A nuance cosmológica do ateísmo de Arthur Schopenhauer: a infinitude da matéria e a impossibilidade da existência de Deus

Autores

DOI:

https://doi.org/10.36517/arf.v18i1.96578

Palavras-chave:

Schopenhauer. Matéria. Ateísmo. Cosmologia. Substância.

Resumo

Este artigo analisa uma das nuances do ateísmo presente na filosofia de Arthur Schopenhauer, chamada de ateísmo cosmológico. Tal nuance (a primeira de três) decorre da sua concepção de matéria e da consequente negação que tal concepção acarreta à existência de um Deus criador. Schopenhauer concebe a matéria como eterna, incriada e imperecível, dotada de dupla natureza: como Materie (substância permanente) e Stoff (estados mutáveis). Tal distinção mostra que as mudanças ocorrem apenas nas formas fenomênicas, enquanto a matéria em si permanece inalterada e infinita. O artigo demonstra que essa concepção nasce da influência de outros filósofos como Aristóteles (para  qual a matéria pode ser entendida como devir) e Spinoza (para o qual a matéria é uma substância única e absoluta). Ao identificar a matéria com o absoluto, Schopenhauer acaba por refutar a a prova cosmológica da existência de Deus, pois, se a matéria é eterna e causa de si mesma, resta impossível que tenha sido criada. Assim, a filosofia schopenhaueriana torna-se incompatível com este aspecto do teísmo cristão, sustentando uma visão de mundo em que o universo e a Vontade são incriados, eliminando a necessidade de uma causa divina, o que desemboca num ateísmo cosmológico.

Biografia do Autor

  • Antunes Ferreira da Silva, Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)

    Doutor em Filosofia pela UFS (2024). Mestre em Filosofia pela UFPB (2011). Graduado (Licenciatura) em Filosofia pela FAFIC (2003). Professor EBTT da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), onde ensina Filosofia e Sociologia na Escola Técnica de Saúde de Cajazeiras (ETSC). Pesquisa sobre: Formação de Professores, Filosofia e Educação e História da Filosofia Contemporânea, com ênfase no idealismo alemão, nos contestadores do sistema hegeliano. Estuda, particularmente, o irracionalismo, o pessimismo e o ateísmo filosófico de Arthur Schopenhauer.

Referências

ANGIONI, Lucas. A noção aristotélica de matéria. Cadernos de História e Filosofia da Ciência, Campinas, Série 3, n. 17, v. 1, p. 47-90, 2007.

AQUINO, Tomás. Suma teológica. Vol. 1. 3. ed. São Paulo: Loyola, 2009.

ARISTÓTELES. Física I-II. Tradução de Lucas Angioni. Campinas: Unicamp, 2009.

ARISTÓTELES. Metafísica. v. II. Texto grego com tradução ao lado. Tradução de Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2001.

BLOCH, Ernst. Das Materialismusproblem, seine Geschichte und Substanz. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1972.

BRANDÃO, Eduardo. A concepção de matéria na obra de Schopenhauer. São Paulo: Humanitas, 2008.

MORGENSTERN, Martin. Schopenhauers Philosophie der Naturwissenschaft. Bonn: Bouvier Veralg Herbert Grundmann, 1985.

PHILONENKO, Alexis. Schopenhauer: une philosophie de la tragedie. Paris: Vrin, 1980.

RODRIGUES JÚNIOR, Ruy de Carvalho. Schopenhauer: uma filosofia do limite. 2011. 303 f. Tese (Doutorado em Filosofia), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2011.

SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de envelhecer ou Senilia. Tradução de Karina Janini. São Paulo: Martins Fontes, 2012. (Coleção Obras de Schopenhauer).

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Tomo I. Tradução de Jair Barbosa. São Paulo: UNESP, 2015a.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Tomo II. Tradução de Jair Barbosa. São Paulo: UNESP, 2015b.

SCHOPENHAUER, Arthur. Parerga y paralipómena. Tomo I. Tradução de Pilar López de Santa Maria. Madrid: Trotta, 2009a. (Clássicos de la cultura).

SCHOPENHAUER, Arthur. Parerga y paralipómena. Tomo II. Tradução de Pilar López de Santa Maria. Madrid: Trotta, 2009b. (Clássicos de la cultura).

SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre a quadrúplice raiz do princípio de razão suficiente: uma dissertação filosófica. Tradução de Oswaldo Giacoia Junior e Gabriel Valladão Silva. Campinas: Unicamp, 2019.

SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre o fundamento da moral. Tradução de Maria Lucia Mello Oliveira Cacciola. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. (Coleção Clássicos Filosofia).

SMITH, Quentin. Argumentos cosmológicos kalam a favor do ateísmo. In: MARTIN, Michael (Ed.). Um mundo sem deus. Ensaios sobre o ateísmo. Lisboa: Edições 70, 2010. p. 239-260.

SPINOZA, Benedictus de. Ética. 2. ed. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.

Downloads

Publicado

2026-07-14

Edição

Seção

Artigos

Como Citar

Silva, A. F. da. (2026). A nuance cosmológica do ateísmo de Arthur Schopenhauer: a infinitude da matéria e a impossibilidade da existência de Deus. Argumentos - Revista De Filosofia, 18(1), 65-84. https://doi.org/10.36517/arf.v18i1.96578