A MENTALIDADE COLONIAL NO BRASIL CONTEMPORÂNEO

David BARROSO de Oliveira

Resumo


Este artigo apresenta os argumentos que sustentam nossa tese de que há uma mentalidade colonial que atravessa o Brasil contemporâneo. Para tanto, discutimos sobre o período colonial brasileiro a partir dos estudos historiográficos de Roberto Gambini, Fernando Novais, Ronaldo Vainfas, dentre outros. Neste exposto, das condições reais do “viver em colônias”, a conciliação ir-resoluta de opostos complementares soma-se à imbricação das duas esferas da existência: o público e o privado. Do que permanece na cultura forja-se um imaginário social por meio de uma manipulação simbólica que reproduz as características do “viver em colônias”, tendo por referência os estudos de José Murilo de Carvalho, Lilia Moritz Schwarcz e Bernardo Ricupero. Com os estudos de Jessé Souza, percebemos que esse imaginário simbólico é justificado teoricamente por uma singularidade cultural do brasileiro que legitima socialmente a articulação das noções de personalismo e de patrimonialismo que atualiza a imbricação público-privado. Por fim, junto aos estudos de Gilles Deleuze e Hannah Arendt, compreendemos que a lógica dessa justificação da singularidade cultural oculta uma colonização simbólica com o aporte na realidade da conjunção dos domínios público, privado e social inerente à imbricação público-privado. Diante disso, repercutem desafios àqueles que pensam em discutir a conjuntura atual brasileira.


Referências


ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 12. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2016.

_______. Origens do totalitarismo. Tradução Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

ARISTÓTELES. Política. Tradução de Mario da Gama Kury. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1985.

BOSI, Alfredo. A história da vida privada no Brasil. Org.: Laura de Mello e Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. Tradução de Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. Tradução de Luiz Roberto Salinas Forte. São Paulo: Perspectiva, Ed. da Universidade de São Paulo, 1974.

ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Tradução de Ruy Jungman. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 2. ed. São Paulo: EdUSP, 1995.

GAMBINI, Roberto. O espelho índio: os jesuítas e a destruição da alma indígena. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1988.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

MOTA, Maria Sarita Cristina. Propriedade e pensamento político na América portuguesa em fins do século XVIII. In: Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. p. 1-16. Julho. São Paulo: 2011. Disponível em http://www.snh2011.anpuh.org/site/anaiscomplementares#M. Acesso em 08/11/2016.

NOVAIS, Fernando A. Condições da privacidade na colônia. In: A história da vida privada no Brasil. Org.: Laura de Mello e Souza. p. 13-39. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

PRADO, Paulo. Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira. 10. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

RICUPERO, Bernardo. O romantismo e a ideia de nação no Brasil (1830-1870). São Paulo: Martins Fontes, 2004.

SCHOMMER, Aurélio. História do Brasil vira-lata: as razões históricas da tradição autodepreciativa brasileira. Anajé: Casarão do Verbo, 2012.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil – 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

SOUZA, Jessé. A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite. São Paulo: LeYa, 2015.

_______. A ralé brasileira: quem é e como vive. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009.

VAINFAS, Ronaldo. Moralidades brasílicas: deleites sexuais e linguagem erótica na sociedade escravista. In: A história da vida privada no Brasil. Org.: Laura de Mello e Souza. p. 221-273. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.


Apontamentos

  • Não há apontamentos.