programadas, do ponto de vista da  
cultura dominante e elitista. Segundo a arte-educadora Laura Aidar (2026), “O  
movimento povera se destacou na pintura, escultura, instalação e performance. Sua  
ideia era, de fato, propor uma nova reflexão estética sobre o produto artístico ao  
“empobrecer a arte” e trazer à tona sua efemeridade através da utilização de materiais  
simples e naturais.”3 Algumas das características da Arte Povera, a partir de Aidar (2026)  
que podemos também identificar no escopo do conceito estético das Themônias são: 1.  
2 A Arte Povera foi um movimento artístico italiano radical que surgiu entre o final da década de 1960 e a  
década de 1970, cujos artistas exploraram uma gama de processos não convencionais e materiais não  
tradicionais do "cotidiano". A Arte Povera significa literalmente "arte pobre", mas a palavra "pobre" aqui  
se refere à característica do movimento de explorar uma ampla gama de materiais além dos tradicionais,  
como tinta a óleo sobre, bronze ou mármore esculpido. Os materiais usados pelos artistas incluíam terra,  
trapos e galhos. Ao utilizar materiais tão descartáveis, eles buscavam desafiar e romper com os valores  
do  
sistema  
comercializado  
das  
galerias  
de  
arte  
contemporânea.  
Disponível  
em:  
3 Fonte: Toda Matéria. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/arte-povera/ <acessado em:  
25.08.2026>.  
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crítica à sociedade de consumo; 2. oposição à cultura pop; 3. antiformalista; 4. utilização  
de materiais simples e naturais (sucatas, papel, vegetal, terra, metal, comida, sementes,  
areia, pedra, tecido, etc.); 5. criatividade e espontaneidade; valores pobres e marginais  
e temáticas da natureza e do cotidiano.  
A visualidade das Themônias foi sendo construída pelo próprio coletivo, fixando-  
se, no nível de sua identidade ao princípio da estética da precariedade, englobando o  
discurso anticolonial, além da expressão política em torno da defesa do meio ambiente,  
o que, no limite, aproxima este coletivo dos discursos contemporâneos globais em torno  
da crise climática e a necessidade de uma articulação mais ampla, incluindo a própria  
cultura, como estratégia de enfrentamento das mudanças provocadas pela ação  
humana no meio ambiente. Também, ressalta-se o uso de materiais orgânicos que  
remetem ao contexto da floresta, ao folclore e à ancestralidade dos povos indígenas.  
Especialmente por conta do emprego de materiais descartados pela sociedade do  
consumo e também pelo uso de materiais orgânicos como forma de conceituar um  
padrão discursivo critico, é que identificamos similaridades com o movimento artístico  
italiano de vanguarda conhecido como Arte Povera. Ambos os movimentos, Arte Povera  
nos anos sessenta e as Themônias, na atualidade, estruturam-se em torno da crítica à  
sociedade do consumo e suas consequências ao meio ambiente.  
Figura 1 – Obra Escultura viva (1966), de Marisa Merz  
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Fonte: Toda Matéria4  
2.2 A ESTÉTICA A MONSTRUOSIDADE COMO CAMPO EPISTÊMICO  
Conceitualmente, a estética das Themônias inscreve-se no campo do grotesco,  
entendido como uma modalidade estética que mobiliza o monstruoso, o disforme e  
o aberrante como recursos de produção de sentidos e de deslocamento das formas  
normativas de representação. Trata-se, no caso deste coletivo, de um padrão de  
linguagem visual que o coloca no escopo teórico dos estudos antropológicos do  
imaginário sobre o monstro. Na esteira da semiótica da cultura, a performance desses  
artistas em sua dinâmica simbólica e sua atuação micropolítica no campo  
sociocultural, pode ser associada ao conceito de fronteira e explosão desenvolvidos  
por Iuri Lotman (1996) no escopo dos estudos da cultura e da arte.  
A partir de Lotman (1996), entende-se o significado do monstro como uma  
figura de fronteira, como marcador simbólico e identitário que traça limites entre  
“um dentro e um fora”, entre o “normal” e o “anormal” de acordo com os padrões  
culturais estabelecidos historicamente. Ainda, a partir da semiótica da cultura,  
considera-se que estes seres habitam simbolicamente o lado obscuro do imaginário:  
são quimeras, monstros e figuras abjetas que estimulam pulsões e desejos  
socialmente proibidos. Desejos e pulsões que quando se manifestam, transgridem a  
norma, causando estranhamento e desconforto aos que a ela estão submetidos.  
Portanto, há uma função normativa e de exercício de poder através da identificação  
da monstruosidade como regulador dos limites e fronteiras entre um “dentro e um  
fora” dos espaços semióticos delimitados e definidos como a “justa medida” e o  
“limite confortável” para a manutenção estrutural do campo politicamente  
delimitado pelo poder instituído em seu exercício de coerção. Evidencia-se, portanto,  
uma dinâmica complexa de tensões e disputas pelo domínio dos meios garantidores  
do exercício do poder soberano e, portanto, de acesso aos privilégios decorrentes  
deste lugar político e social. Nesse horizonte de exercício do saber-poder, segundo  
4 Disponível em: https://www.todamateria.com.br/arte-povera/ <acessado em: 25.08.2026>.  
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Michel Foucault em os Anormais, a medicina, em especial a psiquiatria, assumiu o  
lugar institucional de definir e identificar os limites entre a normalidade e a  
anormalidade. Segundo o filósofo,  
com efeito, no momento em que a psiquiatria adquire a possibilidade de  
relacionar qualquer desvio, irregularidade, retardo, a um estado de  
degeneração, daí em diante conquistará uma possibilidade de ingerência  
indefinida sobre os comportamentos humanos. (Foucault, 2010, p. 298)  
Fig. 02 - "Hierogritos", cena do filme "Themônias", Belém/PA, 2022.  
Fonte: Instituto Moreira Sales5  
Fig. 03: Themônias/demonhas  
29.08.2026>.  
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Fonte: Arte Que Acontece6  
As Themônias integram esse horizonte epistemológico, onde a semiótica da  
cultura e a psicanálise se encontram e articulam conceitos sobre a cultura como  
fenômeno antropológico e psíquico. Buscando compreender a transgressão em sua  
dimensão mais profunda e em articulação com o imaginário, Gilbert Durand, ao refletir  
sobre as estruturas antropológicas do imaginário, identifica na félix culpa um princípio  
de prazer associado aos efeitos subjetivos do ato transgressivo. Segundo ele, "a  
regressão só é um mau momento passageiro, mas que se integra harmoniosamente no  
progresso dramático. É este o papel benéfico da félix culpa e, por isso, de Satã, o  
tentador de nossa história ou lendário do compromisso." (Durand, 1989, p. 317).  
No nível da representação das Themônias a dimensão transgressiva se tornou  
uma marca, uma estratégia de linguagem para atrair a atenção através do choque  
(explosão) e reter o olhar alheio, o que na prática estrutura-se como uma  
funcionalidade da imagem grotesca a partir do impacto visual, uma forma agressiva de  
produção de memória pela dimensão catártica. Aristóteles explica esse fenômeno  
através do prazer que o ser humano sente no processo provocado por emoções  
controladas, como ocorre no espaço da arte, estimulando o entendimento e segurança  
que este sentimento produz através da experiência projetada e simulada. A catarse  
neste contexto da estética do grotesco ativa emoções, sensações e produz uma forma  
de entendimento que gera alívio psíquico. Para Aristóteles,  
É, pois, a tragédia imitação de uma ação de caráter elevado e completa,  
dotada de certa extensão, em linguagem ornamentada, com cada uma das  
espécies de ornamentos distribuída por suas partes, imitação que se efetua  
por meio de ações dramatizadas e não por meio de uma narrativa, e que,  
suscitando  
a
piedade  
e
o
terror, tem por efeito  
a
catarse  
[purgação/purificação] dessas mesmas emoções. (Aristóteles, 1991, p. 205)  
Figura 04 –Representação da Santa Ceia com as Themônias  
6 Disponível em: https://artequeacontece.com.br/quem-sao-as-themonias/ <Acessado em: 25.08.2026>.  
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Fonte: Instituto Pipa7.  
Como diz Paul Valéry, “o mais profundo é a pele” (Valéry, 1960, p. 215).  
Considerando a relação entre o visível da superfície, seja a “pele”, a “máscara” ou  
ainda, o conjunto semiótico do figurino, e o nível mais profundo da subjetividade, as  
drags e as pessoas trans enfrentam processos de subjetivação intensificados pela  
violência social, pela rejeição e exclusão, por serem sujeitos ontopolíticos cuja  
natureza pode romper com os limites da forma normatizada e binária, fixada no padrão  
heteronormativo seja masculino, seja feminino. No caso das Themônias, este processo  
é marcado por ambiguidades, tensionamentos e rupturas, estruturando-se sobretudo,  
como dispositivo de produção de sentidos através da provocação e do choque visual.  
Dessa forma, o coletivo Themônias constrói uma semiosfera trans-lúdica e híbrida,  
cujo espectro simbólico e identitário situa-se na fronteira do normativo, por vezes,  
rompendo, por vezes, simplesmente tensionando. Nos momentos de transgressão  
podemos evidenciar outro conceito desenvolvido por Lotman, que nos ajuda a  
compreender este fenômeno em sua dimensão filosófica e cultural, atravessado pela  
violência de gênero e também pela problemática simbólica da linguagem e da  
construção da imagem. Para Lotman,  
El momento de la explosión es el punto de intersección de la  
imprevisibilidad. [...] La explosión es el momento de la pérdida de la  
imprevisibilidad: el futuro inmediato se vuelve incierto, y el abanico de  
posibilidades se abre bruscamente. La elección del camino a seguir deja de  
estar predeterminada por las condiciones que la precedieron. (Lotman,  
1999, p. 27)  
7 Disponível em: https://www.pipaprize.com/coletivo-themonias-da-amazonia/ <acessado: 22.08.2026>  
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A imagem que transgride e rompe com padrões estabelecidos e normatizados, é  
também aquela que produz a “explosão”, liberando as fronteiras e inaugurando novos  
espaços semióticos. Para Didi-Huberman, uma imagem é como um sintoma que é  
resultado de um processo mais complexo sempre envolvendo o sujeito e o objeto.  
Segundo o autor, "o ato de ver só se manifesta ao abrir-se em dois, ou seja, o que  
vemos vive em nossos olhos pelo que nos olha." (Didi-Huberman, 2010, p. 11). A  
imagem construída pelas Themônias opera no imaginário coletivo, seja como crítica,  
seja como afirmação, seja como libertação, seja como encantamento da realidade. Este  
conjunto simbólico das Themônias não é passivo e nem se reduz ao mero  
entretenimento, ao contrário, constrói sentidos e comunica através de uma semiótica  
que perpassa a arte da performance, da montação, da representação e da própria  
política.  
Seguindo o pensamento de Didi-Huberman, a imagem-sintoma opera na  
subjetividade não como mimese da natureza ou da própria sociedade, mas como  
diferença, tensionando os limites e as condições de construção de significado do olhar  
do observador. Qual o sentido da produção imagética das drags amazônidas? Grosso  
modo, podemos afirmar que existe um texto semiótico historicamente construído por  
um coletivo de transformistas, inicialmente local, porém, na atualidade, com alcance  
midiático internacional. Este coletivo se autodenomina Themônias, ou ainda,  
demonhas e aos poucos vem ganhando maior notoriedade no Brasil e em outras partes  
do mundo, como aconteceu durante viagem à França em 2025 para participar da Lille  
3000 Parade (Fig. 05), iniciando o circuito cultural francês que projeta a cidade de  
Lille como a capital da cultura da França naquele ano. A temática central foi a  
Amazônia como legado cultural e ambiental para o mundo. Para Rafa Bqueer,  
integrante do grupo Themônia, o principal legado foi problematizar a cultura drag, a  
partir da estética do anticonsumo, da precariedade e da preservação ambiental.  
Segundo a artista "o que fica desse cortejo é a importância da visibilidade e a  
valorização da Amazônia brasileira, uma Amazônia destruída e apagada que hoje grita  
para o mundo sua potência política mostrando para a França um Brasil ancestral e  
LGBTQIAPN+"8. Observa-se que o discurso sobre preservação ambiental ganhou  
8 Fonte: Pará Rede Liberal. Disponível em:  
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dimensão internacional e as Themônias passaram a integrá-lo como um conceito-chave  
em suas performances artísticas enquanto coletivo. Ainda sobre a estética do grotesco  
e sua dimensão ontopolítica, as Themônias, colocam-se em uma posição social  
radicalizada e próxima daquilo que Butler (2019) chama de corpos abjetos.  
Figura 05 – Themônias na França  
Fonte: G1 - Globo9  
O simbolismo imagético e o mimetismo da crise ambiental presentes na linguagem  
drag das Themônias, são gerativos de processos de subjetivação que intgram a arte  
themônia aos movimentos sociais, cuja intersecção se concretiza na problemática da crise  
ambiental e dos processos de inclusão da comunidade LGBTQIAPN+. Como parte deste  
grupo, destaca-se na atualidade o trabalho performático e artístico de Uýra Sodoma, cuja  
qualidade estética ganhou destaque na capa da revista Vogue Brasil em 2020 (Fig. 06). A  
performance da drag Uýra Sodoma é reveladora de potencialidades estéticas para além  
do campo da arte, expandindo o universo de reconhecimento artístico das Themônias.  
9 Disponível em :  
VlBNDNYLUlNGAEwARgHIKaHlPcESggQARgBIAEoAQ <Acessado em: 21.08.2026>  
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2.3 Uýra Sodoma na capa da Vogue Brasil: há esperança?  
Uýra Sodoma não é apenas parte da nova geração drag da região amazônica, mas  
sinaliza enquanto agenciamento artístico, político e midiático, um futuro possível e um  
território existencial de referência partindo da cidade de Belém do Pará para um  
campo imagético da cultura drag em nível internacional, carregando simbolismos e  
conteúdos do universo brasileiro que interessam ao mercado de consumo de cultura  
global. Uýra Sodoma, nome artístico de Emerson Munduruku é descendente de  
indígenas e nasceu na Amazônia brasileira. Segundo a própria artista, a personagem  
Uýra Sodoma surgiu como um alter ego drag queen para ensinar sobre conservação  
ambiental. (G1, 2018, p. 1).  
Figura 06 - Uýra Sodoma na capa da Vogue  
Fonte: Vogue Brasil, Hick Duarte, de setembro de 2020.  
É dentro desta construção narrativa voltada às questões da região amazônica e  
ao discurso anticolonial que Uýra Sodoma imprime sua marca de singularidade a partir  
do coletivo Themônias, personificando a cultura drag como um canal propulsor de  
críticas e estímulos à reflexão sobre valores, crenças e proteção ao meio ambiente. De  
forma mais ampla considerando a dimensão comunicacional, uma Themônia funciona  
como uma tecnologia discursiva e imagética, um dispositivo artístico democrático e  
10  
de-setembro.html <Acesso em 22.08.2026>  
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aberto, capaz de promover conhecimento através das críticas e confrontos semióticos  
que concretiza seja na região amazônica, seja no mundo globalizado através das  
mídias.  
2.4. Micropolíticas  
É nessa medida que o coletivo Themônias, incluindo Uýra Sodoma, ganha  
dimensão micropolítica, ou seja, a partir de suas articulações com a realidade local e  
global, com seu substrato semântico-crítico à cerca da crise ambiental que envolve a  
maior floresta tropical do planeta. Esse capital simbólico ancorado na imagética das  
Themônias tem ressonância com as críticas ao modelo hegemônico do capitalismo  
mundial integrado (CMI) construídas por Félix Guattari (2010). De forma radical, Uýra  
Sodoma em conjunto com as Themônias representam formas dissidentes de  
expressão de gênero, (BUTLER, 2003) focando em uma estética crítica e reativa aos  
padrões hegemônicos promovidos pelo regime capitalístico e pelo patriarcado. Ser  
uma Themônia é fazer parte de um movimento político, artístico e de gênero. Nasceu  
como expressão estética que explora a linguagem do lado demoníaco e monstruoso  
do imaginário local, contudo, após abarcar as questões ambientais em seu discurso,  
ganhou proporções simbólicas e comunicacionais para além das fronteiras de uma  
problemática de gênero. É nesse sentido que as performances deste coletivo  
aproxima-se do conceito de micropolíticas de Guattari e Deleuze. Segundo os autores  
"uma micropolítica é uma política da experiência, do desejo, da percepção, do  
afetivo, de tudo o que precede a formação das grandes identidades sociais e  
políticas." (Guattari e Deleuze, 1996, p. 84).  
A afirmação de uma identidade drag como reação à sociedade do consumo e ao  
processo de dominação heteronormativo na sociedade, combinada com o discurso da  
proteção ambiental e crítica ao consumo, constrói um diferencial ontopolítico para as  
Themônias: elas se transformam em sujeitos políticos cujas performances compõem o  
espectro das estratégias micropolíticas da cultura LGBTQIAPN+ para afirmação de sua  
singularidade e também para tecer críticas e participar dos movimentos coletivos para  
a preservação da floresta amazônica.  
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Figura 07 - Uýra Sodoma11  
Fonte: G1 (Globo), Foto: Ricardo Oliveira/AFP  
A perspectiva holística de Guattari em Três Ecologias, aproximando os  
processos de subjetivação, do social e do ambiental, corrobora com o esforço teórico  
de compreender o fenômeno drag amazônico. A relação imagética das drags  
amazônicas com a natureza é um traço de singularidade que reverbera com outros  
movimentos sociais e ambientais, midiatizando a imagem do contexto amazônico  
para além de uma semiosfera (Lotman, 1996) regional. O fenômeno drag amazônico  
em sua peculiaridade estética, tensiona o entendimento do fazer drag, portanto, seus  
limites conceituais, abrindo esse campo expressivo para uma linguagem drag como  
comunicação e política, o que nos leva a uma problematização do fazer drag em sua  
dimensão mais ampla, integrando arte e mídia na concepção do campo drag.  
Uma análise preliminar deste fenômeno drag nos revela que seu afastamento  
da estética padrão internacional, tem provocado rupturas com a imagem drag  
tradicional no seu campo específico da arte do espetáculo — excessivamente  
estetizante e distante de críticas sociais ou ambientais. É possível que esse processo  
de construção estética permita a emergência de um universo midiático no qual o  
corpo, ao interagir com seu entorno, transcenda a si mesmo, de modo a encapsular e  
11 https://g1.globo.com/natureza/noticia/2018/07/26/conheca-uyra-sodoma-a-drag-queen-amazonica-  
comprometida-com-a-floresta.ghtml <acessado em: 22.08.2026>  
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reproduzir as contradições de seu tempo, gerando saberes e conhecimento. No  
contexto da arte de Uýra Sodoma e das Themônias, a utilização de materiais naturais  
como sementes, folhas, cipós, trepadeiras, terra, e outros materiais orgânicos  
naturais e originários da região, valoriza a cultura local e comunica uma relação  
possível entre natureza e humanidade através da linguagem da arte, podendo operar  
nas subjetividades coletivas, não apenas locais, mas ampliando-se no horizonte  
cultural internacional, na medida em que comunica valores e propõe estéticas que  
sensibilizam sobre a problemática ecológica.  
Do ponto de vista político, podemos observar que o trabalho de Uýra Sodoma  
e das Themônias, dialoga com as lutas dos LGBTQIAPN+, dos povos indígenas, e de  
forma muito explícita, atualmente, com a questão da preservação ambiental. De  
forma mais geral, podemos considerar que a arte themônia comunica resistência e  
decolonialidade, afirmando o corpo drag como mídia e a cultura queer amazônica  
como movimento integrado às lutas pela preservação ambiental.  
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
O eixo problemático deste ensaio foca nas questões ontopolíticas,  
comunicacionais e estéticas das drags amazônicas. Do ponto de vistas epistêmico,  
a filosofia pós-estruturalista, especialmente com o pensamento dos franceses Félix  
Guattari, Gilles Deleuze e Michel Foucault, no âmbito da filosofia da diferença, e  
ainda com os estudos de gênero de Judith Butler, deram sustentação teórica às  
reflexões que foram construídas ao longo deste percurso metodológico, tanto sobre  
a problemática em torno do gênero, quanto às questões relativas ao processo  
comunicacional, envolvendo a dinâmica das representações e da significação na  
mídia e para além dela, ou seja, numa dimensão mais profunda, envolvendo  
subjetividade, desejo e ontopolítica.  
Como afirmam Rolnik e Guattari em Revoluções Moleculares (1985), o que se  
busca é uma análise dos fluxos de desejo e de seus agenciamentos no campo social,  
político e comunicacional, identificando os tensionamentos, as potencialidades e o  
fluxo propriamente dito em sua diversidade.  
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Este ensaio suscita problemáticas no campo da arte drag e da expressão de  
gênero e projeta, de alguma forma a desconstrução da lógica patriarcal e de  
barreiras, muros, guetos, e representações sociais e culturais que limitam a  
existência trans e operam socialmente como definidores desses corpos como corpos  
abjetos, como corpos que não importam (Butler, 2019). Nessa medida, este ensaio,  
em sua dimensão política, situa-se junto aos movimentos sociais das minorias,  
buscando inclusão, reconhecimento e cidadania.  
Por fim, o trabalho de Uýra Sodoma, nos proporcionou um novo olhar sobre a  
questão ambiental, ressaltando o papel da cultura, da arte, da linguagem e da  
comunicação drag enquanto tecnologia representacional. O ativismo das drags  
amazônicas é revelador de estratégias comunicacionais frente aos desafios  
contemporâneos de enfrentamento das mudanças climáticas e também da  
necessidade de se problematizar a desigualdade social e a construção de um  
imaginário complexo e profundo, calcado entre ancestralidade, magia e  
micropolíticas nas produções queer desta região.  
REFERÊNCIAS  
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https://www.todamateria.com.br/arte-povera/. Acesso em: 25 ago. 2026.  
ARISTÓTELES. Poética. Tradução, textos adicionais e notas de Eudoro de Souza. São  
Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção Os Pensadores).  
BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto  
de François Rabelais. Tradução de Yara Frateschi Vieira. São Paulo; Brasília: Hucitec;  
Editora Universidade de Brasília, 1987.  
BQUEER, Rafael. Entrevista: a artista Rafael Bqueer fala sobre o projeto Themônias,  
selecionado na Bolsa ZUM/IMS de 2020. ZUM - revista de fotografia, São Paulo, 27  
jan. 2022. Disponível em: https://revistazum.com.br/bolsa-zum-ims/entrevista-  
rafael-bqueer/. Acesso em: 30 aug. 2026.  
BUTLER, Judith. Corpos que importam: os limites discursivos do “sexo”. São Paulo: N-  
1, 2019.  
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BUTLER, Judith. Desfazendo gênero. Coordenação de tradução por Carla Rodrigues.  
São Paulo: Editora Unesp, 2022.  
BUTLER, Judith. Os atos performativos e a constituição do gênero: um ensaio sobre  
fenomenologia e teoria feminista. Tradução de Jamille Pinheiro Dias.Chão da Feira,  
BA: Edições Chão da Feira, 2018, Caderno de leituras n. 78.  
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de  
Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.  
COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. Nosso futuro  
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ISSN 2179-9938  
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ISSN 2179-9938  
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SOBRE O(A) AUTOR(A)  
Maximiliano Zapata  
Doutor em Comunicação (UFC); mestre em Filosofia (PUCRS); Bacharel em Filosofia (PUCRS).  
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7480702631988108  
Fábio Pezzi Parode  
Doutor em Estética pela Université de Paris 1 - Panthéon Sorbonne (2005), mestrado em Ciências da  
Comunicação pela UNISINOS (2000), Especialista em Design Estratégico pela UNISINOS (2008), graduação  
em Comunicação Social Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1992).  
COMO CITAR ESTE ARTIGO  
ZAPATA, Maximiliano; PARODE, Fábio Pezzi. Drags da Amazônia: estética povera e natureza como  
linguagem visual. Passagens: Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da  
Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, v. 17, n. especial, p. e97667, 2026.  
RECEBIDO EM: 31/08/2026  
ACEITO EM: 31/08/2026  
PUBLICADO EM: 23/09/2026  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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QUAL AMAZÔNIA CABE EM UM CARTÃO-POSTAL?  
REPRESENTAÇÕES, IMAGINÁRIOS E  
REGIMES DE VISIBILIDADE DA AMAZÔNIA  
WHICH AMAZON FITS ON A POSTCARD? REPRESENTATIONS,  
IMAGINARIES, AND REGIMES OF VISIBILITY OF THE AMAZON  
¿QUÉ AMAZONÍA CABE EN UNA POSTAL? REPRESENTACIONES,  
IMAGINARIOS Y REGÍMENES DE VISIBILIDAD DE LA AMAZONÍA  
_____________________________________________________  
Rodolfo Silva Marques  
Universidade da Amazônia  
Luiz LZ Cezar Silva dos Santos  
Universidade Federal do Pará  
Resumo: O presente artigo analisa os cartões-postais como artefatos comunicacionais capazes de  
produzir, condensar e fazer circular determinadas imagens da Amazônia. Parte-se da compreensão  
de que essas imagens, embora relacionadas a paisagens, sujeitos e lugares efetivamente existentes,  
não constituem registros neutros ou totalizantes da realidade amazônica, pois resultam de processos  
de seleção, enquadramento e atribuição de sentidos. O estudo investiga quais Amazônias são  
privilegiadas nos cartões-postais, observando recorrências relacionadas à natureza, ao exotismo, ao  
patrimônio, à cultura e ao turismo, bem como as ausências produzidas por esses regimes de  
visibilidade. Metodologicamente, adotam-se uma revisão de literatura e a análise imagética de seis  
cartões-postais de cidades da Amazônia. Busca-se compreender em que medida essas  
representações reproduzem imaginários historicamente construídos sobre a região ou contribuem  
para sua pluralização. Sustenta-se que o postal apresenta uma Amazônia real, porém parcial e  
recortada, convertendo experiências particulares em signos de uma totalidade regional. Ao  
problematizar o que é mostrado e o que permanece fora do enquadramento, o artigo discute as  
disputas de representação e os desafios para pensar a Amazônia a partir de suas próprias narrativas,  
experiências e formas de autorrepresentação.  
Palavras-chave: cartões-postais; representação; Amazônia; imaginários; regimes de visibilidade.  
Abstract: This article analyzes postcards as communicational artifacts capable of producing,  
condensing, and circulating specific images of the Amazon. It starts from the understanding that  
these images, although related to landscapes, subjects, and places that actually exist, do not  
constitute neutral or totalizing records of Amazonian reality, as they result from processes of  
selection, framing, and attribution of meaning. The study investigates which Amazonian perspectives  
are privileged in postcards, observing recurrences related to nature, exoticism, heritage, culture, and  
tourism, as well as the absences produced by these regimes of visibility. Methodologically, a  
literature review and image analysis of six postcards from Amazonian cities are adopted. The aim is  
to understand to what extent these representations reproduce historically constructed imaginaries  
about the region or contribute to its pluralization. It argues that the postcard presents a real, but  
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partial and fragmented, Amazon, converting particular experiences into signs of a regional totality.  
By problematizing what is shown and what remains outside the frame, this article discusses the  
disputes over representation and the challenges of thinking about the Amazon from its own  
narratives, experiences, and forms of self-representation.  
Keywords: postcards; representation; Amazon; imaginaries; regimes of visibility.  
Resumen: El presente artículo analiza las postales como artefactos comunicacionales capaces de  
producir, condensar y hacer circular determinadas imágenes de la Amazonía. Se parte de la  
comprensión de que estas imágenes, aunque relacionadas con paisajes, sujetos y lugares  
efectivamente existentes, no constituyen registros neutrales ni totalizantes de la realidad amazónica,  
pues son resultado de procesos de selección, encuadre y atribución de sentidos. El estudio investiga  
qué Amazonías son privilegiadas en las postales, observando recurrencias relacionadas con la  
naturaleza, el exotismo, el patrimonio, la cultura y el turismo, así como las ausencias producidas por  
estos regímenes de visibilidad. Metodológicamente, se adoptan una revisión bibliográfica y el análisis  
de imágenes de seis postales de ciudades de la Amazonía. Se busca comprender en qué medida estas  
representaciones reproducen imaginarios históricamente construidos sobre la región o contribuyen  
a su pluralización. Se sostiene que la postal presenta una Amazonía real, pero parcial y recortada,  
convirtiendo experiencias particulares en signos de una totalidad regional. Al problematizar lo que  
se muestra y lo que permanece fuera del encuadre, el artículo analiza las disputas por la  
representación y los desafíos de pensar la Amazonía a partir de sus propias narrativas, experiencias  
y formas de autorrepresentación.  
Palabras clave: postales; representación; Amazonía; imaginarios; regímenes de visibilidad.  
1 INTRODUÇÃO  
A Amazônia se constitui, historicamente, como um território simultaneamente  
vivido, disputado e imaginado. Para além de uma extensa porção territorial marcada por  
diversidade ambiental, social e cultural, a região tem sido objeto de múltiplos olhares,  
discursos e narrativas que procuram defini-la e atribuir-lhe sentidos. Ao longo do tempo,  
diferentes representações construíram imagens associadas à exuberância da natureza,  
à imensidão dos rios e da floresta, ao exotismo de seus povos e culturas, à ideia de  
território desconhecido e, mais recentemente, à condição de espaço estratégico para os  
debates ambiental e climático. Essas imagens, entretanto, não abarcam a complexidade  
das experiências que constituem as diferentes Amazônias.  
A construção dessas representações se relaciona a processos históricos nos quais  
a região foi frequentemente narrada a partir de perspectivas externas. Relatos de  
viajantes, registros científicos, produções literárias, fotografias e outros produtos  
culturais contribuíram para consolidar determinados imaginários sobre a Amazônia.  
Nesse processo, a região foi muitas vezes transformada em objeto de observação e  
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interpretação, enquanto seus habitantes permaneceram em posições secundárias na  
produção de suas próprias imagens e narrativas. A Amazônia passou, assim, a ser  
reconhecida, também pelas imagens que sobre ela foram produzidas, selecionadas,  
reproduzidas e colocadas em circulação (Loureiro, 2009).  
É nesse campo de disputas simbólicas que se insere o cartão-postal. Como  
artefato comunicacional, cultural e de memória (Le Goff, 1990), o postal registra  
fotograficamente determinado lugar, ao mesmo tempo que seleciona uma paisagem,  
um monumento, um sujeito, uma prática cultural ou um acontecimento para circulação.  
Ao fazê-lo, estabelece uma operação de recorte e enquadramento: entre inúmeras  
possibilidades de representação, determinadas cenas são escolhidas para sintetizar  
visualmente uma cidade, um território ou uma região. O cartão-postal pode, portanto,  
ser compreendido como uma forma de narrativa imagética, na qual elementos  
particulares assumem significados que ultrapassam o próprio espaço representado  
(Corazza, 2015).  
No caso amazônico, essa operação assume particular relevância. Quando uma  
paisagem, manifestação cultural, mercado, rio, floresta ou grupo social é apresentado  
em um cartão-postal como representação da Amazônia, estabelece-se uma relação  
entre o fragmento visual e a ideia de totalidade regional. Uma imagem particular passa  
a funcionar como signo de uma Amazônia mais ampla, complexa e heterogênea. O  
postal apresenta algo que existe, além de construir uma determinada maneira de olhar  
para aquilo que existe. A questão consiste, pois, em compreender qual realidade  
amazônica foi selecionada para se tornar imagem da Amazônia (Gondim, 1994).  
É a partir dessa problemática que este artigo formula sua questão central: que  
imagem de Amazônia é construída pelos cartões-postais e em que medida essa  
representação corresponde à pluralidade das Amazônias vividas ou contribui para  
estabilizar uma Amazônia imaginada, turística, exótica ou estereotipada?  
Parte-se do pressuposto de que toda representação envolve escolhas,  
enquadramentos e atribuição de sentidos. Assim, mesmo quando o cartão-postal  
apresenta uma paisagem ou acontecimento existente, a imagem não corresponde à  
totalidade da experiência amazônica, mas a uma realidade recortada, organizada e  
transformada em narrativa visual.  
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A hipótese é que os cartões-postais documentam paisagens e práticas sociais e,  
simultaneamente, participam da construção de regimes de visibilidade sobre a região.  
Ao privilegiar imagens associadas à natureza exuberante, ao exotismo, ao patrimônio, à  
cultura, à monumentalidade e ao turismo, esses artefatos podem consolidar uma  
imagem-síntese da Amazônia.  
O objetivo geral é analisar quais imagens de Amazônia são produzidas e  
colocadas em circulação pelos cartões-postais, investigando em que medida contribuem  
para construir uma Amazônia imaginada, turística e estereotipada ou expressam  
dimensões plurais da experiência regional.  
Para alcançar tal objetivo, desenvolve-se pesquisa qualitativa e interpretativa,  
com revisão de literatura e análise de imagens. O corpus reúne seis cartões-postais da  
Amazônia, selecionados por sua pertinência ao problema e capacidade de representar  
paisagens, sujeitos, práticas culturais e patrimônios. A análise considera elementos  
visíveis e ausentes, observando processos de seleção, hierarquização e significação que  
transformam fragmentos da experiência amazônica em representações da totalidade  
regional.  
Além desta introdução, o artigo está organizado em seis seções. A segunda  
apresenta o desenho da pesquisa, o corpus e as categorias analíticas. A terceira aborda  
o cartão-postal como artefato comunicacional, articulando imagem, memória, consumo  
e representação. A quarta discute a Amazônia entre território vivido e imaginado. A  
quinta e a sexta desenvolvem a análise das representações e ausências. Por fim, as  
considerações finais retomam os resultados e refletem sobre disputas simbólicas,  
regimes de visibilidade e autorrepresentação.  
2
DESENHO DE PESQUISA  
A pesquisa possui natureza qualitativa e interpretativa, fundamentando-se em  
revisão de literatura (Lycarião; Roque; Costa, 2023) e análise de imagens (Joly, 2023).  
Embora dialogue com as contribuições metodológicas de Joly (2023), a análise  
desenvolvida se concentra, sobretudo, na interpretação temática e de conteúdo dos  
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cartões-postais, considerando os sentidos produzidos pelos elementos visuais  
recorrentes e pelas escolhas de representação.  
Parte-se da premissa de que toda imagem resulta de operações de seleção,  
enquadramento e atribuição de sentidos. Assim, sua interpretação considera tanto os  
elementos efetivamente representados quanto as ausências e os silenciamentos que  
delimitam o campo visual. A análise temática permite, desse modo, identificar  
recorrências, categorias de representação e formas de construção simbólica da  
Amazônia, articulando o conteúdo manifesto das imagens aos contextos sociais,  
históricos e comunicacionais nos quais foram produzidas e circularam.  
O corpus é constituído por seis cartões-postais de paisagens da Amazônia,  
selecionados pelos autores em razão de sua pertinência ao problema de pesquisa e da  
recorrência de determinados motivos visuais. Trata-se de um corpus de caráter  
diacrônico, composto por exemplares que abrangem diferentes temporalidades e  
contextos  
de  
produção  
e
circulação,  
permitindo  
observar  
permanências,  
transformações e deslocamentos nas formas de representação do território amazônico.  
Essa perspectiva possibilita compreender o cartão-postal tanto como dispositivo de  
resgate  
e
atualização de imaginários historicamente construídos, incluindo  
representações associadas aos anos 1990, quanto em sua inserção em contextos  
institucionais e comunicacionais contemporâneos, como o da COP30 em Belém.  
Para orientar a interpretação, são definidas quatro categorias: Amazônia-  
naturalizada, Amazônia-exótica, Amazônia-monumental/turística e Amazônia-ausente.  
Elas não constituem compartimentos rígidos ou excludentes, pois um mesmo cartão-  
postal pode articular diferentes dimensões. Assim, as categorias funcionam como  
instrumentos analíticos destinados a identificar distintas camadas de significação,  
evidenciando como paisagens, sujeitos, patrimônios e ausências participam da  
construção visual da Amazônia.  
Quadro 1 – Categorias de análise dos cartões-postais  
Categoria  
O que reúne  
Foco da análise  
Sentidos possíveis  
Floresta, rios, fauna,  
flora e paisagens  
naturais.  
Observar como  
elementos naturais  
são transformados em  
Exuberância,  
grandiosidade,  
preservação,  
Amazônia-  
naturalizada  
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Categoria  
O que reúne  
Foco da análise  
Sentidos possíveis  
signos capazes de  
singularidade e  
natureza como  
sintetizar a Amazônia.  
identidade regional.  
Analisar quem  
aparece, como os  
sujeitos são  
Povos, costumes,  
corpos, trajes,  
Diferença, tradição,  
autenticidade,  
Amazônia-exótica  
manifestações  
construídos  
culturais e formas de  
alteridade.  
visualmente e quais  
características são  
enfatizadas.  
alteridade e exotismo.  
Cidades,  
patrimônios,  
Identificar espaços  
selecionados como  
símbolos e  
Monumentalidade,  
patrimônio, turismo,  
identidade urbana e  
representação  
monumentos,  
mercados,  
Amazônia-  
compreender sua  
função na construção  
da identidade  
monumental/turística  
edificações,  
paisagens urbanas e  
atrações turísticas.  
metonímica da região.  
regional.  
Analisar ausências,  
invisibilidades e  
aspectos  
Limites do regime de  
representação,  
silenciamento,  
marginalização e  
disputas de  
Aquilo que não  
aparece ou é  
Amazônia-ausente  
marginalizado nos  
enquadramentos dos  
cartões-postais.  
sistematicamente  
excluídos das  
representações.  
visibilidade.  
Fonte: autoria própria, a partir da base conceitual de análise imagética de Joly (2023)  
A partir dessas categorias, a análise considera simultaneamente presenças e  
ausências. Essa abordagem possibilita estabelecer uma aproximação entre os cartões-  
postais e as formas contemporâneas de produção e circulação de imagens digitais.  
3 CARTÃO-POSTAL: IMAGEM, REPRESENTAÇÃO, MEMÓRIA E CONSUMO  
O cartão-postal pode ser compreendido como artefato comunicacional situado  
entre imagem, memória, consumo  
e
representação. Mais que reproduzir  
fotograficamente determinado lugar, constitui uma mídia que participa da produção,  
circulação e estabilização de sentidos sobre espaços, sujeitos e experiências. Sua função  
ultrapassa a transmissão de mensagens entre remetente e destinatário. Ao representar  
cidades, paisagens, monumentos ou manifestações culturais, o postal contribui para  
definir quais elementos de um lugar são reconhecidos como significativos e  
considerados dignos de representação visual.  
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A produção de um cartão-postal envolve seleção e enquadramento: diante da  
multiplicidade de elementos de uma cidade ou região, algumas paisagens são  
privilegiadas, enquanto outras permanecem invisibilizadas. Assim, a imagem constitui  
um fragmento selecionado e investido de significados que, ao circular, ultrapassa sua  
dimensão documental e adquire valor simbólico (Daltozo, 2006).  
Essa perspectiva aproxima o cartão-postal das reflexões de Kossoy (2001) sobre  
a fotografia enquanto documento e representação. Para Kossoy (2001), a fotografia  
constitui um fragmento da realidade, resultante de um registro situado no tempo e no  
espaço. No caso do postal, essa dimensão evidencia que a imagem não reproduz o lugar  
em sua totalidade, mas apresenta uma realidade visualmente construída a partir de  
escolhas que orientam sua produção e circulação.  
Essa característica torna o cartão-postal relevante para compreender a  
construção de imaginários geográficos e como objeto de memória. Uma paisagem pode  
converter-se em síntese visual do território, enquanto sua materialidade preserva e  
transporta imagens, articulando espaço, tempo e lembrança. Enviado, recebido ou  
colecionado, o postal registra viagens, vínculos afetivos e experiências, mantendo como  
referência visual aquilo que foi fotografado, mesmo diante das transformações do lugar  
representado.  
Essa dimensão temporal da fotografia aproxima-se da reflexão de Barthes (2006)  
sobre a relação entre imagem, passado e realidade. Para Barthes (2006), a fotografia  
remete à existência concreta daquilo que esteve diante da câmera. No cartão-postal,  
essa característica permite não apenas representar um lugar, mas preservar  
visualmente determinada configuração espacial, posteriormente retomada, lembrada e  
reinterpretada.  
Essa dimensão relaciona-se diretamente ao consumo simbólico. O cartão-postal  
integra circuitos turísticos nos quais lugares são transformados em experiências visuais  
e objetos de lembrança. Comprar ou enviar um postal significa consumir uma imagem  
do destino e comunicar essa experiência a outras pessoas. O lugar turístico torna-se,  
assim, espaço de visitação, imagem, signo e mercadoria cultural. Na Amazônia,  
determinadas representações podem reforçar associações com natureza exuberante,  
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exotismo e aventura, convertendo características específicas em atributos capazes de  
sintetizar uma experiência turística regional (Marques; Santos, 2025).  
Entretanto, compreender o postal como objeto de consumo não significa reduzir  
sua importância à lógica mercadológica. Seu valor está, também, na capacidade de  
articular diferentes dimensões da experiência social. A imagem consumida pode tornar-  
se lembrança, elemento de identificação, registro histórico e instrumento de construção  
de pertencimentos. Por isso, o cartão-postal ocupa uma posição singular na cultura  
visual: é simultaneamente produto, mensagem, memória e representação.  
Essa perspectiva ganha novos contornos diante da transformação das práticas  
de produção e circulação de imagens provocada pelas tecnologias digitais. A fotografia  
turística, antes materializada em postais e posteriormente compartilhada por meios  
impressos, passou a circular instantaneamente por redes sociais, plataformas digitais e  
dispositivos móveis.  
Assim, enquanto o postal tradicional privilegia imagens previamente  
selecionadas e institucionalizadas, a fotografia digital amplia a autorrepresentação e a  
participação dos sujeitos na produção visual. Em ambos os casos, a representação  
resulta de escolhas e enquadramentos. No contexto amazônico, compreender os  
cartões-postais exige analisar o que eles mostram e os sentidos atribuídos aos lugares,  
os imaginários preservados e as experiências excluídas de seus limites visuais (Marques;  
Santos, 2025).  
4 A AMAZÔNIA ENTRE O TERRITÓRIO VIVIDO E O TERRITÓRIO IMAGINADO  
Pensar a Amazônia implica reconhecer a tensão entre a região como território  
vivido e como objeto de representação. Realidade histórica, social, política e cultural,  
constitui-se por diferentes sujeitos, experiências, temporalidades e territorialidades  
(Becker, 2005). Simultaneamente, é uma construção simbólica produzida por discursos,  
imagens e narrativas. Entre a Amazônia vivenciada por seus habitantes e aquela  
representada por diferentes olhares, estabelecem-se disputas pela definição dos  
sentidos atribuídos à região.  
A distinção é importante porque “Amazônia” frequentemente opera como se  
designasse uma realidade homogênea (Amaral Filho, 2016). O termo reúne territórios,  
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cidades, comunidades, povos, trabalhadores, instituições e diferentes formas de relação  
com a natureza. A unidade nominal, porém, não elimina essa diversidade. Ao contrário,  
pode ocultá-la quando uma imagem ou narrativa passa a representar uma totalidade  
muito mais complexa que o signo utilizado para a sintetizar.  
A constituição histórica da ideia de Amazônia relaciona-se a processos de  
nomeação, interpretação e representação. Conforme Gondim (1994), viajantes,  
cronistas e missionários contribuíram, por meio de relatos e descrições, para a  
construção de um imaginário sobre a região. Posteriormente, narrativas científicas,  
literárias e artísticas ampliaram e ressignificaram essas representações, consolidando  
diferentes formas de compreender o espaço amazônico. A Amazônia foi, assim,  
progressivamente convertida em objeto de observação, descrição e interpretação. Em  
muitos desses processos, a experiência daqueles que habitavam o território ocupou  
posição secundária diante do olhar externo que pretendia explicar, classificar ou traduzir  
a região.  
Essa dimensão histórica explica a força de determinadas imagens da Amazônia,  
como floresta, rios, fauna, povos indígenas e a ideia de território remoto. Mais  
recentemente, desmatamento, crise climática, biodiversidade e conflitos territoriais  
passaram a integrar esse repertório. Embora distintas, essas representações selecionam  
aspectos da realidade amazônica e lhes atribuem capacidade de sintetizar uma região  
ampla e diversa (Gondim, 1994).  
Da mesma forma, uma narrativa sobre a Amazônia não precisa inventar seus  
elementos para produzir um determinado imaginário. Ela pode partir de aspectos  
efetivamente existentes e, ainda assim, construir uma visão parcial da região. O  
problema analítico, portanto, não está necessariamente na correspondência entre  
representação e realidade, mas nas condições pelas quais determinados fragmentos da  
realidade adquirem visibilidade e passam a ser reconhecidos como representativos de  
uma totalidade.  
Nesse contexto, a noção de imaginário torna-se fundamental. Os imaginários  
sociais constituem conjuntos de significações compartilhadas que orientam formas de  
perceber, interpretar e atribuir sentido ao mundo (Sá, 2000). Assim, imagens  
reiteradamente associadas à Amazônia ultrapassam representações particulares e  
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integram um repertório coletivo sobre a região. Rio, floresta, indígena, mercado,  
manifestação cultural e monumento deixam de ser elementos isolados e passam a  
funcionar como signos de uma ideia mais ampla e compartilhada de Amazônia.  
A repetição constante de um repertório visual restrito naturaliza a associação  
entre certas imagens e a identidade amazônica. A reiteração desses signos constrói uma  
sensação de familiaridade que molda a percepção da realidade local. Como resultado,  
manifestações que fogem a esse padrão estereotipado deixam de ser prontamente  
reconhecidas como autênticas, embora integrem o cotidiano de quem habita a região  
4.1 AMAZÔNIA: TERRITÓRIO, REPRESENTAÇÃO E IMAGINÁRIO  
A compreensão da Amazônia como território exige superar uma perspectiva  
exclusivamente físico-geográfica. O território resulta de relações sociais, disputas  
políticas, práticas culturais e apropriações simbólicas. É vivido e significado por sujeitos  
que estabelecem diferentes relações com os lugares. Nesse sentido, não existe uma  
única experiência amazônica, mas múltiplas formas de viver e significar os territórios da  
região (Becker, 2005; Loureiro, 2009).  
A pluralidade é particularmente relevante quando se considera a dimensão  
urbana da Amazônia. Durante muito tempo, representações dominantes associaram a  
região principalmente à floresta, aos rios e às populações tradicionais, relegando a  
segundo plano centros urbanos, periferias, universidades, espaços culturais e atividades  
econômicas diversificadas.  
A representação da Amazônia encontra-se atravessada por uma tensão entre  
particularidade e totalidade (Amaral Filho, 2016). Um lugar é particular: uma praça, um  
mercado, um rio, uma floresta ou uma comunidade. Quando representado como  
“Amazônia”, entretanto, passa a assumir função metonímica. O fragmento passa a  
significar o conjunto. É nessa passagem que uma imagem local adquire dimensão  
regional.  
O cartão-postal constitui exemplo dessa operação. A fotografia de determinado  
espaço amazônico registra um referente concreto, situado histórica e geograficamente.  
Entretanto, quando selecionada para integrar um cartão-postal, deixa de funcionar  
apenas como registro daquele espaço. O postal passa a circular como mensagem sobre  
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o lugar e, em determinadas circunstâncias, sobre a própria Amazônia. A imagem  
condensa significados territoriais, culturais e turísticos (Marques; Santos, 2024).  
A questão torna-se mais complexa com a repetição de escolhas. Se diferentes  
cartões-postais apresentam reiteradamente rios, florestas, monumentos, mercados,  
manifestações culturais ou determinados sujeitos como imagens da Amazônia, essas  
recorrências contribuem para estabilizar um repertório visual regional. A repetição  
significa que determinados elementos recebem maior capacidade de representar a  
região do que outros (Marques; Santos, 2025).  
A representação funciona por meio de processos de seleção e hierarquização.  
Mostrar implica também não mostrar. Escolher uma paisagem significa deixar outras  
fora do quadro; privilegiar um monumento implica relegar outros lugares à  
invisibilidade; destacar uma manifestação cultural produz determinada percepção da  
cultura regional; representar uma população a partir de características específicas pode  
reforçar formas de alteridade. A análise precisa considerar o visível e o ausente.  
O imaginário amazônico não se esgota em uma única imagem, mas se consolida  
por meio de representações recorrentes que criam signos estáveis para a região.  
Conforme destacam Marques e Santos (2024), a análise crítica não busca descartar tais  
construções, mas compreender seu papel em um sistema complexo onde uma única  
imagem atua de forma documental, estética e comercial, oferecendo um registro real  
que, simultaneamente, integra uma visão parcial do território.  
É nesse sentido que a noção de “Amazônias” ganha relevância. Falar em plural  
não significa negar elementos compartilhados ou identidades regionais, mas reconhecer  
que a experiência amazônica é constituída por múltiplas territorialidades e perspectivas.  
Há Amazônias urbanas e rurais, indígenas e não indígenas, metropolitanas e ribeirinhas,  
patrimoniais e periféricas, turísticas e cotidianas, naturais e tecnológicas. Essas  
dimensões coexistem em um território que não pode ser reduzido a uma única narrativa  
visual.  
4.2 QUEM FALA PELA AMAZÔNIA?  
A disputa pela autoridade narrativa reflete a ideia do exercício do poder  
discursivo: a capacidade de determinados grupos hegemônicos de produzir e fazer  
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circular as representações que definem o “outro”, um processo historicamente  
marcado, no contexto amazônico, pelo protagonismo de olhares e discursos externos  
(Spivak, 2010; Hall, 20156.  
Durante diferentes períodos, viajantes, pesquisadores, agentes do Estado,  
empresas, meios de comunicação e produtores culturais construíram representações  
sobre a Amazônia. A região tornou-se objeto de conhecimento, contemplação,  
exploração, preservação ou consumo simbólico. Mais que opor sujeitos “de fora” e “de  
dentro”, importa compreender as relações de poder que definem quais perspectivas  
ganham circulação e legitimidade. A colonialidade opera pela naturalização de  
determinados olhares, fazendo com que representações recorrentes deixem de ser  
percebidas como perspectivas particulares.  
Nesse contexto, a representação pode ser compreendida como campo de  
disputa. Não basta perguntar o que uma imagem mostra; é necessário perguntar quem  
a produz, para quem, em que contexto circula e quais sentidos são privilegiados.  
A colonialidade da representação perpétua estruturas que associam a Amazônia  
ao exotismo, à natureza intocada e ao atraso, naturalizando um olhar específico como  
objetividade. Como sustentam Quijano (2005) e Mignolo (2007) ao discutirem a  
colonialidade do poder e do saber, a dominação persiste pela reprodução contínua de  
padrões de classificação que operam de forma sutil e acrítica, transformando  
construções discursivas históricas e parciais em descrições tomadas como neutras e  
universais da realidade.  
A questão da autoridade narrativa torna-se central: quem pode falar pela  
Amazônia? Mais precisamente, quem pode produzir as imagens reconhecidas como  
imagens da Amazônia? A pergunta não implica defender que apenas seus habitantes  
possam representar os territórios. O problema surge quando determinados olhares  
monopolizam a capacidade de definir quais experiências devem ser reconhecidas como  
representativas.  
A diferença entre falar sobre a Amazônia e falar a partir da Amazônia é  
significativa. A primeira posição pode transformar a região em objeto de observação; a  
segunda enfatiza a experiência situada dos sujeitos que vivem os territórios e participam  
de sua produção simbólica.  
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Essa discussão é particularmente produtiva quando aplicada aos cartões-postais.  
A escolha de determinada imagem para circular como representação turística ou  
cultural envolve uma cadeia de decisões: quem fotografa, encomenda, edita,  
comercializa, compra e recebe. Ele participa de um circuito no qual determinadas  
imagens são legitimadas como dignas de serem vistas, lembradas e compartilhadas.  
É nesse circuito que o cartão-postal pode contribuir para a estabilização de  
regimes de visibilidade. Alguns lugares são transformados em ícones; determinados  
sujeitos, em representações de uma cultura; determinadas paisagens, em essência  
regional (Daltozo, 2006). Outros lugares, sujeitos e experiências permanecem fora do  
enquadramento. O silêncio visual não significa inexistência, mas ausência de  
reconhecimento dentro daquele regime de representação.  
Por isso, analisar cartões-postais da Amazônia exige observar presença e  
ausência. O desafio consiste em reconhecer que nenhuma imagem representa sozinha  
a complexidade amazônica. Toda representação é situada, parcial e atravessada por  
escolhas. O problema está em compreender os efeitos produzidos quando  
determinados fragmentos são reiteradamente apresentados como sínteses de uma  
totalidade.  
Nesse sentido, o cartão-postal constitui objeto privilegiado para investigar a  
relação entre território vivido, território imaginado e regimes de visibilidade (Marques;  
Santos, 2024). Ele participa de sua transformação em símbolos e mostra uma Amazônia  
que existe, mas ajuda a definir quais aspectos dessa existência serão lembrados,  
consumidos e reconhecidos. A questão central deixa de ser se a imagem postal  
corresponde à realidade e passa a ser qual realidade amazônica foi escolhida para se  
tornar imagem da Amazônia.  
5 ANÁLISE IMAGÉTICA  
Selecionamos seis cartões-postais, sendo dois de Belém-PA, um de Santarém-PA,  
um de Manaus-AM, um de Macapá-AP e um de Porto Velho-RO, que dão suporte para  
a discussão aqui proposta, a partir da categorização definida na seção 2.  
Durante a COP30, em 2025, realizada em Belém, a Itaipu Binacional promoveu  
uma ação gratuita na Zona Verde, em parceria com os Correios. Os visitantes puderam  
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escolher e enviar cartões-postais com fotografias exclusivas de pontos turísticos e  
projetos da capital paraense para qualquer lugar do mundo, acompanhados de selos  
comemorativos especiais. A imagem 1 reproduz o Parque Linear da Doca. A imagem 2,  
uma comunidade ribeirinha no entorno da capital paraense.  
Imagem 1 – Parque Linear da Doca - Belém-Pará  
Fonte: Sierich, Kiko / Itaipu Parquetec (2025) - Reprodução  
A imagem 1 evidencia uma paisagem urbana marcada pela arquitetura, pela  
organização do espaço público e por equipamentos associados ao lazer e à revitalização  
urbana. Predomina a categoria Amazônia-monumental/turística, ao converter a Doca  
em atração e símbolo de Belém, articulando urbanidade, lazer e consumo turístico. A  
Amazônia-naturalizada também se manifesta pela presença de elementos vegetais e  
paisagísticos. A representação amplia o repertório tradicional sobre a região ao  
apresentar uma Amazônia urbana e contemporânea, associada à valorização do espaço  
público. Entretanto, a Amazônia-ausente emerge nas dimensões excluídas do  
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enquadramento: periferias, desigualdades, conflitos urbanos, precariedades e  
experiências cotidianas permanecem invisíveis. O postal apresenta, assim, uma  
Amazônia urbana concreta, mas seletivamente enquadrada a partir de uma paisagem  
valorizada e potencialmente consumível.  
Imagem 2 – Comunidade ribeirinha - Belém-Pará  
Fonte: Sierich, Kiko / Itaipu Parquetec (2025) - Reprodução  
A imagem 2 representa uma comunidade ribeirinha no entorno de Belém,  
deslocando o foco da monumentalidade urbana para formas de ocupação e relação  
cotidiana com o território. Vegetação, água, moradias e estruturas da vida ribeirinha  
articulam as categorias Amazônia-naturalizada e Amazônia-monumental/turística, esta  
última ao transformar o modo de vida em elemento representativo e potencialmente  
turístico. A paisagem natural aparece associada a sujeitos e práticas sociais,  
evidenciando uma Amazônia vivida, e não apenas contemplada. A categoria Amazônia-  
exótica também se manifesta quando a comunidade é apresentada como expressão de  
um modo de vida diferenciado dos padrões urbanos, com o risco de convertê-la em  
signo estático de autenticidade regional. Já a Amazônia-ausente emerge nas dimensões  
não representadas, como condições socioeconômicas, infraestrutura, trabalho,  
circulação, acesso a serviços e transformações contemporâneas dessas comunidades.  
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Imagem 3 – Floresta Nacional do Tapajós - Santarém-Pará  
Fonte: Câmara, Fernando Sette / Expedição Pará (2022) - Reprodução  
A imagem 3, da Floresta Nacional do Tapajós, em Santarém, destaca vegetação,  
água e uma pequena embarcação, reforçando a Amazônia-naturalizada como principal  
signo de identificação regional. A floresta, o rio e a canoa sugerem exuberância,  
preservação e integração entre natureza e experiência humana. A dimensão turística  
também se evidencia ao apresentar a paisagem como espaço de contemplação. Em  
contrapartida, conflitos territoriais, atividades econômicas, populações locais, pressões  
ambientais e contradições sociais permanecem ausentes.  
Imagem 4 – Encontro das Águas – Manaus-Amazonas  
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Fonte: Lopes, Eulalio Noguez / Ref.: AM – M – 100 (2015) - Reprodução  
A imagem 4, do Encontro das Águas, em Manaus, destaca a confluência dos rios,  
reforçando a Amazônia-naturalizada e sua singularidade regional. A atração também  
mobiliza a Amazônia-monumental/turística, ao transformar o fenômeno geográfico em  
espetáculo visual e símbolo de Manaus e da região. A Amazônia-ausente aparece na  
exclusão da complexidade urbana e social, como habitantes, desigualdades, atividades  
econômicas e transformações territoriais. O postal converte, assim, um fenômeno  
natural em representação sintética da Amazônia.  
Imagem 5 – Vista parcial do Trapiche “Eliezer Levy” – Macapá-Amapá  
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Fonte: Santiago, Manoel da Silva (Exclusividade) / Macapá-Amapá-Brasil (2004) - Reprodução  
A imagem 5 apresenta o Trapiche “Eliezer Levy”, em Macapá, articulando  
arquitetura, rio e paisagem urbana. Predominam as categorias Amazônia-  
monumental/turística e Amazônia-naturalizada, ao apresentar o patrimônio como  
marco urbano integrado à paisagem aquática. O trapiche ultrapassa sua função  
arquitetônica e atua como símbolo visual de Macapá, constituindo representação  
metonímica da cidade. A imagem amplia o repertório amazônico ao evidenciar uma  
dimensão urbana e patrimonial para além da representação florestal. A ausência de  
sujeitos e práticas sociais limita a presença da Amazônia-exótica, enquanto a Amazônia-  
ausente manifesta-se na exclusão do cotidiano da população, atividades econômicas,  
desigualdades e transformações urbanas. O patrimônio selecionado sintetiza, assim,  
Macapá por meio da monumentalidade, memória e potencial turístico.  
Imagem 6 – Postal Histórico – Porto Velho-Rondônia  
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Fonte: Brascard / Porto Velho-Rondônia-Brasil (1990) – Reprodução  
O cartão-postal apresenta elementos emblemáticos da cidade de Porto Velho,  
destacando as Três Caixas d’Água, conhecidas como “Três Marias”, principal símbolo  
urbano e visual do município. A composição também evidencia a Estrada de Ferro  
Madeira-Mamoré, marco histórico associado à formação e ao desenvolvimento da  
cidade, além de referências à arquitetura histórica, representada por prédios e espaços  
públicos relacionados ao período áureo do ciclo da borracha.  
A imagem 6 reúne referências históricas e urbanas de Porto Velho, como as Três  
Caixas d’Água (“Três Marias”) e a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, associadas ao  
período da borracha. A composição mobiliza principalmente a categoria Amazônia-  
monumental/turística, ao transformar patrimônios e marcos urbanos em símbolos da  
cidade. A paisagem evidencia uma Amazônia que ultrapassa os signos naturais,  
incorporando memória, patrimônio, urbanização e história regional. A Amazônia-  
naturalizada aparece de modo secundário, enquanto a Amazônia-exótica praticamente  
não se manifesta, dada a ausência de sujeitos e práticas culturais. Já a Amazônia-ausente  
emerge na seleção de uma cidade histórica e monumental em detrimento de  
experiências urbanas contemporâneas, desigualdades, periferias e conflitos sociais. O  
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cartão-postal constrói, assim, uma imagem de Porto Velho ancorada no patrimônio e na  
memória, convertendo vestígios históricos em signos da identidade urbana e de uma  
Amazônia marcada pela ocupação e exploração econômica.  
Quadro 2 – Síntese da análise das 4 categorias nos cartões-postais  
Local  
Cat. 1  
Cat. 2  
Cat. 3  
Cat. 4  
Síntese  
Presença de  
elementos  
paisagísticos e  
vegetação  
urbana  
Parque  
Linear da  
Doca  
Predominante:  
espaço urbano,  
lazer e turismo  
Periferias,  
Amazônia  
urbana e  
turística  
Baixa ou  
ausente  
desigualdades e  
cotidiano urbano  
(Belém)  
Forte: água,  
vegetação e  
ambiente  
Presente:  
modo de vida  
como  
Infraestrutura,  
trabalho, serviços  
e transformações  
sociais  
Amazônia  
vivida,  
Comunidade  
ribeirinha  
(Belém)  
Presente:  
comunidade como  
experiência visual  
ribeirinha e  
exotizada  
ribeirinho  
autenticidade  
Floresta  
Nacional do  
Tapajós  
Conflitos,  
pressões  
Amazônia  
naturalizada e  
preservacionis  
ta  
Predominante:  
floresta, água  
e natureza  
Presente: floresta  
como experiência  
turística  
Baixa  
ambientais e  
diversidade social  
(Santarém)  
Amazônia  
como  
Cidade,  
população,  
desigualdades e  
cotidiano  
Encontro  
das Águas  
(Manaus)  
Predominante:  
fenômeno  
Forte: atração  
turística e  
Ausente  
natureza  
natural e rios  
espetáculo visual  
monumental  
e turística  
Trapiche  
“Eliezer  
Levy”  
Cotidiano,  
conflitos e  
Amazônia  
patrimonial,  
urbana e  
Predominante:  
patrimônio e  
Presente: água  
e paisagem  
Ausente  
Ausente  
transformações  
urbanas  
símbolo urbano  
(Macapá)  
turística  
Predominante,  
com patrimônio,  
memória e  
Amazônia  
histórica,  
Dinâmicas sociais  
contemporâneas  
e desigualdades  
Vistas de  
Secundária  
Porto Velho  
patrimonial e  
monumental  
história  
Fonte: autoria própria, a partir das categorias elencadas para análise  
A leitura das seis imagens revela a sobreposição de diferentes regimes de  
visibilidade. A Amazônia-naturalizada predomina nas representações de Santarém e  
Manaus, articulando-se às imagens urbanas de Belém e Macapá. A Amazônia-  
monumental/turística atravessa o corpus, valorizando patrimônios e atrações. A  
Amazônia-exótica concentra-se na comunidade ribeirinha, associada à autenticidade  
regional. Já a Amazônia-ausente perpassa todas as imagens, silenciando periferias,  
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desigualdades, conflitos territoriais, problemas de infraestrutura e dimensões  
científicas, tecnológicas e contemporâneas.  
Os cartões-postais analisados representam uma Amazônia real, porém  
seletivamente enquadrada. Florestas, rios, comunidades, atrações naturais e  
patrimônios urbanos são convertidos em imagens-síntese que passam a simbolizar uma  
totalidade regional. Essa construção visual resulta tanto da seleção quanto da exclusão  
de elementos, configurando um regime de visibilidade que privilegia natureza,  
patrimônio, monumentalidade, turismo e alteridade, enquanto reduz a diversidade das  
experiências sociais, urbanas e contemporâneas que constituem as múltiplas  
Amazônias.  
6 QUE AMAZÔNIA OS CARTÕES-POSTAIS MOSTRAM – E O QUE NÃO MOSTRAM?  
Os  
cartões-postais  
da  
Amazônia  
selecionam  
elementos  
estéticos  
e
mercadológicos para atender a expectativas de consumo. Ao priorizarem a Amazônia-  
naturalizada e a Amazônia-monumental/turística, destacam rios, florestas e marcos  
arquitetônicos urbanos. Cenas de natureza exuberante e patrimônios consolidados  
constroem uma narrativa visual fundada na exaltação da paisagem, transformando  
recortes específicos em símbolos metonímicos da totalidade regional.  
A Amazônia-exótica apresenta menor expressividade no corpus, diante da  
predominância  
das  
categorias  
Amazônia-monumental/turística  
e
Amazônia-  
naturalizada. Quando presente, associa povos tradicionais, festividades e práticas  
culturais às noções de autenticidade, alteridade e pitoresco. Esses enquadramentos  
ressaltam a singularidade cultural, mas podem estabelecer uma relação contemplativa  
e distanciada, reduzindo a complexidade das dinâmicas sociais contemporâneas.  
Embora a Amazônia-exótica seja secundária ou ausente neste corpus, sua  
presença contribui para compreender os regimes de representação analítica. Quando  
acionada, pode converter manifestações culturais em signos estetizados para o  
consumo turístico, valorizando a singularidade regional, mas também fixando sujeitos e  
práticas em repertórios imagéticos que tendem a simplificar a complexidade social  
contemporânea.  
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A análise da Amazônia-ausente evidencia realidades sistematicamente excluídas  
do enquadramento dos postais. Conflitos agrários, desmatamento, mineração,  
mudanças climáticas, desigualdades sociais, periferias urbanas e infraestruturas  
precárias raramente integram esse repertório visual. Tal silêncio revela um regime de  
visibilidade que privilegia representações estéticas e turísticas, enquanto marginaliza  
tensões e problemas socioambientais que também constituem o território amazônico.  
A exclusão de aspectos cotidianos, como a produção tecnológica, o ambiente  
acadêmico e as novas sociabilidades da juventude, demonstra como as escolhas de  
enquadramento moldam os limites do imaginário geográfico. Ao marginalizar as  
manifestações da vida moderna e multifacetada, os postais perpetuam uma percepção  
congelada da região.  
Assim, entendemos que o contraste entre as presenças e as ausências nos  
cartões-postais explicita as disputas simbólicas acerca de qual Amazônia deve se tornar  
visível. Se por um lado o cartão-postal documenta paisagens e patrimônios  
efetivamente existentes, por outro estabelece barreiras rígidas em relação aos dilemas  
e às transformações contemporâneas da região. A compreensão desse mecanismo de  
visibilidade e silenciamento é essencial para tensionar as imagens-síntese dominantes.  
Problematizar o que fica fora da margem da fotografia permite reconhecer a existência  
das múltiplas Amazônias que excedem os limites estreitos do enquadramento postal.  
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
A investigação sobre os cartões-postais da Amazônia evidencia que esses objetos  
atuam como documentos visuais e dispositivos comunicacionais, produzindo e  
circulando sentidos sobre o território. Ao selecionar natureza, arquitetura, cultura e  
sujeitos locais, os postais constroem narrativas segundo convenções específicas. Essa  
seleção não é neutra: determina quais fragmentos adquirem legitimidade para  
representar a região, transformando experiências particulares em símbolos  
estabilizados e contribuindo para a construção e reprodução de imaginários sobre a  
Amazônia.  
Os cartões-postais amazônicos não inventam seus referentes, mas selecionam  
paisagens e elementos efetivamente existentes. O problema reside na pretensão de  
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totalidade desses fragmentos, que, ao converter rios, florestas, mercados e  
manifestações culturais em sínteses identitárias, podem ocultar a heterogeneidade, as  
dinâmicas urbanas e as contradições socioeconômicas da região. Assim, o postal não  
espelha passivamente o real: organiza-o esteticamente, estabelecendo um regime de  
visibilidade no qual o detalhe selecionado passa a representar o todo.  
A reiteração de repertórios visuais restritos contribui para fixar imaginários  
sociais sobre a Amazônia. A repetição de enquadramentos naturaliza a associação entre  
determinados signos e a identidade regional, condicionando expectativas de consumo  
visual e cultural. Como consequência, paisagens e experiências que escapam a esses  
padrões tendem a perder visibilidade nos circuitos formais de reconhecimento, apesar  
de integrarem o cotidiano amazônico.  
A análise do invisível, ou Amazônia-ausente, é tão necessária quanto a dos  
elementos visíveis. A omissão de desmatamento, mineração, conflitos agrários,  
precarização urbana e avanços científicos não decorre apenas das limitações do suporte,  
mas do regime de representação. Ao operar por inclusão e exclusão, o postal comercial  
silencia tensões e desigualdades para construir uma narrativa pacificada e atrativa do  
destino. Evidenciar esses silenciamentos permite problematizar os limites do visível e do  
marginalizado na memória social (Le Goff, 1990).  
A transição dos suportes analógicos para as mídias digitais e redes sociais  
reconfigura a produção e circulação das imagens da Amazônia, sem eliminar processos  
de seleção, enquadramento e disputa simbólica. Se o postal tradicional concentrava a  
produção em agentes institucionais e turísticos, as plataformas digitais ampliam a  
circulação e as possibilidades de autorrepresentação, diversificando os sujeitos  
envolvidos na construção das narrativas sobre o território amazônico.  
Nesse processo de transição, a experiência da COP30 em Belém evidencia a  
articulação entre diferentes regimes de produção e circulação da imagem. As  
representações materializadas nos cartões-postais físicos, especialmente aquelas  
associadas à cidade e aos espaços mobilizados pelo evento, passam a coexistir com sua  
ampla repercussão nas redes sociais, nos meios digitais e na comunicação institucional.  
A descentralização da produção imagética não implica, necessariamente, uma  
democratização plena dos sentidos atribuídos ao território.  
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Nesse cenário, a passagem do cartão-postal às plataformas digitais deve ser  
compreendida menos como uma ruptura e mais como uma reconfiguração das formas  
de produção, circulação e legitimação das imagens amazônicas. Permanecem em  
disputa os enquadramentos, os silenciamentos e as visibilidades que historicamente  
participaram da construção simbólica da região, ainda que operem, na  
contemporaneidade, por meio de dispositivos, atores e circuitos comunicacionais  
distintos.  
Por fim, a principal contribuição deste estudo reside em tensionar a ideia de uma  
Amazônia monolítica por meio da crítica aos seus regimes de representação.  
Compreender o cartão-postal como produção de sentido, e não como mero reflexo  
neutro, permite desnaturalizar as imagens-síntese que historicamente condicionaram a  
percepção sobre a região. Reconhecer a parcialidade de cada enquadramento não  
significa invalidar os registros existentes, mas exigir a ampliação do campo visual para  
dar passagem às múltiplas Amazônias que coexistem para além das margens do papel  
fotográfico.  
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_____________________________________________________  
SOBRE O AUTOR  
Rodolfo Silva Marques  
Professor-Adjunto/Professor-Doutor da UNIVERSIDADE DA AMAZÔNIA (UNAMA). Estou vinculado à  
instituição desde 2007. Ministro aulas na Graduação dos Cursos Criativos (Jornalismo, Publicidade e  
Propaganda e Design) e em outros cursos, como Relações Internacionais e Marketing. Ministro aulas  
na pós-graduação lato sensu, presencial e com aulas online. Mestre em Ciência Política pela Universidade  
Federal do Pará (UFPA). Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul  
(UFRGS). Pós-Doutorando em Comunicação e Cultura pelo PPGCOM/UFPA.  
SOBRE O AUTOR  
Luiz LZ Cezar Silva dos Santos  
Pós-Doutor em Comunicação e Consumo pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação  
da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (PPGCOM/ECA/USP). Doutor em História  
pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Mestre em Estudos Literários pela  
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Comunicação Social – Habilitação em  
Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Docente do curso de Publicidade e  
Propaganda da UFPA e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia da UFPA.  
Participante do Grupo de Pesquisa Narraamazônia. Líder do Grupo de Pesquisa em Propaganda e  
Publicidade - Gruppu.  
COMO CITAR ESTE ARTIGO  
MARQUES, Rodolfo Silva; SANTOS, Luiz LZ Cezar Silva dos. Qual Amazônia cabe em um cartão-postal?  
Representações, imaginários e regimes de visibilidade da Amazônia. Passagens: Revista do Programa de  
Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, v. 17, n. especial, p.  
e97610 , 2026.  
RECEBIDO EM: 25/05/2026  
ACEITO EM:25/08/2026  
PUBLICADO EM: 23/09/2026  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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JURISGRAFIA E ESCREVIVÊNCIA CONTRA A GRAMÁTICA DA  
MORTE: EXPERIÊNCIAS DE AUTONOMIA COMUNITÁRIA EM  
BARCARENA (AMAZÔNIA BRASILEIRA)  
JURISGRAPHY AND WRITING AGAINST THE GRAMMAR OF  
DEATH: EXPERIENCES OF COMMUNITY AUTONOMY IN  
BARCARENA (BRAZILIAN AMAZON)  
JURISGRAFÍA Y ESCRITURA CONTRA LA GRAMÁTICA DE LA  
MUERTE: EXPERIENCIAS DE AUTONOMÍA COMUNITARIA EN  
BARCARENA (AMAZONAS BRASILEÑAS)  
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Marcel Hazeu  
Universidade Federal do Pará  
Jorge Henrique Cardoso dos Santos  
Universidade Federal do Pará  
Resumo. Este artigo analisa os Protocolos de Consulta Prévia, Livre e Informada de quatro  
comunidades tradicionais em Barcarena (PA) – Quilombo Gibrié de São Lourenço, Sítio  
Conceição, Acuí e Rio Tauá – como expressões de resistência ao modelo neoliberal que  
transforma a Amazônia em zona de sacrifício. A partir da noção de jurisgrafia – inscrição do  
Direito fundada nos modos de existir comunitários – e do conceito de escrevivência (Evaristo,  
2007), investiga-se como essas comunidades convertem memória, oralidade e sofrimento em  
norma própria. A pesquisa, baseada na análise dos protocolos e em observação participante,  
demonstra que tais documentos não são meras exigências burocráticas, mas atos de insurgência  
documental que afirmam soberania territorial, desestabilizam o monismo jurídico estatal e  
instituem uma legalidade do pertencimento, na qual a vida coletiva se impõe como limite  
intransponível ao avanço do capital.  
Palavras-chave: Amazonia; Jurisgrafia; Protocolos de Consulta Prévia, Livre e Informada;  
Comunidades Tradicionais; Resistência  
Abstract. This article analyzes the Prior, Free and Informed Consultation Protocols of four  
traditional communities in Barcarena (PA) – Quilombo Gibrié de São Lourenço, Sítio Conceição,  
Acuí and Rio Tauá – as expressions of resistance to the neoliberal model that transforms the  
Amazon into a sacrifice zone. Based on the notion of jurisgraphy – the inscription of Law founded  
on community ways of existing – and the concept of writing-life (Evaristo, 2007), it investigates  
how these communities convert memory, orality and suffering into their own norm. The  
research, based on the analysis of the protocols and participant observation, demonstrates that  
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such documents are not mere bureaucratic requirements, but acts of documentary insurgency  
that affirm territorial sovereignty, destabilize state legal monism and institute a legality of  
belonging, in which collective life imposes itself as an insurmountable limit to the advance of  
capital.  
Keywords: Amazonia; Jurisgraphy; Prior, Free and Informed Consultation Protocols; Traditional  
Communities; Resistance  
Resumen. Este artículo analiza los Protocolos de Consulta Previa, Libre e Informada de cuatro  
comunidades tradicionales de Barcarena (PA) – Quilombo Gibrié de São Lourenço, Sítio  
Conceição, Acuí y Rio Tauá – como expresiones de resistencia al modelo neoliberal que  
transforma la Amazonía en una zona de sacrificio. Partiendo de la noción de jurisgrafía – la  
inscripción del Derecho fundamentado en las formas de existencia comunitarias – y del concepto  
de escritura-vida (Evaristo, 2007), se investiga cómo estas comunidades convierten la memoria,  
la oralidad y el sufrimiento en su propia norma. La investigación, basada en el análisis de los  
protocolos y la observación participante, demuestra que dichos documentos no son meros  
requisitos burocráticos, sino actos de insurgencia documental que afirman la soberanía  
territorial, desestabilizan el monismo jurídico estatal e instituyen una legalidad de pertenencia,  
en la que la vida colectiva se impone como un límite insuperable al avance del capital.  
Palabras clave: Amazonía; Jurisgrafía; Protocolos de Consulta Previa, Libre e Informada;  
Comunidades tradicionales; Resistencia  
1 INTRODUÇÃO: JURISGRAFIA E ENGRENAGENS DA RESISTÊNCIA  
Neste artigo analisamos Protocolos de Consulta Previa, Livre, Informada e de  
Consentimento1, baseados na Convenção nº 169 da Organização Internacional do  
Trabalho (OIT, 1989) - convenção sobre povos indígenas e tribais - em países  
independentes de quatro comunidades tradicionais no município Barcarena, na  
Amazônia Paraense, como símbolo máximo de resistência, expressões vivas de memória  
e autonomia de uma escrita que se recusa ao silêncio, à luz da noção de “Jurisgrafia”.  
Este termo em construção, sugerido por Santos (2026) e aprofundado neste texto,  
designa a capacidade das comunidades de inscrever o Direito a partir de seus próprios  
modos de existir. A análise se baseia numa análise dos próprios protocolos de consulta  
e na observação participante na construção do protocolo de consulta de cada  
comunidade que acompanhamos como Grupo de Pesquisa Sociedade Território e  
Resistência na Amazônia – Gesterra do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social  
da Universidade Federal do Pará  
1 No texto, são chamados de “Protocolos de Consulta”  
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Desde a década de 1960, o município de Barcarena, no Pará, foi inserido em um  
dos eixos centrais da estratégia desenvolvimentista para a Amazônia. Parte de um  
planejamento geoestratégico que visava a integração da região aos circuitos globais de  
capital, o território tradicionalmente ocupado foi transformado em um denso complexo  
portuário-industrial-logístico. Esse projeto, sustentado pela proximidade com a Usina  
Hidrelétrica de Tucuruí e por condições naturais privilegiadas para a navegação,  
consolidou Barcarena como uma plataforma de escoamento de commodities — do  
alumínio e caulim à exportação de gado vivo e soja. No entanto, o que os mapas  
logísticos apresentam como "eficiência" e "progresso", as comunidades locais vivenciam  
como um cenário de contradições profundas e violências sistêmicas.  
A consolidação desse modelo neoliberal subordinou o interesse público e o  
direito territorial às demandas do capital privado, contando com a atuação decisiva do  
Estado. Através de órgãos como a Companhia de Desenvolvimento Econômico (Codec-  
PA), a regularização fundiária foi frequentemente utilizada não para assegurar a  
moradia das populações tradicionais, mas para viabilizar desapropriações e  
deslocamentos compulsórios em favor da expansão industrial. Nesse processo,  
comunidades quilombolas, indígenas e ribeirinhas foram sistematicamente tornadas  
invisíveis, cercadas pelo avanço das plantas industriais e atingidas por sucessivos  
desastres ambientais e contaminações crônicas.  
É nesse contexto de desproteção institucional e invisibilidade que as  
comunidades de Barcarena passam a construir respostas soberanas. Diante da falha do  
Estado em fiscalizar e da opacidade das empresas em seus relatos de impacto, as  
populações locais passaram a produzir contrainformação e a fortalecer suas formas de  
organização. O símbolo máximo dessa resistência são os Protocolos de Consulta. Mais  
do que documentos burocráticos ou meras exigências administrativas baseadas na  
Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), esses protocolos de  
consulta emergem como expressões vivas de memória e autonomia.  
Para compreender essa produção normativa, este trabalho utiliza a noção de  
Jurisgrafia. O termo designa para nós a capacidade das comunidades de inscrever o  
Direito a partir de seus próprios modos de existir. Diferente da escrita jurídica estatal,  
rígida e externa ao território, a jurisgrafia manifesta-se em assembleias, cantos, mapas  
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afetivos e narrativas orais. Nesses documentos, o desenho de um rio ou o relato de uma  
anciã não são ornamentos, mas normas inscritas que definem como a consulta deve  
ocorrer, quais limites são inegociáveis e quais projetos não podem atravessar a vida  
comunitária.  
A análise aqui proposta debruça-se sobre os protocolos de consulta de quatro  
comunidades em Barcarena: o Quilombo Gibrié de São Lourenço, o Quilombo Sítio  
Conceição, o Acuí e o Rio Tauá. Embora ancorados em um gesto comum de insurgência,  
cada um desses documentos carrega marcas singulares de suas identidades — da  
espiritualidade que legisla no Sítio Conceição ao agroextrativismo que estrutura a norma  
no Acuí. Ao enxergar esses protocolos de consulta como atos de jurisgrafia, este  
trabalho busca demonstrar que o Direito em Barcarena não emana apenas dos códigos  
oficiais, mas é escrito cotidianamente no chão, nas águas e na palavra tomada  
coletivamente por aqueles que insistem em permanecer.  
Metodologicamente este trabalho fundamenta-se em uma escrita que nasce da  
experiência situada, atravessada pela memória, pela observação do território e pela  
escuta sensível das águas e das gentes de Barcarena. Não se trata de uma abordagem  
neutra ou distanciada, mas de um processo comprometido com a escrevivência  
(Evaristo, 2007): um saber que emerge da vida sitiada, da terra que sente e da história  
que resiste. Esta pesquisa parte da percepção de que Barcarena não é apenas um polo  
industrial, mas um território onde a presença das comunidades tradicionais é  
constantemente atravessada pela fumaça, pelo metal pesado e pelo silêncio cúmplice  
do Estado, revelando um projeto de espaço que exclui a vida em favor do capital.  
Assumimos, portanto, que este não é um texto sobre os protocolos de consulta,  
mas com os protocolos de consulta; sobre o que vimos, escutamos nos relatos e  
sentimos ao analisar a transformação da dor em norma. A pergunta que orienta este  
artigo é: como as comunidades tradicionais, diante de um projeto moderno-colonial de  
morte, produzem sua própria normatividade?  
Com base na proposta de Gilberto Velho (1994) de estranhar o familiar,  
desenvolveu-se uma atitude de análise crítica sobre o cotidiano de Barcarena — um  
cenário onde o desastre ambiental tornou-se "familiar" e a poluição, "paisagem".  
Estranhar, aqui, é confrontar a versão oficial do progresso industrial e desnaturalizar a  
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violência dos metais pesados no sangue e nos rios. Ao analisar os protocolos de consulta,  
estranha-se a passividade imposta às comunidades e reconhecemos neles a expressão  
de um rompimento com a rotina de dominação.  
O método consiste em fazer do protocolo de consulta um campo de análise que  
ilumina as estruturas de conservação e dominação (Velho, 1994). Se a contaminação é  
o "caso-limite" que expõe a fragilidade da norma estatal, a jurisgrafia comunitária é o  
espelho que reflete as engrenagens da resistência. O desvio, aqui, não está nas  
comunidades, mas na lógica industrial que considera corpos e rios como descartáveis.  
Estranhar o familiar permite enxergar que o desenho de um rio, as fotografias, a  
espiritualidade, o respeito à natureza e as cantigas em um protocolo de consulta não  
são apenas imagens, mas um limite intransponível colocado frente ao avanço do trator.  
Complementarmente, recorremos a Roberto Cardoso de Oliveira (1996) e seu  
tripé Olhar, Ouvir e Escrever. O olhar que dirigimos aos protocolos não é de um  
observador neutro, mas de alguém afetado pelos testemunhos dos membros das  
comunidades como Raimunda Goes Espíndula, José Roberto de Jesus da Silva Cravo,  
Maria Cravo, Eucione Furtado etc. A escuta que exercemos foi expandida: escutamos o  
que os protocolos de consulta dizem sobre o passado de expulsões e o que silenciam  
sobre o medo do futuro. Escutamos as comunidades não apenas pelo que escreveram,  
mas pelo que expressaram como "incômodo" à ordem colonial.  
Ao escrever, procuramos elaborar um texto que não esteja a serviço da descrição  
fria, mas da denúncia situada. Escrevemos com um corpo que reconhece a gravidade do  
crescimento de mortes por câncer no município (Palmquist; Barbosa, 2024), e essa  
escrita não se esconde atrás de uma linguagem desimplicada. Ela se posiciona desde  
dentro: desde as margens do Murucupi, desde as roças perdidas, desde as assembleias  
onde o povo decidiu que "a consulta não é formalidade, é direito".  
Este trabalho é um modo de afirmar que, embora tentem transformar o negro e  
o indígena em sujeitos "ahistóricos" (Moura, 1983), a jurisgrafia desses povos prova que  
eles continuam sendo agentes coletivos dinâmicos. Olhar, ouvir e escrever, aqui, são  
práticas de um saber insurgente que se recusa a apagar a diferença em nome da norma  
industrial. Escrevemos para disputar o que se entende por Direito, por Território e por  
Vida Legítima.  
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2 JURISGRAFIA: A GRAMÁTICA DA VIDA  
Para que a noção de jurisgrafia adquira densidade suficiente para operar como  
categoria analítica rigorosa, torna-se necessário desferir uma crítica ao modo como o  
campo jurídico ocidental historicamente apreende — e, nesse mesmo gesto, neutraliza  
— as normatividades produzidas pelos povos e comunidades tradicionais. No interior da  
dogmática jurídica, tais normatividades foram reiteradamente confinadas à categoria  
de Direito Consuetudinário, um rótulo que, sob a aparência de reconhecimento,  
também opera uma sofisticada manobra de subalternização.  
Melissa Cury (2012, p. 231) adverte que a doutrina jurídica tradicional mobiliza  
uma régua evolucionista que situa o “costume” como um estágio embrionário do  
direito, uma espécie de “minoridade jurídica” destinada a ser superada pela  
racionalidade da codificação estatal. O costume aparece, assim, como algo provisório,  
instável e incompleto — um direito que ainda não chegou a ser direito. Em Barcarena,  
ao classificar os saberes normativos ancestrais como simples “costumes” — orais,  
informais e juridicamente frágeis — o Estado e os empreendimentos econômicos  
pavimentaram o caminho para a invasão territorial. Onde o monismo jurídico não  
reconhece código escrito, presume-se um vácuo normativo; e onde há vácuo, a única lei  
autorizada passa a ser a do capital.  
O tensionamento central que se impõe é que o chamado “direito oficial” em  
Barcarena não é apenas insuficiente para proteger a vida, ele é estruturalmente  
cúmplice da gramática da morte. Enquanto o ordenamento estatal legitima a  
externalização de resíduos tóxicos, naturaliza o automonitoramento empresarial e  
ignora a repetição sistemática de desastres ambientais (Hazeu et al., 2025, p. 6), ele  
simultaneamente desautoriza as normatividades comunitárias por não apresentarem a  
“forma” jurídica reconhecida. O direito estatal, nesse contexto, não apenas falha em seu  
dever constitucional de proteção à cidadania; ele também seleciona quais vidas são  
dignas de proteção e quais territórios podem ser convertidos em zonas de sacrifício.  
É contra esse sequestro da juridicidade que as comunidades tradicionais acionam  
o pluralismo jurídico — não como um ideal de convivência harmônica entre sistemas  
normativos, mas como uma arena de disputa política e epistêmica. Se a cultura é o  
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fundamento da vida coletiva (Marques, 2015), a jurisgrafia surge como o momento em  
que esse fundamento deixa de operar apenas como prática social e passa a ser inscrito  
como limite, como barreira e como norma, constituinte do direito comunitário.  
É nesse ponto que se torna possível conceituar a jurisgrafia como um ato de  
insurgência documental que não busca reconhecimento a partir de fora, pois ele é a  
produção de um Direito Próprio, que recusa a tradução autorizada pelo Estado como  
condição de validade.  
A jurisgrafia não se resume à transposição do oral para o papel, nem à tentativa  
de formalizar costumes para torná-los inteligíveis ao direito hegemônico. Trata-se,  
antes, da apropriação estratégica da tecnologia da escrita por corpos historicamente  
violentados, como forma de defesa, interrupção e afirmação de soberania territorial.  
Grafar, aqui, não é apenas escrever, é marcar, inscrever, cravar no documento a  
memória, a dor e os limites que não podem mais ser violados.  
Nesse sentido, a jurisgrafia subverte a lógica colonial do direito ao capturar um  
de seus principais instrumentos — o texto normativo, o protocolo, o documento — e  
preenchê-lo com uma ontologia que lhe é estranha: a ontologia da vida situada. A  
jurisgrafia transforma a escrevivência em ordenamento jurídico. Se, como propõe  
Conceição Evaristo (2007), a escrevivência narra para não deixar esquecer, a jurisgrafia  
prescreve para não deixar destruir.  
Quando comunidades como o Quilombo Gibrié de São Lourenço ou a  
comunidade Quilombola-Indígena-Agroextrativista do Rio Tauá afirmam, em seus  
protocolos de consulta, que consulta não é audiência pública, não se trata de uma  
opinião política ou de uma reivindicação retórica. Trata-se da enunciação de uma norma  
soberana, fundada em uma leitura própria do mundo, do território e da história. Uma  
leitura “grávida de mundo”, para retomar Paulo Freire (apud Vedovato, 2015), que  
ressignifica a existência coletiva e estabelece, com clareza, onde o avanço do capital  
deve cessar.  
Propomo-nos, neste momento, a assumir os riscos inerentes à categoria  
apresentada neste trabalho. Partimos do reconhecimento de que as bases da vida  
tradicional nos chegam atravessadas por relações coloniais que comprometem a forma  
como o saber é apreendido e traduzido. Se a colonialidade estrutura os modos de  
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conhecer, torna-se necessário tensionar a própria jurisgrafia enquanto categoria  
ancorada nas normatividades produzidas no interior da vivência tradicional.  
A proposta da jurisgrafia, ao se posicionar como instrumento de desestabilização  
da naturalização e da exotização colonial, não está imune à captura pela lógica da  
tradução. Ao contrário, corre o risco de não acompanhar com fidelidade a complexidade  
do que aqui denominamos normatividades ancestrais2. É nesse sentido que se impõe o  
tensionamento: reconhecer que a própria noção de comunidade ancestral não é  
homogênea evidencia a pluralidade, as contradições e as dinâmicas internas que  
atravessam essas experiências coletivas. Toda categoria que pretende abarcar tal  
diversidade corre o risco de incorrer em universalizações indevidas — inclusive a própria  
jurisgrafia.  
O prefixo “juris” deriva do ius, termo latino fundamental do Direito Romano, que  
se encontra historicamente associado às ideias de justiça, igualdade e retidão. Não há  
possibilidades materiais de se ver essa herança semântica como neutra. Ao carregar a  
genealogia do direito romano, da codificação moderna e da racionalidade estatal, o  
termo inscreve no conceito uma tradição específica de juridicidade, fundada na forma  
normativa escrita, na sistematização e na centralidade do Estado.  
Ao traduzir, pode significar tornar inteligível; mas pode também significar  
capturar as expressões contra-coloniais das comunidades. As normatividades ancestrais  
não se organizam necessariamente sob a lógica da codificação, da sanção formal ou da  
estrutura sistêmica fechada que caracteriza o direito moderno  
Vale frisar que as comunidades ancestrais não passaram a existir enquanto  
produtoras de normatividade a partir do reconhecimento estatal ou internacional. Antes  
mesmo de qualquer inscrição formal, antes de qualquer chancela jurídica, já havia  
conflito, já havia disputa territorial, já havia tensão entre regimes de vida distintos. As  
comunidades já brigavam, já sustentavam suas formas próprias de decidir, punir,  
2
Neste trabalho, a expressão “normatividades ancestrais” é utilizada como categoria agregadora das  
formas de regulação social produzidas por comunidades tradicionais. A nomeação isolada de identidades  
específicas — como quilombola ou indígena — ainda que politicamente necessária em determinados  
contextos jurídicos, pode, no plano analítico, produzir efeitos de segmentação e fixidez identitária. Ao  
optar por uma formulação mais abrangente, busca-se reconhecer a pluralidade constitutiva dessas  
experiências sem submetê-las a compartimentalizações que reproduzem lógicas classificatórias próprias  
da modernidade colonial.  
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reparar e organizar a convivência. O que se atualiza ao longo da história não é a  
emergência da normatividade ancestral, mas o movimento de dominação que tenta  
enquadrá-la sob a lógica tutelar do Estado.  
A Convenção nº 169 da OIT não inaugura essas normatividades, tampouco lhes  
concede existência. Ela opera no plano do reconhecimento, deslocando-as para o  
interior da gramática do direito internacional e tensionando a soberania estatal ao  
afirmar a consulta prévia e o respeito aos costumes. Contudo, há um risco político e  
epistêmico nesse movimento: a impressão de que a validade das normatividades  
ancestrais depende da validação externa, como se só passassem a ser levadas a sério  
quando traduzidas para o idioma jurídico.  
É nesse ponto que a crítica se torna incontornável. Confundir reconhecimento  
com autorização de existência é reproduzir, ainda que sob outra forma, a lógica colonial  
que historicamente submeteu as comunidades à tutela. As normatividades ancestrais  
não derivam da Convenção, nem do direito consuetudinário positivado, nem da  
inscrição escrita. Elas precedem esses instrumentos e continuam operando mesmo  
onde protocolos não foram formalizados. A escrita estratégica dos protocolos não é  
condição de existência, mas resposta a um cenário de violência jurídica que exige provas  
dentro de uma racionalidade que não é a sua. Reconhecer isso é deslocar o debate: não  
se trata de conceder lugar às normatividades ancestrais, mas de admitir que o conflito  
sempre existiu — e que o que está em jogo é a disputa por quem tem o poder de definir  
o que conta como direito.  
Nesse sentido, a jurisgrafia não deve ser compreendida como um batismo  
acadêmico dessas normatividades, nem como tentativa de conferir-lhes validade. Ela se  
apresenta, antes, como a descrição de um momento estratégico: o instante em que a  
oralidade, pressionada pela violência colonial, se inscreve para existir e re-existir em um  
plano de disputa que tensiona as epistemologias hegemônicas. A escrita, aqui, não  
inaugura a norma; ela a arma.  
3 CONSTRUÇÃO DOS PROTOCOLOS DE CONSULTA E A ESCREVIVÊNCIA DAS  
COMUNIDADES EM BARCARENA  
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Barcarena pode ser compreendida como um laboratório de experimentação do  
capitalismo neoliberal e colonial na Amazônia. O território, longe de representar apenas  
espaço físico, converteu-se em lugar de violência material e simbólica, marcado por  
expropriação, contaminação, destruição das formas tradicionais de vida e produção do  
sentimento de não pertencimento. Para as comunidades que ali sobrevivem, o território  
outrora sagrado e ancestral passa a ser atravessado por experiência cotidiana de morte,  
medo e sofrimento.  
A implantação do polo industrial-portuário atende a interesses estratégicos do  
capitalismo global: localização privilegiada, próximo a fontes hidrelétricas e minerárias,  
transformou o município em plataforma de escoamento de commodities.  
Instaura-se assim uma guerra territorial e ontológica: de um lado, a lógica  
predatória das empresas, orientada à exploração intensiva e à produção de zonas de  
sacrifício; de outro, as ontologias comunitárias, baseadas no cuidado com a terra e na  
compreensão do território como espaço de vida, memória e ancestralidade. O conflito  
materializa-se em sucessivos desastres socioambientais – entre 2000 e 2025, ao menos  
29 eventos foram registrados (Hazeu, 2025), número mínimo diante da ausência de  
fiscalização permanente. Esse padrão estrutural de violência reflete-se na saúde: mortes  
por câncer cresceram 636% (2000-2022), muito acima do crescimento populacional de  
100% (Palmquist; Barbosa, 2024). A contaminação por metais pesados atinge  
diretamente os corpos: alumínio 35 vezes acima do referencial, chumbo nove vezes  
superior, bário em níveis até 50 vezes maiores (Hazeu, 2025).  
A recorrência dos danos é agravada pela postura empresarial e pela falha  
sistemática do Estado na fiscalização, com informações falsas e automonitoramento  
ineficaz. As operações do complexo industrial constituem a principal fonte de poluição  
crônica. É nesse contexto de violência contínua e desproteção institucional que as  
comunidades tradicionais constroem os protocolos de consulta como instrumentos de  
defesa, afirmação territorial e produção de normatividade própria.  
A elaboração dos protocolos de consulta pelas comunidades tradicionais de  
Barcarena não se constituiu como um ato burocrático. Tratou-se, antes, de um processo  
profundamente político no que diz respeito à existência e resistência de cada  
comunidade. As assembleias, rodas de conversa e os registros construídos  
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coletivamente nascem como formas de narrar a própria história e de transformar a  
memória em norma. Nesses espaços, a palavra circulou de maneira horizontal e situada,  
os idosos resgataram lembranças de expulsões, deslocamentos forçados e processos de  
retomada territorial. É o caso da memória viva de Raimunda Goes Espíndula da  
comunidade do Rio Tauá, cujo relato sintetiza a violência da expropriação e a destruição  
da autonomia alimentar:  
Nós não comprávamos café, nós tínhamos tudo ali no Tauá onde nós  
morávamos. Lá eu tive cinco filhos. Nós saímos de lá porque essa firma nos  
jogou na rua. Foi um sofrimento para todos nós. Deixamos tudo, até a roça  
de verão. Recebemos oitenta e um cruzeiros de indenização, compramos uma  
calça, um sapato e uma camisa. No Tauá nós não passávamos necessidades.  
Lá tinha tudo. Quando viemos para colônia do CDI, quase meus filhos morrem  
de fome. Lá eles falavam que iriam passar o trator em cima da minha casa  
com os meus filhos dentro. Nos deram quinze dias para sair de lá e então  
viemos para colônia. No Tauá nós tínhamos arroz, milho, muita farinha, feijão,  
mandioca, tínhamos muitas roças. Até canavial nós tínhamos, comíamos  
muita caça: veado, tatu, paca, cutia. Só as frutas davam para nossa  
alimentação. Vendíamos as frutas para os marreteiros que compravam para  
vender  
em  
Belém.  
(COMUNIDADE  
QUILOMBOLA-INDÍGENA-  
AGROEXTRATIVISTA DO RIO TAUÁ, 2024, p. 17)  
A força desse gesto de narrar e de transcrever relatos como o de Dona Raimunda  
para dentro de um protocolo de consulta não reside apenas no conteúdo produzido,  
mas no modo como a vida vivida se converte em escrita normativa, mulheres  
compartilharam práticas de cuidado, espiritualidade e resistência cotidiana; jovens e  
crianças participaram ativamente por meio de desenhos, poesias e falas que expressam  
os olhares e afetos das novas gerações.  
Essa experiência conecta-se diretamente ao direito assegurado pela Convenção  
nº 169 da OIT, ratificada pelo Brasil em 2004, que estabelece a obrigatoriedade da  
consulta prévia, livre e informada aos povos indígenas e comunidades tradicionais  
sempre que medidas administrativas ou legislativas possam afetá-los diretamente. A  
Convenção nº 169 da OIT trata, entre outros assuntos, da preservação da integridade  
étnica, cultural e religiosa dos indígenas, dos direitos originários sobre as terras que  
ocupam e sobre os recursos naturais nelas existentes, garantindo a igualdade de direitos  
entre indígenas e não indígenas, sobretudo no que tange à efetividade dos direitos  
humanos (Costa, Hazeu, 2022).  
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No entanto, ao elaborarem seus próprios protocolos de consulta, as  
comunidades de Barcarena não apenas exercem esse direito, elas o radicalizam. Ao  
definir autonomamente os procedimentos, os tempos, os critérios e as condições sob as  
quais a consulta deve ocorrer, transformam um direito internacional abstrato em prática  
concreta de autonomia territorial e política, deslocando o centro decisório do Estado e  
das empresas para o interior da vida comunitária.  
Nesse sentido, os protocolos de consulta podem ser compreendidos como  
escrevivências comunitárias. Neles, a experiência cotidiana, a memória ancestral e o  
sofrimento historicamente imposto ao território são transformados em narrativa  
política coletiva. Cada página carrega o testemunho de modos de vida que insistem em  
existir frente às violências coloniais, capitalistas e neoliberais que marcam a história de  
Barcarena. Contudo, esses documentos não se limitam à dimensão narrativa, ao mesmo  
tempo em que se enraízam na escrevivência, eles a transbordam.  
Por essa razão, cada protocolo de consulta não pode ser lido como testemunho  
ou como reivindicação política dirigida ao Estado, mas como um verdadeiro ato de  
jurisgrafia. O desenho de uma criança, o relato de uma anciã, a palavra de uma rezadeira  
ou de um agricultor deixam de ser meros registros simbólicos e passam a constituir  
normatividade coletiva.  
A própria cronologia de elaboração dos protocolos de consulta evidencia essa  
força criadora. O Gibrié de São Lourenço foi pioneiro ao aprovar seu protocolo de  
consulta em 2017, em um contexto de enfrentamento direto às pressões do governo  
municipal e estadual, da multinacional norueguesa Hydro e de outras empresas do polo  
industrial. O Sítio Conceição iniciou seu processo no mesmo ano, mas apenas concluiu  
o documento em 2022, após um longo percurso de retomada territorial e de  
reafirmação identitária profundamente marcado pela espiritualidade. O Acuí aprovou  
seu protocolo de consulta em dezembro de 2022, após participar de encontros  
intercomunitários que fortaleceram a compreensão da identidade ancestral como  
elemento estratégico de defesa do território, em um processo construído por meio de  
reuniões ampliadas e rodas de conversa. Já o Rio Tauá consolidou seu protocolo de  
consulta em setembro de 2024, após nove encontros comunitários intensamente  
marcados pela oralidade, pela participação das mulheres e das crianças, inspirando-se  
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nas experiências das demais comunidades e articulando diferentes frentes de  
mobilização e luta territorial.  
Essa linha do tempo está longe de ser uma simples sucessão cronológica de  
documentos. Ela mostra que cada protocolo de consulta foi gestado no calor das  
ameaças, dos conflitos e das estratégias de resistência, sem modelos externos impostos,  
mas a partir da oralidade, da ancestralidade e da experiência compartilhada. Cada  
comunidade escreveu não aquilo que poderia agradar às instituições, mas aquilo que  
precisava garantir para continuar existindo.  
Entretanto a análise comparativa dos protocolos de consulta evidencia que o  
movimento de jurisgrafia não se manifesta de forma homogênea entre os documentos  
elaborados pelas comunidades tradicionais de Barcarena. Enquanto alguns protocolos  
de consulta incorporam de maneira orgânica os relatos, as memórias e as experiências  
vividas como parte constitutiva do próprio processo de consulta — fazendo da narrativa  
comunitária um fundamento normativo —, outros assumem uma escrita  
predominantemente técnica e juridicizada, fortemente ancorada nos dispositivos da  
Convenção nº 169 da OIT e em categorias do direito estatal. Nesses casos, a história  
aparece condensada em textos densos, formalizados e distanciados da oralidade,  
deslocando a centralidade da vida vivida para a centralidade da linguagem jurídica.  
Quando a fala situada das comunidades deixa de atravessar o documento como  
força viva e passa a ser mediada quase exclusivamente por uma gramática jurídica  
especializada, corre-se o risco de produzir uma forma sutil de exclusão simbólica. O  
protocolo de consulta permanece formalmente “da” comunidade, mas já não fala  
necessariamente com a comunidade. A norma se consolida no papel, mas a experiência  
que a sustenta torna-se menos visível, menos reconhecível e menos transmissível no  
interior do próprio território.  
Essa tensão revela uma questão fundamental: os protocolos de consulta se  
constroem como instrumentos de dentro para fora, enraizados na história, na memória  
e na oralidade comunitária, ou passam a operar prioritariamente como documentos  
voltados para fora, dirigidos ao Estado, às empresas e às instâncias jurídicas, ainda que  
falem em nome da comunidade? Tal pergunta não busca hierarquizar ou invalidar  
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diferentes formas de elaboração dos protocolos de consulta, mas explicitar os efeitos  
políticos da juridificação excessiva sobre o caráter insurgente da jurisgrafia.  
Se, por um lado, a linguagem jurídica pode ampliar a capacidade de  
enfrentamento institucional e de reconhecimento formal dos direitos, por outro, sua  
adoção acrítica pode produzir um efeito paradoxal: o enfraquecimento da potência  
normativa da vida. Ao se afastar da oralidade, das imagens, dos relatos nomeados e das  
experiências encarnadas, o protocolo de consulta corre o risco de se converter em um  
instrumento técnico de mediação, mais próximo da lógica do direito estatal do que da  
normatividade comunitária que lhe deu origem.  
Esse risco não decorre de uma escolha autônoma das comunidades, mas das  
múltiplas mediações que atravessam a construção dos protocolos de consulta,  
processos de sistematização externa, exigências institucionais, expectativas jurídicas e  
práticas de editoração que tendem a privilegiar formatos reconhecíveis pelo Estado e  
pelo sistema de justiça. Nesse contexto, a juridificação não pode ser lida como falha  
política, mas como efeito estrutural da necessidade de traduzir a vida comunitária para  
uma linguagem que seja inteligível e aceitável nos espaços de poder.  
O desafio que se coloca, portanto, não é escolher entre oralidade e juridicidade,  
nem opor narrativa e norma, mas sustentar uma escrita capaz de manter o vínculo entre  
experiência, território e decisão coletiva. Uma jurisgrafia potente não é aquela que  
abdica do direito positivo, mas aquela que o tensiona a partir de dentro, recusando a  
ruptura entre a norma escrita e a vida que a produz. Trata-se de afirmar uma linguagem  
híbrida, em que a oralidade, a imagem, a memória e o relato nomeado não sejam  
acessórios ilustrativos, mas elementos constitutivos da própria normatividade.  
Nesse horizonte, os protocolos de consulta podem operar simultaneamente  
como instrumentos de enfrentamento externo e de fortalecimento interno. Quando a  
comunidade se reconhece no documento que produziu, o protocolo deixa de ser apenas  
um mecanismo jurídico e se torna um arquivo vivo de pertencimento, um dispositivo  
pedagógico de autonomia e uma forma de transmissão intergeracional da história e dos  
limites coletivos. É nesse equilíbrio instável — entre tradução e enraizamento, entre  
juridicidade e vida — que a jurisgrafia preserva sua força insurgente e reafirma que o  
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direito pode, e deve, continuar sendo escrito a partir do chão, da memória e da palavra  
compartilhada.  
4 A IDENTIDADE COMO ENRAIZAMENTO EPISTÊMICO E POLÍTICO DAS COMUNIDADES  
NO TERRITÓRIO DE BARCARENA  
As comunidades tradicionais de Barcarena que elaboraram protocolos de  
consulta carregam histórias entrelaçadas por séculos de colonização, deslocamentos  
forçados e violências ambientais, mas também por continuidades ancestrais de  
resistência, memória e reinvenção cultural. Suas identidades não são como rótulos fixos  
ou categorias jurídicas isoladas; são construções coletivas em permanente atualização,  
que se afirmam no confronto com o poder colonial e capitalista que segue tentando  
desarticular seus modos de vida.  
A Comunidade Quilombola de Gibrié de São Lourenço expressa isso de forma  
emblemática. Constituída a partir da trajetória de descendentes de escravizados que  
resistiram ao esvaziamento simbólico de sua existência, a comunidade preserva práticas  
culturais, religiosas e territoriais que a vinculam à ancestralidade. Aqui, o quilombo não  
é apenas um marcador jurídico reconhecido pelo Estado, mas uma experiência histórica  
de liberdade em movimento, que se prolonga na atualidade como projeto político de  
autonomia. Para se enquadrar na legislação dominante que precisa de denominações  
fechadas, a comunidade se cadastrou como quilombola, mas no seu nome apresenta a  
sua identidade plural e particular por inserir a sua ancestralidade indígena Gibrié,  
buscando a sua autoafirmação e ao mesmo tempo acessar direitos. O protocolo de  
consulta da comunidade é, portanto, um ato de jurisgrafia: nele, a memória coletiva se  
transforma em norma, e a identidade indígena-quilombola se afirma como arma contra  
as tentativas de apagamento.  
No Sítio Conceição, a identidade se entrelaça de maneira profunda com a  
religiosidade de matriz africana e com a sacralidade do território. O reconhecimento  
como comunidade tradicional ultrapassa o aspecto étnico e assume dimensão espiritual:  
o território é visto como espaço de cuidado, memória e transmissão de valores  
ancestrais. O protocolo de consulta escrito pelo Sítio não é, nesse sentido, apenas uma  
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reivindicação política, mas também um registro espiritual normativo, que faz da reza, da  
memória e dos símbolos sagrados normas vivas.  
A Comunidade do Acuí, por sua vez, organiza-se em torno do agroextrativismo e  
da vida coletiva que gira em torno da pesca, do cultivo e da partilha da terra e das águas.  
Sua identidade não se limita a uma forma de sustento econômico, mas constitui um ato  
político de resistência ao avanço das fronteiras industriais e fundiárias. O  
agroextrativismo, nesse caso, é prática ancestral de sustentabilidade e reciprocidade,  
que se inscreve no protocolo de consulta como norma comunitária de preservação. O  
Acuí afirma, em seu protocolo de consulta, que o tempo do rio, da pesca, do plantio e  
da colheita é lei. Na elaboração do protocolo de consulta e sua incorporação na vida da  
comunidade, os moradores, além de se apresentar como agricultores e  
agroextrativistas, afirmam sua ancestralidade indígena e depois de finalizar e publicar o  
Protocolo, durante apresentações da comunidade em espaços de representação, as  
lideranças começaram a se autoidentificar como indígenas, Murtigura. O processo da  
elaboração do Protocolo possibilitou acessar a essência identitária, que se tornou  
palavra falada depois de um escrito ainda reservado e tímido no Protocolo. Trata-se de  
uma jurisgrafia temporal, que recusa a aceleração predatória do capital e inscreve a vida  
como critério normativo.  
A Comunidade Quilombola-Indígena-Agroextrativista do Rio Tauá talvez seja a  
que mais evidencia a complexidade identitária presente em Barcarena. Ao reivindicar  
simultaneamente os pertencimentos quilombola, indígena e agroextrativista, a  
comunidade recusa a fragmentação imposta pelo Estado e pelo direito oficial, que  
exigem classificações únicas e estáveis. Essa pluralidade é resultado direto da violência  
colonial que embaralhou e apagou pertencimentos, mas também é potência política,  
porque transforma a multiplicidade em resistência. A comunidade Rio Tauá se apresenta  
na sua diversidade, característica da Amazônia e do que Antônio Bispo dos Santos  
explica quando diz: “Enquanto a sociedade se faz com os iguais, a comunidade se faz  
com os diversos (...) Para os diversais, não se trata de desenvolver, mas de envolver”  
(Santos, 2023, p. 16). O protocolo de consulta do Rio Tauá, nesse sentido, é uma  
jurisgrafia cartográfica: ao mesmo tempo em que inscreve identidades diversas,  
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desenha um mapa insurgente que afirma que a lei comunitária é plural e não cabe nas  
categorias homogêneas do Estado.  
O que une todas essas experiências é o fato de que a identidade não é um dado  
fixo, mas uma narrativa em disputa. Contra o que Clóvis Moura descreveu como a  
tentativa de transformar negros em sujeitos “ahistóricos”, essas comunidades se  
afirmam como agentes coletivos dinâmicos, capazes de ressignificar passados e projetar  
futuros comuns. Nas palavras de Moura (1983, p. 125):  
O sistema competitivo inerente ao modelo capitalismo dependente, ao  
tempo em que remanipula os símbolos escravistas contra o negro procura  
apagar a sua memória histórica e étnica, a fim de que ele fique como homem  
flutuante, ahistórico. Porque situá-lo historicamente é vê-lo como agente  
coletivo dinâmico/radical.  
Os processos de expropriação expõem a face perversa da exteriorização dos  
custos do capital: destrói-se a soberania das comunidades para transformar o sujeito  
autônomo em um "homem flutuante" e miserável  
A colonialidade, como lembra Aníbal Quijano (2005), nunca se limitou a explorar  
corpos e territórios, mas atuou sobre a memória, o imaginário e a capacidade de narrar  
a própria história. Controlar o trabalho e a terra sempre esteve acompanhado do  
controle do pensamento e da palavra, reduzindo povos inteiros à condição de objetos  
da história, e não de sujeitos. É nesse ponto que os protocolos de consulta se afirmam  
como gestos de resistência radical: ao registrar a palavra comunitária, ao codificar  
modos próprios de decidir, ao narrar sua história em sua própria voz, eles subvertem o  
que a colonialidade buscou impor.  
Os quatro protocolos emergem de um mesmo horizonte de violência estrutural:  
expansão industrial predatória, grilagem/cercamento de territórios, judicialização e  
despejos, contaminação hídrica e omissão/colusão estatal. Em Barcarena, esse arranjo  
não é episódico; é um padrão.  
Desde meados dos anos 2000, a região de Barcarena acumula desastres  
socioambientais e operações de força que têm empurrado comunidades para as  
margens — literalmente, para as beiras de rios contaminados ou para longe desses  
corpos d'água que eram fonte de vida, como apontado antes neste texto.  
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No plano fundiário-político, a violência se manifesta por meio de cercas, polícia  
e cartórios: reintegrações de posse, ordens de desocupação e a criminalização de  
moradores tradicionais como "invasores", como na retirada forçada de famílias da  
comunidade Rio Tauá em 2017. Soma-se a isso a tentativa de leilão de áreas por entes  
estatais (Codec, Codebar), que levou comunidades a se articularem em redes como o  
Barcarena Livre para barrar a alienação dos territórios.  
Esse arranjo compõe o que Achille Mbembe (2018) conceitua como  
necropolítica: um regime no qual Estado e capital decidem quais vidas podem ser  
expostas ao risco, à morte lenta, ao envenenamento cotidiano — e quais terão proteção.  
Em Barcarena, a política da morte se operacionaliza no tempo longo dos contaminantes  
e no tempo curto dos desastres e das operações de despejo, convertendo territórios  
tradicionais em zonas de sacrifício. Um termo que geralmente descreve uma área que  
foi tão gravemente afetada por (por exemplo) poluição ou expansão industrial (e, muitas  
vezes, por extensão, priorizando o lucro em detrimento das pessoas que vivem nela)  
que não consegue mais sustentar uma vida significativa (Castro, 2019). Portanto, foi  
sacrificada em nome de interesses políticos, comerciais ou econômicos.  
A lógica necropolítica não depende sempre do tiro; pode ser a água imprópria,  
a ponte derrubada, o roçado destruído, a burocracia que nega a existência. É por isso  
que os protocolos de consulta importam: eles interrompem essa gramática, recolocando  
as comunidades como sujeitos de decisão, definindo como, quando e por quem serão  
consultadas, e em que condições dizem sim ou não.  
Em termos práticos, os protocolos de consulta funcionam como blindagem  
comunitária em pelo menos quatro frentes:  
1. Juridicamente, explicitam o direito à Consulta Prévia, Livre e Informada  
(Convenção nº 169/OIT) e as condições de consentimento e veto, deslocando  
o ônus do ouvir para o respeitar.  
2. Politicamente, forjam unidade interna e critérios de deliberação em  
assembleia, reduzindo a vulnerabilidade a coações, captura de lideranças e  
“consultas de fachada”.  
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3. Socioambientalmente, documentam usos tradicionais da terra e da água e os  
impactos acumulados, reforçando a exigência de medidas de reparação e não  
repetição.  
4. Publicamente, expõem quem são os agentes do dano e como operam,  
enfrentando a retórica que converte comunidades em “entraves ao  
progresso”.  
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Em síntese, as ameaças são sistêmicas — derramamentos, explosões, grilagem,  
judicialização seletiva, omissão estatal — e, por isso, a resposta precisa ser sistêmica. Os  
protocolos de consulta são essa resposta: instrumentos de autonomia que, ao mesmo  
tempo, documentam a violência e instituem regras próprias para qualquer intervenção.  
Quando comunidades dizem que “consulta não é audiência pública” e que “nosso  
território, nossas regras”, não é retórica — é um projeto de proteção da vida diante de  
um arranjo que historicamente produziu desproteção.  
Ao percorrer a trajetória histórica e política das comunidades tradicionais de  
Barcarena, este trabalho evidencia que o município não pode ser assimilado apenas  
como um polo logístico-industrial estratégico para o capital global. Trata-se, antes, do  
epicentro de uma verdadeira guerra ontológica, na qual se confrontam projetos  
radicalmente distintos de existência, de território e de futuro. Aquilo que os relatórios  
técnicos tornam visível — como o crescimento nas mortes por câncer e a presença  
sistemática de metais pesados nos corpos das populações locais — não constitui um  
acidente ambiental isolado, mas a materialização de uma gramática da morte inscrita  
pelo capitalismo neoliberal sobre o território amazônico. Essa gramática, longe de ser  
apenas econômica, é também jurídica: ela é continuamente autorizada e estabilizada  
pelo monismo jurídico estatal, que monopoliza a produção legítima do direito enquanto  
naturaliza a exposição de determinados territórios e populações ao risco permanente.  
Nesse cenário, o Direito oficial não falha por simples omissão ou incapacidade  
regulatória. Ao contrário, ele opera como uma sofisticada tecnologia de sacrifício,  
responsável por gerir, administrar e distribuir a morte de forma seletiva no interior da  
ordem jurídica. Ao legitimar regimes de licenciamento ambiental permissivos,  
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flexibilizações normativas e dispositivos de excepcionalidade territorial, o aparato  
jurídico estatal seleciona quais territórios podem ser degradados, quais corpos podem  
ser intoxicados e quais comunidades podem ser transformadas em zonas permanentes  
de exposição tóxica em nome da retórica desenvolvimentista do “progresso”.  
Contudo, a análise dos Protocolos de Consulta elaborados pelas comunidades  
Gibrié de São Lourenço, Sítio Conceição, Acuí e Rio Tauá revela que o território está  
longe de constituir um vazio normativo ou uma simples área de incidência do direito  
estatal. Ao contrário, nele se produz uma outra gramática jurídica. A emergência daquilo  
que aqui se denomina Jurisgrafia marca o rompimento com a condição historicamente  
imposta de “população exposta” e inaugura o nascimento do sujeito coletivo legislador.  
Ao capturarem estrategicamente a tecnologia da escrita — historicamente  
monopolizada pelas instituições coloniais do Estado e do mercado — essas comunidades  
não estão apenas formalizando costumes ou registrando práticas culturais. Estão  
operando uma verdadeira insurgência documental.  
Nesse processo, a escrevivência da dor, da memória e da experiência cotidiana  
da violência territorial é convertida em norma prescritiva. Cada protocolo transforma-  
se, assim, em um dispositivo político-jurídico através do qual as comunidades grafam no  
papel os limites que o trator da indústria, a lógica extrativista e o aparato estatal não  
podem mais atravessar sem confrontar uma soberania territorial que o Estado insiste  
em negar, mas que o território já instituiu como prática viva de autodeterminação.  
O diferencial ético e político dessa jurisgrafia reside precisamente na natureza  
de sua validade normativa. Enquanto o Direito estatal positivista sustenta sua eficácia  
na coerção institucional, na ameaça da sanção e no monopólio da violência legítima, a  
normatividade comunitária que emerge em Barcarena funda-se em um princípio  
radicalmente distinto, a aderência vital. A norma comunitária não se impõe pela força;  
ela se sustenta pela identificação coletiva entre regra e vida. O morador adere ao  
protocolo porque reconhece nele a continuidade de sua própria existência — a  
integridade de seu corpo, a pureza das águas que o alimentam, a permanência da  
floresta que sustenta sua ancestralidade. Trata-se, portanto, de uma legalidade do  
pertencimento, na qual obedecer à norma não significa submeter-se a uma autoridade  
externa, mas preservar as condições materiais e simbólicas da própria vida coletiva.  
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O veto comunitário inscrito nesses protocolos emerge como uma das mais  
potentes ferramentas de desidratação da hegemonia político-territorial do polo  
industrial. A jurisgrafia comunitária revela que o ordenamento das cidades não pode  
mais ser concebido como um monólogo tecnocrático produzido por corporações,  
consultorias e burocracias estatais. Ao afirmarem coletivamente o direito de dizer “não”  
à flexibilização de salvaguardas ambientais e territoriais, as comunidades tradicionais  
transformam seus protocolos em verdadeiros dispositivos de contra-planejamento  
urbano, devolvendo à assembleia popular o poder de decidir sobre o destino das águas,  
da terra e dos modos de vida que sustentam o território.  
Em última instância, os Protocolos de Consulta de Barcarena demonstram que,  
onde o capital decretou uma zona de sacrifício, a resistência coletiva instituiu uma zona  
de direito próprio. A jurisgrafia comunitária aponta, assim, para o horizonte de um  
futuro jurídico que não será concedido por benevolência institucional nem produzido  
exclusivamente pelos aparelhos formais do Estado. Trata-se de um futuro que emerge  
das bordas do sistema jurídico, arrancado na luta cotidiana das comunidades e grafado  
na página com a tinta densa da memória, da experiência e da insurgência territorial.  
Nesse gesto político radical, a vida se recusa a permanecer estatística e converte-se,  
insurgentemente, em lei.  
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Consulta de Gibrié de São Lourenço. Barcarena, PA, 2017.  
ASSOCIAÇÃO DA COMUNIDADE QUILOMBOLA INDÍGENA SÍTIO CONCEIÇÃO. Protocolo  
de Consulta Livre, Prévia e Informada do Território Quilombola Sítio Conceição.  
Barcarena, PA, 2022.  
ASSOCIAÇÃO DOS TRABALHADORES RURAL DO ACUI. Protocolo de Consulta Prévia,  
Livre e Informada da Comunidade Tradicional Acui. Barcarena, PA, 2022.  
COMUNIDADE QUILOMBOLA-INDÍGENA-AGROEXTRATIVISTA DO RIO TAUÁ. Protocolo  
de Consulta Prévia, Livre e Informada da Comunidade Quilombola-Indígena-  
Agroextrativista do Rio Tauá. Barcarena, PA, 2024.  
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_____________________________________________________  
SOBRE O(A) AUTOR(A)  
Marcel Hazeu  
Graduação em Ciências Ambientais e mestrado em Ciências Ambientais pela Universidade de Wageningen  
(Holanda); mestrado em Planejamento do Desenvolvimento e doutorado em Desenvolvimento  
socioambiental pela Universidade Federal do Pará (UFPA)/Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Brasil).  
Pós-Graduação em Estudos Humanitários pela Universidade Erasmus de Roterdã. Professor/pesquisador  
da Faculdade de Serviço Social na UFPA e do Programa de Pós-Graduação de Serviço Social. Líder do Grupo  
de pesquisa Sociedade, Território e Resistências na Amazônia (GESTERRA/PPGSS/ISA/UFPA) e membro do  
grupo de pesquisa Trabalho, Empresas e Mercados Globalizados (GETTAM/NAEA/UFPA). Pesquisador e  
articulador voluntário da Sociedade de Defesa dos Direitos Sexuais na Amazônia (Sodireitos). Pesquisa e  
atua na área de Ciência Interdisciplinar e Ciências Socioambientais, com ênfase nos estudos críticos e  
decoloniais na Amazônia. Trabalho com os seguintes temas: Formação Social, Migrações, Conflitos  
Socioambientais, Grandes Projetos, Deslocamentos Forçados, Desenvolvimento Regional, Movimentos  
Sociais, Amazônia, Comunidades e Povos Tradicionais, Tráfico de Pessoas, Infância e Adolescência e  
Direitos Sexuais  
Jorge Henrique Cardoso dos Santos  
Graduando em Serviço Social pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Bolsista PIBIC no Centro de  
Estudos sobre Sustentabilidade, Povos Tradicionais e Educação na Amazônia (CESPE), desenvolvendo  
pesquisa sobre protocolos de consulta às comunidades tradicionais. Integra o grupo de pesquisa  
Sociedade, Território e Resistência na Amazônia (GESTERRA), voltado à reflexão crítica sobre relações  
entre território, justiça socioambiental e comunidades tradicionais. Possui interesse em justiça  
socioambiental, ecologia dos saberes, direitos humanos, neurodiversidade e práticas emancipatórias  
voltadas às populações amazônicas. Busca articular saberes tradicionais e científicos na construção de  
estratégias para o bem viver e para a inclusão social em contextos marcados pela colonialidade e pelas  
desigualdades estruturaisCurrículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8779053511173502  
COMO CITAR ESTE ARTIGO  
HAZEU, Marcel Theodoor; CARDOSO DOS SANTOS, Jorge Henrique. Jurisgrafia e escrevivência contra a  
gramática da morte: experiências de autonomia comunitária em Barcarena (Amazônia brasileira).  
Passagens: Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do  
Ceará, Fortaleza, v. 17, n. especial, p. e97578 ,2026.  
RECEBIDO EM: 20/08/2026  
ACEITO EM: 27/08/2026  
PUBLICADO EM: 23/09/2026  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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UMA ANÁLISE SOBRE O USO DOS RECURSOS SEMIÓTICOS NAS  
ESTRATÉGIAS DE GREENWASHING NO BRASIL  
AN ANALYSIS OF THE USE OF SEMIOTIC RESOURCES IN  
GREENWASHING STRATEGIES IN BRAZIL  
UN ANÁLISIS SOBRE EL USO DE LOS RECURSOS  
SEMIÓTICOS EN LAS ESTRATEGIAS DE GREENWASHING EN  
BRASIL  
_____________________________________________________  
Leda Maria Pereira Monteiro  
Universidade Federal do Pará  
Fábio Pezzi Parode  
Universidade Federal do Ceará | Universidade Federal do Pará  
Danielly Oliveira Inomata  
Universidade Federal do Amazonas  
Resumo: O artigo analisa como os recursos semióticos são utilizados por empresas brasileiras como  
estratégia de greenwashing para promover uma imagem de sustentabilidade, mesmo diante de  
práticas não alinhadas ao discurso socioambiental. Busca-se compreender como o uso de imagens,  
cores, símbolos e linguagens e referências a biomas, como a Amazônia, são utilizados na  
comunicação e marketing empresarial para produzir sentidos, com o objetivo de manipular a  
percepção do público e consolidar uma imagem de compromisso com a proteção do meio ambiente.  
A discussão percorre ainda sobre a utilização da arte e da cultura como recursos simbólicos que  
permitem relacionar marcas e produtos a valores de responsabilidade socioambiental, promovendo  
legitimidade aos discursos empresariais. Como estudo de caso, analisou-se a atuação da empresa  
Cargill, na região Amazônica. A análise considerou a contradição entre o discurso de sustentabilidade  
da empresa com os questionamentos da sociedade civil e acusações de uso de estratégias de  
greenwashing relacionadas às suas atividades na região. O resultado da análise indica que o uso de  
recursos semióticos apresenta um papel estratégico na construção de uma identidade sustentável  
das organizações, contribuindo para associá-las a valores de preservação ambiental, de  
desenvolvimento sustentável e de responsabilidade social. E como essa construção pode favorecer  
as empresas para possíveis estratégias de greenwashing.  
Palavras-chave: Greenwashing; Semiótica; Sustentabilidade.  
Abstract: This article analyzes how Brazilian companies employ semiotic resources as a greenwashing  
strategy to project an image of sustainability, even when their practices do not align with their stated  
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socio-environmental commitments. It seeks to understand how elements such as images, colors,  
symbols, language, and references to biomes—specifically the Amazon—are used in corporate  
communication and marketing to construct meaning, aiming to manipulate public perception and  
establish an image of environmental commitment. The discussion also explores the use of art and  
culture as symbolic resources that link brands and products to values of socio-environmental  
responsibility, thereby lending legitimacy to corporate narratives. Cargill’s operations in the Amazon  
region served as the case study. The analysis examined the contradiction between the company's  
sustainability rhetoric and the concerns raised by civil society—including accusations of  
greenwashing—regarding its activities in the area. The findings indicate that semiotic resources play  
a strategic role in shaping a sustainable organizational identity, helping to associate companies with  
values such as environmental preservation, sustainable development, and social responsibility, while  
also potentially facilitating greenwashing strategies.  
Keywords: Greenwashing; Semiotics; Sustainability.  
Resumen: El artículo analiza cómo los recursos semióticos son utilizados por empresas brasileñas  
como estrategia de greenwashing para promover una imagen de sostenibilidad, incluso ante  
prácticas que no están alineadas con el discurso socioambiental. Se busca comprender cómo el uso  
de imágenes, colores, símbolos, lenguajes y referencias a biomas, como la Amazonía, son empleados  
en la comunicación y el marketing empresarial para producir significados, con el objetivo de  
manipular la percepción del público y consolidar una imagen de compromiso con la protección del  
medio ambiente. La discusión también aborda el uso del arte y la cultura como recursos simbólicos  
que permiten relacionar marcas y productos con valores de responsabilidad socioambiental,  
otorgando legitimidad a los discursos empresariales. Como estudio de caso, se analizó la actuación  
de la empresa Cargill en la región amazónica. El análisis consideró la contradicción entre el discurso  
de sostenibilidad de la empresa y los cuestionamientos de la sociedad civil, así como las acusaciones  
de uso de estrategias de greenwashing relacionadas con sus actividades en la región. Los resultados  
del análisis indican que el uso de recursos semióticos desempeña un papel estratégico en la  
construcción de una identidad sostenible de las organizaciones, contribuyendo a asociarlas con  
valores de preservación ambiental, desarrollo sostenible y responsabilidad social. Asimismo, esta  
construcción puede favorecer a las empresas en el desarrollo de posibles estrategias de  
greenwashing.  
Palabras clave: Greenwashing; Semiótica; Sostenibilidad.  
1 INTRODUÇÃO  
Nos últimos anos a sustentabilidade vem ganhando destaque nas práticas  
empresariais e deixou de ser apenas um diferencial competitivo para se tornar uma  
exigência ética e social no âmbito organizacional. A “era da sustentabilidade" marca uma  
mudança profunda no âmbito das estratégias organizacionais, refletindo a crescente  
pressão de consumidores, investidores e da legislação por posturas mais responsáveis e  
transparentes. Porém, na corrida para conquistar o mercado consumidor e  
investimentos, algumas empresas buscam melhorar sua imagem pública recorrendo a  
práticas de greenwashing.  
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O greenwashing é uma prática de marketing utilizada por organizações que tem  
como objetivo enganar consumidores, investidores e acionistas, fazendo com que  
percebam essas empresas como ambientalmente corretas, quando, na verdade, não  
são. Cabe considerar ainda, situações em que as organizações cometem certos exageros  
ou distorções sobre o impacto ambiental positivo de um produto ou serviço (Claro,  
2024).  
Essas estratégias enganosas de marketing utilizam recursos semióticos para  
construir mensagens visuais e linguísticas que permitem associar a marca a valores e  
princípios de sustentabilidade.  
A semiótica, por sua vez, é a ciência que estuda os signos em todas as suas  
manifestações. Analisa como os signos produzem sentido, por meio dos seus sistemas e  
processos e os efeitos do seu uso. Dedica-se a tudo aquilo que, de alguma forma,  
representa algo para alguém (Santaella, 1983; Noth; Santaella, 2021).  
Nas estratégias de greenwashing a semiótica pode ser analisada como uma  
ferramenta essencial para compreender como os signos (como cores, palavras, imagens  
e símbolos) são utilizados de forma estratégica para construir uma imagem de empresa  
preocupada com o meio ambiente. Desta forma, o uso estratégico dos signos, ou  
mudanças de significados, pode manipular a percepção das pessoas sem que aquela  
organização tenha promovido qualquer mudança no seu modo de produção que  
amenize os impactos socioambientais (Ribeiro, 2022). Ademais, elementos da arte e da  
cultura representam importantes campos simbólicos na construção de significados  
relacionados à sustentabilidade, uma vez que, para Castells (2018), a identidade é  
construída a partir de atributos culturais que servem como fontes de significado para os  
atores sociais.  
Diante disso, este texto tem como objetivo responder como os recursos  
semióticos vêm sendo utilizados de forma estratégica pelas empresas brasileiras para  
promover uma imagem “ecológica” e “sustentável”, mascarando, em determinadas  
circunstâncias, práticas não alinhadas à sustentabilidade.  
O objetivo geral é investigar como os recursos semióticos são utilizados como  
estratégia de greenwashing para promover uma imagem de sustentabilidade, mesmo  
diante de práticas não alinhadas ao discurso socioambiental. Para isso, foram definidos  
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dois objetivos específicos. O primeiro foi realizar o levantamento, com base na  
literatura, de práticas de greenwashing utilizadas pelas empresas. O segundo foi  
investigar, à luz da literatura e da pesquisa documental, como os recursos semióticos  
são empregados para promover a imagem de responsabilidade socioambiental por  
empresas em situações de incoerência com os princípios da sustentabilidade.  
2 A RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL DAS ORGANIZAÇÕES E AS ESTRATÉGIAS DE  
GREENWASHING  
A sustentabilidade vem sendo utilizada como ferramenta de governança  
corporativa e algumas práticas, direta e indiretamente, contribuem para a redução de  
custos e aumento dos lucros empresariais. Outras, favorecem a imagem da empresa  
perante a sociedade e investidores (Godoy, 2023). No entanto, a busca pelo rótulo  
“verde”, na era do ESG (Environmental, social and Governance) nem sempre parece  
trilhar o caminho mais responsável e compromissado com a sociedade e o meio  
ambiente. A falsa sustentabilidade é uma prática de “marketing verde” enganosa por  
parte de uma organização, a qual busca criar uma imagem de empresa preocupada com  
os impactos ambientais apenas para atrair consumidores e investidores, visando  
aumentar seus lucros. Esse fenômeno é conhecido como greenwashing (Tozello, 2025).  
2.1 PRÁTICAS DE GREENWASHING NAS ORGANIZAÇÕES  
O greenwashing é uma estratégia utilizada pelas organizações, tanto públicas  
quanto privadas, para enganar consumidores/usuários, acionistas e investidores,  
quanto a adoção de práticas de sustentabilidade. A prática objetiva transmitir a imagem  
de uma empresa ambientalmente correta. Desta forma, as estratégias de marketing e  
comunicação buscam convencer o consumidor que na política daquela empresa são  
incorporados princípios de sustentabilidade, ou seja, que nos seus processos de  
produção de produtos ou serviços são adotadas medidas que minimizam os impactos  
socioambientais, mas na verdade são estratégias adotadas apenas para mascarar o  
verdadeiro objetivo de lucro e do alcance dos resultados organizacionais (Oliveira et al.,  
2019).  
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O termo greenwashing foi definido pela primeira vez em 1986, por Jay  
Westerveld, onde identificou que algumas empresas realizavam práticas superficiais  
para demonstrar suas preocupações com o meio ambiente. Mas a estratégia do  
greenwashing é mais antiga, registros apontam a adoção dessa prática desde a década  
de 1950, e foi se intensificando e se sofisticando cada vez mais no decorrer dos anos  
com o aumento do interesse da sociedade por questões ambientais (Mysirli; Axarli,  
2021).  
No Brasil, no ano de 2011 o Conselho Nacional de Autorregulamentação  
Publicitária (Conar) incluiu no Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária  
normas para tentar conter o avanço de práticas de greenwashing no país. As novas  
regras direcionaram-se a campanhas publicitárias que apresentavam produtos e  
serviços como ecologicamente corretos. Embora a inclusão de novas regras tenha  
representado certo avanço na tentativa de combater práticas de greenwashing, o Conar,  
por ser um órgão de autorregulamentação, tem seu poder de fiscalização limitado,  
necessitando da atuação conjunta das instituições competentes para garantir maior  
efetividade no combate a essas práticas (Lovato, 2013).  
Entre as diversas estratégias de greenwashing, uma bastante utilizada é o  
“esverdeamento parcial”, em que se adota ou divulga ações pontuais e limitadas ligadas  
à sustentabilidade ambiental, como projetos de reflorestamento, por exemplo,  
enquanto a empresa mantém práticas nocivas ao meio ambiente em outras atividades  
significativas de suas operações (Berrone; Fosfuri; Gelabert, 2017). Além disso, os selos  
de certificação ambiental, os chamados “selos verdes”, bastante recorridos pelas  
empresas, também podem ser utilizados como estratégias de greenwashing, uma vez  
que a obtenção desses selos objetiva dar maior credibilidade aos produtos e influenciar  
na decisão de compra dos consumidores (Oliveira et al., 2019). Tais estratégias buscam  
influenciar a opinião pública e desviar a atenção de práticas prejudiciais (Claro, 2024).  
A sofisticação dessas práticas dificulta o consumidor a identificar empresas que  
realmente assumem a sua responsabilidade socioambiental, fabricando seus produtos  
e prestando seus serviços seguindo a legislação ambiental e com consciência sobre a  
importância da preservação do meio ambiente (Fialho; Marquesan, 2018).  
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A perda da confiança do consumidor é uma das consequências arcadas por  
organizações que se aproveitam de práticas de greenwashing. Além de boicotes a seus  
produtos ou serviços e prejuízos a sua reputação (Torelli et al., 2019).  
O avanço tecnológico e o maior acesso à informação por parte da sociedade,  
provocaram mudanças significativas nas estratégias de greenwashing. Isso inclui o uso  
estratégico de recursos semióticos (como linguagem ecológica, símbolos que remetem  
à natureza e design sustentável) em campanhas publicitárias e relatórios institucionais.  
Desta forma, o greenwashing evolui de uma simples distorção da verdade para uma  
narrativa planejada, muitas vezes difícil de ser desmascarada sem uma análise profunda.  
Diante disso, a tecnologia se tornou um instrumento para o aprimoramento dessas  
estratégias, aumentando o desafio ético na comunicação sobre a sustentabilidade nas  
organizações.  
2.2 SEMIÓTICA COMO RECURSO ESTRATÉGICO DE MARKETING  
Charles Sanders Peirce, considerado o pai da semiótica, definiu essa ciência como  
o estudo das representações e da linguagem. Ela investiga os signos e os processos de  
significação, ou semiose, presentes tanto na natureza quanto na cultura. Para Peirce, o  
signo é aquilo que representa um objeto na nossa mente, sendo o meio pelo qual  
compreendemos e interpretamos o mundo. Na semiótica, os fenômenos culturais são  
compreendidos como sistemas de signos que constroem significados e atribuem sentido  
às coisas. Essa abordagem se aplica a qualquer forma de linguagem simbólica, como  
música, fotografia, cinema, artes visuais, design, moda e meios de comunicação (Nicolau  
et al., 2010).  
Ao se referir aos signos, Santaella (1983, p.58), recorre a uma das definições  
apresentadas nos textos de Pierce, explicando que:  
O signo é uma coisa que representa uma outra coisa: seu objeto. Ele só pode  
funcionar como signo se carregar esse poder de representar, substituir uma  
outra coisa diferente dele. Ora, o signo não é o objeto. Ele apenas está no  
lugar do objeto. Portanto, ele só pode representar esse objeto de um certo  
modo e numa certa capacidade. Por exemplo: a palavra casa, a pintura de  
uma casa, o desenho de uma casa, a fotografia de uma casa, o esboço de uma  
casa, um filme de uma casa, a planta baixa de uma casa, a maquete de uma  
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casa, ou mesmo o seu olhar para uma casa, são todos signos do objeto casa.  
Não são a própria casa, nem a ideia geral que temos de casa. Substituem-na,  
apenas, cada um deles de um certo modo que depende da natureza do  
próprio signo. A natureza de uma fotografia não é a mesma de uma planta  
baixa.  
Diante disso, podemos entender que o signo não é a coisa em si, mas algo que  
representa essa coisa para alguém, em algum contexto.  
A semiótica é importante para diversas áreas do conhecimento, sendo bastante  
utilizada na área da comunicação social, como no jornalismo e na publicidade e  
propaganda, contribuindo para a compreensão de como as imagens, sons, discursos  
etc., podem ser utilizados para informar e persuadir e construir estratégias de  
marketing.  
Segundo Compagno (2009), ao investigar os processos de construção de sentido,  
a semiótica evidencia o poder de comunicação dos signos e seu impacto sobre quem os  
interpreta. Por isso, sua aplicação no contexto empresarial se mostra relevante, já que  
a marca, sendo um dos principais ativos de uma organização, constitui um signo onde a  
força é criada e sustentada por meio da comunicação. Ainda para o autor, a marca é um  
signo complexo que se expressa de diversas formas (logotipos, embalagens, sons,  
cores), que deve refletir e comunicar o posicionamento e a identidade da empresa ao  
seu público. Portanto, é passível de análise.  
Nesse sentido, o entendimento da marca como um signo que comunica valores  
e posicionamentos remonta à discussão sobre a construção da identidade  
organizacional. Sobre isso, Castells (2018) defende que a identidade é construída por  
meio de atributos culturais que produzem significados e orientam a forma como  
indivíduos e instituições se apresentam socialmente. Entre os tipos de identidade  
apresentados pelo autor, está a identidade legitimadora, a qual é definida como aquela  
introduzida por instituições dominantes com o objetivo de expandir a sua aceitação  
social e fortalecer sua participação entre diferentes públicos.  
Diante disso, seguindo a lógica de Castells, quando a empresa incorpora  
elementos da arte e da cultura, ela convoca atributos culturais que ajudam a construir  
significados ligados àquela região, à identidade local e a certos valores sociais e  
ambientais, contribuindo, desta forma, para a construção de um universo simbólico em  
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torno da organização, sem precisar recorrer, necessariamente, a propagandas  
tradicionais.  
2.3 OS RECURSOS SEMIÓTICOS E AS ESTRATÉGIAS DE GREENWASHING NAS  
ORGANIZAÇÕES NO BRASIL  
O Brasil é um país que tem cerca de 59% de seu território coberto por florestas,  
com destaque para a maior floresta tropical do mundo, a floresta Amazônica (BRASIL,  
2024). Muitas empresas instaladas no país se aproveitam dessa característica natural  
em suas estratégias de marketing, autointitulando-se como defensoras da floresta e do  
meio ambiente. Nesse processo, a floresta passa a ser não apenas um espaço físico, mas  
também um signo que carrega significados positivos, relacionados à preservação  
ambiental e à sustentabilidade. Essa associação simbólica, muitas vezes, facilita práticas  
de greenwashing.  
Algumas empresas no Brasil são alvos de análise por práticas duvidosas e  
enganosas de sustentabilidade, algumas resultando em denúncias nos órgãos de  
fiscalização. Empresas como a mineradora Vale, Petrobras, Natura e Ambev, por  
exemplo, já tiveram seus relatórios institucionais e campanhas publicitárias avaliados e  
questionados por apresentarem inconsistências entre seus resultados e seus discursos  
ambientais.  
A Petrobras, no estudo realizado por Antoniolli e Gonçalves-Dias (2015), teve  
uma peça publicitária analisada a qual afirmava que a empresa fazia parte do Índice  
Mundial de Sustentabilidade Dow Jones. Porém, após análise realizada por meio de  
técnica de análise semiótica, foi identificado que o discurso ambiental da peça priorizava  
apenas argumentos econômicos, refletindo o benefício de mercado como seu principal  
interesse. Além disso, no aspecto da estética, foram identificadas imagens atrativas que  
remetem à sustentabilidade. Entre essas imagens estavam espaços arborizados e a da  
própria floresta Amazônica.  
Em um outro estudo realizado por Cardoso (2023), sobre greenwashing e  
desinformação, que teve como base a Teoria de Fixação de Crenças proposta por Peirce,  
a empresa Vale S.A teve suas mídias sociais analisadas, buscando identificar práticas de  
greenwashing em campanhas publicitárias da companhia. O estudo apontou que a  
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empresa possui trinta e duas barragens em nível de alerta ou emergência. E entre as  
que estão em nível emergencial, vinte possuem Dano Potencial Associado (DPA)  
classificado como alto. Embora a iminência de mais tragédias ocasionadas por  
rompimento de barragens, como a ocorrida em Brumadinho-MG em 2019, causando  
imensuráveis danos ambientais e sociais, a empresa reforça em suas redes sociais a sua  
responsabilidade socioambiental, dando ênfase ao discurso da sustentabilidade,  
inclusive utilizando o termo “mineração sustentável”. A análise demostra ainda a  
utilização de imagens e signos referentes ao meio ambiente, como florestas e parques,  
além da predominância da cor verde, que é a cor predominante no tema da  
sustentabilidade e está presente na logomarca da empresa.  
De acordo com Lyon e Montgomery (2015), entre as formas de greenwashing  
encontradas na literatura estão narrativas e discursos enganosos que tentam moldar  
opiniões avaliativas sobre o desempenho ambiental da empresa. Ademais, o uso de  
imagens imaginativas, como símbolos de biodiversidade, como plantas e animais,  
apresenta a semiótica como recurso para influenciar a forma como os consumidores  
interpretam a relação entre seus produtos e a sustentabilidade.  
Claro (2024), esclarece que dentre as estratégias encontram-se discursos vagos  
ou genéricos sem fundamentos, o uso de eufemismos, o uso de termos como  
“sustentável”, “ecológico” ou “natural” sem especificações sobre o que significam. Além  
disso, o uso de imagem de natureza ou cores verdes e símbolos que remetem, de forma  
equivocada, à sustentabilidade. Ribeiro (2022) reforça que a semiótica no greenwashing  
busca utilizar conceitos e símbolos popularmente conhecidos, porém, pouco explicam  
sobre os processos utilizados na produção dos produtos que os tornem sustentáveis.  
Ainda para o autor, o mal uso desses recursos semióticos não objetivam esclarecer algo  
ao consumidor, mas sim desinformar e enfraquecer a democracia.  
2.4 ESTUDO DE CASO: CARGILL E A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM DE EMPRESA  
SUSTENTÁVEL NA AMAZÔNIA  
A Cargill é uma multinacional do setor do agronegócio e da indústria de  
alimentos que atua em vários estados brasileiros, principalmente por meio da cadeia de  
produção, armazenamento e escoamento de commodities agrícolas, como a soja e o  
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milho. No estado do Pará, a sua atuação ganhou destaque com a instalação de um  
terminal portuário, localizado no município de Santarém, destinado ao recebimento,  
armazenamento e exportação de grãos. Além de Santarém, a empresa mantém uma  
Estação de Transbordo de Cargas (ETC) no distrito de Miritituba, localizado no município  
de Itaituba, reconhecida por sua importância logística para a exportação de grãos na  
região do Arco Norte do Brasil (Cargill, 2026).  
O discurso socioambiental da empresa tem um importante papel na forma como  
ela se apresenta para o mercado e para a sociedade. A comunicação empresarial utiliza  
diferentes recursos semióticos para transmitir mensagens e construir significados junto  
ao seu público. Em seu site oficial, a Cargill mantém uma página específica dedicada à  
sustentabilidade, apresentando ações prioritárias relacionadas às mudanças climáticas,  
ao uso sustentável da terra, à gestão dos recursos hídricos e aos direitos humanos no  
local de trabalho. Esse posicionamento é reforçado por meio da apresentação de  
relatórios, de realização de campanhas, de produção de materiais publicitários e  
conteúdos divulgados em seus canais de comunicação (Cargill, 2026). Além disso, alguns  
dados sobre o alcance de metas socioambientais aparecem em destaque na parte  
central da página, além de informações sobre as estratégias de sustentabilidade.  
Por meio desses recursos, a organização enfatiza conteúdos relacionados ao  
desenvolvimento sustentável, à conservação dos recursos naturais e ao relacionamento  
com as comunidades locais. Desta forma, infere-se que a sustentabilidade é apresentada  
como um pilar estratégico na construção da sua identidade, ou seja, da imagem de uma  
organização alinhada aos princípios socioambientais, principalmente diante de um  
contexto amazônico.  
Figura 1 – Página de sustentabilidade da Cargill  
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Fonte: Site oficial da Cargill (2026).  
A imagem 1 nos mostra o uso estratégico de recursos semióticos para associar a  
imagem da empresa aos valores da sustentabilidade. A fotografia de uma pessoa  
segurando a terra, pode funcionar como um signo que representa o cuidado com o solo,  
com a preservação dos recursos naturais. Além disso, elementos visuais como imagens  
da natureza, cursos d'água, áreas verdes e trabalhadores em atividades produtivas,  
contribuem para a ideia de equilíbrio entre desenvolvimento econômico e preservação  
ambiental. De acordo com Castells (2018), esses elementos podem ser utilizados para a  
construção de uma identidade legitimadora. Ao utilizar signos popularmente  
relacionados à proteção ambiental e ao desenvolvimento sustentável, a organização  
busca fortalecer sua legitimidade perante o seu público.  
A estratégia prevalece em todo o site, como podemos observar na figura 2, a  
seguir.  
Figura 2 – Elementos semióticos relacionados à sustentabilidade na comunicação institucional  
da Cargill  
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Fonte: Site oficial da Cargill (2026).  
Na figura 2, observamos outro aspecto relevante que se refere à predominância  
da cor verde nos títulos, nas fotografias e elementos gráficos da página. Conforme  
apresentado por Compagno (2009), a marca se expressa por meio de diversos signos,  
que podem incluir cores, imagens e símbolos, que evidenciam valores e  
posicionamentos. Nesse caso, a identidade visual reforça a intenção de associar a marca  
aos princípios de sustentabilidade e ao bem-estar social, por meio de imagens de  
famílias de agricultores.  
Cabe ressaltar ainda, a divulgação de um canal de denúncias na página de  
sustentabilidade. A estratégia pode reforçar a imagem do comprometimento da  
organização com as questões de cunho socioambiental, evidenciando que a empresa  
está aberta para a apuração de denúncias e comprometida com os princípios de  
governança e de conduta ética, elevando o discurso da sustentabilidade para uma  
dimensão mais abrangente, incorporando com mais ênfase as dimensões social,  
institucional e política da sustentabilidade.  
Figura 3 – Elementos semióticos relacionados à sustentabilidade na Amazônia  
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Fonte: YouTube e Instagram da Cargill (2026).  
A figura 3 refere-se à rota logística pelo rio Tapajós, abrangendo estados da  
Amazônia Legal. Nota-se a ênfase no discurso de empresa sustentável, que respeita o  
meio ambiente. Além disso, as imagens buscam incorporar atributos culturais que  
produzem significados que são partilhados pelas comunidades Amazônicas, como a  
culinária regional e modo de vida ribeirinho, com o uso de rabetas, como argumentou  
Castells (2018) sobre o uso de elementos culturais para a construção de identidades.  
Isso é relevante principalmente quando se tem a Amazônia como espaço de atuação.  
2.4.1 Cargill e as acusações de Greenwashing  
Diante da análise de alguns recursos semióticos utilizados pela empresa Cargill  
para a construção de uma imagem de organização comprometida com a preservação do  
meio ambiente e questões sociais, podemos entender que tais recursos produzem  
sentidos que reforçam a identidade organizacional e relacionam a empresa a valores  
considerados positivos pela sociedade. Entretanto, como foi defendido por Lyon e  
Montgomery (2015), práticas de greenwashing se beneficiam justamente da utilização  
de discursos e de símbolos que podem influenciar a percepção pública sobre o  
desempenho socioambiental das organizações.  
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No caso da Cargill, a construção da imagem de empresa sustentável entra em  
contradição com os questionamentos levantados por organizações da sociedade civil e  
pelas comunidades locais acerca dos impactos socioambientais relacionados às suas  
atividades na Amazônia, principalmente em relação à expansão da cadeia da soja e à  
operação de sua infraestrutura logística na região.  
Em 2021, a organização não governamental (ONG) “Terra de Direitos” publicou  
estudos alegando que a Cargill utilizava estratégias de greenwashing ao divulgar uma  
imagem de empresa sustentável, quando, na verdade, suas atividades produziriam  
impactos socioambientais na região do Tapajós. Entre as acusações, está a de que a  
organização nunca demonstrou evidências do cumprimento da legislação ambiental na  
abertura de seus portos e nos processos de logística dos grãos (Terra de Direitos, 2021).  
O relatório intitulado “Sem licença para destruição: Cargill e as falsas soluções para crise  
climática”, produzido pela ONG, aponta que a empresa estaria se beneficiando do  
desmatamento ilegal e contribuindo para o aumento de emissões de gases de efeito  
estufa (GEE), além de relembrar os processos contra a empresa de violação de direitos  
humanos das comunidades locais, que alegam não terem sido consultadas sobre o  
processo de instalação do porto na região (Terra de Direitos, 2021).  
A imagem 3, a seguir, apresenta um trecho do relatório produzido pela ONG  
sobre as denúncias de greenwashing adotadas pela Cargill.  
Figura 3 – Relatório “Sem licença para destruição: Cargill e as falsas soluções  
para crise climática”  
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Fonte: Terra de Direitos (2021).  
O documento questiona a coerência entre o discurso de sustentabilidade  
promovido pela empresa e os impactos atribuídos às suas atividades na região. Além de  
esclarecer do que se trata a prática de greenwashing.  
As críticas direcionadas à Cargill na Amazônia não se limitam somente aos  
estudos produzidos pela organização Terra de Direitos. Diversos ambientalistas e  
entidades de defesa dos direitos humanos, como o Greenpeace, por exemplo, também  
questionam sobre os impactos socioambientais causados pela atuação da organização  
na região.  
Em 2022, o site intitulado “Tapajós de fato” também publicou uma matéria  
questionando as estratégias adotadas pela Cargill para a redução das emissões de gases  
poluentes provenientes do transporte hidroviário utilizado pela empresa, conforme  
figura 4, a seguir.  
Figura 4 – Matéria do site “Tapajós de Fato”  
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Fonte: Tapajós de Fato (2022).  
A publicação apresentou a problemática do uso de metas climáticas voluntárias  
e a proposta de substituir combustíveis fósseis por biocombustíveis para a redução de  
GEE, em contradição à expansão da infraestrutura portuária, da produção de soja e  
milho e dos impactos socioambientais associados às atividades da empresa na região  
Amazônica, caracterizando tais estratégias como práticas de greenwashing.  
Diante de casos como o da empresa Cargill, torna-se fundamental que, além da  
análise dos recursos semióticos utilizados pelas empresas, principalmente as de grande  
porte, a fim de construir uma imagem de organização que adota princípios de  
responsabilidade socioambiental, a sociedade esteja atenta e confronte o discurso de  
sustentabilidade com a realidade sobre os impactos socioambientais das atividades  
empresariais.  
Além disso, outro aspecto passível de análise, como já apresentado  
anteriormente, é a utilização da arte e da cultura como instrumentos de comunicação e  
produção de sentidos por parte das empresas. É comum a incorporação de elementos  
artísticos e culturais de uma região nas estratégias de comunicação e marketing  
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empresarial. Segundo Kellner (2001), a cultura contemporânea encontra-se  
profundamente ligada aos meios de comunicação, onde as imagens, narrativas e  
espetáculos participam da construção de significados, valores e identidades sociais.  
Desta forma, bens artísticos e culturais podem ser manipulados pelas organizações  
como recursos simbólicos, servindo para criar uma relação com a região e com valores  
aceitos pela sociedade.  
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
O estudo buscou apresentar como a semiótica pode ser utilizada por empresas  
em práticas de greenwashing. Constatou-se que empresas instaladas no Brasil utilizam  
recursos semióticos, como a linguagem, imagens, cores, símbolos e até características  
de biomas encontrados no país, como a Amazônia, de forma estratégica para moldar a  
percepção das pessoas sobre a sua imagem de empresa ambientalmente responsável.  
Além disso, enfatizou-se a utilização de atributos culturais para a construção de  
identidade organizacional.  
Espera-se com os resultados desta pesquisa evidenciar a importância de uma  
análise crítica das estratégias adotadas pelas empresas, a fim de identificar práticas  
potencialmente enganosas que se utilizam da semiótica para promover uma imagem  
sustentável que, muitas vezes, não corresponde à realidade. Além disso, busca-se  
contribuir para o fortalecimento da consciência socioambiental dos consumidores e  
para a criação de mecanismos mais eficazes no combate ao greenwashing.  
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SOBRE O(A) AUTOR(A)  
Leda Maria Pereira Monteiro  
Doutoranda em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação  
(PPGCI) da Universidade Federal do Pará (2024). Especialista em Gestão Ambiental pelo Núcleo de Meio  
Ambiente (NUMA) da Universidade Federal do Pará (2020). Mestre em Gestão Pública pelo Núcleo de  
Altos Estudos Amazônicos (NAEA) da Universidade Federal do Pará (2016). Possui graduação em  
Administração pela Universidade Federal do Pará (2013) e ocupante do cargo de Administradora na  
Universidade Federal Rural da Amazônia (2017), onde atualmente exerce suas atribuições na Diretoria de  
Planejamento e Orçamento (DPLO), ligada à Pró-reitoria de Planejamento e Desenvolvimento  
Institucional (PROPLADI) da UFRA.  
Fábio Pezzi Parode  
Doutor em Estética pela Université de Paris 1 - Panthéon Sorbonne (2005), mestrado em Ciências da  
Comunicação pela UNISINOS (2000), Especialista em Design Estratégico pela UNISINOS (2008), graduação  
em Comunicação Social Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1992). Tem  
experiência na área de Comunicação, com ênfase em Estética e Comunicação, atuando principalmente  
nos seguintes temas: arte, estética e comunicação, comunicação visual e design. É professor pesquisador  
em Design, Artes Visuais e Estética, com publicações na área; realiza pesquisa sobre audiovisual, estética  
e processos minoritários. Foi editor do periódico científico Strategic Design Research Journal,  
(www.unisinos.br/sdrj), de 2008 até 2015. É editor-chefe do periódico científico PASSAGENS  
(http://www.periodicos.ufc.br/index.php/passagens) de 2018 até o presente. É membro do Grupo de  
Pesquisa CNPq Semiótica e Estudos da Comunicação - GPESC, liderado pelo profa. Dra. Nísia Martins do  
Rosário - UFRGS; realizou pós-doutorado sobre o tema Arte e Design com supervisão da prof. Dra. Icleia  
Borsa Cattani, do programa de pós-graduação em Artes da UFRGS, realizou pós-doutorado na  
Universidade Federal do Ceará, Centro de Humanidades (Comunicação) sobre Estética, Comunicação e  
Poder com supervisão do prof. Dr. Osmar Gonçalves. Realizou pós-doutorado no Instituto Nacional de  
Ciência e Tecnologia - INCT com coordenação do prof. Dr. Afonso Albuquerque e supervisão do prof. Dr.  
Diógenes Lycarião Barreto de Sousa. Possui Licenciatura em Artes Visuais pela Uninter.  
Danielly Oliveira Inomata  
Doutora em Ciência da Informação (2017), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC/ PGCIN) - Turma  
2013. Mestre em Ciência da Informação (2012) pela UFSC/ PGCIN, Especialista em Planejamento e  
Gerenciamento de Águas (2007) pela Universidade Federal do Amazonas - UFAM, Graduada em  
Biblioteconomia (2005) pela UFAM. Professora da Faculdade de Informação e Comunicação, Curso de  
Biblioteconomia, da UFAM. Professora permanente, do Programa de Pós-Graduação em Informação e  
Comunicação (PPGIC/UFAM) e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, da  
Universidade Federal do Pará (UFPA). Pesquisadora e vice-líder do grupo de pesquisa 'Gestão da  
Informação e do Conhecimento na Amazônia' (UFAM). Coordenadora da Região Norte da Associação  
Brasileira de Educação em Ciência da Informação - ABECIN (Gestão 2025-2028). É avaliadora de periódico  
nacional e internacional. Tem competência de atuar nas áreas de Ciência da Informação, Biblioteconomia;  
Gestão da informação, Gestão do Conhecimento, Fluxos de Informação em ambientes de inovação  
(Parque Tecnológico, Incubadora e startup); Análise, produção, compartilhamento, métricas e consumo  
de conhecimentos: Mulheres na Ciência regional, Fenômenos informacionais (desinformação, fakenews,  
pós-verdade) no contexto ambiental.  
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COMO CITAR ESTE ARTIGO  
PEREIRA MONTEIRO, Leda Maria; PARODE, Fábio Pezzi; INOMATA, Danielly Oliveira. Uma análise sobre o  
uso dos recursos semióticos nas estratégias de Greenwashing no Brasil. Passagens: Revista do  
Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, v. 17, n.  
especial, p. e97557 , 2026.  
RECEBIDO EM: 17/08/2026  
ACEITO EM: 18/08/2026  
PUBLICADO EM: 23/09/2026  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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A IMANÊNCIA DO POLÍTICO? COMUNICAÇÃO INDÍGENA E  
PRESENÇA MẼBÊNGÔKRE-KAYAPÓ NAS REDES SOCIAIS  
THE IMMANENCE OF THE POLITICAL: INDIGENOUS  
COMMUNICATION AND THE MẼBÊNGÔKRE-KAYAPÓ PRESENCE  
ON SOCIAL MEDIA  
¿LA INMANENCIA DE LO POLÍTICO? LA COMUNICACIÓN  
INDÍGENA Y LA PRESENCIA DE LOS MẼBÊNGÔKRE-KAYAPÓ EN  
LAS REDES SOCIALES  
_____________________________________________________  
Wesley Silva  
Universidade Federal do Pará  
Breno Alencar  
Universidade Federal do Pará  
Resumo: Este artigo analisa em que condições práticas comunicacionais de pessoas  
Mẽbêngôkre-Kayapó vinculadas à aldeia A’Ukre podem ser compreendidas como práticas  
políticas em plataformas de redes sociais. Em diálogo com Aristóteles e, sobretudo, com Jacques  
Rancière, articulam-se os conceitos de política, dissenso, partilha do sensível  
e
autorrepresentação. Empiricamente, mobiliza-se um corpus piloto de publicações coletadas,  
desde abril de 2026, no Instagram, a partir de perfis vinculados à aldeia A’Ukre. As publicações  
foram registradas por meio de capturas de tela e sistematizadas em uma tabela de categorização  
que considera autoria, enquadramento, atividade retratada, gênero, práticas culturais e  
contexto. Os resultados preliminares indicam a recorrência de registros relacionados a rituais,  
cerimônias e festividades, sugerindo que o caráter político não decorre automaticamente da  
presença indígena nas plataformas, mas de operações comunicacionais capazes de disputar  
visibilidade, produzir enquadramentos internos e tensionar representações externas. Conclui-  
se que determinadas práticas digitais podem constituir formas de comunicação política, embora  
permaneçam condicionadas pelas infraestruturas e pelas regras corporativas das plataformas.  
Palavras-chave: filosofia política; comunicação política; Mẽbêngôkre-Kayapó; internet; redes  
sociais.  
Abstract: This article analyzes under what conditions the communicative practices of  
Mẽbêngôkre-Kayapó people connected to the village of A’Ukre can be understood as political  
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practices on social media platforms. Drawing on the work of Aristotle and, above all, Jacques  
Rancière, the article explores the concepts of politics, dissent, the sharing of the sensible, and  
self-representation. Empirically, the study draws on a pilot corpus of posts collected since April  
2026 on Instagram from profiles linked to the village of A’Ukre. The posts were recorded via  
screenshots and organized into a categorization table that considers authorship, setting,  
depicted activity, genre, cultural practices, and context. Preliminary results indicate the  
recurrence of posts related to rituals, ceremonies, and festivities, suggesting that political  
character does not automatically stem from the indigenous presence on these platforms, but  
rather from communicational strategies capable of contesting visibility, producing internal  
frames, and challenging external representations. It is concluded that certain digital practices  
may constitute forms of political communication, although they remain conditioned by the  
platforms’ infrastructure and corporate rules.  
Keywords: political philosophy; political communication; Mẽbêngôkre-Kayapó; Internet; social  
media.  
Resumen: Este artículo analiza en qué condiciones las prácticas comunicativas de las personas  
Mẽbêngôkre-Kayapó vinculadas a la aldea de A’Ukre pueden entenderse como prácticas  
políticas en las redes sociales. En diálogo con Aristóteles y, sobre todo, con Jacques Rancière, se  
articulan los conceptos de política, disenso, compartir lo sensible y autorrepresentación. Desde  
un punto de vista empírico, se utiliza un corpus piloto de publicaciones recopiladas, desde abril  
de 2026, en Instagram, a partir de perfiles vinculados a la aldea de A’Ukre. Las publicaciones se  
registraron mediante capturas de pantalla y se sistematizaron en una tabla de categorización  
que tiene en cuenta la autoría, el encuadre, la actividad representada, el género, las prácticas  
culturales y el contexto. Los resultados preliminares indican la recurrencia de registros  
relacionados con rituales, ceremonias y festividades, lo que sugiere que el carácter político no  
se deriva automáticamente de la presencia indígena en las plataformas, sino de operaciones  
comunicativas capaces de disputar la visibilidad, producir marcos internos y generar tensiones  
en las representaciones externas. Se concluye que determinadas prácticas digitales pueden  
constituir formas de comunicación política, aunque sigan estando condicionadas por las  
infraestructuras y las normas corporativas de las plataformas.  
Palabras clave: filosofía política; comunicación política; Mẽbêngôkre-Kayapó; Internet; redes  
sociales.  
1 INTRODUÇÃO  
A política atravessa a vida de todos os indivíduos, manifestando-se em diferentes  
âmbitos e escalas geográficas. Trata-se de uma dimensão da experiência humana que  
pode ser observada desde o espaço doméstico, nas relações entre casais, nos conflitos,  
nas negociações e na organização do lar, até a esfera institucional, na qual  
representantes, geralmente eleitos pelo povo, atuam na organização e na gestão do  
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território. No caso brasileiro, essa organização política estrutura-se em diferentes  
escalas, abrangendo as esferas municipal, estadual e nacional.  
Em países que foram submetidos ao processo de colonização, tendo o continente  
Sul-Americano como exemplo, a política vigente hoje é diretamente baseada na lógica  
ocidental, principalmente com o afloramento e consolidação dos Estados modernos que  
suprimiram lógicas internas de organização territorial pré-coloniais. Isso evidencia como  
a política é pautada em relações de poder, disputas e imposições não só entre  
indivíduos, mas entre Estados-nações.  
Por ser um campo científico que foi institucionalizado, desde o século XIX temos  
a política como uma área que produz conhecimento, a qual é representada pela Ciência  
Política. Todavia, embora os esforços desse campo científico sejam notáveis e tenham  
formas particulares de apreensão de seus objetos de pesquisa, a política não lhe é  
exclusiva. Séculos antes da modernidade, ela já era expressa na Grécia Antiga, na Roma  
Antiga e no Egito Antigo, civilizações que produziram conceitos e organizações espaciais  
que são vistas até hoje, mesmo que algumas tenham sido mais evidenciadas do que  
outras.  
Outras áreas do conhecimento também têm a política como objeto analítico, tais  
como a Geografia Política, que se debruça sobre a relação entre espaço e política  
(Castro, 2005); a Filosofia Política, que reflete sobre por que as coisas são políticas  
(Strauss, 2011); a Sociologia, que busca entender a relação entre sociedade e política; e  
a Comunicação Política, que investiga a relação entre atores políticos institucionais e  
não institucionais, os meios de comunicação e a sociedade, dentre outros campos.  
São investigações, análises e reflexões heterogêneas, considerando a  
dinamicidade e incorporação constante de diferentes elementos na política. Hoje, no  
contexto urbano, não é mais possível falar de política sem considerar a presença da  
internet e das redes sociais, dada sua capilarização e influência direta nos processos  
eleitorais (Bertollo, 2019). Trata-se de um novo contexto no qual os aparelhos técnicos  
e tecnológicos estão proporcionando e mediando novas formas de debates, organização  
política e ativismos, impactando diretamente a espacialidade da institucionalidade  
(Alencar; Silva; França, 2024).  
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Embora esse processo de virtualização e digitalização da política tenha  
começado nos espaços urbanos, em decorrência das possibilidades infraestruturais que  
viabilizaram esse novo cenário, áreas mais remotas também estão passando, ainda que  
de forma processual, pela digitalização e virtualização da política. Já não é raro vermos  
a presença cada vez mais frequente da internet e de aparelhos eletrônicos em  
comunidades tradicionais distantes dos grandes centros urbanos, o que demonstra, em  
certa medida, a popularização desses objetos técnicos e tecnológicos e uma migração  
para o ciberespaço (Israel, 2021).  
Com isso, determinados povos e comunidades indígenas, especialmente aqueles  
territorializados no interior da Amazônia brasileira, vêm aderindo cada vez mais ao uso  
da internet e das redes sociais para finalidades que não se limitam ao lazer, mas que  
também transformam essas plataformas em importantes ferramentas políticas. É o que  
apontam Esteves e Cal (2023), ao destacarem que a comunicação digital, possibilitada  
pelo acesso à Rede Mundial de Computadores, vem se constituindo como um campo  
fecundo para o ativismo indígena, já presente, evidentemente, no cotidiano material  
dessas comunidades.  
Nesse sentido, quando focamos no caso do povo Mẽbêngôkre-Kayapó,  
especificamente os da aldeia A’Ukre, localizada no Sul do Pará, principalmente após a  
instalação da internet de alta velocidade, representada pela Starlink, há relações e  
processos comunicacionais emergentes em curso que estão incrementando novas  
práticas entre os moradores da aldeia (Coelho, 2024).  
Diante desse cenário, este artigo, derivado de uma pesquisa de mestrado em  
curso no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM),  
da Universidade Federal do Pará (UFPA), pergunta: em que condições as práticas  
comunicacionais de pessoas Mẽbêngôkre-Kayapó vinculadas à aldeia A’Ukre nas redes  
sociais podem ser compreendidas como práticas políticas? O objetivo é examinar essa  
questão sem pressupor que toda presença indígena nas plataformas seja, por si só,  
política, buscando identificar operações de visibilidade, autorrepresentação e dissenso  
que possam conferir caráter político a determinadas práticas comunicacionais.  
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Para desenvolver o argumento, dialogamos com Aristóteles (1995), cuja  
formulação do ser humano como animal político permite afastar uma concepção  
exclusivamente institucional da política, e, sobretudo, com Jacques Rancière (1996,  
2009), cujos conceitos de dissenso, polícia e partilha do sensível oferecem critérios  
analíticos para observar disputas em torno de quem pode falar, aparecer e ser  
reconhecido no espaço comum. A reflexão teórica é articulada a uma etapa empírica  
exploratória baseada em publicações de perfis vinculados a A’Ukre, coletadas desde  
abril de 2026 e sistematizadas mediante categorias selecionadas previamente.  
Além desta introdução, o artigo está organizado em cinco seções. A primeira  
apresenta contribuições da Filosofia Política para delimitar o problema do político. A  
segunda discute a comunicação indígena e seus possíveis vínculos com a comunicação  
política. A terceira explicita o percurso metodológico e o corpus digital mobilizado. A  
quarta apresenta resultados exploratórios da análise das publicações vinculadas a  
A’Ukre. A última seção reúne as considerações finais, destacando resultados, limites e  
desdobramentos da pesquisa.  
2 O QUE É POLÍTICA? BREVES CONTRIBUIÇÕES DA FILOSOFIA POLÍTICA  
Como já mencionado, este trabalho é oriundo de uma pesquisa de mestrado em  
curso que busca analisar a presença Kayapó nas redes sociais em uma perspectiva  
política. Diferentemente do que foi realizado em trabalhos anteriores, com ênfase para  
o campo da Geografia Política, percebemos que não era possível limitarmos somente  
nos estudos dessa área, visto que entender o território enquanto algo institucional não  
daria conta de compreender como o uso da internet, smartphones e redes sociais pelos  
indígenas pode ser de orientação política, considerando que esses sujeitos não se  
limitam necessariamente no interior da política institucional, embora dependam da  
efetivação de políticas públicas oriundas dessa esfera.  
Por essa razão, mobilizamos o filósofo francês Jacques Rancière (1940–), cuja  
obra se insere no campo da Filosofia Política e trabalha conceitos como “partilha do  
sensível” (le partage du sensible), “consenso”, “estética”, “dissenso”, “política” e  
“polícia”. Tais conceitos são particularmente produtivos para esta pesquisa porque  
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permitem deslocar a pergunta de “quem pertence à política institucional?” para “em  
que situações sujeitos historicamente subalternizados alteram a distribuição do visível,  
do dizível e das posições reconhecidas no espaço comum?”. Em diálogo complementar,  
Aristóteles (1995) é mobilizado para historicizar a ideia de que a política não se reduz às  
instituições modernas.  
Antes de prosseguirmos, é necessário frisar que estamos propondo um debate  
teórico, com base na Filosofia Política e na posição de pesquisadores. O que será  
discutido aqui sobre política não diz respeito à dinâmica e organização da política dos  
Kayapó da aldeia A’Ukre, tampouco de outras comunidades indígenas, dado que  
conceitos e teorias não dão conta da complexidade e particularidade presentes em cada  
comunidade. Assim, trata-se de um esforço na tentativa de entender a dimensão política  
com base em conceitos e teorias produzidas ao longo dos anos no âmbito acadêmico.  
Dito isso, por que Filosofia Política? De que forma essa área pode pavimentar  
caminhos analíticos para uma realidade tão complexa, como é o caso dos povos  
indígenas? Para Strauss (2011), a Filosofia Política é um ramo da filosofia que se debruça  
no entendimento da natureza dos elementos que são políticos, isto é, empenha-se em  
entender por que as coisas são políticas. Essa contribuição do autor nos auxilia a refletir  
sobre como a presença Mẽbêngôkre-Kayapó no território digital se apresenta, em nosso  
entendimento, como uma presença política e, por isso, nossos esforços reflexivos se  
voltam para compreender por que essa presença pode se constituir em uma presença  
política.  
Será que apenas a simples presença Kayapó nas redes sociais já constitui algo  
político? Como dito no início da seção, nossa discussão não será com base na política  
institucional, uma vez que esses sujeitos, por muito tempo, foram apartados de tal  
segmento. Hoje, mesmo que já consigam ocupar esse setor, ainda que de forma tímida,  
a política, enquanto relações sociais, mediações, resistências, conflitos e organização  
territorial sempre existiu na realidade indígena. Quando vamos para os estudos da  
Filosofia Política clássica, com foco na filosofia formulada na Grécia Antiga, para alguns  
filósofos, a política era vista como imanente ao homem.  
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Aristóteles (1995) acreditava que o homem é, por natureza, um animal político  
(zōon politikón). Desse modo, a organização política, que culminou na formação da pólis,  
era vista como imanente à existência humana, sendo por meio dela que a razão se  
realiza e é exercida (Castro, Olivieri; Castro, 2024). Assim, é perceptível que não é  
necessário se autodeclarar e/ou fazer parte da política institucional e partidária para ser  
um sujeito político. Quando se trata dos povos indígenas, esse apontamento fica mais  
claro, tendo em vista que cada povo sempre teve e ainda tem formas complexas e  
particulares de organização política no interior de seus territórios, mesmo após o  
processo de colonização que tentou impor uma lógica política ocidentalizada.  
Aqui, com base em Aristóteles (1995), também partilhamos da ideia de que o  
homem é um ser político por natureza. Isso significa dizer que não precisamos nos  
autodeclarar como sujeitos políticos, dada sua imanência. Em decorrência do processo  
de constituição da pólis, o homem consegue pôr em prática a razão, a qual se manifesta  
no diálogo e na interação com o outro, atravessando a própria dimensão política no  
sentido dessas próprias interações que antecedem a constituição da pólis (Castro,  
Olivieri; Castro, 2024). Ao transpor essa reflexão para a realidade de uma determinada  
aldeia indígena, compreendemos que sua construção, organização e permanência  
também são atravessadas pela política interna ali estabelecida e dela dependem.  
Em Rancière (1996), a política só é efetivada, de fato, quando os subalternos, os  
excluídos e os marginalizados conseguem participar do comum, um espaço que, de  
forma paradoxal, não é tão comum assim. Diferentemente do que muitas pessoas  
pensam, o autor acredita que a política se faz no dissenso e na discordância, pois o  
desaparecimento do dissenso político não cria uma sociedade mais democrática; ao  
contrário, pode abrir espaço para formas autoritárias de organização social (Rancière,  
1996). Isto é, a ausência de objeções não significa harmonia; pelo contrário, significa que  
apenas um grupo hegemônico, com direito à participação e ao discurso, está  
participando da política.  
Quando pensamos nos sujeitos com os quais estamos trabalhando nesta  
pesquisa, refletimos sobre se eles conseguem participar integralmente dos debates  
políticos institucionais que estão discutindo, por exemplo, sobre seus direitos  
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territoriais. Sabemos que não, considerando que, na maioria das vezes, os povos  
indígenas não são consultados no momento das tomadas de decisão sobre suas terras,  
e esse diálogo costuma acontecer apenas entre políticos/institucionais e setores  
interessados nas terras indígenas; geralmente, setores empresariais. Para Rancière  
(1996), isso é a manutenção do consenso e do status quo, os quais são assegurados pelo  
que ele vai chamar de polícia, ou seja, a polícia enquanto responsável por manter a  
ordem, definir quem pode falar, quem deve ser ouvido e quais sujeitos permanecem  
invisibilizados.  
A polícia cria barreiras físicas e simbólicas que excluem os sujeitos da  
participação política e do comum e mantêm o que já está estabelecido. Rancière (1996,  
2009) argumenta que isso é a partilha do sensível, sendo a forma pela qual uma  
sociedade organiza aquilo que pode ser visto, dito, pensado e percebido coletivamente.  
Trata-se da distribuição dos lugares, das vozes, dos corpos e das formas de participação  
social (Gomes, 2014). Essa partilha é, na maioria das vezes, excludente e é confrontada  
e tensionada pelo dissenso, o qual, quando efetivado, faz emergir, na concepção do  
autor, a política. Com isso, o dissenso se torna essencial para desafiar e romper com a  
política vigente, propondo uma nova ordem para que os excluídos consigam ter suas  
vozes legitimadas (Gomes, 2014).  
Ainda nesse sentido, um outro conceito trabalhado por Rancière (2009) em suas  
reflexões sobre política é o de estética. O conceito de estética tem sido historicamente  
objeto de reflexão no campo filosófico, sendo abordado por diferentes autores. Entre  
essas contribuições, destaca-se a reflexão de Walter Benjamin (2018), que, no contexto  
do século XX, analisou a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, discutindo  
como a reprodução massiva das obras contribuía para a diluição de sua aura e,  
consequentemente, para a transformação da experiência estética. Para Rancière (2009),  
por sua vez, a estética também está relacionada à esfera do sensível, das experiências,  
da política e da própria partilha do sensível.  
Em seu pensamento, política e estética estão profundamente ligadas porque  
ambas dizem respeito à organização do sensível, isto é, à maneira como o mundo é  
percebido, visto, ouvido e compartilhado socialmente (Rancière, 2009; Gomes, 2014).  
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Em outras palavras, é sobre quem e quais indivíduos e grupos podem falar, serem  
ouvidos, vistos e legitimados. É a organização da experiência do sensível cristalizando  
quem está fora e quem está no interior da política e de suas ramificações.  
Nesse sentido, a política não reside na administração do poder, mas na ruptura  
das hierarquias estabelecidas. Ela se manifesta por meio do dissenso, que rompe a lógica  
consensual e reconfigura a posição dos sujeitos na organização social e na partilha do  
sensível, transformando, assim, as formas de percepção e de experiência do mundo  
comum (Rancière, 1996, 2009; Gomes, 2014). São formas de dissolver aquilo que o autor  
denomina de polícia, ou seja, práticas capilarizadas na sociedade que impedem, material  
e simbolicamente, a participação de sujeitos subalternos na esfera política. Esse  
processo é particularmente evidente no caso dos povos indígenas, que foram  
submetidos à colonização e, ainda hoje, permanecem policiados por estruturas coloniais  
que os excluem dos diversos espaços de poder.  
A leitura de Aristóteles permite afastar uma redução da política à esfera  
institucional, mas não autoriza concluir que toda prática comunicacional seja  
automaticamente política. Para fins analíticos, a contribuição de Rancière (1996, 2009)  
é decisiva: o caráter político emerge quando há dissenso, isto é, quando uma prática  
interfere nas hierarquias do sensível e redistribui possibilidades de fala, visibilidade e  
reconhecimento. Essa distinção orienta a seção seguinte e, posteriormente, a análise  
empírica das publicações vinculadas a A’Ukre.  
3 COMUNICAÇÃO INDÍGENA: UMA COMUNICAÇÃO POLÍTICA?  
Após o diálogo sobre Filosofia Política desenvolvido nas linhas anteriores, esta  
seção examina em que condições determinadas práticas de comunicação indígena  
podem assumir caráter político. Em vez de tomar a identidade dos sujeitos como prova  
suficiente, o argumento procura reconhecer operações comunicacionais de disputa,  
autorrepresentação, visibilidade e dissenso que possam ser observadas em experiências  
concretas. Essa abordagem permite articular o debate teórico à análise das publicações  
vinculadas a A’Ukre sem reduzir a diversidade das práticas indígenas a uma única  
finalidade política.  
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Por muito tempo, foi perpetuado no imaginário popular, com sustentação da  
colonialidade e da grande mídia ocidental e pró-ocidental (Losurdo, 2020), uma visão de  
que os povos indígenas são anti-modernidade, que vivem exclusivamente no interior  
das florestas, em áreas remotas, e não precisam ter acesso a determinados objetos  
produzidos pelos brancos, uma vez que isso os tornaria menos indígenas (Shepard Jr e  
Pace, 2021). Apesar de essa ideia ser extremamente equivocada e ultrapassada, ela foi  
e ainda continua sendo amplamente difundida pelos meios de comunicação  
hegemônicos.  
Porém, atualmente, tal ideia não permanece no imaginário popular sem que  
também se desenvolvam perspectivas contrárias, que a confrontam e tecem novas  
formas de apreender a realidade indígena, uma vez que as comunidades estão se  
apropriando da internet e das mídias para tecer suas próprias narrativas e formular  
agendas que sejam pertinentes aos seus interesses coletivos. Embora isso tenha ficado  
cada vez mais evidente nos últimos anos, a presença das mídias em aldeias indígenas,  
ou utilizada por determinados representantes indígenas, remonta às últimas décadas do  
século XX, sendo usadas para determinadas finalidades, como a própria questão política,  
de cobranças e de autorrepresentação.  
Mário Juruna, por exemplo, liderança indígena do povo Xavante e ex-deputado  
federal, fez uma apropriação não esperada de um objeto midiático (gravador) para  
tentar assegurar os direitos indígenas de seu povo. Ao conversar com políticos e com  
outros indivíduos que tinham poder de decisão, Juruna costumava gravar essas  
conversas, objetivando que as promessas feitas fossem cumpridas. Foi, claramente, uma  
apropriação do objeto técnico mediada por suas experiências enquanto sujeito indígena  
marginalizado na sociedade, na qual, na maioria das vezes, as políticas públicas não são  
efetivadas e/ou direcionadas ao seu povo, mesmo quando são prometidas (Pereira,  
2010; Franco; DI Felice; Pereira, 2020).  
No caso de Juruna, por ser um líder político e ter ocupado diretamente um cargo  
na política institucional, as mídias eram usadas, evidentemente, para finalidade política,  
principalmente porque o mesmo passou a integrar o âmbito da política institucional.  
Pereira (2010), ao ter investigado a produção audiovisual indígena, denota que as  
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experiências que eles têm com as mídias representam novas formas de comunicar e de  
representação de si mesmos e de seus parentes, (re)posicionando esses sujeitos no  
imaginário popular antes influenciado pela mídia hegemônica.  
Experiências como as descritas por Pereira (2010) mostram que produções  
audiovisuais indígenas podem adquirir dimensão política quando são mobilizadas para  
tensionar representações externas, disputar sentidos ou ampliar possibilidades de  
autorrepresentação. Isso não significa que toda produção audiovisual indígena seja  
política, mas que determinadas práticas comunicacionais podem participar de processos  
de reposicionamento simbólico e de circulação de narrativas próprias (Hoff, 2022;  
Castro et al., 2022).  
Em contextos nos quais o acesso à grande mídia é restrito ou mediado por  
enquadramentos externos, as redes sociais podem oferecer canais adicionais para a  
produção e circulação de conteúdos de autoria indígena. Tais usos podem favorecer  
narrativas alternativas, comunicação entre diferentes públicos e formas de resistência,  
mas seus efeitos dependem das condições concretas de acesso, circulação, visibilidade  
e apropriação das plataformas (Girão, 2023).  
As transformações históricas dos meios de comunicação ampliaram as  
possibilidades de circulação de narrativas indígenas, primeiro por mídias audiovisuais e,  
mais recentemente, pela internet e pelas redes sociais. Esse processo desafia visões  
essencialistas que associam os povos indígenas à exterioridade da modernidade técnica,  
mas não produz um cenário homogêneo: diferentes comunidades e sujeitos se  
relacionam com as tecnologias de maneiras desiguais, seletivas e situadas (Franco; Di  
Felice; Pereira, 2020; Santaella, 2003).  
Nos casos em que as plataformas são mobilizadas para autorrepresentação, as  
narrativas podem circular para além das fronteiras da aldeia e alcançar interlocutores  
diversos. Esse movimento abre possibilidades de diálogo, busca de apoio, defesa  
territorial e valorização cultural, sem que tais efeitos devam ser presumidos para toda  
experiência indígena conectada. O alcance e o sentido das publicações dependem dos  
sujeitos, dos contextos e das relações estabelecidas em cada situação comunicacional  
(Franco; Di Felice; Pereira, 2020).  
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Em contextos de conflito, comunidades indígenas, na tentativa de conter ações  
e problemáticas decorrentes de forças externas homogeneizantes do capital, podem  
mobilizar a opinião pública nacional e internacional, especialmente de atores que  
apoiam suas agendas políticas, por meio do espaço digital, em defesa de direitos que se  
encontram sob ameaça. Trata-se de estratégias que midiatizam a luta política,  
ampliando sua visibilidade e pressionando as autoridades a recuar ou a adotar medidas  
concretas diante dos conflitos em curso (Pinto, 2018).  
Essas  
experiências  
podem  
tensionar  
modelos  
predominantemente  
informacionais e ampliar possibilidades relacionais de comunicação ao colocar em  
circulação vozes, conhecimentos e práticas historicamente pouco reconhecidos nos  
meios hegemônicos. Ainda assim, a apropriação das tecnologias digitais não elimina  
assimetrias nem garante horizontalidade: ela cria condições para novas relações  
comunicacionais, cujos efeitos precisam ser examinados empiricamente (Bueno, 2013;  
Israel, 2021; Amaral; Filho, 2022).  
Em vez de atribuir à “comunicação indígena” uma natureza única ou  
necessariamente oposta à comunicação hegemônica, é mais produtivo reconhecer a  
diversidade de práticas, sujeitos, finalidades e plataformas envolvidas. Determinadas  
experiências podem privilegiar autorrepresentação, circulação de saberes, denúncia,  
articulação política ou valorização cultural; outras podem estar associadas ao cotidiano,  
ao entretenimento, às relações familiares ou a usos comerciais. Assim, o caráter político  
precisa ser demonstrado no plano das práticas e das relações concretas, e não  
presumido a partir da identidade dos sujeitos que comunicam.  
Voltando para a questão política, agora entrelaçada com a comunicação indígena  
e tentando responder o título da referida seção, recorremos a Marques (2011), que  
refletiu sobre comunicação, estética e a partilha do sensível, em diálogo com Rancière  
(1996; 2009), entende que quando comunidades indígenas utilizam redes sociais para  
narrar suas próprias experiências e contestar representações produzidas por governos,  
empresas ou grandes meios de comunicação, elas produzem um dissenso no sentido  
rancieriano: rompem a imagem de uma sociedade supostamente consensual e tornam  
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visíveis conflitos, desigualdades e demandas anteriormente marginalizados e  
ignorados.  
Nesse sentido, o dissenso representa uma linguagem que não é entendida numa  
ordem já estabelecida, isto é, o comum. Essas relações de desigualdade são tensionadas  
por linguagens alternativas daqueles que não conseguem participar das estruturas do  
status quo. São, como apontamos no debate sobre Filosofia Política, os invisíveis  
causando rupturas no visível e tentando reconfigurar a ordem social estabelecida pelos  
agentes do capital que fundaram e se capilarizaram nas estruturas de poder (Rancière,  
1996, 2009; Marques, 2011).  
Porém, o status quo ainda é mantido, mesmo contestado frequentemente. Não  
é toda comunidade indígena que possui uma comunicação por meio das redes sociais,  
dada a carência de infraestrutura adequada e falta de políticas públicas direcionadas  
para suprir esse déficit. A Sociedade da Informação (SI) contemporânea deve ser  
democratizada, de modo a garantir que todos tenham acesso pleno aos recursos  
tecnológicos que a compõem, incluindo as comunidades indígenas e outras  
comunidades tradicionais. Contudo, esse processo deve considerar e respeitar suas  
especificidades culturais e suas necessidades, acontecendo de dentro para fora (Pinto,  
2018).  
Além disso, a comunicação indígena mediada pela internet e pelas redes sociais  
é influenciada e policiada pelas lógicas ideológicas e mercadológicas que orientam essas  
plataformas. Isso porque a “[...] a internet foi uma criação americana, e os valores  
americanos de abertura e liberdade de expressão (compartilhados por muitos, mas não  
por todos os países) moldaram a tecnologia e a governança da internet [...]” (Lewis,  
2020, p. 1). Em determinadas circunstâncias, essa dinâmica pode limitar o alcance de  
conteúdos considerados incompatíveis com seus interesses ou diretrizes, impedindo  
que alcancem um número significativo de pessoas. Em casos mais extremos, tais  
conteúdos podem ser removidos, e as contas de seus responsáveis, suspensas ou  
banidas.  
Essa dimensão geopolítica evidencia os limites da comunicação mediada por  
plataformas: mesmo quando conteúdos indígenas alcançam circulação expressiva,  
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persistem desigualdades de infraestrutura, soberania e autonomia diante das Big Techs.  
Do ponto de vista da Filosofia Política mobilizada neste artigo, esse cenário não permite  
classificar de antemão toda comunicação digital indígena como política; exige observar  
se como determinadas práticas produzem dissenso, redistribuem visibilidades ou  
tensionam a ordem estabelecida.  
Para corroborar essa ideia, Rios e Silva (2023), ao realizarem uma pesquisa sobre  
a presença de dez influenciadores digitais indígenas no Instagram, que possuem um  
quantitativo de seguidores que varia entre 20 e 500 mil, identificaram que, dos 239 posts  
coletados e analisados, cerca de 33,47% são de caráter ativistas, e 29,29% são de caráter  
identitário, mesmo que eles não deixem claro a intencionalidade política nas  
publicações. Aparentemente, isso ocorre porque o corpo indígena tem a luta territorial,  
por sobrevivência e por asseguramento de seus direitos, que estão sempre em vigília,  
como algo rotineiro. Por isso, não precisam se declarar vinculados à política partidária  
ou institucional, pois suas vivências já são, de forma imanente, políticas, conforme a  
compreensão de Aristóteles (1995).  
À luz desse debate, a pergunta deixa de ser se a comunicação indígena é, em  
essência, uma comunicação política e passa a ser em quais situações determinadas  
práticas comunicacionais assumem caráter político. Essa mudança evita uma conclusão  
previamente dada e permite examinar empiricamente quando a produção e a circulação  
de narrativas indígenas introduzem dissenso, reconfiguram visibilidades, acionam  
alianças ou tensionam enquadramentos historicamente produzidos por agentes  
externos.  
A
apropriação  
das  
plataformas  
pode  
ampliar  
possibilidades  
de  
autorrepresentação e de circulação de narrativas próprias, mas ocorre em  
infraestruturas corporativas submetidas a regras de moderação, formatos, métricas e  
sistemas algorítmicos que não são controlados pelos usuários. Por isso, a dimensão  
política dessas práticas precisa ser analisada na tensão entre agência indígena e  
condicionamentos técnicos e econômicos das plataformas, evitando tanto uma leitura  
determinista quanto uma interpretação excessivamente celebratória da conectividade.  
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4 PERCURSO METODOLÓGICO E CORPUS DIGITAL  
Do ponto de vista metodológico, o artigo mobiliza uma etapa exploratória de  
pesquisa em ambientes digitais, articulada ao desenho mais amplo da dissertação. A  
coleta de publicações de perfis vinculados à aldeia A’Ukre foi iniciada em abril de 2026  
e vem sendo realizada por meio de capturas de tela e da sistematização de informações  
disponíveis nas próprias plataformas. O ambiente digital é tratado simultaneamente  
como fonte, campo de observação e contexto de relações comunicacionais, em  
consonância com abordagens de pesquisa para a internet (Fragoso; Recuero; Amaral,  
2011).  
Para esta versão do artigo, mobiliza-se um corpus piloto constituído por  
publicações no Instagram já registradas de perfis vinculados a A’Ukre. Os materiais vêm  
sendo organizados em uma tabela analítica. A unidade de análise é a publicação,  
considerada em sua composição multimodal quando os elementos disponíveis —  
imagem, vídeo, legenda, marcações e demais recursos de circulação — permitem esse  
exame.  
Buscando uma análise mais precisa, neste texto, vamos apresentar duas  
publicações que se encontram armazenadas em nosso banco de dados. Os achados  
apresentados a seguir têm caráter preliminar e não substituem a etapa etnográfica  
presencial prevista no desenho da dissertação. A análise evita atribuir intenções  
políticas aos autores das publicações sem confirmação empírica e concentra-se em  
operações comunicacionais observáveis: modos de enquadrar o cotidiano, formas de  
autorrepresentação, elementos de territorialidade, regimes de visibilidade e  
possibilidades de dissenso. O trabalho de campo permanece necessário para  
compreender os sentidos atribuídos pelos próprios interlocutores às imagens e práticas  
aqui examinadas.  
5 QUANDO A COMUNICAÇÃO SE TORNA POLÍTICA: RESULTADOS EXPLORATÓRIOS  
A sistematização preliminar do material revela recorrência de registros  
relacionados a cerimônias, rituais, festividades e outras práticas tradicionais entre os  
Mẽbêngôkre-Kayapó. Esse dado é relevante porque desloca a análise da procura  
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exclusiva por conteúdos explicitamente ativistas para a observação de como o cotidiano  
é tornado visível pelos próprios sujeitos. A dimensão política, nessa perspectiva, não  
está automaticamente no tema representado, mas pode emergir quando essas  
publicações interferem nos regimes pelos quais pessoas indígenas são vistas, narradas  
e reconhecidas no espaço público digital.  
Uma categoria particularmente produtiva a qual está prevista é a de  
enquadramento. Nos materiais já observados aparecem registros em que moradores se  
apresentam com pinturas corporais e ornamentos Mẽbêngôkre-Kayapó, compondo  
autorrepresentações que articulam presença digital, identidade e pertencimento  
territorial. Em vez de interpretar essas imagens como prova automática de resistência,  
interessa observar quem produz o enquadramento, como os corpos e práticas são  
apresentados e em que medida esses registros diferem de representações externas  
historicamente marcadas pela exotização ou pela tutela. Nas próximas linhas,  
apresentaremos duas dessas publicações.  
Figura 1: Tradição Mẽbêngôkre-Kayapó em A’Ukre  
Fonte: Banco de dados dos autores  
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A publicação foi realizada no dia 4 de maio de 2025, na rede social Instagram.  
Embora o perfil seja de caráter público, optamos por não apresentar informações  
adicionais sobre o autor da postagem. Além disso, com o objetivo de preservar a  
identidade das pessoas presentes na imagem, suas faces foram borradas. Para analisar  
as publicações, focaremos nos principais elementos que visíveis nas duas imagens que  
optamos por analisar.  
A legenda da publicação, “o nosso tradição”, reforça a compreensão da ocasião  
como uma manifestação da tradição Mẽbêngôkre-Kayapó. Isso fica evidente com os  
elementos ornamentais que os indivíduos carregam em seus corpos, como cocares,  
pulseiras e braceletes. Nenhum desses elementos ornamentais são usados de forma  
aleatória, uma vez que suas cores e formatos possuem significados específicos e são  
utilizados em determinadas cerimônias, rituais e festividades na aldeia (Demarchi; Dias,  
2013). A publicação também rechaça representações essencialistas sobre os povos  
indígenas, considerando que, em A’Ukre, os moradores não passam 24 horas de seus  
dias utilizando tais ornamentações; seu uso ocorre de forma eventual, conforme as  
ocasiões e práticas culturais que vão sendo realizadas.  
A imagem, fotografada de forma horizontal, possivelmente por algum morador  
da própria aldeia, dado o perfil no qual ela foi publicada, foi registrada no centro da  
comunidade, mais especificamente na praça central, local onde costumam acontecer  
muitas das cerimônias, rituais e festividades da comunidade (Zanotti, 2016). Outro  
elemento que nos chamou atenção foi o estilo das vestimentas de todos os indivíduos  
presentes na imagem. Para isso, mobilizamos nossa categoria analítica “Estilo de  
vestimenta”, classificamo-lo como híbrido, ou seja, marcado pela incorporação de  
vestimentas de confecção não indígena, como shorts, bermudas e sandálias.  
Ao se apropriarem dessas vestimentas não indígenas em suas práticas cotidianas  
e culturais, observa-se que os povos indígenas, em especial os Kayapó de A’Ukre, assim  
como ocorre com a internet, os aparelhos eletrônicos e as redes sociais, incorporam  
cada vez mais esses elementos ao seu cotidiano. Isso não os torna menos indígenas nem  
enfraquece suas culturas; ao contrário, evidencia uma forma de autonomia indígena, no  
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sentido de utilizar aquilo que lhes é conveniente, rompendo com um imaginário popular  
que representa os povos indígenas a partir de uma perspectiva essencialista e exotizada.  
A segunda publicação trata-se de um vídeo. Embora não consigamos reproduzir  
aqui, trabalharemos com um print screen do mesmo. Sua publicação aconteceu no 8 de  
janeiro de 2026 no perfil de um morador de A’Ukre. Trata-se, também, de um post que  
enfatiza a cultura Mẽbêngôkre-Kayapó, o que pode ser vista em vários elementos  
presentes na imagem.  
Figura 2: Cerimônia Mẽbêngôkre-Kayapó em A’Ukre  
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Fonte: Banco de dados dos autores  
Em um dos trechos da publicação, percebe-se que o autor ressalta o cotidiano  
cultural de A’Ukre: “Nesse período, acontecem cerimônias tradicionais, com cantos,  
pinturas no corpo e uso de cocares coloridos. Os homens e as mulheres se preparam  
com cuidado, mostrando respeito pelos ancestrais e pela natureza. A aldeia se enche de  
música, risos e orgulho da própria cultura.” É justamente esse contexto que o vídeo  
demonstra. Embora tenhamos optado por não apresentar, no print screen da imagem,  
determinados sujeitos e elementos presentes no vídeo, também aparecem mulheres  
sem a parte superior de suas vestimentas.  
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Para aqueles e aquelas que não conhecem minimamente a cultura Mẽbêngôkre-  
Kayapó, essa situação pode ser interpretada como nudez. Todavia, trata-se de  
momentos específicos nos quais as mulheres, juntamente aos homens de A’Ukre,  
participam de determinadas cerimônias tradicionais nas quais, dependendo da ocasião,  
não utilizam a parte superior das vestimentas. Assim como ocorre com as pinturas  
corporais e as ornamentações, a nudez também não é aleatória, mas está relacionada a  
contextos específicos de suas práticas culturais. Shepard e Pace (2021) apontam que a  
nudez na cultura Mẽbêngôkre-Kayapó é registrada como parte intrínseca de suas  
práticas culturais, sobretudo quando ocorre no contexto de cerimônias e rituais  
específicos.  
A ocupação da praça central, as vestimentas, as pinturas e os ornamentos  
também chamam a atenção no vídeo. Todos esses elementos são registrados por meio  
de uma filmagem horizontal e publicados por alguém que faz parte da própria cultura e  
da realidade de A’Ukre. A própria legenda, conforme já destacado anteriormente, faz  
questão de ressaltar esse corpo social Kayapó, que possui significados que vão além  
daquilo que nós, não indígenas, conseguimos compreender. Seus significados podem  
ser implícitos para nós, mas, para os Mẽbêngôkre-Kayapó, possuem sentidos próprios e  
plenamente significativos.  
Nesse sentido, os corpos são fotografados e filmados não como forma de  
enfatizar o exótico, mas como maneira de reivindicar territorialidades por meio de  
elementos corporais e culturais que expressam o pertencimento e contribuem para a  
afirmação da identidade Mẽbêngôkre-Kayapó (Zanotti, 2016). Essa forma de disputar o  
imaginário social e de se autorrepresentar por meio das plataformas digitais constitui  
uma das formas de expressão política, uma vez que também está inserida em relações  
de poder, ainda que estas se apresentem de maneira mais velada quando comparadas  
a outros períodos.  
Assim, à luz de Rancière (1996, 2009), o potencial político dessas práticas pode  
ser localizado na disputa pela partilha do sensível. Quando sujeitos historicamente  
representados por agentes externos também produzem e fazem circular seus próprios  
enquadramentos, alteram-se, ainda que de maneira parcial, as condições de visibilidade  
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e enunciação. O dissenso, portanto, não depende apenas de uma postagem  
declaradamente reivindicatória: ele pode operar na própria capacidade de aparecer,  
narrar a contemporaneidade indígena e disputar os sentidos atribuídos à vida em  
A’Ukre.  
Esse movimento, contudo, não equivale a uma soberania comunicacional plena.  
As publicações circulam em plataformas corporativas cujos formatos, critérios de  
moderação, métricas e sistemas de recomendação condicionam o alcance e a  
permanência dos conteúdos. Os resultados exploratórios apontam, assim, para uma  
tensão  
constitutiva:  
as  
redes  
sociais  
podem  
ampliar  
possibilidades  
de  
autorrepresentação e dissenso, ao mesmo tempo que submetem essas práticas a  
infraestruturas e regras externas à comunidade.  
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Este artigo partiu da pergunta sobre em que condições práticas comunicacionais  
de pessoas Mẽbêngôkre-Kayapó vinculadas a A’Ukre podem ser compreendidas como  
práticas políticas nas redes sociais. A revisão teórica permitiu afastar duas reduções: a  
identificação da política apenas com instituições e, no sentido inverso, a suposição de  
que toda prática comunicacional seja política apenas porque seus sujeitos são seres  
políticos.  
Aristóteles contribui para historicizar a dimensão relacional da política, enquanto  
Rancière oferece o critério analítico mais diretamente mobilizado: a política se efetiva  
no dissenso e na reconfiguração da partilha do sensível. Essa perspectiva permite  
analisar a presença digital indígena não como evidência automática de politização, mas  
como campo no qual podem ocorrer disputas por fala, visibilidade, reconhecimento e  
enquadramento.  
No plano empírico, a análise exploratória do corpus já coletado indica  
recorrência de registros associados a rituais e cerimônias, além da relevância da  
categoria enquadramento para examinar autorrepresentações. Esses dados sugerem  
que o caráter político pode estar também em conteúdos cotidianos quando eles  
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contribuem para deslocar regimes de representação e ampliar a capacidade de sujeitos  
vinculados a A’Ukre produzirem e circularem imagens de si e de suas experiências.  
Os resultados, contudo, não autorizam afirmar que toda comunicação  
Mẽbêngôkre-Kayapó em redes sociais seja política, horizontal ou contra-hegemônica,  
embora nós tenhamos trabalhamos com dois exemplos que seguem esse horizonte. O  
que o corpus preliminar permite sustentar é que determinadas práticas podem adquirir  
caráter político quando introduzem dissenso, tensionam enquadramentos externos,  
acionam pertencimentos territoriais ou disputam quem pode falar e aparecer sobre a  
realidade indígena.  
Também é necessário considerar que essas práticas acontecem em plataformas  
corporativas. A agência dos sujeitos convive com condicionamentos algorítmicos,  
mercadológicos e normativos que interferem na circulação e na permanência dos  
conteúdos. A autorrepresentação, portanto, não deve ser confundida com autonomia  
técnica ou soberania comunicacional plena.  
Como limite, esta etapa ainda não dispõe da interpretação dos próprios  
interlocutores sobre o conjunto de publicações analisado. A futura pesquisa de campo  
deverá confrontar as categorias construídas a partir do ambiente digital com as  
compreensões dos moradores de A’Ukre, especialmente quanto a autoria, circulação,  
segredo, visibilidade e usos políticos das imagens.  
A principal contribuição desta versão é deslocar a formulação de uma tese  
previamente estabelecida — “a comunicação indígena é política” — para uma questão  
empiricamente examinável: quando, como e sob quais condições práticas  
comunicacionais indígenas assumem caráter político. Esse movimento aproxima a  
Filosofia Política do material de pesquisa e responde à necessidade de demonstrar  
resultados, ainda que preliminares.  
Desse modo, o artigo não pretende definir a política na realidade Mẽbêngôkre-  
Kayapó, mas oferecer uma chave analítica provisória para compreender como práticas  
comunicacionais digitais podem interferir nos regimes de visibilidade e representação  
que atravessam os povos indígenas na contemporaneidade.  
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SOBRE O(A) AUTOR(A)  
Wesley Silva  
Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comuincação, Cultura e Amazônia (PPGCOM-UFPA).  
Graduado em Licenciatura em Geografia pelo Instituto Federal do Pará (IFPA). Pesquisador do Núcleo de  
Pesquisa em Educação e Cibercultura (NUPEC-IFPA). Ao longo da graduação, foi duas vezes Bolsista PIBIC  
(CNPq) no Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), no qual atuou na Reserva Técnica de Arqueologia Mário  
Ferreira Simões, trabalhando no processo de curadoria de fragmentos arqueológicos Kuikuro, oriundos  
do Alto Xingu. Também no MPGE, é colaborador do projeto Vozes da Amazônia indígena: processos  
históricos da sociobiodiversidade frente aos desafios do Antropoceno, e do Observatório das Baixadas  
(@observatoriodasbaixadas) Foi bolsista PIBIC voluntário entre 2022 e 2023 no projeto de pesquisa ''O  
ritual e a cultura do cancelamento no Brasil: estudo qualitativo a partir de práticas discursivas na imprensa  
e na rede social Twitter entre 2018 e 2021''. Foi bolsista de extensão (PIBIX-2024), no projeto ''Ciclo de  
Oficinas formativas no âmbito do Projeto Jornal Digital: Jornalismo e Comunicação como ferramenta  
educacional no IFPA, Campus Belém''. De 2023 a 2025, desenvolveu o projeto de pesquisa intitulado  
''Ciberespaço e populismo digital: o nascimento e o crescimento do bolsonarismo nas redes sociais entre  
2013 e 2022'', o qual virou Trabalho de Conclusão de Curso e foi aprovado com louvor da banca (IFPA-  
2025). Ocupou a vaga de cronista/articulista no projeto de extensão ''Contando Várias Histórias: Jornal  
Digital (JD)'', vinculado ao mesmo núcleo. No âmbito da docência, foi bolsista do Programa Institucional  
de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) de 2022 a 2024. Em relação a pesquisa, seus interesses estão  
voltados para Geografia Política e Eleitoral, Geografia da Internet e do Ciberespaço, Política  
contemporânea, Filosofia Política e Comunicação.  
Breno Alencar  
É professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia da Universidade  
Federal do Pará e do Curso de Licenciatura em História do Instituto Federal do Pará. É coordenador do  
Núcleo de Pesquisa em Educação e Cibercultura. Doutor em Antropologia pelo PPGSA/UFPA, mestre em  
Ciências Sociais e graduado em Ciências Sociais pela UFPA, desenvolve pesquisas na interface entre  
Antropologia, Educação e Tecnologias Digitais, com foco em cibercultura, parentesco, poder e mediações  
sociotécnicas. É líder do Grupo de Pesquisa em Antropologia na Educação Básica/IFPB e integra grupos  
como CORPOSTRANS/UFPI e o GICEP/IFPA. Coordena projetos de pesquisa e extensão voltados ao  
impacto das tecnologias digitais na sociedade e na educação, incluindo o LABTEC, dedicado à tradução e  
difusão científica em humanidades digitais. Já coordenou iniciativas financiadas pelo CNPq e pela FAPESPA  
sobre mediação digital do conhecimento e dinâmicas socioculturais no ambiente virtual. Organizou obras  
como Etnografia dos Afetos, publicação binacional com pesquisadores do Brasil, México e Finlândia, e a  
coletânea Antropologia na Educação Básica, em parceria com o IFPB e o Colégio Pedro II.  
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COMO CITAR ESTE ARTIGO  
SILVA, Wesley; ALENCAR , Breno. A imanência do político: comunicação indígena e presença  
Mẽbêngôkre-Kayapó nas redes sociais. Passagens: Revista do Programa de Pós-Graduação em  
Comunicação da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, v. 17, n. especial, p. e97555 , 2026.  
RECEBIDO EM: 17/08/2026  
ACEITO EM: 08/09/2026  
PUBLICADO EM: 23/09/2026  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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FLORESTAS PRODUTIVAS NA AMAZÔNIA LEGAL: AVANÇANDO  
PELO DEBATE E POSSIBILIDADES NO ESTADO DO PARÁ A  
PARTIR DE UMA EXPERIÊNCIA DO TED UFMA/INCRA  
PRODUCTIVE FORESTS IN THE LEGAL AMAZON: ADVANCING  
THE DEBATE AND POSSIBILITIES IN THE STATE OF PARÁ BASED  
ON AN EXPERIENCE FROM TED UFMA/INCRA  
BOSQUES PRODUCTIVOS EN LA AMAZONIA LEGAL:  
AVANZANDO EN EL DEBATE Y LAS POSIBILIDADES EN EL ESTADO  
DE PARÁ A PARTIR DE UNA EXPERIENCIA DEL TED UFMA/INCRA  
_____________________________________________________  
Antonio José de Araújo Ferreira  
Universidade Federal do Maranhão  
Jadson Pessoa da Silva  
Universidade Federal do Maranhão  
César Augustus Labre Lemos de Freitas  
Universidade Federal do Maranhão  
Ricardo Zimbrão Affonso de Paula  
Universidade Federal do Maranhão  
Resumo: O objetivo deste artigo é analisar quatro Projetos de Assentamento localizados no  
estado do Pará, a fim de contribuir no debate e indicar possibilidades de inserção dos mesmos  
no Plano Nacional de Florestas Produtivas. Para tanto, procedeu-se a uma revisão bibliográfica  
assentada nas seguintes técnicas de pesquisa: levantamento bibliográfico e documental;  
seleção de três municípios (Barcarena, Redenção, e Ulianópolis) em que se localizam quatro  
PAs (Ilha Trambioca, Inajá, Floresta Gurupi I, e Suçuarana); trabalho de campo em que se  
aplicaram 932 questionários; seleção, análise, tabulação e interpretação dos dados e  
informações obtidas. Os resultados revelaram que: i) o Pará concentra 81% das áreas de  
assentamentos no Brasil; ii) a realidade socioprodutiva dos pesquisados é caracterizada por um  
sistema de produção de baixo capital e baixa tecnologia, intensamente vulnerável a choques  
econômicos e climáticos; iii) todavia, 2/3 das famílias têm pessoas dispostas a se engajar em  
práticas de cultivo e recuperação previstas no PNFP. Conclui-se que as florestas produtivas  
podem concorrer para geração de riqueza sem comprometer o meio ambiente e, ainda,  
promover a inclusão social, a conservação da biodiversidade e dinamizar a economia local de  
grande parte da Amazônia Brasileira.  
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Palavras-chave: Brasil; Amazônia; Floresta Produtiva; Projeto de Assentamento.  
Abstract: The objective of this article is to analyse four Settlement Projects located in the state  
of Pará, in order to contribute to the debate and indicate possibilities for their inclusion in the  
National Plan for Productive Forests. To this end, a literature review was conducted based on  
the following research techniques: bibliographic and documentary survey; selection of three  
municipalities (Barcarena, Redenção, and Ulianópolis) where four PAs are located (Ilha  
Trambioca, Inajá, Floresta Gurupi I, and Suçuaruna); fieldwork in which 932 questionnaires  
were administered; selection, analysis, tabulation and interpretation of the data and  
information obtained. The results revealed that: i) Pará accounts for 81% in Brazil's  
settlements areas; ii) the socio-productive reality of those surveyed is characterised by a low-  
capital, low-technology production system that is highly vulnerable to economic and climatic  
shocks; iii) however, two-thirds of families have people willing to engage in cultivation and  
recovery practices provided for in the PNFP. It is concluded that productive forests can  
contribute to wealth generation without compromising the environment and, furthermore,  
promote social inclusion, biodiversity conservation and boost the local economy in much of  
the Brazilian Amazon.  
Keywords: Brazil; Amazon; Productive Forest; Settlement Project.  
Resumen: El objetivo de este artículo es analizar cuatro Proyectos de Asentamiento ubicados  
en el estado de Pará, con el fin de contribuir al debate y señalar posibilidades para su  
incorporación al Plan Nacional de Bosques Productivos (PNFP). Para ello, se realizó una  
revisión bibliográfica basada en las siguientes técnicas de investigación: recopilación  
bibliográfica y documental; selección de tres municipios (Barcarena, Redenção y Ulianópolis)  
donde se ubican cuatro proyectos de asentamiento (Ilha Trambioca, Inajá, Floresta Gurupi I y  
Suçuarana); trabajo de campo mediante la aplicación de 932 cuestionarios; y selección,  
análisis, tabulación e interpretación de los datos e información obtenidos. Los resultados  
revelaron que: i) Pará concentra el 81% de las áreas de asentamiento en Brasil; ii) la realidad  
socioproductiva de los sujetos estudiados se caracteriza por un sistema de producción de bajo  
capital y baja tecnología, altamente vulnerable a choques económicos y climáticos; iii) no  
obstante, dos tercios de las familias cuentan con personas dispuestas a participar en las  
prácticas de cultivo y recuperación previstas en el PNFP. Se concluye que los bosques  
productivos pueden contribuir a la generación de riqueza sin comprometer el medio ambiente  
y, además, promover la inclusión social y la conservación de la biodiversidad, así como  
dinamizar la economía local de gran parte de la Amazonia brasileña.  
Palabras clave: Brasil; Amazonia; Bosque productivo; Proyecto de asentamiento.  
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[...] Por dezenas de anos, a partir da década de 1960, a  
Amazônia foi apresentada ao mundo ocidental como  
uma  
região  
uniforme  
e
monótona,  
pouco  
compartimentada  
e
desprovida  
de  
diversidade  
fisiográfica e ecológica. Enfim, um espaço sem gente e  
sem história, passível de qualquer manipulação por  
meio de planejamentos feitos a distância, ou sujeito a  
propostas de obras faraônicas, vinculadas a um muito  
falso conceito de desenvolvimento (Ab’Sáber, 2004, p.  
131, grifo nosso).  
1 INTRODUÇÃO  
O Programa Nacional de Florestas Produtivas (PNFP) parte do pressuposto de  
que as florestas produtivas desempenham um papel crucial tanto na conservação  
ambiental quanto no desenvolvimento econômico. No entanto, o manejo inadequado  
e a exploração excessiva dos recursos florestais têm levado à degradação de  
ecossistemas, perda de biodiversidade e mudanças climáticas. O desafio reside em  
conciliar a produção sustentável de recursos florestais com a necessidade de  
preservação ambiental. Além disso, a falta de estratégias inovadoras para o manejo  
florestal limita a capacidade de maximizar os benefícios econômicos e sociais dessas  
áreas, mantendo ao mesmo tempo sua integridade ecológica. Há uma demanda  
crescente por práticas de gestão que sejam capazes de integrar tecnologias modernas,  
conhecimento científico e saberes tradicionais para promover o uso sustentável e  
eficiente das florestas produtivas.  
Nesse contexto, surge a necessidade de desenvolver e implementar estratégias  
inovadoras que conciliem a exploração econômica com a conservação. A questão  
central é: como desenvolver práticas de manejo florestal que sejam ao mesmo tempo  
produtivas, sustentáveis e capazes de contribuir para a resiliência dos ecossistemas?  
Por seu recorte espacial, biodiversidade e papel fundamental na regulação do  
clima global, a Amazônia Legal destaca-se no Brasil. Contudo, nela evidenciam-se  
problemas, como o desmatamento, a degradação do solo, a exploração ilegal de  
madeira, assim como conflitos por terra e água. Por isso, o Ministério do  
Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) em parceria com o Ministério  
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do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA), lançaram em julho de 2024 o  
Programa Nacional de Florestas Produtivas (PNFP), visando à recuperação de “[...]  
áreas degradadas para fins produtivos e regularização ambiental da agricultura  
familiar, contribuindo para a produção de alimentos saudáveis e produtos da  
sociobiodiversidade”. Ante a realização da COP 30, em Belém do Pará, o governo  
federal anunciou “investimento de R$ 150 milhões do Fundo Amazônia para o  
Programa Nacional de Florestas Produtivas”, a fim de apoiar “17 propostas  
apresentadas por entidades e instituições da sociedade civil para a restauração  
ambiental de 80 assentamentos de reforma agrária” (MDA, .... 2025).  
Devido à instituição do PNFP, a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) em  
parceria com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) está  
levando a efeito o Termo de Execução Descentralizada (TED) intitulado “Diagnóstico da  
situação ocupacional, cadastral, ambiental e da capacidade produtiva da agricultura  
familiar nos assentamentos de reforma agrária e municípios indicados para a etapa  
inaugural do Programa Nacional de Florestas Produtivas, no estado do Pará”. Convém  
destacar que o Pará foi selecionado porque concentra “[...] 81% das áreas de  
assentamentos no Brasil” [...], [...] “abriga 36,6 milhões de hectares de assentamentos”  
[...] e pode [...] “beneficiar 1.680 famílias em 21 assentamentos” (PROJETO ...).  
Portanto, o artigo objetiva analisar quatro PAs localizados no estado do Pará a  
fim de contribuir no debate e indicar possibilidades de inserção dos mesmos no PNFP,  
conforme a seguir.  
2 METODOLOGIA  
Ante a realização da COP 30, entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025, na  
cidade de Belém, capital do Pará, Brasil, o Programa Nacional de Florestas Produtivas é  
relevado como sendo estratégico e exemplo a ser replicado por diversos países do  
mundo. Esse tema, contudo, não é novo e tampouco foi evidenciado devido ao citado  
evento internacional. Isso, porque entre os esforços levados a cabo pode-se destacar:  
Sabogal et al (2006) que enaltecem o “Manejo florestal empresarial na Amazônia  
brasileira”; Brasil (2007) apresenta o “Manejo Florestal comunitário na Amazônia”;  
Brasil (2019) analisa a “Bioeconomia da floresta”; Rodrigues e Souza (2020) discutem a  
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“Concessão florestal na Amazônia brasileira”; Santos, Silva e Santana (2022) ponderam  
sobre a “Agricultura na Amazônia: desflorestamento, escalas e desafios à produção  
sustentável”; o IDESAM (2022) discute a “Restauração florestal na Amazônia”. Por sua  
vez, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon, 2023) defende que  
há cinco oportunidades econômicas para a Amazônia, isto é, conservação, restauração  
florestal, produtos da floresta, produtividade da agropecuária, e cidades.  
Diretamente ou indiretamente, tais estudos convergem para o PNFP uma vez  
que indicam que a floresta pode produzir e, ao mesmo tempo, concorrer para  
preservação do ambiente natural e o desenvolvimento econômico, agregando o saber  
local, indicando alternativas ao incremento de renda e à elevação da qualidade de vida  
no lugar. Para tanto, as florestas produtivas são apresentadas em diferentes tipos, a  
exemplo de manejo florestal sustentável, sistemas agroflorestais, e reflorestamento  
com espécies nativas. Esses, decerto, são fundamentais para o desenvolvimento  
sustentável da Amazônia. Todavia, dependem do potencial edafoclimático de cada  
realidade empírica e da valorização de determinados produtos (açaí, andiroba, babaçu,  
castanha-do-brasil, copaíba, madeira certificada, etc). Em que pese essas constatações,  
o avanço da implantação das florestas produtivas atém-se com problemas que incluem  
o desmatamento ilegal, a carência de infraestrutura, a dificuldade na obtenção do  
crédito rural, a deficiência/falta de assistência técnica e exigências quanto ao  
licenciamento ambiental.  
Apesar da relevância dos supracitados estudos, o fato é que tanto na escala  
nacional quanto na estadual, não se identificou o uso de um método de interpretação  
e/ou técnicas de pesquisa que sejam utilizados nas diferentes realidades empíricas da  
Amazônia e, sobretudo, possam ser aplicadas em projetos de reforma agrária, haja  
vista que os referidos tinham objetivos e abordagens diferentes. Daí que, recorreu-se a  
Ocanã-Fernández e Fuster-Guillén (2021) os quais defendem que a revisão  
bibliográfica é uma metodologia de pesquisa observacional, retrospectiva e  
sistemática, que é eficaz na condução de trabalhos de pesquisa.  
Para tanto, levou-se a cabo os seguintes procedimentos metodológicos:  
i) o levantamento bibliográfico (livros, periódicos, dissertações e teses), com a  
finalidade de se revisar dados e informações sobre fatos que concorreram para a  
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apreensão da importância das florestas produtivas em diferentes realidades empíricas  
da Amazônia Brasileira;  
ii) levantamento de dados e informações em sites de instituições que  
analisam a agricultura brasileira, a exemplo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e  
Estatística) e EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária);  
iii) seleção de três municípios paraenses com projetos de assentamento de  
reforma agrária (Barcarena, Redenção e Ulianópolis) nos quais se localizam quatro PAs  
(PAE Ilha Trambioca, Inajá, Floresta Gurupi I, e Suçuarana), em que se aplicaram 932  
questionários com lideranças das associações de produtores e beneficiários, sendo  
divididos em duas partes: uma, referente à situação dos assentamentos, quanto a área  
de Reserva Legal, sua área, o estado em que se encontra e como as associações lidam  
com essas áreas, particularmente em relação à conservação e as atividades  
agroflorestais; a outra parte do questionário ateve-se aos dados sobre práticas  
sustentáveis, estrutura produtiva (extrativismo, atividades agropecuárias, artesanato,  
agroindústrias, maquinário, sistemas de irrigação), acesso ao mercado, crédito e  
assistência técnica;  
iv) trabalho de campo no período de 11 a 21/03/2025 com o intuito de  
levantar dados e informações sobre as necessidades e os potenciais dos  
assentamentos selecionados, ocasião em que se procedeu à observação direta  
intensiva e registro fotográfico;  
v) seleção, análise, tabulação e interpretação das informações e dados  
obtidos que se ativeram à relevância das florestas produtivas, desafios e perspectivas  
concernentes aos PAs selecionados.  
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO  
A seguir apresentam-se os resultados que abarcam três tópicos: o primeiro  
refere-se ao recorte espacial da Amazônia Legal Brasileira; o segundo atém-se a um  
quadro geral dos PAs selecionados (Ilha de Trambioca, Inajá, Suçuarana e Floresta  
Gurupi I), com as informações da situação dos assentamentos em relação à Reserva  
Legal; o terceiro tópico é um quadro produtivo dos PAs mencionados.  
3.1 A AMAZÔNIA LEGAL BRASILEIRA  
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Inicialmente, convém resgatar que a Amazônia Internacional envolve partes  
dos seguintes países: i) Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, França (por  
intermédio de seu Departamento Ultramarino denominado Guiana Francesa), Peru,  
Suriname e Venezuela; ii) a Amazônia Brasileira corresponde a 62% do total da  
Amazônia Internacional, sendo que o país faz parte da Organização do Tratado de  
Cooperação Amazônica (Théry, 2005); iii) a Amazônia Legal é uma área de  
planejamento que encontra base jurídica na Lei Federal nº 5.173/1966 (Brasil, 1966),  
sendo que, atualmente, inclui os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso,  
Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão (oeste do Meridiano de 44º  
(Figura 1).  
Figura 1 – Amazônia Legal Brasileira  
Fonte: Guimarães (2021).  
A mais recente atualização da Amazônica Legal feita pelo IBGE (2021), revela  
que a referida ocupa 5.015.068,18 km², correspondentes a 58,9% do território brasileiro  
(8.510.295,914 km²) e abrange 772 municípios em 9 estados localizados na macrorregião  
Norte, parte do Centro-Oeste e parte do Nordeste, sendo que o Pará tem seus 144  
municípios (Guimarães, 2021) inseridos nesse recorte regional (Quadro 1).  
A ocupação da Amazônia Legal foi acelerada a contar de 1970 e, com efeito, “o  
desmatamento passou de 0,5% em 1975 para 21% em 2021” (Imazon, 2023, p. 10),  
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implicando em degradação de 86 milhões de hectares de florestas nesse período. Soma-se a  
isso que em 2021 a população desse recorte regional estava em 28 milhões de habitantes,  
dos quais 76% moravam na zona urbana em que se destacam as regiões metropolitanas de  
Belém, Manaus e São Luís, com suas precariedades em termos de saneamento ambiental,  
mobilidade e ocupação; do total de moradores da Amazônia, há “[...] mais de 8 milhões de  
adultos fora do mercado de trabalho” (Imazon, 2023, p. 7).  
Quadro 1 – Estado, número de municípios e os municípios inseridos na Amazônia Legal  
Estado  
Números de municípios  
Municípios inseridos na  
Amazônia Legal  
22  
Acre  
Amapá  
22  
16  
16  
62  
Amazonas  
Mato Grosso  
Pará  
62  
141  
141  
144  
52  
144  
Rondônia  
Roraima  
52  
15  
15  
Tocantins  
Maranhão  
139  
217  
139  
181  
Fonte: IBGE (2021).  
Em termos ambientais, tem-se que “[...] restam cerca de 29% do território da  
Amazônia com situação fundiária indefinida, dos quais parte importante é formada por  
florestas públicas não destinadas” (Imazon, 2023, p. 8), com alento de que “[...] 15 milhões  
de hectares estão atualmente desmatados e abandonados, sem qualquer uso agropecuário”  
(Imazon, 2023, p. 17), o que significa que podem ser utilizados para efeito de restauração  
florestal, conforme o PNFP e porque:  
[...] a Aliança pela Restauração na Amazônia (2020) mapeou 2.773 iniciativas  
de restauração na Amazônia brasileira, com uma área total de 113,5 mil  
hectares. As iniciativas identificadas são desenvolvidas principalmente por  
organizações da sociedade civil (87,5% do total), empresas (5,6%),  
agricultores (3,8%), instituições de pesquisa (2,4%) e por governos (0,7%)  
(IDESAM, 2022, p. 10).  
Convém destacar que na concepção de Becker (2001), a Amazônia Brasileira  
pode ser analisada de acordo com quatro recortes:  
A Amazônia Oriental e Meridional que corresponde ao arco povoado a leste  
e sul da floresta, respectivamente as áreas desmatadas do sudeste do Pará e  
agroindústria do cerrado matogrossense, com expansão para o Tocantins e  
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Rondônia, e cujos limites seriam Açailândia no Maranhão e Cacoal em  
Rondônia. A Amazônia Central, estendendo-se do nordeste do Pará à  
rodovia Porto Velho-Manaus-Venezuela. Passível de expansão da agricultura  
capitalizada, como pode ser o caso da soja na Cuiabá-Santarém, no vale do  
Madeira, no rio Juma, contém grande proporção de terra indígenas e  
unidades de conservação, o que lhe atribui grande vulnerabilidade. A  
Amazônia Ocidental, unidade ainda marcada pelo ritmo da natureza. Sua  
grande potencialidade em águas, florestas, recursos minerais,  
a
concentração econômica em Manaus, o peso do narcotráfico e de agentes  
externos de um lado, e de índios e militares de outro, caracterizam a região,  
marcada também pela vulnerabilidade das fronteiras e pela relativa  
ausência de UCs e terras indígenas na sua parte central (Becker, 2001, p.  
156-157, grifo nosso).  
O estado do Pará, assim, destaca-se por abarcar terras de Amazônia Oriental e,  
sobretudo, da Amazônia Central, nas quais há representativos Projetos de  
Assentamento.  
3.2 QUADRO GERAL SOBRE A ESTRUTURA DAS ÁREAS DE RESERVA LEGAL DOS PAs  
SELECIONADOS  
Para uma compreensão da estrutura das áreas de Reserva legal dos projetos de  
assentamentos selecionados, aplicou-se questionário juntos às lideranças das  
Associações dos Produtores e a beneficiários dos PAs Ilha de Trambioca, Inajá,  
Suçuaruna e Floresta Gurupi I, pois são os responsáveis pela organização produtiva e  
ordenamento territorial (Quadro 2).  
Quadro 2 - Pesquisa sobre a estrutura das áreas de Reserva Legal dos PAs selecionados  
Tipo de  
Número de  
Associados  
PA  
Nome  
Organização  
PAE Ilha  
Associação de Moradores e Assentados Extrativistas  
da Ilha Trambioca – AMAEST  
Associação  
Associação  
Associação  
Associação  
Associação  
Associação  
Associação  
Associação  
1.160  
80  
Trambioca  
Associação dos Pequenos Produtores Rurais da  
Colônia Bom Jesus - PA Inajá  
PA Inajá  
PA Floresta  
Gurupi I  
Associação dos Pequenos Produtores Rurais da  
Colônia Rossi Gabriel  
98  
PA Floresta  
Gurupi I  
Associação dos Pequenos Produtores Rurais da  
Colônia Água Branca  
60  
PA Floresta  
Gurupi I  
Associação dos Pequenos Trabalhadores e  
Trabalhadoras Rurais da Vila Nova União  
Associação dos Produtores Rurais da Agricultura  
Familiar da Vila Bom Jesus  
70  
PA Floresta  
Gurupi I  
55  
PA Floresta  
Gurupi I  
Associação dos Pequenos Produtores Rurais da  
Colônia Sapucaia  
65  
PA  
Associação dos Pequenos Produtores Rurais da  
Agricultura Familiar da Colônia Planalto  
102  
Suçuarana  
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Fonte: Silva et al (2025).  
Conforme o Quadro 2, diferente dos PAs Trambioca, Inajá e Suçuarana que têm  
apenas uma associação, no PA Floresta Gurupi I identificaram-se cinco organizações, o  
que pode ser indicado como fragilidade institucional.  
Em se tratando da estrutura das áreas de Reserva Legal dos respectivos PAs,  
tem-se que 70% dos assentamentos pesquisados se organizam de forma individual e  
apenas 30% em organizações coletivas. A maior área de reserva legal está no PAE Ilha  
de Trambioca, que é coletiva e ocupa 1.000 hectares. No PA Floresta Gurupi I, em que  
prevalece 80% das áreas de reserva em organizações individuais, a maior parte desse  
tipo de organização encontra-se na Colônia Rossi Gabriel, com 160 hectares. Já na Vila  
Nova União, a reserva legal coletiva possui apenas 28 hectares (Quadro 3).  
Quadro 3 – PAs selecionados, tipo de organização das áreas de Reserva Legal e tamanho (ha)  
PA  
Organização das áreas de Reserva Legal  
Hectares (ha)  
PAE Ilha Trambioca  
Coletiva  
1.000 hectares  
PA Inajá  
Individual  
PA Floresta Gurupi I -  
Colônia Rossi Gabriel  
PA Floresta Gurupi I -  
Colônia Água Branca  
PA Floresta Gurupi I -  
Vila Nova União  
Individual  
Coletiva  
160  
Não informado  
Coletiva  
28  
30  
PA Floresta Gurupi I -  
Vila Bom Jesus  
Individual  
PA Floresta Gurupi I -  
Colônia Sapucaia  
Individual  
PA Suçuarana  
Individual  
não informado  
Fonte: Silva et al (2025).  
No que se refere à situação das áreas de Reserva Legal, constatou-se que das  
oito existentes nos quatro PAs selecionados, 50% foram consideradas degradadas,  
37,5% encontravam-se parcialmente degradadas e uma não indicou tal situação  
(Quadro 4).  
Quadro 4 – Situação das áreas de Reserva Legal dos PAs selecionados  
PA  
Situação das áreas  
Degradada  
PAE Ilha Trambioca  
PA Inajá  
Degradada  
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PA Floresta Gurupi I - Colônia Rossi  
Parcialmente Degradada  
Degradada  
Gabriel  
PA Floresta Gurupi I - Colônia Água  
Branca  
Degradada  
PA Floresta Gurupi I - Vila Nova União  
PA Floresta Gurupi I - Vila Bom Jesus  
PA Floresta Gurupi I - Colônia Sapucaia  
PA Suçuarana  
Parcialmente Degradada  
Não informado  
Parcialmente Degradada  
Fonte: Silva et al (2025).  
De acordo com o Quadro 4, portanto, tem-se que 87,5% das áreas de Reserva  
Legal dos PAs analisados encontram-se em situação que requer recuperação imediata,  
o que se enquadra no Programa Nacional de Florestas Produtivas. Nesse caso, para se  
poder elaborar projetos de recuperação dessas áreas, junto aos órgãos de  
financiamento, foi perguntado se o assentamento possui Cadastro Ambiental Rural  
(CAR) coletivo regularizado. As respostas revelaram que, com exceção da Colônia  
Sapucaia, no PA Floresta Gurupi I, todos os demais possuem CAR coletivo regularizado.  
Por sua vez, o representante da Associação de Produtores da referida Colônia,  
manifestou interesse em regularizar o Cadastro Ambiental Rural (Quadro 5).  
Quadro 5 – Situação do Cadastro Ambiental Rural nos PAs selecionados.  
O assentamento possui Cadastro Ambiental Rural (CAR)  
PA  
regularizado?  
Sim  
Sim  
PAE Ilha Trambioca  
PA Inajá  
PA Floresta Gurupi I - Colônia Rossi  
Sim  
Sim  
Gabriel  
PA Floresta Gurupi I - Colônia Água  
Branca  
PA Floresta Gurupi I - Vila Nova  
União  
Sim  
Sim  
Não  
Sim  
PA Floresta Gurupi I - Vila Bom Jesus  
PA Floresta Gurupi I - Colônia  
Sapucaia  
PA Suçuarana  
Fonte: Silva et al (2025).  
No que tange às iniciativas de recuperação das áreas de Reserva Legal dos PAs  
analisados, tipos de projetos e acesso à assistência técnica, os dados demonstram que  
70% das Associações de Produtores não possuem iniciativas de recuperação ambiental  
ou reflorestamento. Dos 30% que possuem iniciativas, o PA Inajá participa do Projeto  
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Florestas Produtivas, a Colônia Vila Nova União, do PA Floresta Gurupi I, possui  
iniciativas de plantio de mudas e a Colônia Sapucaia, do mesmo assentamento, tem  
parceria com o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável (IABS). Por fim,  
70% das associações entrevistadas não possuem assistência técnica ou acesso a ATER  
(Quadro 6).  
Quadro 6 - Iniciativas de recuperação das áreas de Reserva Legal, tipos de projetos e acesso à  
Assistência Técnica nos PAs selecionados  
A Associação possui  
Há acesso à  
iniciativas de  
PA  
Se sim, quais?  
assistência  
recuperação ambiental  
ou reflorestamento?  
técnica (ATER)?  
PAE Ilha Trambioca  
PA Inajá  
Não  
Sim  
Florestas  
Sim  
Não  
Produtivas  
PA Floresta Gurupi I - Colônia Rossi  
Não  
Não  
Sim  
Gabriel  
PA Floresta Gurupi I - Colônia Água  
Não  
Branca  
PA Floresta Gurupi I - Vila Nova  
União  
Sim  
Não  
Sim  
Plantio de Mudas  
Parcerias: IABS  
Não  
Não  
Não  
Sim  
PA Floresta Gurupi I - Vila Bom Jesus  
PA Floresta Gurupi I - Colônia  
Sapucaia  
PA Suçuarana  
Não  
Fonte: Silva et al (2025).  
No que se refere à existência de viveiros ou bancos de semente direcionados às  
atividades agroflorestais nos PAs em tela, os dados revelam que 8,70% das associações  
de produtores têm acesso a maquinário para as atividades agroflorestais, cujos  
principais equipamentos são tratores. A Colônia Água Branca, no PA Floresta Gurupi I,  
indicou maior diversificação desses equipamentos, tais como, vincão, plantadeira,  
grado e pulvuizada. Sobre viveiros ou bancos de sementes, 90% das associações dos  
produtores pesquisadas, não os possuem; exceção é a Colônia Vila Bom Jesus, que  
possui viveiros (Quadro 7).  
Quadro 7 - Acesso a maquinário, equipamentos disponíveis, existência de viveiros ou bancos de  
sementes nos PAs analisados  
A Associação  
tem acesso a  
maquinário  
Existe um viveiro  
ou banco de  
Se sim, liste os equipamentos  
disponíveis  
PA  
sementes  
(médio/grande  
comunitário no  
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porte) para  
atividades  
assentamento?  
agroflorestais?  
PAE Ilha Trambioca  
PA Inajá  
Não  
Sim  
Sim  
Sim  
Não  
Sim  
Sim  
Não  
Não  
Não  
Não  
Não  
Trator  
Trator  
PA Floresta Gurupi I -  
Colônia Rossi Gabriel  
PA Floresta Gurupi I -  
Colônia Água Branca  
Trator, vincão, plantadeira, grado,  
pulvuizada  
PA Floresta Gurupi I - Vila  
Nova União  
PA Floresta Gurupi I - Vila  
Bom Jesus  
Trator  
Trator  
Sim  
Não  
Não  
PA Floresta Gurupi I -  
Colônia Sapucaia  
PA Suçuarana  
Fonte: Silva et al (2025).  
3.3 QUADRO PRODUTIVO DOS PAs ANALISADOS  
Nesse tópico, o objetivo é analisar a estrutura produtiva dos quatro  
assentamentos selecionados, com foco nas práticas sustentáveis indicadas pelo  
Projeto Florestas Produtivas, do MDA/MMA. O questionário se ateve a: realização de  
práticas sustentáveis (proteção do solo, de cultivo sem veneno ou adubo químico, sem  
uso do fogo, ou algum cultivo de espécies de plantas frutíferas ou madeireiras  
regionais); pessoas dispostas a desenvolver tais práticas; acesso ao crédito rural ou a  
qualquer tipo de financiamento para a produção; acesso à assistência técnica  
regularmente; acesso a maquinário ou ferramentas adequadas para atividades  
produtivas; existência de infraestrutura de irrigação nas áreas produtivas; se a  
produção é realizada nos mercados, que tipo de mercado e quais produtos são  
comercializados; se as famílias produzem algum tipo de artesanato; se as famílias  
exploram madeiras legalizadas; se as famílias exploram algum tipo de atividade  
extrativista; se existem agroindústrias e quais produtos são beneficiados. Nesse caso,  
ressaltam-se os principais dados, conforme a seguir.  
No PA Ilha de Trambioca, foram aplicados questionários com 700 pessoas e os  
resultados sobre a questão de práticas sustentáveis revelaram que 88,86% das famílias  
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realizam alguma prática sustentável, indicando preocupação em melhorar o meio  
ambiente (Gráfico 1).  
Gráfico 1 – PA Ilha da Trambioca: Sua família realiza alguma prática sustentável, que ajuda a melhorar o  
meio ambiente como: de proteção do solo, de cultivo sem veneno ou adubo químico, sem uso do fogo,  
ou algum cultivo de espécies de plantas frutíferas ou madeireiras regionais? (Sim/Não, em percentuais)  
11,14  
88,86  
% (Sim)  
% (Não)  
Fonte: Silva et al (2025).  
No PA Inajá, todavia, em que foram entrevistadas 69 pessoas, a maioria  
(79,71%) afirmou não realizar práticas sustentáveis. Buscando informações para  
engajamento em projetos de sustentabilidade, como o Florestas Produtivas, mais  
precisamente a respeito da disposição dos entrevistados e seus familiares em  
desenvolver atividades de cultivo de espécies frutíferas e florestais combinadas, ou  
para recuperação de áreas degradadas, tem-se que: i) a quantidade de pessoas que  
não estão dispostas a desenvolver atividades voltadas às práticas sustentáveis, somada  
aos entrevistados que não responderam, equivaleu a 56,52% do total; ii) entre aqueles  
que estão dispostos, 21,74% dos entrevistados afirmaram que pelo menos duas  
pessoas de sua família gostariam de desenvolver atividades sustentáveis, 13,04%  
responderam que pelo menos uma pessoa tem interesse enquanto 8,70% representam  
de três a mais pessoas da família dispostas a essas atividades (Gráfico 2).  
Gráfico 2 – PA Inajá: Quantas pessoas da família estão dispostas para desenvolver atividades de cultivo  
de espécies frutíferas e florestais combinadas, ou para recuperação de áreas degradadas?  
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20,29  
36,23  
13,04  
8,70  
21,74  
0
1
2
3+  
N/R  
Fonte: Silva et al (2025).  
Em se tratando da disposição das famílias para desenvolver atividades de  
cultivo de espécies frutíferas e florestais combinadas, ou para recuperação de áreas  
degradadas, no PA Suçuarana foram entrevistadas 38 pessoas, cujos resultados  
revelaram que:  
i)  
Alto Potencial de Disposição (Acima de 0): a esmagadora maioria das  
famílias que responderam a questão indicou ter pelo menos uma pessoa disposta.  
Somando as categorias '1', '2' e '3’ ou mais', observa-se que 24 famílias (66,67% da  
amostra total) demonstraram algum nível de disposição para essas práticas  
sustentáveis. Este é o ponto mais relevante, indicando que a adesão e o  
desenvolvimento de projetos nessa área são promissores (Gráfico 3);  
ii)  
(1) é a mais representativa entre as respostas válidas, com 13 famílias (36,11%);  
iii) Famílias com Maior Engajamento: Há uma força notável em famílias  
A Disposição Mínima: a categoria de 'Pelo menos uma pessoa disposta'  
com três ou mais pessoas dispostas, que somam 6 famílias (16,67%). Tal grupo  
representa um ativo importante para atividades que demandam maior mão de obra e  
dedicação;  
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iv)  
Baixa Taxa de Nenhuma Disposição: apenas uma família (2,78%) indicou  
que ninguém na casa estaria disposto a participar, o que reforça o panorama geral de  
interesse;  
v)  
O Desafio dos Dados Faltantes: a categoria 'Não Responderam' (N/R) é  
substancial, representando 11 ocorrências (30,56%) do total da amostra. Essa alta taxa  
pode mascarar a realidade, pois essas famílias poderiam estar dispostas ou não. Em  
futuras coletas, seria crucial reduzir essa taxa para ter uma imagem mais precisa da  
disposição real da comunidade.  
Gráfico 3 – PA Suçuaruna: Quantas pessoas da família estão dispostas para desenvolver atividades de  
cultivo de espécies frutíferas e florestais combinadas, ou para recuperação de áreas degradadas?  
2,78%  
30,56%  
36,11%  
16,67%  
13,89%  
0
1
2
3 ou mais  
Não Responderam  
Fonte: Silva et al (2025).  
Em resumo, dois terços das famílias pesquisadas (66,67%) têm pessoas  
dispostas a se engajar em práticas de cultivo e recuperação, sugerindo um terreno  
fértil para a implementação de iniciativas ambientais e agrícolas, o que é uma  
constatação positiva em se tratando de inserção no PNFP.  
No PA Floresta Gurupi I, no qual foram entrevistadas 125 pessoas, destaca-se  
que “os dados apontam que o crédito acessado é predominantemente utilizado para  
atender às necessidades iniciais de instalação, moradia e estruturação básica da  
unidade familiar, em grande parte viabilizado pelo PRONAF A” (Silva et al., 2025, p.  
38).  
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4 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
As florestas produtivas podem concorrer para geração de riqueza sem  
comprometer o meio ambiente e, ainda, promover a inclusão social, a conservação da  
biodiversidade e dinamizar a economia local de grande parte da Amazônia brasileira.  
Para tanto, ações de conscientização ambiental e indução do mercado de produtos  
sustentáveis (açaí, babaçu, copaíba, etc) podem ser o mote a partir de parcerias com  
instituições públicas, o setor privado, comunidades tradicionais e o Estado brasileiro.  
A partir do diagnóstico preliminar (Silva et al, 2025), fundamentado em  
pesquisa de campo nos assentamentos de reforma agrária PAE Ilha Trambioca, PA  
Inajá, PA Floresta Gurupi I, e PA Suçuarana, no estado do Pará, pode-se inferir sobre a  
disposição das comunidades e a realidade socioprodutiva, conforme exigido para a  
inserção no Programa Nacional de Florestas Produtivas (PNFP).  
A análise integrada dos dados provenientes dos 932 questionários aplicados às  
associações de produtores e aos produtores individuais evidenciou uma elevada base  
administrativa e forte disposição consistente para a recuperação de áreas, contrastada  
com uma significativa fragilidade estrutural e baixa capacidade técnica para a execução  
e sustentabilidade dos projetos. Nesse caso, releva-se que:  
1. Disposição para Inserção no Programa Nacional de Florestas Produtivas  
(PNFP)  
O conjunto dos assentamentos demonstra uma predisposição fundamental  
para aderir ao PNFP, justificada por imperativos ambientais e validação administrativa,  
embora com notórias lacunas de capacidade técnica e institucional.  
A. Disposição e Capacidade Institucional (Associações de Produtores)  
Necessidade Comprovada e Elegibilidade Técnica: As áreas de Reserva Legal  
(RL) nos assentamentos apresentam um quadro de degradação total ou parcial, com  
aproximadamente 90% das áreas consideradas passíveis de recuperação. A extensão  
de área a ser recuperada é substancial, com o PAE Ilha Trambioca apresentando a  
maior estimativa (600 hectares).  
Base Administrativa Sólida: Um fator crítico para a elegibilidade a  
financiamentos é a regularização fundiária e ambiental. Neste aspecto, quase a  
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totalidade (aproximadamente 87%) das associações pesquisadas possui Cadastro  
Ambiental Rural (CAR) coletivo regularizado.  
Disposição Volitiva e Experiência Incipiente: A disposição para a recuperação é  
evidente, ainda que incipiente em ações concretas. Aproximadamente 70% das  
associações não possuem iniciativas próprias de recuperação ambiental ou  
reflorestamento. Contudo, as exceções demonstram engajamento: o PA Inajá já está  
inserido no Projeto Florestas Produtivas e a Colônia Sapucaia (PA Floresta Gurupi I)  
mantém parcerias com instituições de desenvolvimento sustentável.  
B. Disposição e Engajamento dos Produtores Individuais  
A disposição individual para o engajamento é heterogênea, porém,  
majoritariamente positiva.  
Alta Disposição no PAE Ilha Trambioca: Neste assentamento, 88,86% das  
famílias reportam a realização de práticas sustentáveis. Além disso, 70,14% dos  
entrevistados indicam ter pelo menos uma pessoa na família disposta a desenvolver  
atividades de cultivo combinado ou recuperação de áreas degradadas.  
Potencial Moderado em Outros PAs: Nos PAs Inajá e Suçuarana, a taxa de  
realização de práticas sustentáveis é menor (aproximadamente 20% e 28,95%,  
respectivamente). No entanto, a disposição para novas atividades de recuperação é  
significativa entre os que responderam, com 66,67% das famílias no PA Suçuarana e  
43,48% no PA Inajá reportando ter membros dispostos ao engajamento.  
2. Realidade Socioprodutiva: Vulnerabilidade Estrutural  
A realidade socioprodutiva dos assentamentos pesquisados é caracterizada por  
um sistema de produção de baixo capital e baixa tecnologia, intensamente vulnerável  
a choques econômicos e climáticos, o que representa um desafio à sustentabilidade de  
projetos como o PNFP. Soma-se a isso que os dados apontam para uma baixa  
penetração de sistemas de irrigação nas unidades produtivas, o que pode ter  
implicações diretas na segurança hídrica e na produtividade, especialmente em  
períodos de estiagem.  
O
conjunto  
dos  
assentamentos  
pesquisados  
está  
disposto  
e
administrativamente apto (via CAR regularizado) a se inserir no Programa Nacional de  
Florestas Produtivas, dada a urgência da recuperação das áreas de Reserva Legal. No  
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entanto, a realidade socioprodutiva é de alta vulnerabilidade estrutural, marcada pela  
crítica ausência de Assistência Técnica (ATER), a carência de infraestrutura essencial  
(viveiros, irrigação), e o baixo acesso ao crédito.  
A efetivação bem-sucedida do PNFP nesses PAs exige que o acesso aos recursos  
financeiros seja condicionado e acompanhado por um robusto pacote de Assistência  
Técnica, notadamente, especializado em Sistemas Agroflorestais (SAFs) e manejo de  
florestas produtivas, bem como o fomento à estruturação de viveiros comunitários e  
acesso a mercados institucionais, visando superar as fragilidades estruturais  
identificadas e garantir a perenidade dos investimentos em recuperação ambiental.  
Recomenda-se um estudo sobre Modelagem de Governança que seja capaz de atender  
tanto a elaboração dos projetos, quanto sua execução.  
REFERÊNCIAS  
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floresta-em-pé. In: AB’SÁBER, Aziz N. Amazônia: do discurso à práxis. 2 ed. São Paulo:  
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SOBRE O(A) AUTOR(A)  
Antonio José de Araújo Ferreira  
Graduado em Economia (UFG), Mestre e Doutor em Geografia (UFG), Pós-Doutor em Economia Rural  
(UFC). Professor Titular do Departamento de Economia (DECON) e do Programa de Pós-Graduação em  
Desenvolvimento Socioeconômico (PPGDSE) da UFMA. Pesquisador do Grupo de Estudos em Economia  
Aplicada (GEIA) da UFMA.  
Jadson Pessoa da Silva  
Graduado em Ciências Econômicas (UFMA), Mestre em Desenvolvimento Socioeconômico (UFMA),  
Doutor em Economia (UFPA). Professor do Departamento de Economia (DECON) da Universidade  
Federal do Maranhão (UFMA). Coordena o Grupo de Estudos em Economia Aplicada (GEIA) da UFMA. É  
coordenador institucional do Projeto Floresta Produtiva, do TED MDA/UFMA, voltado ao fomento de  
cadeias produtivas da sociobiodiversidade e ao desenvolvimento territorial na Amazônia Legal  
maranhense.  
César Augustus Labre Lemos de Freitas  
Graduado em Geografia e Especialista em Planejamento Ambiental (UFMA), Mestre e Doutor em  
Geografia Humana (USP) e Pós-Doutor pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) da UFPA.  
Professor Titular do Departamento de Geociências (DEGEO) e do Programa de Pós-Graduação em  
Geografia (PPGGEO) da UFMA. Pesquisador do Grupo de Estudos em Economia Aplicada (GEIA) da  
UFMA.  
Ricardo Zimbrão Affonso de Paula  
Graduado em História (UFJF), Mestre e Doutor em Ciências Econômicas (Unicamp). Professor Titular do  
Departamento de Economia (DECON) e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio  
Ambiente (PRODEMA) da Universidade Federal do Maranhão. É pesquisador do Grupo de Estudos em  
Economia Aplicada (GEIA) da UFMA.  
COMO CITAR ESTE ARTIGO  
FERREIRA, Antonio José de Araújo; SILVA, Jadson Pessoa da; FREITAS, César; PAULA, Ricardo. Florestas  
produtivas na Amazônia legal: avançando pelo debate e possibilidades no estado do Pará a partir de  
uma experiência do TED UFMA/INCRA. Passagens: Revista do Programa de Pós-Graduação em  
Comunicação da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, v. 17, n. especial, p. e97535 , 2026.  
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RECEBIDO EM: 17/08/2026  
ACEITO EM: 08/09/2026  
PUBLICADO EM: 23/09/2026  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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QUANDO A COMUNICAÇÃO PRESCINDE DA PALAVRA:  
COMUNICAÇÃO INTERSENSORIAL E SOCIABILIDADES NO  
TRANSPORTE COLETIVO URBANO  
WHEN COMMUNICATION DISPENSES WITH WORDS:  
INTERSENSORY COMMUNICATION AND SOCIABILITIES IN  
URBAN PUBLIC TRANSPORT  
CUANDO LA COMUNICACIÓN NO REQUIERE PALABRAS:  
COMUNICACIÓN INTERSENSORIAL Y SOCIABILIDAD EN EL  
TRANSPORTE PÚBLICO URBANO  
_____________________________________________________  
Marcelo Amador de Oliveira Dias  
Universidade Federal do Pará  
Marina Ramos Neves de Castro  
Universidade Federal do Pará  
Resumo: Este artigo busca compreender como a comunicação no cotidiano urbano opera menos  
pela linguagem verbal e mais por processos sensoriais incorporados, especialmente em contextos de  
copresença intensa, como no transporte coletivo. O problema consiste em compreender de que  
modo gestos, posturas corporais, usos de objetos e percepções ambientais organizam sociabilidades  
e formas de convivência. Metodologicamente, apoia-se em uma etnografia sensorial realizada na  
linha de ônibus 901, que liga os municípios contíguos de Ananindeua e Belém, Pará. Os achados  
indicam que práticas banais, como ajustar o corpo ou acomodar objetos, constituem formas  
comunicacionais centrais para a regulação da copresença. Conclui-se que a comunicação sensorial é  
fundamental na organização das sociabilidades urbanas, contribuindo para a reflexão a respeito do  
campo da Comunicação ao deslocar o foco compreensivo da sua dimensão discursiva para a  
dimensão relacionada à experiência vivida.  
Palavras-chave: Comunicação intersensorial; Sociabilidades urbanas; Transporte coletivo; Etnografia  
sensorial; Cotidiano urbano.  
Abstract: This article seeks to understand how communication in everyday urban life operates less  
through verbal language and more through embodied sensory processes, especially in contexts of  
intense copresence such as public transportation. The problem addressed is how gestures, bodily  
postures, object use, and environmental perceptions organize sociabilities and forms of coexistence.  
Methodologically, the study is based on a sensory ethnography conducted on bus line 901, which  
connects the contiguous municipalities of Ananindeua and Belém, in the state of Pará, Brazil. The  
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findings indicate that ordinary practices, such as adjusting one’s body or accommodating objects,  
constitute central communicative forms for regulating copresence. The article concludes that  
sensory communication plays a fundamental role in organizing urban sociabilities, contributing to  
reflections in the field of Communication by shifting the analytical focus from its discursive dimension  
to the dimension related to lived experience.  
Keywords: Intersensory communication; Urban sociabilities; Public transportation; Sensory  
ethnography; Everyday urban life.  
Resumen: Este artículo busca comprender cómo la comunicación en la vida urbana cotidiana opera  
menos a través del lenguaje verbal y más a través de procesos sensoriales corporales, especialmente  
en contextos de intensa copresencia, como en el transporte público. El problema radica en  
comprender cómo los gestos, las posturas corporales, el uso de objetos y las percepciones del  
entorno organizan las sociabilidades y las formas de convivencia. Metodológicamente, se basa en  
una etnografía sensorial realizada en la línea de autobús 901, que conecta los municipios contiguos  
de Ananindeua y Belém, en Pará. Los hallazgos indican que prácticas banales, como ajustar el cuerpo  
o acomodar objetos, constituyen formas comunicacionales centrales para la regulación de la  
copresencia. Se concluye que la comunicación sensorial es fundamental en la organización de las  
sociabilidades urbanas, contribuyendo a la reflexión en el campo de la Comunicación al desplazar el  
enfoque integral de su dimensión discursiva a la dimensión relacionada con la experiencia vivida.  
Palavras-clave: Comunicación intersensorial; Interacciones sociales urbanas; Transporte público;  
Etnografía sensorial; Vida cotidiana urbana.  
1 INTRODUÇÃO: COMUNICAÇÃO, SENTIDOS E COTIDIANO URBANO  
Este artigo parte da hipótese de que, no cotidiano urbano, a comunicação se  
realiza menos pela linguagem verbal e mais por processos sensoriais incorporados,  
especialmente, em contextos de copresença1 intensa, como no transporte coletivo. A  
partir de uma etnografia sensorial realizada na linha de ônibus 901, no trânsito  
Ananindeua-Belém, municípios contíguos, localizado na Região Metropolitana de  
Belém, Pará, busca-se compreender como gestos, objetos, posturas corporais e  
percepções ambientais estruturam sociabilidades e formas de convivência em espaços  
públicos de mobilidade. Para tanto, o trabalho se apoia em uma etnografia sensorial  
realizada na referida linha de ônibus, analisando práticas cotidianas que regulam a  
experiência coletiva do deslocamento. Ao fazê-lo, o artigo também procura contribuir  
1
Entende-se por copresença a situação em que indivíduos compartilham um mesmo espaço-tempo e  
tornam-se mutuamente perceptíveis, orientando suas ações a partir da percepção sensível do outro  
(Goffman, 1983). Em chave fenomenológica, a copresença pode ser compreendida como uma experiência  
intersubjetiva fundada no estar-junto corporalmente situado no mundo vivido, no qual a percepção do  
outro se dá de maneira pré-reflexiva e incorporada (Schütz, 1979, apud Wagner, 1979; Merleau-Ponty,  
2011). O conceito é aqui mobilizado de forma operacional, sem desenvolvimento teórico específico.  
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para com a reflexão a respeito do campo da pesquisa em Comunicação, ao deslocar o  
foco do discurso para o da experiência vivida, a percepção incorporada e os regimes  
sensoriais que estruturam as interações urbanas.  
Assim sendo, acompanhamos dona Silmara num ponto de ônibus em torno das  
6:45 da manhã de um dia de semana. Ela conta-nos que já estava atrasada, e que  
normalmente deveria estar no ônibus naquele horário, para conseguir chegar ao  
trabalho até às 8 horas. Notando que nós já nos encontrávamos ali quando da sua  
chegada, ela pergunta-nos há quanto tempo estamos esperando [o ônibus].  
Respondemos que “coisa de dez minutos”, que não estávamos ali há tanto, assim. “Deve  
tá pra vim”, dona Silmara diz. Aproveitamos esse diálogo curto e bastante comum em  
paradas de ônibus para estabelecer uma troca com Silmara, ou melhor, uma  
comunicação intersensorial2 (Castro, 2026).  
Na rua em que estamos, passa o ônibus 901 (Cidade Nova 5 - Ver-O-Peso), uma  
linha circular com 98 paradas, saindo da travessa We 31 com a travessa Sn 20, bairro da  
Cidade Nova 5, município de Ananindeua. É dentro desta linha de ônibus que este e  
outros relatos e diálogos narrados neste artigo se desenrolaram, em meio a variáveis  
como diferentes horários, trechos do itinerário da linha e rostos. Tudo muito efêmero  
e, mesmo assim, constante, uma vez que, segundo Simmel (1973), a vida urbana é  
caracterizada por uma rede de encontros breves e fragmentados que, apesar de sua  
superficialidade, são fundamentais na formação de intersubjetividades modernas.  
É a partir desse uso reiterado da linha 901 que se constituiu o percurso  
etnográfico desta pesquisa. Realizada entre 2024 e 2026, a pesquisa foi construída a  
partir do uso contínuo da linha de ônibus 901, que integra os municípios de Ananindeua  
e Belém. O pesquisador é usuário da referida linha e, ao longo de dois anos, realizou  
mais de cem viagens e incursões, em diferentes horários, principalmente nos períodos  
da manhã e da tarde. A escolha da linha não decorreu, portanto, de uma seleção prévia  
2
Entende-se por intersensorialidade a articulação integrada dos sentidos do corpo, culturalmente  
situados, na produção de significados e na mediação das relações sociais. A comunicação intersensorial  
refere-se, assim, a processos comunicacionais que operam para além da linguagem verbal, ancorados na  
percepção incorporada e na relação entre corpos, objetos e ambiente (Castro, 2026).  
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orientada exclusivamente por critérios externos ao campo, mas emergiu da própria  
experiência cotidiana de deslocamento e do interesse suscitado pelas situações  
sensoriais e interacionais observadas durante seu uso. As situações analisadas foram  
selecionadas a partir da experiência vivida e da observação do pesquisador,  
considerando acontecimentos, gestos, movimentos, usos de objetos, interações e  
demais situações que se mostraram relevantes para a compreensão das formas de  
comunicação e sociabilidade produzidas no interior do transporte coletivo. Os registros  
foram realizados sistematicamente em caderno de campo e em diário de campo, ao  
longo dos três anos de acompanhamento. Além das observações, foram realizadas  
aproximadamente 30 entrevistas com usuários da linha, cujos relatos foram  
incorporados à análise em articulação com as situações observadas, permitindo  
confrontar a percepção do pesquisador com as experiências narradas pelos próprios  
passageiros. Essa posição de pesquisador-usuário constitui uma dimensão fundamental  
do percurso metodológico, uma vez que a investigação não se desenvolveu a partir de  
uma observação externa do transporte coletivo, mas da participação reiterada e  
corporalmente situada no próprio ambiente pesquisado.  
Neste momento, a talvez três centenas de metros de nós, o coletivo se  
aproximava. Observo que não estávamos sozinhos ali naquela parada de ônibus, outras  
pessoas nos cercavam. Pessoas vestidas com uniformes escolares, trajando uniformes  
de empresas onde certamente trabalhavam e para quais estavam se dirigindo, uma  
mulher com uma criança em seu colo e uma bolsa com desenhos infantis e outras  
pessoas.  
Conforme o ônibus se aproximava, era nítida, quase palpável, uma certa  
apreensão entre as pessoas que me cercavam, pelos mais possíveis motivos que, até  
aquele momento, eu apenas podia supor, sendo eu mesmo também usuário desta  
modalidade de transporte. Talvez alguém ali estivesse internamente comemorando –  
eventualmente aliviado – a vinda do coletivo e, assim, não se atrasaria para um  
compromisso; talvez a moça com a criança no colo conseguiria chegar no horário uma  
eventual consulta agendada para a filha; os homens bateriam seus pontos no horário  
certo; a vida correria bem.  
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Dona Silmara, da mesma forma, também aparentava certa apreensão. A essa  
altura, percebi que ela já estava com um vale digital3 na mão direita, enquanto a mão  
esquerda segurava a alça da bolsa próximo ao ombro. No movimento que se fazia de  
aproximação do ônibus, todos nós que estávamos na parada começamos ligeiramente  
a nos movimentar, ajustando-nos uns aos outros, na tentativa de melhor nos  
posicionarmos para quando o veículo parasse e estivéssemos em boa posição para  
adentrarmos com presteza, subirmos seus degraus e pudéssemos nos acomodar  
sentados. Sim, a disputa é termos acesso a lugares sentados com o mínimo de conforto.  
Essa excitação e apreensão era normal quando o ônibus se aproximava; e quanto maior  
o número de passageiros à espera, maior era essa agitação na preeminente “pegada do  
ônibus”.  
Voltando a dona Silmara, observamos que, antes da parada do ônibus para que  
pudéssemos pegá-lo, ela, como os demais, estava se “ajeitando” para quando o ônibus,  
que estava cada vez mais próximo, parasse no ponto. A grande questão talvez fosse: não  
havia fila, ou seja, a aparente apreensão do pequeno grupo de pessoas ali reunidas  
parecia girar em torno de questão de precedência em relação ao ato de adentrar no  
ônibus. E isso, certamente, junto com a espera e a superação da espera, aguçara a  
percepção de todos, fazendo-os comunicarem-se entre si a partir dos sentidos não  
verbalizáveis e dos movimentos corporais que respondiam a esses sentidos. Como a  
comunicação não passava por um canal direto e era tangencialmente perceptível  
através dos sentidos que atuavam concomitantemente através da relação entre o corpo  
e corpo, corpo e ambiente, ocorria ali uma comunicação intersensorial (Castro, 2026);  
forma de comunicação que será tratada ao longo deste artigo.  
A partir dessas e de outras interações aparentemente banais, este artigo propõe  
uma reflexão mais ampla sobre a comunicação no cotidiano urbano. Defende-se que,  
em espaços de mobilidade coletiva, como o ônibus, a comunicação se realiza por meio  
dos sentidos — que perpassam através de gestos, olhares, posturas corporais,  
3
Cartão plástico mensalmente recarregado com determinado valor, benefício fornecido por empresas  
para auxiliar os funcionários no custeio das despesas de deslocamento.  
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movimentos e objetos — e não prioritariamente pela linguagem verbal. Trata-se de uma  
comunicação intersensorial, na qual o corpo e o ambiente desempenham papel central  
na organização das sociabilidades.  
2 PERCURSOS URBANOS E ORGANIZAÇÃO SENSORIAL DA COPRESENÇA -  
CAMINHANDO ENCONTRAMOS NOSSO PERCURSO  
Éramos sete ou oito pessoas aguardando para entrar no veículo: uma mulher  
com uma criança no colo, outra senhora aparentando cerca de cinquenta anos, alguns  
homens e um rapaz com uniforme escolar. Diante dessa configuração, tornava-se  
perceptível a possibilidade — socialmente aprendida — de ceder passagem à mulher  
com a criança ou à senhora, por meio de um gesto corporal ou de um leve movimento  
de cabeça. Tais expectativas normativas, associadas a marcadores como gênero, idade  
e condição física, são amplamente difundidas no cotidiano urbano, mas não operam  
como regras mandatórias.  
Essas convenções configuram formas sociais flexíveis, que se atualizam, se  
aprofundam e/ou se suspendem conforme a leitura situacional dos sujeitos. Como  
aponta Goffman (2018), a vida social – assim como nossas condutas e comportamentos  
nela - é organizada por regras não escritas, às quais se adere muitas vezes de modo  
tácito, mas que permanecem abertas à negociação, adaptação ou suspensão,  
dependendo do contexto interacional.  
Naquela situação específica, a espera pelo embarque no ônibus parecia menos  
orientado por hierarquias explícitas de precedência e mais por uma lógica contingente.  
Subia primeiro quem encontrasse espaço; sentava-se quem localizasse um assento  
disponível. Sem maiores deliberações, embarquei. O trajeto seria longo, e o ônibus, já  
longe de estar vazio, anunciava a complexidade das interações que se desenrolariam ao  
longo do caminho.  
Todas as pessoas aproximavam-se da exata parada do ônibus, e já aguardavam  
à beira da pista, pisando no asfalto, buscando se posicionar da melhor forma para o  
embarque. Antes mesmo do ônibus parar completamente, os corpos já se  
reorganizavam em função da abertura iminente das portas. Naquele momento, era  
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incerto se conseguiríamos um assento próximo a Dona Silmara, mas mantemo-nos  
atento à sua presença, evitando perdê-la em meio ao fluxo de pessoas. O aglomerado  
de pessoas intensificou-se na direção da porta, assim que o ônibus parou. Ali, havia um  
diálogo entre os corpos, agenciado pelo tato e pelo movimento dos corpos que  
promovia a linguagem sensorial enquanto dispositivo comunicativo.  
Dona Silmara posicionou-se junto à porta assim que o veículo parou. Apenas  
mais tarde, ela comentaria que sua preocupação era evitar chegar suada ao trabalho,  
por isso um bom lugar, sentada, evitaria uma viagem desconfortável que a fizesse suar.  
Apesar de ter-se permanecido próximo a ela, não conseguíramos embarcar  
imediatamente juntos, pois um dos homens uniformizados adiantou-se impedindo a  
contiguidade no ato da subida dos degraus do ônibus. A cena revelou como o embarque  
se constitui por microajustes corporais em diálogo contínuos e diretos, que  
compreendemos por uma forma de comunicação não verbal e não ordenada,  
estabelecida formalmente através da propriocepção4, das vibrações e do tato; e, ainda  
dos odores dos corpos, da visão e da audição, sentidos produzidos pelos elementos  
contidos naquela circunstância banal e ordinária do mundo da vida, possibilitando uma  
forma de comunicação inerente àquela maneira conjuntural – tida como automática -  
no comportamento urbano.  
Figura 1 – A espera – Passageiros aguardam para embarcar no ônibus da linha 901  
4 Propriocepção é o sentido pelo qual percebemos a posição, o movimento e a tensão do nosso próprio  
corpo no espaço, sem precisar olhar para ele. Merleau-Ponty (2011), a propriocepção é central para a  
ideia de que o corpo não é um objeto entre outros, mas o meio pelo qual o mundo se torna perceptível.  
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Fonte: Elaborada pelos autores.  
Na imagem, observam-se os usuários do coletivo 901 organizados na parada de  
ônibus. Essa disposição dos corpos não resulta de instruções formais ou de comunicação  
verbal explícita, mas de uma comunicação sensorial que se estabelece por meio dos  
sentidos corporais. A visão e a audição orientam a atenção ao ambiente e à aproximação  
do veículo, enquanto sentidos somáticos, como a propriocepção e a percepção das  
vibrações, regulam distâncias, posições e movimentos. É a partir dessa articulação  
intersensorial, produzida no encontro entre corpos, espaço e ambiente urbano, que os  
usuários se posicionam e se deslocam, revelando uma forma de comunicação cotidiana  
que opera menos pela linguagem e mais pelos sentidos (Castro, 2020; 2024; 2024b).  
Ressaltamos, ainda, que a propriocepção pode ser compreendida como uma  
dimensão fundamental da sensorialidade, pois diz respeito à percepção encarnada do  
corpo em movimento e em relação – ou seja, em interação com algo -, não se limitando  
a um sentido isolado, mas operando de modo integrado aos demais sistemas  
perceptivos. Nessa perspectiva, autores como Soesman (1998), Pallasmaa (2010) e  
Castro (2024) defendem que a experiência sensorial é sempre intersensorial, isto é,  
constituída pela articulação dinâmica entre visão, tato, audição, olfato, equilíbrio e  
propriocepção, rompendo com modelos hierárquicos ou compartimentados dos  
sentidos.  
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Em diálogo com essa abordagem, Castro (2024a; 2024b) enfatiza o caráter  
relacional e situado da percepção, destacando que o sensível emerge da afetação mútua  
entre corpo, ambiente e outros corpos, o que coloca a propriocepção como eixo central  
da experiência perceptiva, na medida em que ancora a sensorialidade no corpo vivido e  
sustenta as práticas sociais como experiências corporais, relacionais e historicamente  
situadas.  
3
INTERAÇÕES INTERSENSORIAIS NO INTERIOR DO TRANSPORTE PÚBLICO  
Ao adentrar o ônibus, tornou-se imediatamente perceptível o modo como o  
espaço interno se apresentava: uma sucessão de rostos de diferentes idades, tons de  
pele e expressões, corpos vestidos com uniformes escolares, fardas de trabalho e roupas  
cotidianas, além de alguns assentos ainda disponíveis na parte traseira do veículo. Na  
área anterior à catraca, destinada às gratuidades, todos os lugares estavam ocupados, e  
alguns idosos permaneciam em pé, o que produzia uma sensação evidente de  
abafamento e compressão corporal. Para avançar, foi necessário erguer a mochila acima  
das cabeças, evitando contatos eventualmente indelicados naquele espaço já saturado.  
Observa-se que, após o embarque, os passageiros atravessam rapidamente a  
catraca, buscando garantir um assento disponível ou, na ausência dele, posicionar-se de  
modo estratégico, à espera de alguma vaga. Essa dinâmica produz uma tensão latente,  
marcada por expectativas, disputas silenciosas e leituras constantes do ambiente,  
sobretudo porque a área anterior à catraca é socialmente reconhecida como espaço  
prioritário para idosos e pessoas com direito à gratuidade.  
Dona Silmara aproximou o vale digital da leitora eletrônica, que respondeu com  
um apito sonoro característico, liberando sua passagem. O senhor que estava à minha  
frente deslocou-se ligeiramente, abrindo espaço para que eu passasse. Paguei a tarifa  
e, mais uma vez, mantive-me próximo a dona Silmara, acompanhando seus movimentos  
até o fundo do ônibus, onde ainda havia alguns assentos livres.  
Ao sentar-se, ela comentou: “É o lado do sol”. Estávamos posicionados à  
esquerda do veículo, o que significava que, ao longo de boa parte do trajeto, a incidência  
solar recairia diretamente sobre aquele lado, aquecendo rostos, ombros, braços e colos.  
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O comentário, breve e aparentemente trivial, acionava uma leitura sensorial do  
percurso e antecipava desconfortos futuros, revelando como o ambiente é  
continuamente percebido e interpretado pelos passageiros.  
Algumas das pessoas que aguardavam conosco na parada permaneceram em pé  
no corredor central. Entre elas, estava a mulher com a criança no colo, posicionada  
próxima à catraca, segurando o balaústre horizontal para manter o equilíbrio. Os olhares  
cruzavam-se entre os passageiros sentados, como se todos compartilhassem a  
expectativa de que alguém cedesse o lugar, sem que houvesse, naquele momento, uma  
iniciativa clara.  
Antes da próxima parada, um rapaz com fones de ouvido, vestindo uma roupa  
que poderia ser tanto de trabalho quanto de estudo, levantou-se. Sem emitir palavras,  
fez um breve gesto com a mão, apontando para o assento. A mulher, equilibrando-se  
com cuidado para não deixar cair a criança e nem a bolsa, dirigiu-se ao lugar. Ao sentar-  
se, sorriu e agradeceu: “Obrigada”.  
O gesto de ceder o assento, ainda que rápido, evidencia uma forma de  
comunicação não verbal mediada pelos sentidos, na qual o reconhecimento da presença  
e da necessidade do outro se realiza sem o recurso à palavra. Trata-se de uma interação  
intersensorial que articula percepção visual, leitura corporal e avaliação situacional,  
condicionada pelas características do ambiente e pelas normas tácitas que regulam o  
uso daquele espaço.  
Esses gestos efêmeros não se reduzem a ações funcionais. Eles comunicam e  
reafirmam significados culturais e normas sociais, operando como microacordos que  
organizam a convivência em contextos de copresença intensa. O ato de ceder lugar  
pode, ainda, inscrever momentaneamente os sujeitos em hierarquias sensíveis  
baseadas na idade, na condição física ou em expectativas de cuidado, revelando como  
os sentidos orientam a navegação pelas regras não escritas do transporte coletivo (Pink,  
2015).  
É nesse sentido que a etnografia sensorial se apresenta como abordagem  
analítica pertinente. Conforme propõe Pink (2011), trata-se de repensar a etnografia a  
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partir da centralidade da experiência sensorial, integrando percepção, corporeidade e  
categorias sensíveis à produção do conhecimento. Mais do que estudar os sentidos em  
si, a etnografia sensorial permite compreender como eles estruturam práticas,  
interações e formas de sociabilidade no cotidiano.  
Do ponto de vista metodológico, considerar o espaço interno do ônibus como  
um ambiente culturalmente produzido — ainda que de forma efêmera — implica  
reconhecer que a comunicação cotidiana no espaço urbano se realiza por práticas  
sensoriais não verbais. Observar gestos, posturas, usos de objetos e percepções  
ambientais torna-se, assim, fundamental para acessar as formas de sociabilidade que se  
produzem no interior do transporte coletivo.  
À medida em que as paradas se sucediam, o ônibus tornava-se progressivamente  
mais cheio, sem que houvesse desembarques. O espaço configurava-se como  
simultaneamente reduzido e densamente ocupado, intensificando a proximidade entre  
os corpos e a complexidade das interações. Nesse contexto, os sentidos assumem papel  
central na regulação da convivência: por meio de percepções visuais, táteis, auditivas e  
corporais, os passageiros ajustam posições, negociam distâncias e organizam  
movimentos. A comunicação intersensorial, portanto, não é acessória, mas constitutiva  
da experiência coletiva naquele espaço, estruturando as interações em um ambiente  
marcado pela saturação e pelo compartilhamento forçado.  
Se esses microgestos já revelam a centralidade dos sentidos na regulação da  
copresença, à medida que o ônibus se enche de passageiros, as interações deixam de  
ser pontuais e passam a se encadear, tornando o ambiente sensorialmente mais denso  
e exigindo formas mais complexas de ajuste, cooperação e atenção mútua.  
4
A COMUNICAÇÃO INTERSENSORIAL EM AMBIENTES SATURADOS  
À medida em que o ônibus avançava e a quantidade de passageiros aumentava,  
as interações tornavam-se mais densas e contínuas. Dona Silmara, aparentemente  
tranquila com minha presença ao seu lado, desviou o olhar do celular e passou a  
observar o corredor do veículo, agora intensamente ocupado. Acompanhando seu  
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movimento, percebi olhares dispersos, expressões faciais cansadas ainda tão cedo,  
respirações profundas e pequenos sons que se espalhavam por todo o interior do  
coletivo, além de conversas paralelas e interações esporádicas. Esses elementos  
compunham um ambiente sensorial saturado, no qual a copresença dos corpos exigia  
ajustes constantes e uma atenção sensível ao outro.  
Nesse ambiente progressivamente saturado, chamou minha atenção um rapaz  
em pé, próximo a mim, cuja presença também era acompanhada pelo olhar de Dona  
Silmara. Ele mantinha a mochila posicionada à frente do corpo, junto ao peito.  
Observado a partir da etnografia sensorial, esse gesto revela-se como uma forma de  
comunicação não verbal que articula simultaneamente preocupações físicas e sociais.  
Ao reposicionar a mochila, o passageiro ajusta sua presença no espaço coletivo,  
minimizando o contato involuntário e sinalizando atenção à copresença dos outros  
corpos. A ausência de fala, nesse caso, não implica ausência de comunicação; ao  
contrário, são os sentidos — sobretudo a percepção corporal e espacial — que  
organizam e regulam a interação naquele ambiente saturado.  
Como aponta Pallasmaa (2010), os sentidos são centrais na forma como  
experienciamos o espaço e nos comunicamos dentro dele. Nesse sentido, o gesto do  
rapaz não se reduz a uma solução prática, mas expressa uma leitura sensível do  
ambiente, orientada pela percepção visual, tátil e corporal da proximidade física.  
Segurar a mochila junto ao corpo implica reconhecer os limites do espaço compartilhado  
e agir de modo a reduzir o desconforto próprio e alheio, ao mesmo tempo em que  
sinaliza cuidado, respeito e atenção ao outro em um contexto de mobilidade coletiva.  
Essa leitura sensível do espaço ganhou densidade relacional quando Dona  
Silmara, percebendo a situação, ergueu a mão em direção à mochila e perguntou ao  
rapaz se gostaria que ela a segurasse. Quase imediatamente, ele retirou as alças dos  
ombros e lhe entregou o objeto, equilibrando-se com a outra mão. Após agradecer com  
um breve “obrigado”, ajustou a camisa ao corpo, demonstrando certo alívio, e passou a  
concentrar-se no celular enquanto permanecia em pé próximo a mim.  
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Nesse breve episódio, estabelece-se uma troca intersubjetiva que integra  
corpos, objetos e ambiente, evidenciando o caráter fundamentalmente intersensorial  
da experiência humana (Howes, 2005). A interação não se organiza prioritariamente  
pela linguagem verbal, mas por práticas sensoriais incorporadas, nas quais gestos,  
posturas e objetos mediam a convivência cotidiana (Ingold, 2000; Castro, 2020; 2024).  
O ato descrito evidencia, assim, como significados sensoriais estruturam uma  
forma social específica no interior do transporte coletivo urbano. No espaço do ônibus,  
gestos e objetos não apenas coexistem, mas participam ativamente da organização das  
interações, constituindo um ambiente intersubjetivo e colaborativo. Corpos e objetos  
compartilham o mesmo campo sensorial e, ao fazê-lo, produzem uma experiência  
coletiva mediada menos pela linguagem verbal e mais pela percepção incorporada, pela  
atenção ao outro e pela regulação sensível da copresença.  
Figura 2 – No ônibus 901 – Mulher sentada (camisa vermelha) segura mochila de um homem em pé.  
Fonte: Elaborada pelos autores.  
Encerrada essa breve troca, Dona Silmara e eu permanecemos em silêncio por  
alguns instantes. Ela guardou o celular dentro da bolsa, apoiada sobre a mochila que  
havia segurado, ambas acomodadas em seu colo, e passou a olhar pela janela do ônibus.  
Percebi que suava. Já passava pouco das 7h10 da manhã, e o calor se fazia presente não  
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apenas pelo horário, mas pelas próprias condições do ambiente interno do veículo, que  
intensificavam as sensações corporais ali vividas.  
O ruído proveniente do exterior do ônibus era intenso, por vezes caótico:  
automóveis em fluxo contínuo, motores, buzinas, escapamentos de motocicletas,  
caminhões e, ocasionalmente, sirenes de ambulância compunham um verdadeiro  
festival sonoro do cotidiano urbano. No interior do coletivo, o cenário não era distinto.  
Produziam-se sensações táteis, olfativas — entre perfumes e odores desagradáveis —,  
visuais e sonoras, frequentemente ambivalentes e difusas (Castro, 2021; 2020). Tratava-  
se de uma experiência sinestésica que tornava os minutos da viagem potencialmente  
incômodos, exigindo constantes ajustes corporais e perceptivos.  
É importante destacar que tais sensações não se configuravam como  
experiências individuais isoladas, mas como percepções compartilhadas entre os  
passageiros, em maior ou menor grau. Essas condições sensoriais compunham uma  
intersensorialidade própria de espaços de mobilidade coletiva, produzida e reproduzida  
por meio de uma comunicação intersensorial (Castro, 2026) que se estabelece entre o  
eu, o outro e o ambiente. Nesse contexto, práticas como segurar mochilas, ajustar  
posturas ou ceder espaços não aparecem como gestos excepcionais, mas como  
respostas sensíveis às exigências da convivência em um espaço saturado.  
Retomando o diálogo, perguntamos a dona Silmara se tinha o costume de  
segurar mochilas ou bolsas de outros passageiros durante as viagens de ônibus. Ela  
respondeu: “Sempre que dá, a gente faz, né?. Eu também ando muito (de ônibus) em  
pé às vezes… às vezes quando eu tô de sacola grande é difícil, muito peso, né?”5  
Assentindo, questionei se havia algum critério para a realização desse gesto de  
gentileza. Dona Silmara explicou:  
“Olha, eu acho que depende muito. Tem gente que anda com mochilão. Mas  
quando é uma bolsinha menor ou se tiver muito cheio eu faço porque fica  
batendo na gente que tá sentado. Quando eu tô em pé, muita gente também  
segura, às vezes também se levantam pra mim sentar. É todo dia isso, a gente  
nunca sabe como vai ser a viagem.”6  
5 Dona Silmara durante entrevista em 29 setembro 2024.  
6 Idem  
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Percebendo-a mais falante — talvez como forma de se distrair do calor e da  
demora —, perguntei há quanto tempo utilizava diariamente a linha 901 e se sempre  
havia morado naquele conjunto. Ela contou que usava a linha há cerca de dez ou onze  
anos e relembrou seus deslocamentos anteriores, entre o bairro do Icuí-Guajará e a  
Terra Firme, destacando como o uso cotidiano do ônibus atravessava diferentes  
momentos de sua trajetória de vida.  
Ao narrar essas experiências, Dona Silmara evidenciava como o transporte  
coletivo não constitui apenas um meio de deslocamento, mas um espaço de memória,  
sensações e sociabilidades acumuladas ao longo do tempo. O cotidiano do ônibus, nesse  
sentido, articula experiências sensoriais presentes e lembranças passadas, reforçando o  
caráter incorporado e relacional da comunicação que se estabelece nesses percursos  
urbanos.  
De modo semelhante, o uso de um gancho para pendurar sacolas, observado em  
outro momento da pesquisa, reforça o papel mediador dos objetos nas interações  
sociais. Mais do que soluções utilitárias, esses artefatos integram a experiência sensorial  
do deslocamento, facilitando a navegação corporal, a permanência no espaço e a  
convivência com outros passageiros. Corpos e objetos, assim, articulam-se na produção  
de uma experiência coletiva marcada pela adaptação contínua às restrições e  
possibilidades do ambiente.  
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Figura 3 – No ônibus 901 – Sacolas penduradas por um gancho.  
Fonte: Elaborada pelos autores.  
Outra evidência que trazemos, trata-se da senhora que fazia crochê, com  
aparente tranquilidade e prazer durante uma viagem de ônibus urbano tumultuado e  
com calor intenso7. Em nossa compreensão, esse exemplo se faz expressivo pois enfatiza  
como atividades corporais e manuais podem criar zonas de conforto e estabilidade  
sensorial em um espaço marcado pela transitoriedade, impessoalidade e desconforto.  
O crochê, nesse contexto, não se restringe a um passatempo, mas atua como uma forma  
de produzir um espaço e equilíbrio pessoal e sensorialmente expressivo dentro de um  
ambiente público compartilhado, revelando estratégias cotidianas de estar no ônibus.  
Observa-se, ainda, que muitos desses processos comunicacionais não são  
plenamente conscientes para os sujeitos em interação. Ainda assim, como argumenta  
Castro (2021), produzem efeitos concretos na organização da convivência, sendo  
atravessados pela comunicação intersensorial,  
“Observamos que as relações recíprocas que estabelecemos, e através das  
quais nos comunicamos, estão permeadas pela intersensorialidade, ou seja,  
pela comunicação através da qual os sentidos do corpo, providos de cultura,  
são agentes fundamentais para a realização da intersensorialidade.” (Castro,  
2021: 125).  
7 Ressaltamos que em Belém há pouca variação de temperatura, temos um clima quente e úmido e os  
ônibus só foram ter climatização durante e após a COP30.  
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Os exemplos analisados acima indicam que a experiência sensorial no ônibus não  
se limita às condições físicas do espaço, mas envolve dinâmicas comunicacionais  
complexas entre corpos, objetos, ambientes e sentidos. Como argumenta Pink (2009), a  
etnografia sensorial permite acessar essa complexidade ao deslocar o olhar para as  
formas pelas quais os indivíduos vivenciam e moldam os espaços cotidianos por meio  
da percepção incorporada.  
5
CONSIDERAÇÕES FINAIS: ETNOGRAFIA SENSORIAL E OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE  
EM MOVIMENTO  
Este artigo resulta de encontros breves e fragmentados, característica própria de  
uma etnografia realizada em trânsito, on foot, como anunciamos acima. Contudo, essa  
transitoriedade não se deu de maneira apressada e imprevista, mas bem ao contrário.  
Se deu por meio de uma observação lenta e reiterada, voltada à apreensão das  
percepções sensoriais que atravessam as interações cotidianas. Sons, gestos,  
movimentos e microinterações revelam camadas sensoriais e afetivas da experiência  
urbana, fundamentais para compreender como os sujeitos se relacionam com seus  
contextos sociais e materiais.  
A observação direta e participante mostrou-se, assim, condição central da  
pesquisa, uma vez que a interação constitui o próprio fundamento do trabalho  
etnográfico (Eckert; Rocha, 2008). Habitar o mundo da vida e ocupar reiteradamente  
esse ambiente, marcado pela diversidade e pela efemeridade, implicou reconhecer que  
a presença do pesquisador também compõe a cena observada, integrando os fluxos  
comunicacionais e sensoriais do espaço.  
Nesse sentido, os aportes da etnografia sensorial e da etnografia on foot (Lee;  
Ingold, 2006; Pink, 2012; Castro, 2020, 2021, 2024, 2026) foram fundamentais para  
compreender como o ato de caminhar, esperar e deslocar-se de ônibus engendra  
processos de reciprocidade e sociação, produzindo formas sociais situadas (Simmel,  
2006; Castro, 2024).  
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Como observa Lee e Ingold (2006), o caminhar permite compreender os lugares  
a partir das rotas que os constituem, uma vez que o movimento envolve o corpo inteiro  
em interação contínua com o ambiente. É nesse fazer sensorial — andar, sentir, observar  
e conviver — que esta pesquisa se ancora.  
Por fim, o uso da primeira pessoa do singular não se configura como recurso  
estilístico, mas como posicionamento epistemológico. Ao assumir a parcialidade do  
olhar e a localização do pesquisador, este trabalho alinha-se às epistemologias situadas  
propostas por Haraway (1988), reconhecendo que o conhecimento é produzido de  
forma multimodal, relacional e contextual (Laplantine, 2016), a partir das condições  
concretas do sentir, do perceber e do estar-no-mundo.  
Se, na parada de ônibus, a comunicação sensorial organiza o posicionamento e  
o acesso ao veículo, no interior do coletivo essas dinâmicas se intensificam, atravessadas  
pela proximidade corporal, pela disputa por assentos e pela negociação contínua do  
espaço.  
Nesse sentido, a pesquisa sobre sensorialidade no horizonte do campo da  
Comunicação não se limita à incorporação dos sentidos como novos objetos empíricos,  
mas implica um deslocamento epistemológico mais profundo. Trata-se de questionar  
modelos comunicacionais centrados prioritariamente na linguagem verbal, no discurso  
ou nos meios técnicos, para reconhecer que a comunicação também se realiza — e  
muitas vezes se organiza fundamentalmente — no plano da experiência vivida, da  
percepção incorporada e da copresença sensível. Ao assumir a sensorialidade como  
dimensão constitutiva dos processos comunicacionais, este trabalho alinha-se a uma  
perspectiva que compreende a comunicação como prática relacional, situada e  
corporalmente mediada, na qual corpo, ambiente e objetos operam como agentes de  
significação. Tal deslocamento implica repensar tanto o estatuto do sensível na  
produção do social quanto os próprios modos de conhecer em Comunicação, exigindo  
abordagens metodológicas capazes de apreender aquilo que escapa ao verbalizável,  
mas que, ainda assim, estrutura as sociabilidades e regula a vida cotidiana urbana.  
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As interações descritas — marcadas por gestos mínimos, ajustes corporais e usos  
situados de objetos — permitem deslocar o olhar analítico do evento isolado para os  
modos pelos quais a experiência sensorial organiza a convivência cotidiana no  
transporte coletivo. A partir dessas cenas etnográficas, torna-se possível refletir de  
forma mais sistemática sobre o corpo, os sentidos e os objetos como operadores  
centrais dos processos comunicacionais observados.  
Ao longo deste artigo, o corpo foi compreendido como “pessoa inteira, corpo e  
mente indissolúveis, num ambiente ricamente estruturado” (Ingold, 2018), não apenas  
como suporte da experiência, mas como operador central na produção de sentidos  
durante as viagens de ônibus. Gestos, olhares, silêncios, ajustes corporais e usos de  
objetos revelaram-se fundamentais para a organização da convivência cotidiana no  
interior do transporte coletivo, evidenciando que a comunicação nesse contexto opera  
menos pela linguagem verbal e mais por regimes sensoriais incorporados.  
Os relatos etnográficos apresentados demonstram como ações simples e  
aparentemente banais — segurar uma mochila, ceder espaço, acomodar sacolas ou  
concentrar-se em uma atividade manual — constituem formas de interação que  
ressignificam continuamente o espaço coletivo do ônibus. Essas práticas não apenas  
respondem às condições físicas do ambiente, como também expressam modos sensíveis  
de atenção ao outro, configurando sociabilidades momentâneas sustentadas por  
acordos tácitos e perceptivos.  
Por fim, este trabalho contribui para a compreensão de que a comunicação  
sensorial em espaços públicos de mobilidade coletiva, como o ônibus, constitui uma via  
privilegiada para entender as dinâmicas sociais do cotidiano urbano. As interações  
mediadas por gestos, objetos e corpos revelam regras de convivência fundamentadas  
na atenção ao outro, na regulação sensível da copresença e na negociação contínua do  
espaço compartilhado. Ao deslocar o foco da linguagem verbal para os processos  
sensoriais incorporados, o artigo oferece uma contribuição ao campo da Comunicação  
ao evidenciar formas comunicacionais que operam no nível do sensível, da percepção e  
da experiência vivida, frequentemente marginalizadas nas análises centradas no  
discurso ou nos meios. A etnografia intersensorial, portanto, apresenta-se como um  
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caminho analítico potente para compreender como os sentidos moldam as  
sociabilidades e os processos comunicacionais nos espaços coletivos da cidade.  
Ao evidenciar a centralidade dos sentidos, do corpo e dos objetos na organização  
da convivência cotidiana no transporte coletivo, este artigo reafirma a potência analítica  
da etnografia intersensorial para o campo da Comunicação, ao revelar formas  
comunicacionais que operam no plano do sensível, da percepção e da experiência vivida  
— dimensões fundamentais da vida urbana contemporânea, frequentemente  
marginalizadas nas abordagens centradas exclusivamente no discurso ou nos meios.  
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____________________________________________________  
SOBRE O(A) AUTOR(A)  
Marcelo Amador de Oliveira Dias  
Bolsista CNPq e Mestrando do PPGCOM/UFPA, é graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela  
Universidade Federal do Pará (UFPA) em 2025. Fez parte do grupo de pesquisa "Socialidades,  
Intersubjetividades e Sensibilidades Amazônicas".  
Marina Ramos Neves de Castro  
Professora da Faculdade de Comunicação da UFPA. Doutora em Antropologia pelo Programa de Pós-  
Graduação em Antropologia - PPGA (Nota 5 Capes) da Universidade Federal do Pará. Mestre em Artes  
pelo PPGArtes (Nota 4 Capes) do Instituto de Ciências das Artes e mestre em Estudos das Sociedades  
Latino-Americanas - Opção Comunicação, pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris 3). Realizou  
estágio doutoral no Departamento de Antropologia do University College London, com o Prof. Daniel  
Miller a partir do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior - com apoio da CAPES. Coordena, desde  
2018, o grupo de pesquisa certificado pelo CNPQ Socialidades, Intersubjetividades e Sensibilidades  
Amazônicas – SISA  
COMO CITAR ESTE ARTIGO  
DIAS, Marcelo Amador de Oliveira; CASTRO, Marina Ramos Neves de. Quando a comunicação prescinde  
da palavra: comunicação intersensorial e sociabilidades no transporte coletivo urbano. Passagens:  
Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza,  
v. 17, n. especial, p. e97533 ,2026  
RECEBIDO EM: 13/08/2026  
ACEITO EM: 13/08/2026  
PUBLICADO EM: 23/09/2026  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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232  
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_____________________________________________________  
O SEGREDO E SAGRADO NA AMAZÔNIA DIGITAL: A  
NEGOCIAÇÃO DA VISIBILIDADE DO TAMBOR DE MINA NO  
CIBERESPAÇO  
THE SECRET AND THE SACRED IN THE DIGITAL AMAZON:  
NEGOTIATING THE VISIBILITY OF TAMBOR DE MINA IN  
CYBERSPACE  
LO SECRETO Y LO SAGRADO EN LA AMAZONÍA DIGITAL: LA  
NEGOCIACIÓN DE LA VISIBILIDAD DEL TAMBOR DE MINA EN EL  
CIBERESPACIO  
_____________________________________________________  
Arlindo Figueiredo do Rosário Júnior  
Universidade Federal do Pará  
Resumo: Este artigo investiga as relações entre segredo e sagrado nas práticas do Tambor de Mina  
na Amazônia, analisando tensões e transformações diante da midiatização e da presença no  
ciberespaço. A pesquisa apoia-se em revisão bibliográfica e em netnografia, com análise de registros  
audiovisuais, acervos digitais e conteúdos disponíveis em plataformas online. Os resultados indicam  
que, enquanto algumas casas matrizes mantêm controle rigoroso sobre o que pode ser divulgado,  
outras linhagens passaram a compartilhar imagens e saberes antes restritos, produzindo novas  
formas de visibilidade. Conclui-se que a exposição midiática não implica necessariamente perda do  
sagrado, mas sua ressignificação, na qual o segredo se reconfigura como critério que continua a  
ordenar o que se mostra e o que se preserva. O estudo contribui para os campos da antropologia da  
religião, comunicação e etnografia digital.  
Palavras-chave: Tambor de Mina; segredo; sagrado; ciberespaço; Amazônia.  
Abstract: This article investigates the relationship between secrecy and the sacred within Tambor de  
Mina practices in the Amazon, analyzing tensions and transformations arising from mediatization  
and the religion's presence in cyberspace. The research draws on a literature review and  
netnography, incorporating an analysis of audiovisual records, digital archives, and content available  
on online platforms. The results indicate that while some mother houses maintain strict control over  
what may be disclosed, other lineages have begun sharing previously restricted images and  
knowledge, thereby generating new forms of visibility. The study concludes that media exposure  
does not necessarily entail a loss of the sacred but rather its resignification, wherein secrecy is  
reconfigured as a criterion that continues to govern what is revealed and what is preserved. This  
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work contributes to the fields of the anthropology of religion, communication studies, and digital  
ethnography.  
Keywords: Tambor de Mina; secrecy; sacred; cyberspace; Amazon.  
Resumen: Este artículo investiga las relaciones entre lo secreto y lo sagrado en las prácticas del  
Tambor de Mina en la Amazonía, analizando las tensiones y transformaciones frente a la  
mediatización y la presencia en el ciberespacio. La investigación se basa en una revisión bibliográfica  
y en la netnografía, con el análisis de registros audiovisuales, colecciones digitales y contenidos  
disponibles en plataformas en línea. Los resultados indican que, mientras que algunas casas matrices  
mantienen un control riguroso sobre lo que se puede divulgar, otros linajes han comenzado a  
compartir imágenes y conocimientos que antes estaban restringidos, generando nuevas formas de  
visibilidad. Se concluye que la exposición mediática no implica necesariamente la pérdida de lo  
sagrado, sino su resignificación, en la que el secreto se reconfigura como un criterio que sigue  
ordenando lo que se muestra y lo que se preserva. El estudio contribuye a los campos de la  
antropología de la religión, la comunicación y la etnografía digital.  
Palabras clave: Tambor de Mina; secreto; lo sagrado; ciberespacio; Amazonía.  
1 INTRODUÇÃO  
Este artigo tem como objetivo central investigar as possíveis relações entre os  
conceitos de segredo e sagrado nas práticas do Tambor de Mina na região amazônica,  
com especial atenção aos diálogos, tensões e transformações desses elementos diante  
da crescente midiatização e exposição no ciberespaço.  
O Tambor de Mina, também conhecido como Mina1, é uma tradição de origem  
africana ligada à história e cultura do Maranhão e do Pará. Com origem no contexto do  
tráfico negreiro e no apogeu da economia da borracha, a prática do Tambor de Mina é  
um meio de resistência e preservação das tradições culturais e religiosas  
afrodescendentes.  
As mulheres africanas escravizadas no Maranhão trouxeram não apenas sua  
força de trabalho, mas também sua rica herança espiritual e cultural. No ambiente  
opressivo da escravidão, fundaram a Casa das Minas Jeji e a Casa de Nagô Abioton2,  
onde mantiveram e adaptaram suas práticas religiosas. Ambas direcionavam suas  
práticas religiosas às entidades africanas de diferentes nações. No entanto, a Casa de  
1
É uma abreviação do nome oficial da religião. Este termo é usado principalmente por praticantes de  
religiões de matriz africana como forma de mostrar familiaridade com a religião.  
2 As duas primeiras casas de Tambor de Mina fundadas no Maranhão.  
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Nagô Abioton se destacou por abrir espaço para o culto de entidades ameríndias,  
diversificando assim o escopo ritualístico.  
É importante ressaltar que, ao contrário da Casa de Nagô, a Casa das Minas não  
formalizou uma linhagem de descendentes. Infelizmente, com o falecimento das últimas  
voduncis3, herdeiras dessa casa, a tradição oral do culto entrou em declínio. Essa  
situação nos leva a considerar que, nos dias atuais, não existem mais casas de Tambor  
de Mina Jeje propriamente ditas. Em vez disso, encontramos terreiros que, com base  
em conhecimentos externos à Casa das Minas, se dedicam ao culto das entidades Jejes.  
A pesquisa fundamenta-se em uma revisão bibliográfica abrangente,  
mobilizando teóricos da semiótica (Saussure, 2010), da comunicação (Baitello Júnior,  
2014; Baitello Júnior & Soares, 2023), da fenomenologia da religião (Eliade, 2001; Otto,  
2007) e das ciências sociais aplicadas ao campo religioso afro-brasileiro (Bastide, 1961;  
Ferretti, 2009; Prandi, 2001; Santos, 2012; Silva, 2000). Esses autores fornecem  
subsídios para analisar tanto a estrutura simbólica do sagrado quanto o papel do  
segredo como guardião do conhecimento iniciático e mecanismo de coesão  
comunitária.  
O estudo adota como procedimento central a netnografia (Kozinets, 2014),  
adaptada para a investigação de comunidades religiosas virtuais. Analisam-se registros  
audiovisuais  
disponíveis  
em  
plataformas  
digitais  
(especialmente  
YouTube),  
documentários históricos, como os da Missão de Pesquisas Folclóricas de Mário de  
Andrade, 1938, acervos de museus digitais (MAVAM e Museu Afro-Digital do Maranhão)  
e conteúdos produzidos por lideranças religiosas do Pará e do Maranhão. A escolha por  
esses materiais justifica-se pela possibilidade de observar, de forma diacrônica, como o  
Tambor de Mina tem se representado e negociado sua visibilidade pública sem perder  
de vista as dimensões secretas que lhe são constitutivas.  
Os objetivos específicos incluem: (a) identificar como as categorias de segredo e  
sagrado são articuladas nas práticas e discursos dos terreiros estudados (com ênfase no  
Terreiro Dois Irmãos, em Belém, e nas casas matrizes maranhenses); (b) comparar as  
3
É um termo exclusivamente usado para mulheres praticantes do ritual de Tambor de Mina (Ferretti,  
2000, p. 205).  
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estratégias de preservação do sigilo adotadas por diferentes linhagens, notadamente a  
distinção entre as tradições mais reservadas (Casa das Minas, Casa de Nagô) e aquelas  
que promoveram aberturas midiáticas; (c) refletir sobre os desafios e oportunidades  
colocados pelo ciberespaço para a manutenção dos conhecimentos sagrados diante da  
iconofagia contemporânea (Baitello Júnior, 2014).  
Ao tensionar a tradição do segredo, que historicamente protegeu as práticas  
afro-religiosas da repressão, com a atual exposição em redes sociais e plataformas de  
vídeo, o artigo problematiza se a midiatização implica perda ou ressignificação do  
caráter iniciático. Os resultados sugerem que, enquanto algumas casas matrizes  
mantêm rigoroso controle sobre o que pode ser registrado, lideranças descendentes  
têm rompido parcialmente com o sigilo, produzindo novos regimes de visibilidade que  
não anulam o sagrado, mas o reconfiguram. A pesquisa contribui, assim, para os campos  
da antropologia da religião, da comunicação e da etnografia digital, oferecendo meio  
para a compreensão das transformações contemporâneas das religiosidades de matriz  
africana na Amazônia.  
2 O TAMBOR DE MINA NA AMAZÔNIA: POSSÍVEIS DIÁLOGOS ENTRE SEGREDO E  
SAGRADO.  
O Tambor de Mina se destaca pela sua rica tradição, seus rituais e influências  
culturais. Do Maranhão, este culto se espalhou para outras regiões, principalmente para  
os mais variados estados da Amazônia, onde adquiriu características diversas. A prática  
desta religiosidade remonta ao período da escravidão, quando africanos sequestrados  
para o Brasil e foram proibidos de exercer suas religiões tradicionais. Para preservar suas  
crenças, eles criaram espaços secretos, onde podiam realizar seus rituais em  
homenagem a Deuses.  
Duas casas de culto desempenharam papéis cruciais na formação do Tambor de  
Mina: a Casa das Minas e a Casa de Nagô. A Casa das Minas, em particular, é notável por  
sua prática de culto às entidades espirituais conhecidas como voduns. A genealogia  
desta religião está diretamente ligada à ancestralidade africana, especialmente à região  
do antigo reino de Daomé, atual Benim. Líderes religiosos e pesquisadores têm  
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explorado as interconexões entre as práticas do Tambor de Mina e as tradições voduns  
(Ferretti, 2009, p. 54).  
No Pará, esta religiosidade se reconfigurou, incorporando elementos da  
memória e identidade local. O Terreiro Dois Irmãos, por exemplo, único terreiro  
centenário em atividade em Belém do Pará, é um espaço onde se observa a fusão da  
cultura afro- brasileira com a realidade amazônica. Nele, se cultua os povos encantados  
tanto no Pará quanto no Maranhão.  
Figura 1 – Religiosas preparando bebida sagrada  
Fonte: Plataforma YouTube.  
.
A pesquisadora Anaiza Vergolino em um dos documentários sobre este terreiro,  
afirma que o Pará deita raízes no Maranhão, mas esta herança dos encantados do  
Tambor de Mina no Brasil é uma especialidade do Maranhão e do Pará, não tendo  
ligação nenhuma com os caboclos da umbanda como no Rio de Janeiro (Lamparina  
Filmes, 2022). Na figura acima, observa-se o print do documentário em que as  
praticantes de Tambor de Mina preparando um ofurá, bebida sagrada feita com o suco  
do coco, distribuido em ritual interno. Ao gravar um audiovisual mostrando o preparo  
de uma bebida sagrada, nasce o questionamento acerca do segredo presente no  
sagrado.  
A identidade afro-brasileira resulta da combinação de influências africanas,  
indígenas e europeias, essas tradições contêm práticas e simbolismos que expressam  
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essa fusão cultural. Nessas práticas, o segredo e o sagrado mantêm a coesão  
comunitária e permitem a transmissão do conhecimento religioso.  
Nas tradições afro-brasileiras, o sagrado se relaciona ao divino e ao  
transcendental, embora o divino se confunda com elementos da natureza. Lugares,  
objetos e práticas são consagrados e tratados com reverência. O sagrado conecta os  
praticantes aos orixás e entidades espirituais, funcionando como um “portal para o  
mundo espiritual” (Lima, 2023, p. 132).  
O segredo protege o conhecimento sagrado. Iniciações, rituais e informações  
sobre os orixás são mantidos em segredo e acessíveis somente aos iniciados. O segredo  
preserva a integridade das práticas e ensinamentos, garantindo sua transmissão correta  
e respeitosa. A relação entre segredo e sagrado é dialógica: o segredo protege o  
sagrado, e o sagrado confere importância ao segredo. Juntos, formam um sistema de  
conheciento tradicional que permite a preservação e a adaptação da identidade afro-  
brasileira ao longo do tempo. Os conceitos de segredo e sagrado estruturam as práticas  
tradicionais e reforçam a identidade cultural e a resiliência comunitária. Com esses  
conceitos, as religiões afro-brasileiras permanecem como testemunho da cultura  
brasileira.  
Para compreender o sagrado na Etnologia, Saussure (2010) contribui por meio  
da semiótica. Para esse autor, o signo é composto por significante (imagem acústica) e  
significado (conceito). O sagrado pode ser visto como um signo que carrega significado  
coletivo profundo e é marcado por significantes específicos em cada cultura. No Tambor  
de Mina, os “assentamentos” são exemplos de significantes que indicam a presença  
física do orixá, semelhante ao “sacrário” na igreja católica, local acessível apenas a  
sacerdotes preparados. Saussure (2010) enfatiza a natureza arbitrária dos signos,  
permitindo compreender como diferentes culturas atribuem significados variados ao  
sagrado. A análise etnológica do sagrado, com base na semiótica saussuriana, revela a  
dinâmica entre significante e significado e como essa dinâmica molda a identidade  
cultural e a coesão social.  
O pensamento de Saussure remete ao conceito de iconofagia de Baitello Júnior  
(2014) e Baitello Júnior & Soares (2023). Esse conceito descreve a “devoração” das  
imagens pela sociedade. Os autores argumentam que as imagens são consumidas em  
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massa e impactam física e psicologicamente as pessoas. A iconofagia indica que as  
imagens não apenas representam, mas também podem “engolir” a realidade,  
influenciando ou substituindo experiências diretas com o mundo.  
Enquanto Saussure foca na estrutura e na relação entre significante e significado,  
Baitello Júnior e Soares (2023) enfatizam o efeito das imagens sobre o indivíduo e a  
sociedade. No estudo do sagrado, a iconofagia pode ser entendida como o processo de  
consumo das imagens sagradas e sua influência sobre práticas culturais e religiosas. As  
imagens sagradas, como signos poderosos e carregados de significado coletivo, são  
particularmente suscetíveis à iconofagia. Saussure (2010) auxilia na compreensão da  
estrutura e do significado do sagrado como signo cultural; Baitello Junior & Soares  
(2023) alertam para o poder das imagens sagradas na era da iconofagia, em que elas  
podem dominar e alterar a percepção da realidade sagrada. Juntos, esses conceitos  
oferecem uma visão sobre como o sagrado é representado, percebido e influenciado na  
comunicação e na cultura contemporânea.  
Para compreender o sagrado, recorremos a Eliade (2001), que distingue o  
sagrado do profano e identifica o sagrado como manifestação do “totalmente outro”,  
uma realidade que transcende o mundo comum. Já Rudolf Otto (2007) introduz o termo  
“numinoso” para descrever a experiência do sagrado como essência da experiência  
religiosa.  
Eliade (2001) apresenta uma análise comparativa das experiências religiosas,  
propondo que o sagrado é uma dimensão essencial da consciência humana. Para ele, a  
manifestação de hierofanias são atos pelos quais o sagrado se revela ao homem:  
O homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se  
mostra como algo absolutamente diferente do profano. A fim de indicarmos  
o ato da manifestação do sagrado, propusemos o termo hierofania. Este  
termo é cômodo, pois não implica nenhuma precisão suplementar: exprime  
apenas o que está implicado no seu conteúdo etimológico, a saber, que algo  
de sagrado se nos revela. Poder-se-ia dizer que a história das religiões – desde  
as mais primitivas às mais elaboradas – é constituída por um número  
considerável de hierofanias, pelas manifestações das realidades sagradas  
(Eliade, op. cit, p. 13).  
Essas manifestações podem ocorrer em objetos, lugares, ou tempos específicos  
que, por sua vez, tornam-se sagrados por serem o local da manifestação do divino. Ele  
argumenta que o espaço sagrado é qualitativamente diferente do espaço profano, onde  
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o primeiro é estruturado e hierarquizado, sendo o centro do mundo para aqueles que o  
habitam, enquanto o segundo é homogêneo e indefinido, muito embora eles não  
possam ser pensados separadamente.  
Já para Otto (2007) o conceito central é o “numinoso”, derivado da palavra latina  
“numen”, que significa divindade. Ele usa esse termo para descrever uma experiência  
religiosa primária que é imediata e intensa, caracterizada por um misto de fascínio e  
tremor diante do sagrado. Otto (2007, p. 37), “detectar e reconhecer algo como sendo  
‘sagrado’ é, em primeiro lugar, uma avaliação peculiar que, nesta forma, ocorre somente  
no campo religioso”. Ele descreve o numinoso como tendo três componentes principais:  
o “Mysterium”, onde o sagrado é completamente outro, diferente de tudo o que é  
mundano e não pode ser completamente compreendido. O “Tremendum”, onde a  
experiência do sagrado é acompanhada por um sentimento de temor e reverência. E  
por último o “Fascinans”, que apesar do temor, o sagrado atrai e fascina o indivíduo,  
exercendo um poderoso chamado. Para Otto (op. cit, p. 150), o “sagrado, no sentido  
pleno da palavra, é para nós, portanto, uma categoria composta. Ela apresenta  
componentes racionais e irracionais”.  
Segundo Otto (2007) argumenta que o sagrado contém elementos tanto  
racionais quanto irracionais e não se confunde com a pureza moral ou com os elementos  
de uma ética religiosa, mas é uma categoria própria que transcende a compreensão  
racional.  
Rudolf Otto e Mircea Eliade oferecem visões distintas e influentes sobre como o  
sagrado é experimentado e compreendido dentro do contexto religioso. Enquanto Otto  
foca na experiência interna do indivíduo diante do sagrado, Eliade se concentra na  
manifestação externa do sagrado e em como ela estrutura a compreensão do mundo.  
Otto (2007) está interessado na reação pessoal e inefável ao sagrado, enquanto  
Eliade (2001) analisa como o sagrado é incorporado nas práticas e crenças religiosas. A  
abordagem de Otto (2007) destaca a experiência subjetiva do sagrado, enquanto Eliade  
(2001) adota uma perspectiva mais fenomenológica, examinando as manifestações  
objetivas do sagrado. Ambas as teorias são complementares, oferecendo uma visão  
holística que abrange tanto a experiência pessoal quanto a expressão cultural do  
sagrado. É importante considerar tanto as experiências internas quanto as  
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manifestações externas do sagrado para uma compreensão completa do fenômeno  
religioso.  
O sagrado no Tambor de Mina é vivenciado por meio de rituais que incluem  
música, dança e possessão, onde as entidades cultuadas se manifestam nos  
participantes, oferecendo proteção e orientação. Buscamos considerar que a  
experiência do sagrado no Tambor de Mina ecoa o conceito de numinoso de Otto  
(2007). Os praticantes desta religião de matriz africana experimentam um profundo  
respeito e temor reverencial durante os rituais, semelhante ao “tremendum” descrito  
por este autor. Ao mesmo tempo, a presença dos orixás traz um elemento de fascínio e  
atração, alinhando-se com o “fascinans”.  
Ao analisar o sagrado na perspectiva de Rudolf Otto e sua relação com o Tambor  
de Mina, nos é revelada uma compreensão compartilhada do divino como uma presença  
poderosa e transformadora. Tanto Otto (2007) quanto as práticas afro- religiosas  
destacam a importância do sagrado como uma experiência que transcende as estruturas  
e convenções sociais, moldando a vida espiritual e comunitária dos indivíduos. Apesar  
das diferenças culturais e históricas, há uma dinâmica universal na maneira como o  
sagrado é vivenciado, seja na teoria de Otto (2007) ou nas práticas do Tambor de Mina.  
A continuidade dessas tradições religiosas atesta a persistência do sagrado como uma  
dimensão fundamental da experiência humana.  
Em nosso levantamento teórico, observamos o forte entrelaçamento entre o  
conceito de segredo e sagrado. A iniciação às portas fechadas, a proteção espiritual,  
conhecimento do oculto, dentre outros elementos, atestam a presença de uma relação  
entre segredo e sagrado. Os iniciados passam por treinamento rigoroso, aprendendo  
cânticos, danças e rituais às portas fechadas. O conhecimento oculto possui imenso  
poder e, restringindo o acesso às práticas sagradas, o segredo amplifica sua eficácia e  
somente os iniciados podem acessar essa potência. A Coesão Comunitária se dá porque  
o segredo fomenta um senso de pertencimento, pois os iniciados formam uma  
comunidade unida por conhecimento e experiências compartilhadas.  
A ideia de segredo nas religiões afro-diaspóricas é frequentemente relacionada  
a práticas ritualísticas, conhecimentos doutrinários e à própria organização interna  
dessas religiões. Santos (2012) discute a importância do segredo e do mistério nas  
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práticas religiosas dos Nàgô, uma denominação que os próprios praticantes de origem  
africana no Brasil utilizam para se referir a si mesmos, e que a etnologia moderna associa  
aos Yorùbá. Santos (2012) apresenta uma análise etnológica detalhada sobre a  
concepção da morte, suas instituições e mecanismos rituais, como expressos e  
elaborados simbolicamente por essas comunidades. A pesquisadora enfatiza que o  
segredo é um componente integral da religiosidade Nàgô. Ele não é apenas uma  
ferramenta para a preservação do conhecimento, mas também serve como um meio de  
fortalecer a coesão comunitária e a identidade religiosa. O segredo mantém a  
sacralidade dos rituais e assegura que o conhecimento seja transmitido de maneira  
controlada e respeitosa dentro da hierarquia iniciática (Santos, 2012).  
A autora explora como o mistério envolve a concepção da morte nas práticas  
Nàgô. A morte não é vista como um fim, mas como uma transição para um estado  
espiritual diferente, onde os Égun (espíritos desencarnados) continuam a influenciar o  
mundo dos vivos. Os rituais associados ao culto Égun são envoltos em mistério,  
refletindo a complexidade da relação entre os vivos e os mortos e o respeito profundo  
pelos ancestrais. Os rituais Nàgô, como o Pàde e o Àsèsè, são descritos por Santos (2012)  
como altamente simbólicos e codificados, com significados que são revelados apenas  
aos iniciados. Cada elemento do ritual, desde os cantos até os movimentos e oferendas,  
carrega um significado profundo que é protegido pelo véu do segredo.  
Bastide (1961) abordou a questão do segredo como um elemento central na  
transmissão do conhecimento religioso. Em sua análise, ele reconheceu que o segredo  
é fundamental para a manutenção da conexão e da continuidade dessas tradições  
religiosas. O segredo não é apenas como uma questão de conhecimento místico, mas  
também como uma estrutura social que define os limites entre os iniciados e os não-  
iniciados. Ele argumentava que o segredo cria uma barreira que protege o  
conhecimento sagrado de ser banalizado ou mal interpretado por aqueles que não estão  
preparados para compreendê-lo.  
Para Bastide (1961), o segredo também estabelece uma hierarquia dentro das  
comunidades religiosas. A transmissão de conhecimento é cuidadosamente controlada  
e ocorre de maneira gradativa, à medida que o indivíduo avança nos níveis de iniciação.  
Essa progressão assegura que o conhecimento seja transmitido de forma responsável e  
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respeitosa. Bastide (1961) explorou como o segredo interage com o sincretismo nas  
religiões afro-brasileiras. Compreendendo que a fusão de diferentes tradições religiosas,  
muitas vezes serve como uma camada externa que pode ocultar práticas e crenças mais  
profundas, reservadas apenas para os iniciados e assim, o segredo preserva a  
integridade do núcleo místico da religião.  
Prandi (2001), aborda a questão do segredo como um elemento fundamental na  
iniciação e na prática religiosa dessas tradições. Ele observa que o processo de iniciação  
é cercado por um véu de segredo que serve para proteger os conhecimentos sagrados  
e as práticas rituais das influências externas. Este segredo não é apenas uma forma de  
preservar a integridade e a autenticidade das práticas, mas também funciona como um  
mecanismo de fortalecimento da identidade religiosa e da solidariedade comunitária.  
O segredo estabelece uma hierarquia dentro dos terreiros, onde o conhecimento  
é transmitido de maneira gradativa e controlada. Apenas os iniciados em determinados  
níveis têm acesso a certos aspectos do conhecimento religioso, o que reforça a estrutura  
hierárquica e a autoridade dos líderes espirituais. Prandi (op. cit, p. 447) destaca que o  
segredo é também uma forma de conhecimento esotérico, que é acessível apenas para  
aqueles que passaram por um rigoroso processo de aprendizado e iniciação. Esse  
conhecimento esotérico é considerado poderoso e, por isso, deve ser manuseado com  
responsabilidade e respeito.  
Silva (2000), que em sua pesquisa, analisa como o segredo e o conhecimento  
religioso é mantido e transmitido dentro das comunidades religiosas afro-brasileiras.  
Esses pesquisadores, entre outros, contribuem para uma compreensão mais profunda  
de como o segredo é mantido e valorizado nas religiões de matriz africana, e como ele  
desempenha um papel crucial na manutenção da identidade e da coesão dentro dessas  
tradições espirituais. A literatura acadêmica sobre o assunto é vasta e continua a  
crescer, refletindo a riqueza e a complexidade dessas práticas religiosas.  
Silva (2000) analisa o segredo como um elemento de coesão dentro das  
comunidades religiosas afro-brasileiras. Ele observa que o segredo serve para proteger  
os conhecimentos sagrados e as práticas rituais das influências externas, garantindo que  
sejam transmitidos de maneira controlada e respeitosa dentro da hierarquia iniciática.  
Segundo o autor, o conhecimento religioso é acessível apenas aos iniciados que  
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passaram por um rigoroso processo de aprendizado. Este conhecimento é considerado  
poderoso e, por isso, deve ser manuseado com responsabilidade e respeito. Aqui, o  
segredo não é apenas uma forma de preservar o conhecimento, mas também um  
mecanismo de fortalecimento da identidade religiosa e da solidariedade comunitária.  
Sérgio Ferretti (2009) apresenta o Tambor de Mina como uma religião que possui  
aspectos estritamente reservados aos iniciados no culto. O pesquisador observou que  
os rituais de iniciação desta religião são realizados de maneira discreta, sem grande  
divulgação para o público. Estes ritos ocorrem em terreiros e são acessíveis apenas a um  
número limitado de pessoas, geralmente aquelas que estão sendo iniciadas ou que já  
possuem um grau elevado dentro da hierarquia religiosa. O conhecimento doutrinário  
no Tambor de Mina é cuidadosamente guardado e transmitido apenas aos que recebem  
a iniciação completa que inclui o entendimento profundo dos orixás, voduns e dos  
rituais e cantos específicos que são parte integrante da prática religiosa.  
Verificamos que o segredo e o mistério desenvolvido em torno de muitos  
assuntos, especialmente em relação aos vodus, talvez seja responsável pela  
perda de parte do conhecimento. Com todo esse mistério muita coisa não foi  
revelada as mais novas, talvez mesmo por certo egoísmo das antigas pois  
saber é poder, como dizem. Com a morte das mais velhas muitos segredos  
não foram transmitidos e acabaram desaparecendo ou sendo esquecidos. A  
descrição, o segredo e o mistério excessivo contribuíram assim, a nosso ver,  
para a perda de muitas formas de conhecimento religioso tradicional e  
secreto na casa das minas em outros grupos (Ferretti, 2009, p.90).  
Com base em nossas experiências em casas de Tambor de Mina no Maranhão e  
no Pará, compreendemos que o segredo é uma característica fundamental desta  
religião. Ele atua como um mecanismo de preservação cultural, protegendo as tradições  
e práticas religiosas de influências externas que poderiam comprometer sua  
autenticidade. A natureza reservada do Tambor de Mina é comparável à de sociedades  
secretas, envolvendo conhecimentos e rituais que são cuidadosamente guardados e  
transmitidos apenas aos iniciados.  
Os conhecimentos no Tambor de Mina, incluindo informações detalhadas sobre  
os voduns, orixás e encantados, bem como os detalhes dos rituais e cerimônias, são  
estritamente reservados aos iniciados. Essa prática de manter segredos assegura que o  
conhecimento sagrado seja protegido e transmitido de maneira controlada e respeitosa.  
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Elementos secretos como cantos, danças e símbolos ritualísticos são passados de  
geração em geração por sacerdotes e sacerdotisas.  
A comparação do Tambor de Mina com sociedades secretas se deve ao seu  
caráter reservado e à importância da manutenção dos segredos. Tal como em  
sociedades secretas, onde o conhecimento é compartilhado apenas com iniciados, no  
Tambor de Mina a revelação dos segredos é gradual e controlada pelos líderes religiosos  
(Ferretti, 2009). A prática do segredo no Tambor de Mina exemplifica a importância da  
preservação cultural e a proteção das tradições religiosas. Considerando o histórico de  
opressão dessa religião, que nunca teve a oportunidade de ser protagonista de sua  
própria história, hoje num mundo midiatizado, elas podem mostrar suas características  
e sua identidade, sem precisar que pessoas de outras religiões ou culturas possam  
apresentá-las, como acontecia nos séculos passados. Isso nos leva a questionar como  
esses segredos religiosos são mantidos e protegidos no ciberespaço, que é um um  
mundo onde a informação é cada vez mais acessível, e por isso nos convida a entender  
como os segredos dessas religiões se comportam no ciberespaço.  
3
PRIMEIROS PASSOS PARA UMA NETNOGRAFIA DO TAMBOR DE MINA  
De acordo com Otto (2007, p. 35), “se existe um campo da experiência humana  
que apresente algo próprio, que apareça somente nele, esse é o campo religioso”,  
motivo pelo qual o campo religioso tem uma vasta área a ser explorada. Diversos  
especialistas trabalham para esclarecer e interpretar o campo religioso, abordando suas  
perspectivas teóricas. Para fornecer um embasamento na compreensão do campo  
religioso virtual, algumas dessas teorias são direcionadas ao campo religioso offline.  
Segundo Bourdieu (2007), o campo religioso é um sistema composto por  
posições sociais e relações de poder, onde agentes e instituições competem pelo  
controle de recursos valiosos como autoridade religiosa e capital simbólico. O campo  
religioso é um sistema composto por posições sociais e relações de poder onde agentes  
e instituições competem pelo controle sobre recursos valiosos como autoridade  
religiosa  
e
capital  
simbólico.  
Destacadamente,  
Bourdieu  
(2007)  
examina  
minuciosamente a forma como as instituições religiosas burocráticas atuam para  
monopolizar esta área em contestação.  
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A teoria de Bourdieu sobre o campo religioso é incorporada em sua análise  
abrangente dos domínios sociais, que são espaços estruturados por posições ocupadas  
por indivíduos e instituições com propriedades específicas. Ou seja, Bourdieu (2007),  
entende este campo como um local de disputas entre atores sociais. A pesquisa no  
campo da netnografia, está localizada dentro do ciberespaço, em contraposição ao  
campo físico, que representa o espaço concreto e tangível onde se pode conduzir a  
observações e interações diretas. O que distingue esses dois campos fundamentalmente  
é a natureza das interações e dos ambientes. O campo físico representa o espaço  
material onde o pesquisador conduz a etnografia tradicional, imergindo-se em uma  
comunidade ou cultura específica para observar e participar diretamente das práticas  
sociais e culturais (Mesquita, 2018, p. 137).  
O campo netnográfico é o ambiente virtual, abrangendo fóruns online, redes  
sociais, blogs e outros espaços digitais, nos quais o pesquisador observa e interage com  
as comunidades virtuais para investigar suas práticas culturais e sociais. Enquanto a  
etnografia tradicional demanda a presença física do pesquisador no local de estudo, a  
netnografia possibilita que o pesquisador participe e colete dados das comunidades  
online sem a necessidade de deslocamento físico, utilizando ferramentas digitais para a  
coleta e análise de dados. Ambos os campos são preciosos para a compreensão das  
dinâmicas culturais e sociais, cada um com suas próprias metodologias e abordagens  
adaptadas ao contexto de estudo (Kozinets, 2014).  
Ao longo do processo histórico do Tambor de Mina, podemos identificar algumas  
etnografias que detalharam esta prática religiosa nos seus mais variados aspectos. Ao  
final da década de 1940, a obra "Tambor de Mina e Tambor de Crioula", escrita por  
Alvarenga (1948), foi o objeto das primeiras incursões no campo dos estudos voltados à  
afro-religiosidade maranhense. Além disso, nesse mesmo período, é notável a  
publicação chamada "A Casa das Minas", que, de acordo com Pereira (1947), constituiu  
uma importante contribuição para a compreensão das sobrevivências do culto dos  
voduns e do panteão daomeano no estado do Maranhão. O trabalho seminal de Pierre  
Verge (1990), no qual ele relata sua visita à "Casa das Minas" em 1947, é outro trabalho  
relevante na construção da identidade do Tambor de Mina.  
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A partir da segunda metade da década de 1970, pesquisadores passaram a  
apresentar textos etnográficos sobre afro-religiosidade em diferentes localidades da  
Amazônia. O casal Leacock (1975) estabeleceu características distintivas da encantaria  
dos turcos nos terreiros de Tambor de Mina em Belém do Pará. Destaca- se também a  
dissertação de mestrado intitulada "Tambor das Flores", defendida e publicada em 1976  
na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Esse trabalho pioneiro abordou a  
federação espírita umbandista dos cultos afro-brasileiros no Estado do Pará durante os  
anos de 1965 a 1975, conforme investigado por Silva (2015). Posteriormente, a temática  
do Tambor de Mina tornou-se objeto de estudo em outra dissertação de mestrado,  
apresentada no programa de pós-graduação em antropologia do Departamento de  
Ciências Sociais da Universidade Federal de Pernambuco. A pesquisa intitulada  
"Revisitando o Tambor das Flores" propõe uma etnografia do campo afro-religioso e  
explora as complexas relações de poder dentro da instituição mais antiga da  
religiosidade afro-paraense, a FEUCABEP (Luca, 2003). Esses dois trabalhos  
desempenham um papel fundamental nas pesquisas africanistas e contribuem para a  
construção e compreensão da identidade afro-religiosa no contexto específico do Pará.  
Em São Luís do Maranhão, Além da Casa das Minas e da Casa de Nagô, dois  
terreiros desempenham um papel fundamental na trajetória do Tambor de Mina: o  
“Terreiro do Egito” e o “Terreiro da Turquia”. O primeiro, por meio do protagonismo de  
Jorge Itaci de Oliveira e Euclides Menezes Ferreira, deu origem a duas tradições distintas  
que muito influenciaram o Tambor de Mina do Maranhão. Já o “Terreiro da Turquia”,  
cuja linhagem remonta a Anastácia e se estende até os dias atuais com Pai Fernando de  
Iemanjá, perpetua-se uma tradição com todos esses atores introduzindo elementos  
novos protagonizando novas histórias no Tambor de Mina tradicional da Amazônia.  
Queremos dar destaque a Pai Jorge, fundador do “Terreiro de Iemanjá”, que  
deixou um legado não apenas em São Luís do Maranhão, mas também em diversos  
estados brasileiros. Suas inovações no culto, como o uso de um Rosário de Nação4 e a  
4
É um colar usado pelos adeptos do Tambor de Mina, descendentes de Pai Jorge Itaci de Oliveira, que  
serve para representar as suas principais divindades. É um instrumento religioso que faz o elo entre o  
divino e a matéria, permitindo uma maior comunicação espiritual. O Rosário de Nação é feito de miçangas  
de porcelana, sintéticas, de cor terracota, com balizas e cabos nas cores dos voduns ou orixás do médium.  
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paramentação dos orixás5, são amplamente reconhecidas. Essas casas e terreiros  
desempenham um papel importante nas pesquisas africanistas e contribuem para a  
compreensão da identidade afro-religiosa no contexto específico do Pará e do Brasil  
como um todo.  
Figura 2 - Jorge Itaci de Oliveira (1939-2003), Sacerdote do Tambor de Mina do Maranhão.  
Fonte: Plataforma YouTube.  
Jorge Itaci de Oliveira possui registros audiovisuais históricos, o mais antigo data  
de 1973 e está disponível no acervo do Museu de Memória Audiovisual do Maranhão  
(MAVAM)6. Esse material contém trechos de um ritual público de iniciação, nos quais se  
observam o toque do tambor e a apresentação do novo iniciado à comunidade. Este é o  
único registro audiovisual conhecido de um ritual de iniciação da década de 1970. Pai  
Jorge também protagonizou um documentário que foi finalizado, mas não lançado  
devido ao seu falecimento. O documentário foi divulgado em diversos canais da  
plataforma YouTube e apresenta a história da vocação sacerdotal de Pai Jorge, a  
fundação do Terreiro de Iemanjá e as características do Tambor de Mina no Maranhão.  
Antropólogos e historiadores contribuíram para esse registro.  
Nesse documentário, observa-se a revelação de um aspecto: a quebra do sigilo  
sobre os chamados assentamentos. Esses assentamentos são símbolos consagrados de  
culto às divindades, guardados em um local denominado “quarto de Santo”, acessível  
apenas a iniciados. Pai Jorge não detalhou os elementos desses assentamentos, mas há  
5
A paramentação dos orixás (coroas, espadas, espelhos, dentre outras) é uma cultura própria do  
candomblé, sendo implementada no tambor de mina apenas na família de pai Jorge Itaci de Oliveira.  
6 https://www.youtube.com/@TVMAVAM  
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exposição de aspectos secretos da sacralidade afro-religiosa. Em 1986, o sacerdote Pai  
Euclides Talabian, líder do terreiro Fanti Ashante, produziu um documentário sonoro  
intitulado “Tambor de Mina, Cura e Baião”. Esse trabalho reúne músicas e cantigas  
utilizadas nos rituais das religiões afro-brasileiras e da pagelância realizados nos  
terreiros de São Luís (LP, Ferretti, 1991). Pai Euclides protagonizou outros  
documentários, reportagens e registros audiovisuais, disponíveis em diversos canais do  
YouTube. Em sua casa de culto, é proibido gravar vídeos ou tirar fotografias sem  
autorização dos dirigentes.  
Após essa breve incursão na genealogia do Tambor de Mina na Amazônia, é  
necessário compreender como essa tradição estabeleceu seus primeiros vínculos com o  
ciberespaço. Explorar o papel dessa religião nas mídias digitais é uma tarefa complexa,  
pois ela se caracteriza como uma comunidade com traços de sociedade secreta (Ferretti,  
2009, p. 231).  
Antes do ambiente virtual, a afro-religiosidade já havia sido retratada na mídia  
tradicional como uma religião associada à população negra, frequentemente com  
conotações pejorativas. No Maranhão, casos de repressão policial e maus-tratos a  
praticantes do Tambor de Mina foram noticiados em jornais da época (Ferretti, 2005).  
Essa fase também ocorreu no Pará, durante o período de invasões policiais, que  
terminou com a fundação da Federação dos Cultos Afro-Brasileiros do Pará (FEUCABEP)  
em 1964. Há relatos de outro momento crucial no término dessa repressão no Pará: a  
década de 1930, sob o governo de Magalhães Barata (Luca, 2010, p. 60).  
O contexto histórico molda o discurso conforme as vivências da época. Os  
séculos XIX e XX, no Pará e no Maranhão, contribuíram para a construção de uma  
imagem do Tambor de Mina como religião marginalizada. Esse processo foi influenciado  
pelo papel da imprensa, que informava, educava e entretinha a população (Lindoso,  
2008, p. 10). Essa análise leva a uma reflexão sobre a adaptação do Tambor de Mina ao  
cenário digital.  
Pesquisas culturais contribuíram para uma nova visão da identidade afro-  
religiosa. O registro audiovisual mais antigo do Tambor de Mina que chegou aos dias  
atuais é o trabalho denominado “Missão de Pesquisas Folclóricas”, liderada por Mário  
de Andrade, uma expedição que percorreu capitais do Norte e Nordeste do Brasil em  
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1938. O objetivo era registrar tradições culturais, músicas, danças e manifestações  
folclóricas. Entre as cidades visitadas estava São Luís. A Missão registrou duas  
manifestações culturais relacionadas à afro-religiosidade: Tambor de Mina, no Terreiro  
Fé em Deus, liderado por Maximiana, onde foram documentadas práticas de toque de  
Tambor de Mina. Maximiana era sacerdotisa responsável por esse terreiro.  
Como um dos legados da Missão, dez anos depois, com grafia e notas de Oneyda  
Alvarenga, foram publicados os textos das músicas gravadas no Maranhão pela  
Discoteca Pública Municipal de São Paulo. Essa documentação é importante para  
pesquisadores e revela a riqueza cultural e religiosa do Tambor-de-Mina e do Tambor-  
de-Crioula (Lemos Jr, Gosciola, 2020, p. 183).  
Além do Maranhão, o Pará também foi objeto de estudo da Missão de Pesquisas  
Folclóricas em 1938. Mário de Andrade viabilizou a expedição com o receio de que, com  
a urbanização e a influência da indústria cultural estrangeira, muitas manifestações  
populares tradicionais desaparecessem. Os pesquisadores percorreram o Pará e  
coletaram informações sobre a cultura popular local. Foram registradas mais de mil  
melodias de tradição oral, transmitidas entre gerações. A expedição também recolheu  
objetos artesanais. No total, a Missão reuniu cerca de 21.500 documentos, incluindo  
fotografias, registros fonográficos, entrevistas e filmes mudos, nos quais estão incluídas  
práticas de rituais de Tambor de Mina. Esses registros permitem entender a diversidade  
e a vitalidade das tradições folclóricas do Pará (Lemos Jr & Gosciola, 2020, p. 183).  
No Pará, dois produtos de exposição dos saberes afro-brasileiros são  
reconhecidos entre os praticantes do Tambor de Mina: o documentário intitulado “A  
Descoberta da Amazônia pelos Turcos Encantados” e o álbum duplo de músicas lançado  
pela coleção "A música do Pará", gravado no Terreiro Dois Irmãos, único terreiro  
centenário em atividade em Belém do Pará. O documentário é uma produção de cunho  
religioso, realizada por paraenses, com narração do sacerdote Luís Taiiandô. O roteiro  
aborda uma história mítica do imaginário afro-paraense, gerando debates e  
controvérsias em relação à mitopoética do Tambor de Mina maranhense. O escopo não  
se concentra na análise do imaginário afro-religioso na Amazônia, mas é relevante  
identificar os diálogos divergentes entre os vídeos que disseminam a doutrina mineira e  
as literaturas das etnografias sobre o Tambor de Mina no Maranhão e no Pará.  
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O álbum musical intitulado “A Música e o Pará”, lançado em 1996 em dois discos  
distintos, nos chama atenção. O primeiro disco apresenta músicas utilizadas nos rituais  
direcionados às entidades denominadas no Pará como “senhores de toalhas”,  
correspondendo, no Maranhão, aos “gentios” ou “nobres”.  
Figura 3 - Capa do video com as musicas do CD Ponto de Santo.  
Fonte: Plataforma YouTube.  
O segundo disco, por sua vez, reúne composições musicais empregadas em  
rituais associados aos caboclos ou entidades tipicamente vinculadas ao Tambor de Mina,  
organizadas por famílias de encantados. Estes discos são o resultado de uma pesquisa  
conduzida pela antropóloga Anaíza Vergolino e Silva, cujo objetivo foi con- tribuir para  
o registro dos movimentos musicais paraenses, transformando a memória dos sons e  
ritmos em uma antologia dos mestres compositores do passado e do pre- sente. Através  
deste trabalho, a pesquisadora não só preserva essas melodias sagradas, mas também  
as torna acessíveis a um público mais amplo, promovendo uma maior compreensão das  
tradições afro-brasileiras. Ambos CDs são mais do que simples gravações, eles são  
arquivos vivos da história cultural do Pará e servem como ferramentas educacionais e  
como meio de preservar práticas que poderiam ser ameaçadas pelo esquecimento ou  
pela modernização.  
Ao examinarmos esses contextos históricos, nos quais são expostas  
características da ritualística desenvolvida no Tambor de Mina na Amazônia,  
observamos que todos os registros audiovisuais remetem aos mineiros da tradição nagô.  
Esses registros abrangem descendentes dos terreiros do Egito, Fé em Deus, Dois Irmãos,  
bem como o sacerdote Luís Tayandô, entre outros.  
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Em nossa pesquisa, constatamos a ausência de registros audiovisuais produzidos  
pelas próprias participantes do Tambor de Mina da Casa das Minas e da Casa de Nagô,  
pois estas mulheres sempre foram extremamente sigilosas e não protagonizaram  
autoproduções audiovisuais. Mesmo que, na plataforma YouTube, tenhamos  
encontrado documentários, reportagens e fotografias dessas voduncis jejes e nagôs,  
sempre produzidos por terceiros, estas produções são repletas de muitas restrições.  
Conseguimos perceber que há uma difereça gritante entre as casas matrizes e  
suas descendências no que diz respeito à produção de conteúdos midiáticos. As casas  
de culto, como a Casa de Nagô Abioton, o Terreiro do Egito e o Terreiro da Turquia, bem  
como outras, não permitiram que seus rituais fossem registrados e amplamente  
divulgados. No entanto, os sacerdotes descendentes dessas casas, assim como de outras  
presentes no Pará, romperam com a tradição de guardar segredos de suas práticas  
ritualísticas. Tanto o sacerdote Jorge Itaci quanto Pai Euclides, e seus descendentes até  
os dias atuais, adotaram uma abordagem completamente diferente em relação aos  
segredos que outrora eram preservados entre as mulheres praticantes do Tambor de  
Mina tradicional. Essa mudança de postura revela uma transformação significativa na  
preservação e divulgação dos conhecimentos e rituais sagrados, desafiando a tradição  
do sigilo e contribuindo para a compreensão mais ampla dessa rica tradição religiosa.  
Compreendendo a representação midiática da identidade religiosa afro-  
brasileira, a pesquisa avança para uma análise diacrônica dos registros audiovisuais,  
particularmente os vídeos que documentam o Tambor de Mina, uma prática ritualística  
significativa na Amazônia. Esta investigação histórica abrange uma vasta coleção de  
materiais filmados, com ênfase especial nos gravados em São Luís do Maranhão e Belém  
do Pará, reconhecidos como centros vitais da prática do Tambor de Mina na região.  
O Museu da Memória Audiovisual do Maranhão (MAVAM) tem um papel  
fundamental na preservação e divulgação da cultura maranhense, especialmente das  
práticas religiosas afro-maranhenses. Ao documentar o Tambor de Mina, o museu  
preserva a memória histórica dessa tradição e destaca sua importância cultural e social.  
Suas produções audiovisuais funcionam como uma janela para o passado, permitindo  
que as gerações atuais e futuras conheçam essas tradições. Nesses registros, o MAVAM  
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captura a essência do Tambor de Mina, com foco na música, na dança e na comunidade,  
e mostra os tambores não apenas como instrumentos, mas como símbolos sagrados de  
conexão com o divino. É nesse acervo que está um dos registros audiovisuais mais  
antigos de partes de um ritual de iniciação, um dos momentos mais secretos dessa  
religião.  
Figura 4 -Print da pagina inicial do Museu da Memória Audiovisual do Maranhão (MAVAM) na  
Plataforma YouTube.  
Fonte: Plataforma YouTube.  
As produções do MAVAM sobre o Tambor de Mina servem como um recurso  
educacional e um meio de disseminar conhecimento sobre essa prática religiosa  
específica do Maranhão. Ao apresentar as características da afro-religiosidade  
maranhense, o museu reforça a identidade cultural da região e promove um maior  
apreço pela diversidade religiosa e cultural do Brasil.  
A presença das religiões de matriz africana nas redes sociais também é muito  
importante para entender as transformações atuais dessas práticas. No Facebook, por  
exemplo, a divulgação de conhecimentos ritualísticos do Tambor de Mina representa,  
ao mesmo tempo, uma forma de preservação digital e uma mudança na maneira como  
esses saberes são guardados e transmitidos, já que antes eram envoltos em segredo. As  
discussões que acontecem nessa plataforma sobre o que é correto na afro-religiosidade  
mostram como toda tradição viva é dinâmica. Esses debates ajudam na educação e  
conscientização sobre a diversidade das práticas afro-brasileiras e funcionam como um  
espaço de negociação de identidades dentro da comunidade religiosa.  
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Outra iniciativa importante é o Museu Afro-Digital do Maranhão (MAD-MA),  
criado em 2012 sob a coordenação do professor Sérgio Ferretti e vinculado à  
Universidade Federal do Maranhão. Com um acervo digital de fotografias, filmagens e  
estudos etnográficos, o museu oferece acesso a rituais e festividades que são pilares da  
identidade cultural maranhense, como o Bumba Meu Boi, o Tambor de Crioula e o  
Tambor de Mina.  
A tecnologia digital permite que pessoas do mundo todo conheçam esse  
patrimônio, e o portal também serve como espaço de aprendizado e interação. O MAD-  
MA fortalece a educação oferecendo recursos para o ensino da história e cultura afro-  
brasileira nas escolas, conforme a Lei 10.639/03, e atua no combate ao racismo e à  
intolerância religiosa. O legado de Sérgio Ferretti continua vivo por meio do museu, que  
é uma ponte entre passado e presente, preservando a memória cultural e inspirando  
novas gerações a valorizar as tradições afro-amazônica através do ciberespaço.  
4
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
A presente investigação sobre segredo e sagrado no Tambor de Mina permitiu  
evidenciar que esses dois elementos não apenas coexistem, mas constituem uma  
unidade dialógica fundamental para a compreensão dessa tradição religiosa afro-  
brasileira. Ao longo do percurso teórico e analítico, demonstrou-se que o segredo atua  
como guardião do conhecimento iniciático, protegendo a sacralidade dos rituais, das  
oferendas e dos assentamentos, enquanto o sagrado confere ao segredo sua razão de  
ser, seu peso simbólico e sua eficácia espiritual.  
A articulação entre as perspectivas semiótica de Saussure, que revela o sagrado  
como signo carregado de significado coletivo, e a noção de iconofagia de Baitello Júnior  
(2014), que alerta para o poder das imagens na contemporaneidade, mostrou-se  
fecunda para pensar os desafios atuais do Tambor de Mina. Do mesmo modo, os aportes  
fenomenológicos de Eliade e Otto ajudaram a compreender a experiência tradicional  
dos mineiros como marcada pelo tremor e fascínio diante do divino, experiência que  
independe das fronteiras entre culturas.  
Um dos achados centrais da pesquisa reside na constatação de uma  
transformação significativa no regime de visibilidade da religião. Enquanto as casas  
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matrizes tradicionais (Casa das Minas, Casa de Nagô) mantiveram rigoroso sigilo sobre  
seus rituais, produzindo poucos registro audiovisual, sendo nenhum deles de autoria  
própria, os sacerdotes descendentes no Maranhão e no Pará, como Jorge Itaci, Pai  
Euclides e outros, romperam parcialmente com essa tradição, expondo elementos  
outrora secretos em documentários, álbuns musicais e plataformas digitais. Essa  
abertura, ainda que parcial, não significou necessariamente perda da sacralidade, mas  
sim uma ressignificação do segredo diante das exigências do ciberespaço.  
No entanto, é preciso reconhecer os limites deste estudo, que se concentrou  
predominantemente em materiais audiovisuais disponíveis publicamente e em  
etnografias já consolidadas, sem acesso direto aos rituais mais reservados. Pesquisas  
futuras poderão aprofundar a netnografia proposta, investigando como as novas  
gerações de praticantes negociam, nas redes sociais, os limites entre o que pode e o que  
não pode ser mostrado. Além disso, seria relevante ampliar o escopo para outras casas  
de culto na Amazônia e para outras mídias digitais, como o Instagram e o TikTok, onde  
emergem novas formas de presença pública do sagrado.  
Conclui-se, assim, que o Tambor de Mina na Amazônia permanece vivo e  
dinâmico, adaptando-se aos tempos sem abandonar suas estruturas fundamentais. O  
segredo não tem possibilidade de desaparecer, mas sim de se transformar: de barreira  
absoluta à exposição, converte-se em estratégia seletiva de visibilidade. O sagrado, por  
sua vez, continua a se manifestar nas hierofanias cotidianas dos terreiros e, agora,  
também nas telas digitais, desafiando pesquisadores e praticantes a repensar o que  
significa manter viva uma tradição ancestral no século XXI.  
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SOBRE O(A) AUTOR(A)  
Arlindo Figueiredo do Rosário Júnior  
Arlindo Figueiredo do Rosário Júnior estudou filosofia no Instituto Regional Para Formação Presbiteral  
CNBB-N2(2001-2004). Graduado em Licenciatura em Ciências da Religião(2018-2022). Estuda as religiões  
de matriz africana, com ênfase na Religião Tambor de Mina. Atuou como professor de séries Iniciais na  
Escola Moyko Xikrin da etnia Xíkrin do Kateté e Professor de Filosofia para o Magistério da Educação  
Escolar Indígena para etnias do estado do Pará. É voluntario no Núcleo de Pesquisa em Educação e  
Cibercultura (NUPEC) do Instituto Federal do Pará (IFPA). Membro do Grupo de Pesquisa em  
Sociabilidades, Intersubjetividades, Sensorialidades na Amazônia (SISA). Mestre em Ciências da  
Comunicação (PPGCOM-UFPA).  
COMO CITAR ESTE ARTIGO  
ROSÁRIO JUNIOR, Arlindo Figueiredo do. O segredo e sagrado na Amazônia digital: A negociação da  
visibilidade do Tambor de Mina no ciberespaço. Passagens: Revista do Programa de Pós-Graduação em  
Comunicação da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, v. 17, n. especial, p. e97519 ,2026.  
RECEBIDO EM: 12/08/2026  
ACEITO EM: 16/09/2026  
PUBLICADO EM: 23/09/2026  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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“AMAZÔNIA, VAIS MORRER!”: NARRATIVA REGIONALISTA E  
DISCURSO IDENTITÁRIO NA CANÇÃO POPULAR DA BELÉM  
“OITENTISTA”  
“AMAZON, YOU ARE GOING TO DIE!”: REGIONALIST NARRATIVE  
AND IDENTITY DISCOURSE IN POPULAR SONG FROM 1980S  
BELÉM  
«¡AMAZONÍA, VAS A MORIR!»: NARRATIVA REGIONALISTA Y  
DISCURSO IDENTITARIO EN LA CANCIÓN POPULAR DE LA BELÉM  
«OITENTISTA»  
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Nélio Ribeiro Moreira  
Universidade Federal do Pará  
Resumo: Este artigo apresenta uma leitura sobre a canção popular como processo  
comunicacional de elementos narrativos e discursivos regionalistas em um contexto  
preciso, que é a cena musical de Belém do Pará na década de 1980. O objetivo é abordar  
a canção como objeto utilizado para a publicização de discuros e narrativas sobre a  
condição da região amazônica em um momento de sua integração ao Estado nacional  
brasileiro o que, segundo defende-se aqui, foi fator de motivação para a utilização da  
perspectiva regionalista como mote discursivo para a produção de uma canção  
identitária por destacados artistas daquela cena de música popular. Para isso, são  
observados textos jornalísticos, relatos orais e analisadas canções – música e letra – em  
suas perspectivas discursivas e narrativas a fim de demonstrar um momento do  
processo musical belemense.  
Palavras-chave: Canção regionalista paraense; Belém “oitentista”; narrativa cancional.  
Abstract: This article examines popular song in its specific nature as a communicative  
process involving regionalist narrative and discursive elements within a precise context:  
the music scene of Belém, Pará, during the 1980s. The aim is to approach the song as a  
vehicle for disseminating discourses and narratives regarding the condition of the  
Amazon region during a period of its integration into the Brazilian nation-state. It is  
argued here that this integration motivated prominent artists of that popular music  
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scene to adopt a regionalist perspective as a discursive theme for creating songs  
centered on identity. To this end, the study examines journalistic texts and oral  
accounts, and analyzes songs—both music and lyrics—in terms of their discursive and  
narrative dimensions, in order to illustrate a specific moment in the evolution of Belém’s  
music scene.  
Keywords: Popular music from Pará; 1980s Belém; song as regionalist narrative.  
Resumen: Este artículo presenta una lectura de la canción popular como proceso  
comunicativo de elementos narrativos y discursivos regionalistas en un contexto  
específico: la escena musical de Belém do Pará en la década de 1980. El objetivo es  
abordar la canción como un medio utilizado para dar a conocer discursos y narrativas  
sobre la situación de la región amazónica en un momento de su integración al Estado  
nacional brasileño, lo cual, según se sostiene aquí, fue un factor motivador para el uso  
de la perspectiva regionalista como tema discursivo en la producción de una canción  
identitaria por parte de destacados artistas de esa escena musical popular. Para ello, se  
examinan textos periodísticos y relatos orales, y se analizan canciones —música y letra—  
en sus perspectivas discursivas y narrativas, con el fin de mostrar un momento del  
proceso musical de Belém.  
Palabras clave: Canción regionalista de Pará; Belém de los «ochenta»; narrativa musical.  
1. INTRODUÇÃO  
Belém vive intensamente os anos 80, marcados pela efervescência em  
diferentes linguagens artísticas. É neste ambiente que, mesmo que  
conectado com a realidade nacional, em terras paraoaras se  
desenvolvem projetos  
e
movimentos muito peculiares que  
enriqueceram e agitaram a cena cultural, como [os festivais de música  
popular] Preamar, Clima de Som, Rock 24 Horas e Pôr-do-Som [...]  
(Museu da Imagem e do Som, 2010, p. 14).  
A década de 1980 entrou para a história e para a memória1 da música popular2  
paraense como um momento de efervescência cultural3. Isso se deveu ao fato de que,  
naquele contexto de profundas transformações na sociedade brasileira, de abertura  
política após duas décadas de regime ditatorial civil-militar, os movimentos  
socioculturais locais se assentavam em um ponto preciso: a busca por espaços e meios  
1
Noções aqui acionadas sob uma ética do lembrar, da manipulação da lembrança pelos interesses do  
presente, do “lembrar” e do “esquecer” como forma de reconciliação social (Ricouer, 1989).  
2 Sobre música popular brasileira em debate, ver: Napolitano, 2002; 1999; Néder, 2010.  
3
A noção de Belém “oitentista” é um definição do campo, discurso por meio do qual os interlocutores  
procuram dar uma sentido de peculiaridade como um momento de efervescência (Moreira, 2014).  
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para se expressar. E as artes, em geral, foram tomadas como o meio mais viável para a  
consecução desse objetivo.  
Em uma condição amazônica, a cidade de Belém acabou por ser percebida  
como uma realidade com instigante potencial para ser tratada como objeto estético  
cancional. Entenda-se por “condição amazônica” um espaço urbano em meio à floresta,  
distante da centralidade da cultura musical nacional e – mais uma vez – em pleno  
processo de fronteirização, desta vez, submetida às violentas ações políticas destinadas  
à região pelos governos militares – “grandes projetos”, integração intensa e  
compulsória, devastações e deslocamentos humanos. Esse contexto parece ter  
influenciado diretamente a produção cultural local da época – anos 1980 -, instituindo  
uma espécie de reação por meio da afirmação de um “si-mesmo” coletivo que investiu  
na produção de arte como resistência (Castro, 2011).  
Foi essa condição que deu o mote para que se instaurasse uma cena de canção  
popular que, associada a outras manifestações culturais, como grupos de teatro,  
coletivos de artistas de várias vertentes, da fotografia às artes visuais, e com apoio da  
atuação de intelectuais e de mediadores culturais que tinham espaço e fala na esfera  
pública por meio da mídia – principalmente jornais – pôde encetar ativismo culturais  
como forma de ocupação de espaços para exposição da produção cancional. Assim,  
proliferaram lugares de canção, espaços sociais voltados para apresentações, como  
salas de teatro, bares, casas de show e galerias que acabaram por constituir um circuito  
de manifestações artísticas que possibilitaram sociabilidades por meio da prática  
musical (Moreira, 2014).  
A memória que evoca essa construção da efervescência cultural como a melhor  
mais bem acabada representação daquele contexto tem a finalidade de fundamentar e  
justificar suas atuações a partir da busca pela resolução de uma questão que acabou por  
se tornar o fundamento da constituição de uma rede de interação, que foi a busca por  
uma identidade paraense-amazônica por meio de uma música de temática amazônica  
como fator estético. Como uma legítima representação de época, essa noção de  
efervescência se consolidou na memória coletiva da cena artística local de maneira que  
alcançou a atualidade, haja vista que, como memória coletiva (Halbwachs, 1990),  
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artistas do mundo da canção popular paraense4 e integrantes do grupo sonoro5 local  
ainda hoje se voltam a essa “Belém oitentista”.  
Proponho neste trabalho apresentar uma abordagem analítico-descritiva de  
um cenário musical ao apresentar leituras sobre o sentido das práticas de narrativa,  
como uma cadeia de signos – palavras, imagens e objetos - com sentidos sociais,  
culturais e/ou históricos particulares, e não gerais que produzem sentidos reconhecidos  
social e culturalmente localizados (Squire, 2014) por meio da produção artística, das  
canções, da memória, da oralidade e mídia impressa sobre uma realidade musical  
tomada como peculiar.  
De fato, nos anos 1980, para um grupo de artistas estar nessa cidade na  
Amazônia nos anos oitenta pode ser considerado um fator relevante para a forma como  
eles orientaram suas práticas. A realização da Feira Pixinguinha de Belém/80 e do  
Projeto Jayme Ovalle, o primeiro, um evento de amplitude nacional, e o segundo, de  
âmbito local, mas efetivamente inspirado no primeiro e em sua proposta de levar a  
música da Amazônia paraense para o circuito musical nacional, são tomados como baliza  
inicial da cena da “Belém oitentista” (Moreira, 2014).  
A perspectiva de publicização da música local foi o que inspirou e forneceu a  
dinâmica para sustentar essa empreitada como um projeto que visava consolidar uma  
música dotada de características precisas, a mirada regionalista. Dessa forma, a  
consequência seria sua afirmação como produto e cena da canção, o que levaria a  
afirmação de um cancioneiro de cor local com potencial de integração ao circuito  
nacional. Portanto, o “cantar a si mesmo” era, ao mesmo tempo, um projeto estético e  
social que acionou vários meios comunicacionais para o seu intento de consolidar uma  
música identitária como forma de resistência por meio de uma leitura sobre a realidade  
amazônica em seus trabalhos musicais.  
Portanto, o objeto deste trabalho é definido como a canção popular produzida  
em Belém nos anos 1980, procurando entender como a experiência amazônica foi  
4 É um mundo artístico, o conjunto total de indivíduos e organizações que agem de forma cooperativa e  
coordenada para a produção do tipo de acontecimentos e objetos produzidos por aquele mundo (Becker,  
2010).  
5
Uma formação coletiva que toma a música como ação social pautada em vínculos entre agentes que  
organizam, mantém e reeditam uma tradição musical (Blacking, 2007).  
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transformada em discurso, como prática social regulada que sistematiza sobre o que se  
fala (Foucault, 1996) musical. A hipótese é que o regionalismo não foi apenas um  
conteúdo temático, mas uma estratégia estética e identitária de constituição da cena.  
Isso será demonstrado adiante por meio de um conjunto de dados que tomam a  
dimensão de elementos constitutivos de um circuito comunicacional, como a imprensa,  
relatos de artistas, documentos e análise de letra, da música e de performances.  
2. A CONSTRUÇÃO DE UMA CENA DE MÚSICA LOCAL  
O regionalismo estético tornou-se, portanto, um modo de organizar a  
experiência social em forma musical. Nesse ponto, as narrativas e discursos regionalistas  
eram centrais para a concepção de identidade daquele momento, sendo constitutivas  
de um projeto estético como a ação de uma atitude em relação às possiblidades de uma  
pressuposição que guiaria as orientações dos artistas, de duas formas, uma orientação  
emotiva como disposição afetiva, e uma disposição racional como disposição cognitiva.  
Ambas teriam sido resultadas da experiência estética diante da situação concreta de  
estar inserido em uma dimensão social que passava por mudanças. Portanto, o  
conteúdo das formas cancionais deve ser compreendido por meio da assimilação dessa  
situação.  
Como projeto estético da canção oitentista, a visa regionalista é fruto de um  
contexto no qual a compreensão da realidade é pautada, por um lado, por uma  
perspectiva pragmática, e, por outro, como atitude performática na construção de um  
objeto artístico. Portanto, o regionalismo que habitava esse projeto não significava  
simplesmente “falar da Amazônia”, mas envolvia uma dimensão poética-imaginativa  
que condensava uma leitura da natureza, dos rios e da floresta como basilares a um  
modo de vida que ditou aos artistas uma memória que, por sua vez, integrou-se às suas  
experiências urbanas resultando em uma busca por uma sonoridade – portanto, não  
apenas temática, mas também rítmica - que representasse essas referências como dado  
cultural imagético sobre o lugar.  
Assim os significados culturais atribuídos à canção popular paraense oitentista  
designaram, ao mesmo tempo, um substantivo e uma modo de referência. Para os  
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artistas que tomaram parte dos festivais Feira Pixinguinha/80 e Projeto Jayme Ovalle,  
no caso do primeiro, o contato com músicos do circuito nacional, e do segundo, uma  
convivência mais próxima e intensa com outros artistas, acabou por destinar  
importantes elementos para a cena. Essa troca de experiências, por outro lado, e a  
necessidade de consolidar o caráter profissional do grupo, por outro contribuíram para  
a configuração de uma perspectiva regionalista para a música paraense a partir de  
dentro. A instituição de um imaginário artístico amazônico como referenciais visuais e  
sonoros incontornáveis, pois dotados de elementos míticos e memoriais atávicos, erigiu  
um repertório estético para aquele universo criativo como um conjunto de significados,  
motivações e convenções que interferem na realidade comunicacional, portanto, um  
contexto simbólico (Wagner, 2012).  
Portanto, estava em curso um “cantar a si mesmo” como um modo, uma  
identidade em processo de construção assentado em uma forma de representação  
como construção ativa de significados, e não mero reflexo do da realidade, como um  
esquema de apropriação inventiva, percepção e apreensão (Chartier, 2010). Assim, as  
narrativas e os discursos regionalistas colocados nas produções musicais foram a  
proposta estética para uma concepção de identidade em um momento de insegurança  
e mudança.  
Ao estabelecer uma canção local com suas nuances e particularidades, assim  
como dotar desses elementos eventos e performances, os artistas propiciaram um  
sentido de coesão, tanto do ponto de vista da interação social como da produção  
cultural, como componentes à conformação da cena. Portanto, a identidade regional  
não é simplesmente encontrada na realidade; ela é produzida, selecionada e organizada  
por meio da representação artística na canção.  
3. TRADIÇÃO E MODERNIDADE: A FORMA CANCIONAL DO REGIONALISMO  
OITENTISTA  
Como uma música pode ser simultaneamente regional e moderna?  
Certamente, essa reposta encontra uma possibilidade de sustentação quando se retoma  
o argumento de que, mesmo primando pela perspectiva regionalista, os artistas  
buscavam referências externas e contatos com artistas também de fora da região para  
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construir uma música que consideravam própria. Portanto, não foi simplesmente uma  
busca pela recuperação da tradição, na medida em que ela mesma procura falar de si,  
mas em outro campo de possibilidades. Por exemplo, as emblemáticas Sol do Meio-Dia  
e Madeira Mamoré se assentavam em propostas regionalistas, mas que incursionavam  
por experimentalismo e influências de outros movimentos fora do circuito nacional na  
época, como o Clube da Esquina.  
Ocorre, também uma rememoração da produção anterior, desde Waldemar  
Henrique – quem, aliás, foi atuante artística e politicamente na cena oitentista como  
uma espécie de “farol” para os artistas mais novos – até Paulo André Barata e Ruy Barata  
que, influenciados pela estética bossanovista, deram uma cara “regionalista” às suas  
canções como moderna-tradição ainda nos anos 1970 e em um âmbito nacional através  
da cantora Fafá de Belém (Moraes, 2014; Costa, 2008; Silva, 2010).  
Mas a cena oitentista, embora de forma matizada, acabou sendo influenciada,  
também e de forma mais impactante, e não apenas em relação à estética, mas também  
como forma de “movimento”, pelo exemplo do “pessoal do nordeste” que, dando as  
devidas proporções, tinham uma condição ditada a sua cultura musical também por  
questões de geografia. Essa narrativa, como estratégia d afirmação identitária, é  
expressa por dois importantes artistas da “geração de 80”, o poeta e compositor  
Joãozinho Gomes e o cantor e compositor Mário Moraes. Do primeiro, reproduzo trecho  
em que destaca a influência do “pessoal nordeste”:  
O movimento de rock no Brasil nos anos 80 estava acontecendo e a  
gente nem viu, não sabíamos, não nos interessava. O que nos  
interessava era pensar e fazer a nossa própria música, constituída por  
elementos que nos eram dados pela região, pelas coisas do nosso  
lugar, como estavam fazendo os [compositores] nordestinos.6  
Como memória e, portanto, uma narrativa regional que tem sua importância  
para a constituição do próprio sujeito e da cena a qual retrata, o poeta apresenta um  
ponto de vista que vai de encontro a um discurso que diz que “o rock foi a trilha sonora  
ideal para aquela época [anos 1980]” (Malcher, 2007, p. 33)7. Segundo o Joãozinho  
Gomes, a ideia era que para a satisfação de uma necessidade - fazer a própria música  
6 Relato informal.  
7 Sobre a cena de rock da cidade naquela década ver: Silva Junior, 2005; Silva, 2010; Machado, 2000.  
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era um fim em si, o que, no entanto, não tinha, ainda, um senso de organização e arranjo  
plausíveis - o contato com a produção e artistas do Nordeste pudesse ser tomado como  
um modelo.  
No mesmo diapasão de Joãozinho Gomes está a fala do cantor e compositor  
Mário Moraes quando diz que “[entre os integrantes da cena de canção popular] quase  
não se ouvia outro tipo de música, como o rock, por exemplo, apesar de que havia  
pessoas que transitavam pelo [nosso] meio [da canção] que tinham esse material”.8 A  
respeito das influências de gêneros que incidiram sobre os artistas da cena de canção  
popular da época, sua narrativa possui os seguintes termos:  
A turma daquela época, 1983, 1984, teve contato com outras formas  
musicais do cancioneiro brasileiro. [...] E aí entra essa turma que te  
falei, que teve contato com [os compositores e cantores] Elomar, Vital  
Farias, o grupo Quinteto Violado, que eram os nordestinos. 9  
Pode-se conjecturar que havia, a tomarmos essas duas falas, uma pretensão de  
fazer um movimento em prol de uma música original por meio do acionamento do  
regionalismo amazônico. É comum nas narrativas dos atores se referirem a essa atuação  
como um movimento, embora isso não seja confirmado, haja vista que as atuações  
tinham uma finalidade, mas nada estruturado. Todavia, foi consistente a movimentação  
que os artistas encetaram, haja vista que o estabelecimento das redes de contato entre  
os músicos foi fator determinante para que a cena oitentista se conformasse tal como  
foi, pois artistas tinham um pensamento mais ou menos coeso sobre a música local.  
Portanto, a canção popular paraense oitentista é moderna tradição,  
entendendo tradição não como reprodução do passado, mas como matéria-prima para  
uma produção moderna (Ortiz, 2012), dotada de uma carga de tensão, o que  
normalmente a canção assume em contextos de mudança social, ou ruptura política  
(Tatit, 1996; Wisnik, 1999; Sandroni, 2004). Nesse caso, a mudança de regime – da  
ditadura civil-militar à redemocratização que se processou nos 1980 -, a articulação  
entre letra e melodia como forma de “falar” sobre a região amazônica em sua dramática  
forma de fronteirização do Estado nacional (Castro, 2011; Moreira, 2014). Portanto, a  
8 Relato informal.  
9 Idem.  
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canção popular paraense oitentista10, de ethos regionalista, deve ser tomada como um  
texto em seu contexto, como uma prática social localizada, uma experiência de ordem  
social que se manifestou pela oralidade, pela performance e em seus modos de  
recepção como construção de identidade coletiva (Zumthor, 1997; Thompson, 1992).  
O uso recorrente da temática regional, “não necessariamente ufanista, o que é  
apenas folclore”11, na produção dos compositores locais no contexto oitentista aponta  
para uma leitura que trata das composições do período como “canção crítica”, uma  
característica da canção brasileira moderna. Como produto cultural, ela é resultante das  
perspectivas dos compositores como “formadores de opinião”, que é o que lhe dá a  
dimensão crítica, o que passa a ser compor sua estrutura discursiva nos anos 1960, pois  
foi quando o artista devido as suas situações, passa a ser um crítico da cultura a atuar  
como um intelectual ativista, contudo, diferente do intelectual ativista político (Naves,  
2010).  
Na medida em que a canção popular se desenvolveu, ela estabeleceu para um  
estatuto preciso. Assim, ela tornou-se um centro de atração para onde passaram a  
confluir informações dando ao compositor uma identidade de intelectual. Assim, a  
canção passou a ser um meio de debate intelectual, sendo um texto que aborda um  
contexto, o compositor como um crítico, e uma crítica como dado interpretativo e  
representacional sobre fatos culturais e políticos do país. O compositor popular tornou-  
se um crítico que inter-relacionava arte e vida (Idem.).  
Essa tradição da canção popular nacional pode ser usada para ler a produção  
da canção popular da “Belém oitentista”, pois é fato que os compositores se viram  
imbuídos de uma proposta composicional que, também, pressupunha ir ao encontro da  
realidade amazônica como mote estético crítico. No caso dos artistas que atuavam no  
contexto amazônico, pode-se notar que se tratava de artistas “engajados”, mas não no  
sentido “clássico” político-partidário comumente associado a essa definição, e sim, em  
engajamento como construção artística de um posicionamento que intervinha no  
debate político da cultura local, e em certa medida, regional e nacional, da época.  
10 A canção não pode ser compreendida isoladamente de seu contexto de produção, haja vista que a sua  
retirada de um contexto original pode modificar seu sentido e sua função social (Paranhos, 2004).  
11 Entrevista com o cantor e compositor Rafael Lima, realizada em 18 de setembro de 2013.  
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Um primeiro ponto para se pensar é que ao longo dos anos 1980 na cena da  
canção popular de Belém atores sociais de idades diferentes estavam em contato –  
chegou-se a falar em “geração12 de 80” para delimitar uma distinção à “geração de 70”.  
Na segunda metade da década de 80, esses “novos” artistas novos que ingressaram na  
cena não passaram a compor outra geração porque estavam imbuídos do mesmo  
projeto. Nesse sentido, como um grupo que partilha uma mesma perspectiva de  
constituição de uma “música local”, as práticas de afirmação de um cancioneiro local  
foram efetivadas de formas variadas.  
Cabe citar aqui que esse é o momento em que se instaura uma preocupação  
em relação às questões de ordem de estabelecimento de uma política cultural, o que  
certamente foi fruto do contexto de transição à abertura política. O fim do regime militar  
forneceu elementos para uma nova dinâmica em relação às questões de política cultural  
no interior da cena musical belemense, o que teve como um dado importante a questão  
do sentido regionalista da produção musical local: com uma organização mais bem  
estruturada, fruto do interesse dos artistas em participar do debate com o Estado acerca  
da realidade das ações políticas para suas atuações, a questão regionalista na produção  
musical foi um ponto de convergência. Disso resultou a formação de uma importante  
agremiações de músicos e compositores, a Associação de Compositores, Letristas,  
Intérpretes e Músicos do Pará – CLIMA, criada em1985 (Moreira, 2022).  
Como narrativa, a canção regionalista oitentista é portadora de uma mensagem  
precisa. Ou seja, é uma produção estética interessada na qual a letra assume um papel  
de protagonismo social ou ideológico que se vale da estética artística como veículo de  
conscientização, denuncia resistência ou mobilização social. Nesse quadro, a canção  
popular se coloca como uma tensão entre arte, autonomia e engajamento político,  
consolidando-se como capital cultural e político conferindo, assim, legitimidade ao  
interesse e atuação dos atores (compositores e intérpretes) que estão inseridos no  
contexto abordado.  
12 O termo “geração” é uma expressão performativa, cuja utilização se justifica para denominar algo que  
tenha validade no âmbito do conflito de imaginários no interior do grupo, termo utilizado de acordo com  
a demanda do momento (Mannheim, 1982).  
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Mas a canção precisa de um lugar, ou evento, para existir. Como na década de  
1980 era muito difícil gravar e inseri a produção no circuito comunicacional do mercado  
cultural, os festivais foram um dos espaços de publicização das produções. Alguns se  
tornaram emblemáticos a ponto de permanecerem na memória coletiva como  
demarcações precisas. Um desses festivais foi o IV Festival da Faculdade de Ciências  
Agrárias do Pará, FCAP,13 realizado em 1984. Reteve-se desse evento um fasto que  
passou a compor as narrativas sobre ele, a apresentação e a vitória do cantor Mario  
Moraes com uma música chamada “Tocaia”, parceria com Sidney Piñon.  
A música apresentada ganhou os prêmios de Melhor Arranjo (“apenas voz e  
violão”), Melhor Pesquisa, Melhor Letra e Melhor Intérprete. Sua estrutura melódica e  
harmônica se encaixa sobre uma base de ritmo regional, uma mistura de batidas de  
retumbão e lundu. A letra aponta elementos da fauna e objetos do cotidiano local (“De  
tocaia/Ver brilhar/Cobra, papagaio, arara/Lamparina são seus olhos”). Nas palavras de  
próprio Mário Moraes:  
Ali naquele festival a coisa foi muito visceral. A estrutura era ruim. Mas  
ainda assim, apenas com o violão cantei... O Ruy [Barata] era o  
presidente do júri, acho que o Waldemar Henrique também tava lá. O  
Ruy aplaudia, gritava. Imagina o presidente do júri fazendo isso... Essa  
música [Tocaia] é um exemplo interessante, tem regional amazônico,  
o lundu, e tem maracatu, do nordeste, mas que tem em todo lugar.  
Aqui nós temos maracatu. É um regional amazônico com nordeste.14  
As falas acima citadas apontam uma perspectiva de coesão. Há aí uma clara  
indicação de que se tratava de “fazer uma música, e assim foi feito”. Já foi dito também  
que naqueles momentos iniciais da cena tudo era muito amador. Portanto, a busca por  
fazer aparecer uma produção era o que fundamentava as perspectivas daqueles artistas.  
E o mote do regional, despertado naqueles novos compositores pelo som do “pessoal  
do nordeste” foi fundamental.  
Ao apontar o uso das “coisas do nordeste” na canção belemense, os artistas  
emitem um discurso que permite detectar uma questão de “geopolítica cultural”  
13Atualmente é a Universidade Federal Rural da Amazônia, UFRA.  
14  
Idem. Lundu o compositor se refere ao Lundu Marajoara, que é uma dança de origem africana que  
compõem o repertório de “danças folclóricas regionais”, na qual os homens e mulheres dançam em pares  
soltos num jogo de sensualidade.  
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brasileira que é a coincidência de situações entre as duas regiões naquele contexto. Tal  
coma a Amazonia, o Nordeste é resultado de uma construção imagético-discursiva  
resultante do reconhecimento da derrota da região frente ao Sul do país. Assim, o  
Nordeste foi institucionalizado como “paisagem imaginária” por um grupo oligárquico  
com interesses comuns no afã de que a região fosse reconhecida como peculiar pelo  
campo nacional, haja vista que as aspirações de inserção a este campo se viram  
fracassadas (Albuquerque Jr., 2006).15 Obviamente, esse processo permeou as  
construções artísticas realizadas naquela região que, de certa forma, tinha pontos  
coincidentes com as demandas nortistas da época.  
Então, teriam o Norte e o Nordeste uma “ligação afetiva” efetiva que se  
materializou no imaginário da construção representativa das condições dessas áreas no  
cenário nacional. Isso está, por exemplo, nas várias apresentações de artistas  
“nordestinos” em eventos de música em Belém, ou em parcerias de composição: eram  
possibilidades de “aproximação” que poderiam constituir uma forma de enfrentamento  
às imposições culturais da região Centro-Sul. Foi baseado nessa leitura que os artistas  
da cena belemense se viram imbuídos da realização de uma canção popular local fizeram  
a “escolha” por um tipo de música que tinha aspirações regionalistas como posição  
politizada  
4. A CANÇÃO COMO NARRATIVA REGIONALISTA  
Aqui serão analisadas algumas canções a fim de verificar em sua estrutura  
narrativa a questão da temática regionalista. A primeira se chama “Dança das Águas”  
que, embora seja do final da década anterior, o que extrapola a perspectiva “oitentista”,  
contudo é tomada aqui por dois motivos. Um, porque é de autoria deum mais  
representativos artistas da cena; outro, porque fala da cidade de Belém, do rio e de uma  
experiência amazônica. Ademais, a canção permite demonstrar concretamente o  
argumento de que o regionalismo não está somente na letra, mas também na forma  
musical: pode ser observado, por exemplo, a relação entre a circularidade melódica e o  
movimento das águas.  
15 Em tempo, por volta dos anos 1920, Nordeste e Norte ainda aparecem como integrantes de uma mesma  
área nos discursos pronunciados na região Centro-Sul do país (Albuquerque Jr., 2006).  
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Em 1977 foi realizado o Festival Três Canções Para Belém, promovido pela  
Prefeitura da cidade. Desse festival, se sagrou vencedor o compositor Antonio Carlos  
Maranhão, com a música “Dança das Águas”, cuja interpretação foi na base de voz e  
violão, e uma flauta transversal, tocada por Mescouto. Por abordar a cidade por meio  
de uma representação cancional imagética, a canção se tornou uma peça musical  
destacada no cenário local. Primeiro porque se trata de uma descrição dolente que  
enumera temas da realidade local. Segundo, porque era uma composição de um dos  
mais representativos artistas daquela cena. Vejamos a sua letra, transcrita abaixo:  
“Dança das águas” 16  
Mês de março, mês de enchente  
As águas dos rios sujam  
E se lançam na Baia  
Do Guajará que se turva  
Sob a força das correntes  
Vento faz a maresia  
Que arrasta mágoa e dor  
Esperança e alegria  
Pro peito do pescador  
Das moças do interior  
No sentido da baia  
E as moças do interior  
Rezam contas e novenas  
Sonham com vestidos brancos  
Bordados em fitas e rendas  
Longe olhar no litoral  
Fazem juras pagam prendas  
Para casar na capital  
Terras caídas, águas barrentas do Guamá  
A chuva forte quebra a flor do guaraná  
É tarde, e baixa-mar no Ver-o-Peso  
Que abriga os barcos cedo  
Para maré de preamar  
E os urubus famintos anjos negros  
Cansam do céu e vem à lama descansar  
Se a noite vem em lua nova ou lua cheia  
Lá pros galhos das mangueiras  
Voam pra se agasalhar  
Éh! Furo das marinhas aninga verde  
Éh! Várzea alta, êh várzea baixa, êh! Igapós  
16 Dança das Águas. Festival Três Canções para Belém (LP). Belém do Pará, 1978. Faixa 1. Regravada pela  
cantora Simone Almeida em: Maranhão, Antonio Carlos. Antonio Carlos Maranhão. (CD). Belém, Secult,  
Projeto Uirapuru, o canto da Amazônia, 2006. Faixa 6.  
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E os igarapés represam os peixes  
Pro arraste das redes  
Pra ponta dos anzóis  
E o pescador que é mestre navegante  
Que amarra amor nas rampas e no cais  
Se as promessas fossem como âncora  
Jamais esqueceriam de voltar  
Êh! Moças do interior  
Quando os barcos vão voltar  
Do Acará, do Moju  
Tocantins e do Guamá  
Rios braços de sustento  
De sina, pena e tormento  
Das águas do Guajará  
Que Belém em tuas cheias  
É terra de tuas beiras  
Lugar no teu encostar  
Nessa longa descrição, uma compilação de cenas, personagens e questões  
típicas “tradicionais”, a cidade de Belém do Pará aparece como uma cidade da floresta,  
ainda que seja mais pertinente lidar com ela como sendo uma cidade na floresta. Belém  
é descrita e representada numa contraposição bastante consistente entre Natureza e  
cidade, na qual a Belém simbólica, como ribeirinha, se coloca a par da Belém real,  
portuária e comercial. Isso se mantém por meio de uma narrativa que apresenta um  
mote de deslocamento e espera numa relação entre a cidade – espaço urbano deum  
tempo mais acelerado e o interior – espaço rural, com um tempo mais lento. A questão  
é que a saída do interior e a vida para a cidade – as moças do interior – ou a vida no rio  
como uma constante do trabalho – caso do pescador – são manifestas visões de busca  
por formas de sobrevivência que o cancionista acionou na sua leitura.  
Até meados da década de 1960 eram mais comuns as “cidades da floresta”, que  
se caracterizam por serem pequenas, geralmente estarem ligadas a outros pontos pela  
circulação fluvial, além de apresentarem forte relação com seu entorno, outras vilas e  
cidades. Acrescenta-se, ainda, o fato de estarem ligadas à dinâmica da natureza,  
portadoras que são de uma vida rural alheia, relativamente, à modernidade. Por outro  
lado, no contexto de expansão da modernidade, as “cidades na floresta” passam a  
dominar o cenário. Estas possuem a característica de estarem mais articuladas às  
demandas externas à região, não tendo na floresta um elemento que esteja integrado  
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aos valores da vida urbana – e, de certa forma, acaba sendo uma sua negação (Trindade  
Jr., 2010, pp. 116-117).  
Isso se aproxima da caracterização dos motivos estilísticos detectados por  
Fábio Castro quando argumente sobre a intersubjetividade entre os artistas locais que  
produzirem suas canções pautados na tensão entre mito – “espaço vazio” – e realidade  
– “espaço vazio” como justificativa para a ocupação violenta -, todavia, a realidade - que  
caracterizava a região amazônica. Se para o sociólogo a realidade regional era motivo  
de estilização porque se impôs uma circunstância que isso ditou, a cidade imersa na  
realidade amazônica também esteve tensionada por esse estar na floresta, ora inerente,  
ora um apêndice (Castro, 2011; Moreira, 2014).  
A letra trata diretamente da relação entre a Natureza e a cidade: a música  
começa fora da cidade, com o ciclo das águas: o mês março e as enchentes do destaque  
para a Baía do Guajará e para o rio Guamá como “travessias”. Essa situação toda ainda  
traz outras questões, como a chuva, maré – o deslocamento das águas -, a várzea e os  
igarapés, lugares afetados pela dinâmica das águas. Portanto, o que a canção coloca  
como tema ligado às questões regionais é que a Natureza não é apenas uma paisagem  
a ser contemplada pelo compositor, mas, sim, que este faz dela uma leitura de agente,  
pois ela influencia e, em alguns casos, determina o deslocamento, a vida real no  
cotidiano, as formas e relações de trabalho como quando, por exemplo, o pescador é o  
“mestre navegante” que tem nos rios, ao mesmo tempo, um meio para seu sustento e  
o próprio sustento.  
Dessa forma, a Belém real, concreta, emerge na canção por meio de referências  
muito específicas, como o Ver-O-Peso e Baia do Guajará, o rio Guamá e, não explícitos,  
embora indicados, portos e rampas. Isso denota que se trata da descrição simbólica –  
cancional – de uma prática comum de circulação entre Belém e o interior, o que para o  
cancionista é tomado como dado. O destaque dado ao Ver-o-Peso indica uma questão  
importante, que é a concentração da atividade comercial – dado real - e ribeirinha –  
dado simbólico - de Belém. Essa formação da margem - como ponto de encontro entre  
o interior e o espaço urbano - em contato direto com a dança das águas condiciona o  
movimento de saída e chegada na cidade.  
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Ademais, o regionalismo aparece ainda numa perspectiva toponímica, quando  
são citadas cidades do interior – Acará, Moju -, rios – Tocantins, Guamá – e formações  
ecológicas – várzea, igarapé, igapó. A importância em se salientar esses pontos reside  
no fato de que a identidade regional não prescinde de elementos representativos, pois  
os rios, lugares e os personagens dão forma física àquela.  
Todavia, na canção também está a Belém simbólica, uma cidade que é lugar de  
chegada, objeto de desejo - as “moças do interior” sonham em “casar na capital”17 -,  
uma travessia que significa, literalmente, uma passagem da vida do interior para a  
cidade, lugar visto como da oportunidade para essas moças, mas que para alcançar esse  
objetivo tinham que fazer a travessia do rio como um o rito de passagem, na dança das  
águas. Como se pode notar, as experiências e imagens evocadas são práticas cotidianas  
comuns naquele contexto na região, e assim são tomadas como mote para a canção.18  
Então, o interior é a antítese da cidade, representação da modernidade, espaço de  
circulação, de ampliação das redes de contato, onde estão centralizadas as  
oportunidades. Ainda assim, Belém baila com as águas e, portanto, nunca deixa de ser  
amazônica.  
Essa proximidade - e sua conseqüente influência - às águas na vida que pulsa  
na cidade de Belém acabou por ser um tema fundamental na constituição de uma  
estética musical local, uma perspectiva de trabalho no campo musical que está  
assentada naquilo que pode ser definido como uma “estética das águas” (Burnet, 2013)  
como resultado da experiência vital dos artistas na/da cidade. Essa relação da cidade  
com a água em seu entorno teria dado o mote para que se firmasse um discurso  
imagético, expressado em canções, que é ressaltada pelo cancionista  
Antonio Carlos Maranhão foi um dos mais destacados artistas da cena  
oitentista, com sua visão regionalista sobre a realidade amazônica sendo uma constante  
em sua produção. Sobre isso, Alfredo Oliveira escreveu:  
17 Na literatura local das décadas de 1950 e 1960, esse tema é recorrente. Está, por exemplo, em Menina  
que vem de Itaiara (1963) e Estradas do tempo foi (1969), da escritora Lindanor Celina.  
18 Acompanhando os jornais da época, as reportagens sobre a cidade em sua condição de cidade a beira  
rio, se opõe diametralmente a essa imagem poética e idealizada da cidade. Reportagens e charges  
revelam uma cidade atravessada por conflitos entre o poder público e as demandas da população pela  
ocupação do espaço e suas condições precárias de moradia nas áreas de baixada que são diretamente  
atingidas pela realidade das cheias dos rio (Moreira, 2014).  
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[Antonio Carlos Maranhão é] sincero, observador, soube captar as  
facetas do mundo amazônico, com um olhar agudo fora do usual. A  
canção “Dança das Águas”, por exemplo, demonstra um regionalismo  
que poucas pessoas da terra costumam possuir. A visão crítica  
desenvolvida na lambada “Nega” cria um saboroso clima de humor,  
em torno de peculiaridades regionais, difícil de encontrar em outros  
compositores do Norte. Por outro lado, compõe versos que lançam  
imagens de original efeito poético. É o caso da referência aos corvos  
do Ver-o-Peso: “E os famintos, anjos negros, cansam do céu e vem à  
lama descansar” (Dança das Águas). Ou “Quero que esse teu corpo de  
uma sereia/Fazer um mapa de amor na areia/ Em qualquer praia desse  
Pará” (Nega) (Oliveira, 2000, p. 386).  
Os exemplos apresentados por Oliveira fazem referência especificamente à  
Belém, às contingências da vida urbana nessa cidade na floresta, ou seja, o que foi  
interiorizado (=interpretado) pelo compositor não foi a Amazônia, mas a cidade de  
Belém. Em outra composição, “Nega”, o tema das experiências cotidianas belemenses  
identificadas pelo músico é de novo retratado, mas agora sob uma ótica a partir da  
cidade Segundo o jornalista Edyr Augusto Proença, a composição “ultramoderna”19  
“Nega”, parceria de Maranhão com Alfredo Reis, é uma descrição de elementos da  
realidade belemense oitentista a partir da “vida” de uma personagem do meio boêmio  
da cidade em seu périplo por lugares característicos do local. Abaixo a letra da canção:  
“Nega” 20  
Assim que o navio apita a pensão se agita  
A nega fica aflita pra vadiar  
Ela é figura de arte do Bar do Parque  
Adora um desembarque  
não pode ver lá no cais, qualquer turista chegar  
E gosta de desfilar lá pela Bailique  
Adora dançar colado um brega-chic  
E no clube do açaí ela é da Socipe  
A nega não é de Angola e nem é de Moçambique  
Deixa de conversa nega, que eu quero é dançar  
Lugar de conversa nega, é no Corumbá  
Eu não sou turista nega, eu só tô na pista  
Eu sou, é contrabandista da praça de Macapá  
19  
“A Nega, o Maranhão e o Festival do Bancrévea”. Jornal A Província do Pará. Belém, 12 de junho de  
1988. p. 7. Coluna Vinyl.  
20 Maranhão, Antonio Carlos. Antonio Carlos Maranhão. (CD). Belém, Secult, Projeto Uirapuru, o canto da  
Amazônia, 2006. Faixa 16.  
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Eu vou a Paramaribo, quem sabe eu vou te levar  
Te dar um banho de loja, de Zona Franca  
Leite de soja pra dar sustança  
Depois te levo pra Marabá  
Deixa de conversa Nega, que aqui não dá pé  
Eu vou pro garimpo Nega, tu pro cabaré  
Eu já te cantei tanto nega, mais que Carlos Santos nega  
Mas santo de casa nega, ninguém bota fé  
Queria ser colunável do Edwaldo  
Modelo do Biratan ou Mário Sobral  
Queria virar notícia do Lúcio Flávio  
Notícias de umas mutretas  
que não sai pela Província, no Diário ou Liberal  
Aprés de moi et demi delicieuse vacances  
Será que comer muçuã, Nega faz suar  
A Nega tinha um sotaque em francês society  
Mas vez por outra falava, "Eu sú é dé Cametá"  
Deixa de conversa nega  
Que eu quero é dançar  
Lugar de conversa Nega, é no Corumbá  
Eu não sou turista, nega eu só to na pista  
Eu sou é contrabandista da praça de Macapá  
Eu quero casar contigo, lua de mel no Outeiro  
A gente pra ter dinheiro faz um acordo com o Governo fez  
Com a polícia e com os bicheiros  
Ora dar emprego  
Deixa de conversa nega que aqui no Pará  
Tem muita riqueza nega, pra gringo levar  
Até uma gostosa lebre saborosa  
Do Carlos Queiroz  
Já não dá pra nós  
Eu quero te dar um beijo, beijo bem louco  
Ai desses que deixa marcas pelo pescoço  
Eu quero te dar um beijo, um beijo bem louco  
Desses que os lábios colam  
Desses que a língua rouba estrelas do céu da boca  
Eu quero é sentir na ponta desses meus dedos  
Teu corpo de Maria Rúbia e de Luz Del Fuego  
No fogo dessa paixão de tirar sossego  
Eu quero ser prisioneiro do teu dengo teu chamego  
Aí nega eu te amo tanto,  
Quem sabe eu só sei te amar  
Eu com esse teu corpo de uma sereia  
Fazer um mapa de amor na areia  
Em qualquer praia desse Pará  
Deixa de conversa nega,  
Que eu quero é bailar  
Lugar de conversa nega, é no Corumbá  
Eu não sou turista nega, eu só to na pista  
Eu sou é contrabandista da praça de Macapá  
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Trata-se de uma lambada estilizada, haja vista a extensa letra, o que foge aos  
padrões da lambada consumida nas festas das áreas periféricas da cidade na época  
como motivo dançante. “Nega” tem uma regularidade rítmica que serve ao interesse de  
expor a criação do autor: uma descrição referencial dos espaços sociais da cidade por  
meio da personagem Nega. A canção começa com um “ataque” de notas de um teclado  
reproduzindo instrumentos de sopro que parecem anunciar a “chegada” da Nega. A isso  
segue um arpejo de guitarra que denuncia uma de suas influências, a guitarrada21, sobre  
uma base rítmica de instrumentos de percussão. São exploradas ao máximo as  
influências da música caribenha na sua execução, obviamente consequência da  
proposta contida na sua construção.  
Essa canção despertou um interessante debate nos círculos ligados ao cenário  
da canção na cidade, inclusive no meio midiático. Um primeiro ponto que pode ser  
destacado é o fato de que se trata de uma lambada, quando esse ritmo passa a ser  
efusivamente saudado como da moda, mas, de certa forma, paradoxal em relação a  
lambada midiática, como já foi acenado. O segundo é que se trata de uma composição  
de um dos mais importantes atores sociais daquele contexto22, integrante da “velha  
guarda”, militante da canção local com certas atividades de mediação – num cenário em  
que afirmavam novos artistas ele era um dos responsáveis pela legitimação destes, por  
exemplo, atuando como jurado de festivais. O terceiro: trata-se de uma canção de letra  
extensa, ganhadora de um dos mais importantes festivais ocorridos na cidade na época,  
o II Festival Nacional da Canção Bancreveana, FECRÉVEA.  
“Uma crônica-crítica a Belém, falando de seus costumes e de sua gente”. Assim  
se referiu a essa música o colunista Edwaldo Martins – ele próprio um dos personagens  
citados na música, na passagem “Queria ser colunável do Edwaldo” - em texto que faz  
um balanço do Festival. 23 Para ele, a escolha da música como a melhor do certame se  
justifica porque havia “vontade de interpretação, aliada a criatividade da letra”. É  
21  
A guitarrada se consolidou como um importante gênero musical local no discurso da música  
regionalista, que surgiu na década de 1970. Ela é resultante da fusão de três ritmos principais: cúmbia,  
merengue – ritmos caribenhos – e carimbó.  
22 Em parceria com o cantor e compositor Alfredo Reis.  
23  
“II FECREVEA premiou a Nega, de Antonio Carlos Maranhão”. Jornal A Província do Pará. Belém, 7 de  
junho de 1988. p. 6. Caderno 2.  
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preciso ressaltar que no momento de sua apresentação, Antonio Carlos Maranhão  
executou uma performance, dançando com uma boneca de pano o que, seguramente,  
contribuiu para sua vitória.  
Se “Dança das Águas” constrói uma Belém ribeirinha, Nega apresenta uma  
Belém urbana, boêmia, festeira, popular e marginal. A música começa com a chegada  
de um navio – de onde pode-se extrair, do que se pode inferir que a cidade é  
movimentada – com turistas estrangeiros (o contato com outros países) e produtos  
contrabandeados (a circulação de mercadorias). Por meio da personagem “Nega”, surge  
um dos lugares emblemáticos da cidade à época, o Bar do Parque. Assim como em  
“Dança das Águas”, Maranhão aponta no cais denota a condição de cidade à beira rio  
de Belém, ponto de ingresso na realidade citadina desse núcleo urbano na floresta, uma  
cidade que demonstra que a Amazônia aparece não como região isolada, mas como  
espaço de trânsito.  
A letra nomeia ainda diversos espaços da Amazônia: as cidades de Marabá,  
Cametá, Macapá, Paramaribo; locais em Belém como Outeiro (praia), elementos  
constitutivos da sociedade (Turma da Bailique, Clube do Açaí), colunistas de jornais  
(Edvaldo, Raimundo Mário Sobral, Lúcio Flávio Pinto), jornais (O Liberal, A Província do  
Pará). Enfim, essa significativa quantidade de referências que a canção cita acaba por  
fornecer uma espécie de cartografia social da região amazônica vista desde Belém.  
Já a dimensão simbólica da cidade é tratada com irreverência pelo cancionista.  
Nessa representação, a boemia, a sexualidade, o contrabando, a marginalidade, o  
turismo, os lugares de comércio, a forma como a imprensa é retratada apontam uma  
percepção irônica ao fazer o cruzamento desses pontos. Ao fim, uma Belém dinâmica,  
integrada, é o núcleo da apreensão da narrativa tanto em “Dança das Águas” quanto em  
“Nega”: na primeira transitam barcos, circulam moças e pescadores; na segunda, a  
circulação é de turistas, artistas, personagens da noite, contrabandistas.  
Como um “resumo” da Amazônia, Belém é o cenário para tratar de questões  
políticas, como no trecho “Tem muita riqueza nega, pra gringo levar”, que pode ser  
tomado como metáfora para a exploração excessiva da riqueza da região pelo capital  
nacional e estrangeiro, uma questão fundacional – a denúncia da exploração - do  
regionalismo amazônico.  
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Esse regionalismo amazônico aparece como dimensão política de forma mais  
incisiva em “Amazônia”, composição do cancionista Armando Hesketh. Também uma  
composição que remete à década de 1970 - em 1979 ele concorreu com essa  
composição no Festival de Música da Lanchonete I (Moreira, 2014). Essa canção é uma  
das mais consistentes peças de expressão da modernidade pretendida para a canção  
popular oitentista: ela expunha uma visão contextual sobre o “problema Amazônia” em  
uma letra contundente e uma armação harmônica e linha melódica complexas e  
inquietantes. Sua letra está transcrita abaixo:  
“Amazônia” 24  
Com a cor do norte, vivo com a sorte no meu grande espaço  
Na vida corrida, trilha, e pausa e compasso  
Com a terra ainda pura e o homem vem respirar  
Na floresta verde e mata que é difícil o sol penetrar  
Com os braços abertos, certos de que tudo isso é viver  
E às nossas vendas, lendas eternas, se tem o contato  
O saci, o boto branco e o encanto do Cobra Norato  
E por que será que o homem quer com tudo isso acabar?  
Não vê que essa mata verde sobrevive pra nos salvar?  
A incoerência tensa do homem vai nos matar!  
Essa é a tristeza clara, triste e muda e viva de um fato insensato  
Morre pouco a pouco, a corte, esse nosso imenso espaço  
E por que será que o homem quer com tudo isso acabar?  
Não vê que essa mata verde sobrevive pra nos salvar?  
A incoerência tensa do homem vai nos matar!  
Amazônia, Amazônia, vais morrer!  
Na canção, a narrativa regionalista extrapola as dimensões da cidade de Belém,  
o que era o tema nas canções tratadas anteriormente, e procura abarcar a Amazônia  
como um espaço natural ameaçado pela ação humana. Aliás, é mais preciso dizer que o  
cancionista trata de um confronto: a floresta como “grande espaço” natural  
enfrentando essa possibilidade de ação humana – a correria urbana sendo freada pelo  
tempo languido da floresta densa e fechada. Nesse espaço espontâneo, aparecem aos  
olhos dos humanos, os seres da floresta que, por serem encantados, são eternos, mas  
ainda assim se revelam por meio do recurso narrativo da canção. “Amazônia”, portanto,  
24 Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=xMXv-if9E1c Acesso: 21 jan. 2014.  
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expõe um regionalismo pautado nas referências ao mito associado à narrativa de  
denúncia (“Por que será que o homem quer com tudo isso acabar?”).  
Mas isso, efetivamente, é um recurso narrativo de âmbito político, pois, em  
relação às canções anteriormente tratadas, aqui a floresta não é paisagem apenas, mas  
sim dotada de agência – possui um valor intrínseco, é sustentação da vida, abrigo de  
mitos e, portanto, tem memória, porque passa a ser objeto de defesa frente ao  
avassalador processo de fronteirização naquele contexto, um território que é ao mesmo  
tempo ecológico e cultural, ameaçado. Dessa forma, o conflito entre natureza é ação  
humana, e a possibilidade de derrota daquela por essa, é o cerne, o que é explicitamente  
colocado na narrativa da canção. A repetição gutural no final (“Amazônia, Amazônia,  
vais morrer!”) intensifica o caráter de alerta  
Dividida em duas partes, a canção é um discurso imagético sonoro que lança a  
perspectiva apocalíptica sobre a região por meio do objeto estético. Logo, de alcance  
amplo. Mas é preciso salientar que isso já havia sido tema de canções anteriores ou  
contemporâneas como “Paranatinga” (Antes que matem os rio/E as matas por onde  
andei/Antes que cubram de lixo/O lixo da nossa lei/Deixe que eu cante  
contigo/Debruçado em peito amigo/as coisas que tanto amei/As coisas que tanto  
amei)25, de Ruy Barata e Paulo André Barata, que está no disco Amazon River, ou  
realizadas em anos depois, como em “Belém, Pará, Brasil”, do final da década de 1980.  
Como peça musical de denúncia “Amazônia” é uma canção crítica nos quadros  
da moderna tradição amazônica (Castro, 2011), que ganhou expressividade na transição  
da década de 70 para 80 do século passado - “[momento] em que nem se pensava em  
preservar o meio ambiente”, segundo o próprio Armando Hesketh.26 Sua recepção no  
meio da canção popular, tanto na visão de artistas como do público, como peça artística,  
foi festejada, haja vista o seu discurso de denúncia, o que fez como “um hino para os  
jovens músicos que então emergiam naquele momento”27. Como resultado dessa  
repercussão no meio local, “Amazônia” foi gravada pelo grupo voco-instrumental  
25 Barata, Paulo André. Amazon River. (LP). Rio de Janeiro, 1980. Faixa 6.  
26 Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=xMXv-if9E1c Acesso: 21 jan. 2014.  
27 Entrevista com o cantor e compositor Pedrinho Cavallero, realizada em 2 de outubro de 2013.  
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pernambucano Quinteto Violado no disco Notícias do Brasil, de 1982, mas com uma  
mudança significativa: foi renomeada de “Amazonas”.  
A canção é fruto do contexto de preocupação com a ameaça externa à região,  
o que aparece já em publicações e trabalhos acadêmicos (o livro “A Invenção da  
Amazônia”, do economista Armando Mendes e que acabou se tornando uma referência  
no tema, é 1974, por exemplo). Portanto, a ideia de proteção/preservação era parte do  
argumento de valorização da realidade local como elemento da formação da identidade  
regional, o que foi tema da da canção popular local para os compositores populares que,  
como Armando Hesketh, se valeram da valeram da sua agudeza intelectual como  
conhecimento alegre, comum aos compositores brasileiros (Wisnik, 2001), ao  
apresentaram seu projeto de tradução da realidade da região.  
“Cabanear” trata de uma relação entre Natureza e História por meio da  
articulação de um espaço geográfico, a região Norte como um território histórico dotado  
de uma identidade nortista, a uma representação narrativa histórico-mítica por meio da  
pontuação ao episódio mais traumático da história da Amazônia, a Cabanagem.  
“Cabanear” 28  
Carnavais, cataclisma  
Cardumes de dor  
Delirantes, farsantes  
Aos ventos do amor  
Navegar, rio-mar  
Triste mar, dissabor  
Pelas veias do tempo  
Só resta o sangrou  
Sangue norte que corre  
Sem norte sem cor  
Que a espada do ventre  
Nativo brotou  
Sonho quase sonhado  
Deu Imperador... impera a dor  
Ainda é noite na manhã  
Mas o sol renascerá  
E eles vem todos de branco  
São abutres disfarçados de canções  
Fruta fresca nos dentes  
Da fera ficou  
Paraense selvagem  
28  
Dias, Eduardo. Lira d’água. (Disco Compacto). Belém: Gravodisco, 1987. O disco foi patrocinado por  
Escritório Imobiliário Urubatan d’Oliveira.  
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Levanta senhor  
Negro macho cabano  
Cafuzo lutou  
Sonho norte campeia  
Reluz no equador  
Emergindo da ira  
Dos mitos bradou:  
Tocantins, Karajás  
Terra verde que sou  
E melhor se alembrar  
Que o lutar não acabou  
minha terra verde azul  
lua grávida de sal  
que esse canto feito pranto  
já é tanto  
que nem sabe do luar  
Composição do cancionista Eduardo Dias, nela é retratada a resistência contra  
a população local por meio da descrição da luta violenta da população nativa à  
exploração da região e às condições as quais a região paraense-amazônica foi relegada  
na primeira metade do século XIX. Fruto de outro contexto, mas que também está  
associado à situação de exploração, ao tornar o substantivo Cabanagem um verbo  
(“cabanear”) o cancionista propôs tornar um episódio em algo em curso, uma ação.  
(“Que o lutar não acabou” é fundamental para essa interpretação).  
Portanto, “Cabanear” atua como um discurso que busca uma ampliação do  
regionalismo estético na canção para uma dimensão política, haja vista que letra  
trabalha com nomes acionados como temáticas patentes associadas à história das lutas  
contra o alijamento da região pelo Estado nacional brasileiro: “sangue norte”, “nativo”,  
“resistência”, “violência”, “negro”, “cabano”. Nesse ponto, a natureza deixa de ser  
apenas floresta ou rio e passa a funcionar como geografia, um território histórico de  
conflitos. Por exemplo, o verso “Negro macho cabano / Cafuzo lutou” associa a  
identidade amazônica à experiência histórica dos grupos que resistiram. Portanto, a  
referência à Cabanagem é particularmente significativa porque desloca o regionalismo  
de uma simples celebração da paisagem para a ativação de uma memória de conflito e  
resistência.  
Segundo Luis Galdino, em texto de apresentação na capa do disco:  
A música de Eduardo Dias é genuinamente amazônica, sobretudo  
porque nos traz à mente a imagem dos barrancos, dos remansos da  
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beira do médio [rio] Amazonas. Com seu jeito de todo especial de  
traduzir a sua vivência. ‘O Amazonas vais subindo, é triste... mas é  
lindo’ aliado a um estilo marcante e pessoal, evidente em composições  
como “Cabanear”, consegue cantar o canto das águas, o universo do  
homem amazônida de uma forma talentosa e promissora, como nesse  
Lira d’água.29  
Portanto, o conjunto das quatro letras de canção que aqui foram tratadas  
denota um regionalismo como elemento fulcral, ainda que cada uma esteja associada a  
uma forma desse regionalismo. Nelas, aparecem o regionalismo geográfico, quando a  
região é reconhecida por lugares urbanos, cidades, bairros e rios distritos como Guamá,  
Guajará, Acará, Moju, Tocantins, Cametá, Marabá, Outeiro e Macapá. Esse conjunto nos  
mostra uma espécie de mapa afetivo construído pelas canções por seus cancionistas.  
Segue-se a esse um segundo conjunto que denota uma perspectiva de  
identidade regional por meio de um quadro ecológico – “Amazônia” é uma evidencia  
disso -, quando cita rios, florestas, várzeas, igapós, mangueiras e animais. O terceiro eixo  
é o regionalismo cultural, o que se manifesta por meio de elementos da vida cotidiana,  
como nas referências à gastronomia - tacacá, açaí -, lugares de memória - Ver-o-Peso,  
Bar do Parque, - ambientes - feira, festas - e personagens populares – Mario Sobral,  
Nega, Edwaldo etc – “Nega” e “Flor do Grão Pará” são especialmente importantes aqui.  
E, por fim, um regionalismo político que aciona história e motivação política com  
características próprias da região, cujo mote é a oposição às explorações e a recorrência  
à condição existencial da população local como pautada em ideias de luta e resistência  
– “Nega” e “Cabanear”, possuem isso de maneira mais ostensiva, o que está também,  
embora de maneira menos direta, em “Amazônia”.  
Portanto, se é no decorrer das décadas de 1960 e 1970 que é inventada uma  
música popular paraense (Costa, 2008; Silva, 2010), todavia é na década de 1980 que se  
afirma um cancioneiro de cor local original, ainda que em alguns pontos tributário de  
uma produção pretérita, que se afirmou sobre a temática regionalista como mote  
incontornável e capital simbólico. O fato é que a cultura musical da canção popular  
belemense não pôde fazer frente à indústria fonográfica nacional e o seu ideal de música  
como mercadoria cultural massiva, até porque para o projeto proposto não era gravar  
29 Idem.  
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para comercializar, mas sim ter na gravação uma forma de registro dos pressupostos  
que fundamentavam a feitura de uma canção local.  
É nesse sentido que vai a fala do compositor Alfredo Reis, quando afirma que o  
objetivo era produzir, haja vista que a cidade era longe dos grandes centros e, sendo  
assim, a saída era “fazer uma música de cara local”, produzir algo de concreto para a  
música paraense. Então, qualquer possibilidade de gravação deveria ser aproveitada,  
porque era o registro da produção “regional, da nossa construção estética, o que  
poderia ser usado para entrar no circuito nacional”, pois não havia uma  
representatividade consistente da música paraense no cenário nacional.30  
Essa questão da distância como problemática inescapável é corroborado pela  
fala de Walter Freitas ao afirmar que à época era buscado um nome, dois, ou um grupo  
para investir e, assim, dar possibilidades de ingresso no circuito nacional.31 Mas essa  
estratégia não vingou, por vários fatores. Então, a saída era investir na produção local,  
na recorrência da temática regional como a realidade imediata para a cena da canção  
local pois, ainda que houvesse experiências que deram certo - Fafá de Belém e Paulo  
André Barata, no campo nacional; e o violonista Sebastião Tapajós e a cantora Nazaré  
Pereira, no âmbito internacional, apontados como “exemplos dos que deram certo lá  
fora”32, as dificuldades eram quase intransponíveis. Assim ao olhar para dentro, o  
cancionista belemense oitentista fundamentou o regionalismo na canção de forma mais  
sólida.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
O artigo demonstrou que o regionalismo foi uma estratégia de construção  
narrativa por meio da canção não apenas na cena, como um repertório temático, mas  
também da própria cena. Dessa forma, as canções demonstram que a experiência  
regional foi representada em diferentes dimensões: espacial, ecológica, cultural e  
política. O objetivo do artigo foi, portanto, mostrar que a canção popular de Belém dos  
30 Entrevista com o cantor e compositor Alfredo Reis, realizada em 28 de outubro de 2013.  
31  
32 “Transo em cima da Amazônia, do cancioneiro popular”. Jornal A Província do Pará. Belém, 25 de julho  
de 1982. p. 10. Caderno 1.  
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anos 1980 pode ser compreendida como espaço de produção de identidade, memória  
e posicionamento diante da experiência amazônica.  
Por meio da análise da produção cancional de Belém na década de 1980 é  
possível compreender o regionalismo não apenas como uma temática recorrente, mas  
como uma estratégia estética e identitária de constituição da cena musical local  
oitentista, de maneira que a experiência amazônica foi transformada em matéria de  
criação por meio da articulação entre memória, território, práticas sociais, referências  
culturais e formas musicais. Nesse sentido, foi proposto um “cantar a si mesmo” que  
não significou simplesmente reproduzir uma realidade regional preexistente, mas  
selecionar, organizar e reelaborar elementos reconhecidos como próprios da  
experiência amazônica, transformando-os em linguagem artística.  
A análise das canções evidencia que essa construção do regional ocorreu de maneiras  
distintas.  
O território amazônico deixa de ser somente espaço geográfico ou paisagem e  
passa a ser apresentado como território histórico de conflitos, no qual a memória da  
resistência é atualizada como questão do presente. Desse modo, as quatro canções  
analisadas permitem reconhecer diferentes dimensões articuladas do regionalismo:  
uma dimensão geográfica, constituída pela referência a cidades, rios, bairros e lugares;  
uma dimensão ecológica, relacionada à floresta, às águas e aos elementos da paisagem  
amazônica; uma dimensão cultural, expressa nas práticas cotidianas, nos espaços de  
sociabilidade, nos personagens e nos costumes; e uma dimensão política e histórica,  
associada à exploração, aos conflitos, à memória e às formas de resistência.  
Essa diversidade mostra também que a identidade regional produzida pela  
canção não pode ser compreendida como representação homogênea da Amazônia. Ao  
contrário, ela resulta da combinação de diferentes experiências e perspectivas sobre a  
cidade, a região e sua inserção no contexto nacional. A própria aproximação dos  
compositores paraenses com artistas e repertórios de outras regiões, especialmente do  
Nordeste, demonstra que a construção de uma música identificada como local ocorreu  
por meio de relações, trocas e apropriações, e não pela escolha de um isolamento  
cultural.  
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Nesse sentido, a canção popular da Belém “oitentista” pode ser compreendida  
como um espaço de produção de sentidos sobre a experiência amazônica, sendo que o  
regionalismo não aparece como simples retorno à tradição, mas como uma forma  
moderna de produzir pertencimento, diferença e posicionamento por meio da música,  
um “cantar a si mesmo” como uma prática simultaneamente estética, social e  
identitária: ao produzir canções sobre Belém e sobre a Amazônia, os artistas belemenses  
não apenas construíram um repertório de referências regionais, mas também  
contribuíram para constituir uma cena musical que encontrou na própria experiência  
local os elementos para afirmar sua existência.  
A década de 1980 aparece, desse modo, como um momento em que o  
cancionista paraense consolidou, por meio da canção, uma forma particular de olhar  
para a região: ao mesmo tempo voltada para dentro, em busca de uma identidade local,  
e voltada para fora, em busca de reconhecimento e inserção no circuito musical mais  
amplo.  
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SOBRE O(A) AUTOR(A)  
Nélio Ribeiro Moreira  
Credenciais do(a) autor(a). Doutor (2021) e Mestre (2014) em Sociologia e Antropologia Social  
(PPGSA/UFPA). Graduado em Bacharelado e Licenciatura Plena em História (UFPA/2004) e Especialização  
em História Social da Amazônia (UFPA/2007). Integrante do Grupo de Pesquisa História, Cultura e Meios  
de Comunicação na Amazônia no século XX (UFPA/CNPQ), do Grupo de Pesquisa História, Arte, Gênero e  
Mídia na Amazônia Contemporânea - GPHAGMAC (UNIFESSPA/CNPQ) e do Grupo de Pesquisa  
Socialidades, Intersubjetividades e Sensibilidades Amazônicas - SISA (UFPA/CNPQ). Professor Visitante no  
Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia, da Universidade Federal do Pará  
(PPGCOM/UFPA).  
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8564885400022215  
COMO CITAR ESTE ARTIGO  
RIBEIRO MOREIRA, Nélio. “AMAZÔNIA, VAIS MORRER!”: NARRATIVA REGIONALISTA E DISCURSO  
IDENTITÁRIO NA CANÇÃO POPULAR DA BELÉM “OITENTISTA”. Passagens: Revista do Programa de Pós-  
Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, p. e102669, 2026. Disponível  
RECEBIDO EM: 12/03/2022  
ACEITO EM: 27/09/2022  
PUBLICADO EM: 31/10/2022  
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional  
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