VISLUMBRES POÉTICOS EM O VITRAL, DE OSMAN LINS

  • Mariangela Alonso Universidade Estadual do Norte do Paraná

Resumo

Este artigo investiga a categoria da temporalidade poética no conto O vitral, de Osman Lins (1924-1978). Presente na coletânea Os gestos (1957), a narrativa em questão aborda os instantes líricos de revelação do casal Matilde e Antônio, a partir da decisão de registrar com um retrato a comemoração de vinte anos de casamento. Ao manipular quadros estáticos, o contista flagra a poeticidade do instante ao instaurar momentos de vibração interior dos personagens. Dessa forma, surgem nivelamentos na fatura narrativa que permitem discutir de que maneira o escritor, a partir da moldura temporal, potencializa a matéria literária, criando uma obra essencialmente poética. O paralelismo entre o tempo presente e o tempo da memória apresenta uma duplicidade acentuada pelos contrastes entre o casal: enquanto Matilde revela-se sonhadora e infantil, Antônio surge como realista, ponderado e circunspecto. Assim, este contraponto contamina a fatura narrativa, caracterizando uma temporalidade diferente da linear; subordinada ao espaço e, por sua vez, descontínua. Este procedimento favorece a análise do conto mencionado a partir da teoria de Jean-Yves Tadié (1994) acerca da narrativa poética. Ademais, serão considerados estudos referentes à fortuna crítica de Osman Lins, os quais iluminarão o tema proposto.

 

Biografia do Autor

Mariangela Alonso, Universidade Estadual do Norte do Paraná
Doutora em Estudos Literários pela UNESP. Realizou estágio de pós-doutorado na Universidade de São Paulo. É autora dos livros Instantes líricos de revelação: a narrativa poética em Clarice Lispector(2013) e O jogo de espelhos na ficção de Clarice Lispector (2017).

Referências

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Publicado
2019-04-29
Seção
Estudos Literários